Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

19.5.18

É já maio!


Em círculos, por vezes, tangentes, reúnem-se os professores.
É já maio, o primeiro-ministro investe tudo na prevenção dos incêndios... 
Entre professores, o tratamento desigual agudiza-se.
É já maio, a classe docente continua desclassificada... é um peso insuportável para o OGE!
É já maio, em Alvalade, o "enfant terrible" revela que a educação é intransmissível...

18.5.18

'mínima gente'

«Il n'y a que dans les romans qu'on change d'état ou qu'on devient meilleur.» Albert Camus

A crença no bom senso e na regeneração do indivíduo não passa disso mesmo. Esperar que ele dê atenção às vozes desafiantes é uma ilusão que só serve para nos desresponsabilizar...

Hoje, voltei a adotar um tom solene e ameaçador para condenar aqueles que, entre outros males, dão diariamente prova de desonestidade inteletual e de falta de respeito pelos seus pares, advertindo-os para um futuro / presente de permanente oportunismo e de desrespeito...

Ao cair em mim, recordei o poeta Herberto Helder:

- e eu pedi ao balcão: dê-me um poema,
e o empregado olhou para mim estupefacto:
- isto aqui é o mundo, monsieur, aqui não se servem bebidas alcoólicas...

17.5.18

Não há vândalos sem maioral

O termo 'vandalismo' como sinónimo de ação destruidora foi cunhado no século XVIII, em janeiro de 1794 por Henri Grégoire, bispo constitucional de Blois.
(...) O vandalismo é a ação de destruir ou danificar propriedade alheia de forma intencional com o propósito de causar ruína. Muitas vezes é um ato gratuito, ainda que possa ser encomendado sem que muitos  dos intervenientes estejam conscientes desse facto.

No caso que tem abalado a nação, os rapazes têm sido acusados de atos de terrorismo. As instituições, como tal, confessam-se chocadas,  defraudadas e até 'vexadas', creio, no entanto, que seria mais apropriado designá-los de vândalos, porque, de facto, eles não revelam querer construir o que quer que seja... eles não percebem até que ponto estão a ser manipulados...
Esta destrinça parece-me útil, pois é bem mais fácil pôr termo ao vandalismo do que ao terrorismo, como a História bem ensina, desde que as instituições deixem de andar de mão dada com tais energúmenos, a começar pelos maiorais.

16.5.18

Voltar a ler...

Ainda sem perceber os vândalos que, ontem, resolveram atacar em Alcochete, apesar desta incompreensão não ser absoluta, pois, todos dias, me dou conta de que as sementes de violência estão a germinar nos nossos jardins, termino a leitura de A Conquista da Felicidade (1930), de Bertrand Russell.
Por acaso, tal aconteceu na pastelaria Charrette, na Avenida Almirante Reis, Lisboa, onde, chatice, não presenciei qualquer crime, a não ser uma velha senhora muito educada, que, um pouco alterada, dava conta às amigas de que se sentia feliz ali, pois lá em casa o marido gritava com ela  e os vizinhos insultavam-se aos outros. A senhora era mesmo muito educada, ao perceber que eu movia a cadeira para me levantar, pediu-me de imediato desculpa caso ela estivesse 'a falar muito alto'... Tranquilizei-a, porque não quis destruir-lhe a alegria da narrativa...
(...)
Na obra referida, Bertrand Russell analisa as condições internas que favorecem a conquista da felicidade, propondo estratégias pessoais que poderão libertar o indivíduo da alienação ideológica e religiosa, sem esquecer o narcisismo...
O caminho é necessariamente individual, tendo, no entanto, como interlocutores: o tempo cósmico, a natureza e todo o homem cujo sonho e ação se rejam por valores universais construtivos.
O conhecimento do passado, apesar de imprescindível, só será útil se orientado para a humanidade futura.
Em síntese, o que esta leitura me proporciona, para além de ter ficado deslumbrado com a competência argumentativa do filósofo, é a vontade de voltar ao início de modo a questionar as minhas indisposições, irritações, caprichos, fobias, e principalmente, a origem das minhas certezas...

                     «Soterrado / Por mil certezas de aluvião.» Miguel Torga

15.5.18

Vergonha

Meia centena de adeptos de cara tapada invadem Academia do Sporting em Alcochete
Inacreditável!

Estes adeptos agem a mando de quem? 
Do que é que as autoridades policiais estão à espera?
E o ministério da administração interna, o que é que tem feito?

14.5.18

'À manhã' pelo GTESC

«Esta mulher não sossega. Desde que me cheguei ao pé dela que está com esta conversa dos bocanços. Só quer é bocanços. Não quer outra coisa. É bocanços, bocanços e mais bocanços.» Estragão (Trinta Cabelos) in À manhã, Cal, de José Luís Peixoto

Todas as personagens têm mais de 70 anos, nem parece. Ao vê-las e ouvi-las, é como se o Maio de 68 estivesse a florir no Alentejo...
É certo que Maria Clara teve o cuidado de substituir os 'bocanços" por 'beijocas', mas nem assim a brejeirice do texto foi prejudicada. Afinal, mesmo numa escola como a Secundária de Camões, é necessário ter em atenção o público para quem o espetáculo foi amadurecido...
Um espetáculo notável, com atores muito bem encenados e um excelente domínio do texto e do palco, em que, mais uma vez, Graça Gomes se excedeu... de tal modo que Maio de 68 floresce em todas as estações das nossas vidas.

13.5.18

Para o escol português...



Para o escol português - não sei se o termo ainda se adequa - só há lugar para um Senhor... 
A seu tempo, substitui-se o eucalipto, e à sua volta tudo começa a definhar.
Nós somos assim - ou tudo ou nada!
A escadaria só é imaginável na descida. O topo resulta, em regra, de um milagre - de uma Vontade externa que tudo determina...
Ontem, por exemplo, não se esperava qualquer milagre no Pavilhão Altice - afinal, o Salvador ainda não perdeu o fulgor messiânico; de Fátima, terra de milagres, não há notícia de qualquer aparição; só no Porto, a vitória dos dragões era celebrada como se o Azul tivesse baixado dos céus...
Esta mistura é, no entanto, básica. Até o dr. António Costa, apesar dos seus 96% e da celebrada esperteza, começa a definhar...

12.5.18

A Terra dos Sorrisos

Dizem-me que Portugal foi o primeiro país ocidental a entrar em contacto com a Tailândia, à ordem de Dom Afonso de Albuquerque, em 1511, reinava Rama II em Ayutthaya. 
Não tenho razões para pôr em causa a informação, apesar de desconfiar sempre que me asseguram que Portugal foi ou é o primeiro em alguma coisa...
Curioso, lá estive ontem, no Museu do Oriente, a assistir ao espetáculo Danças Tradicionais da Tailândia pelo grupo Bunditpanasilpa Institute.
Apreciei a I e a II partes, tendo ficado com uma ideia do modo como aqueles povos se divertiam - não sei se ainda se divertem, e isso preocupa-me, porque pouco sei sobre a Tailândia... Percebi, no entanto, que por lá as cadeiras são desnecessárias!
Quanto à III parte - Celebração dos 500 anos do Tratado Luso-Siamês de Amizade, Comércio e Navegação ( Dança da Luz  e Dança de Amizade) - fiquei sem palavra... a bandeira, o folclore evocavam o tempo em que o fantasma 'limitava / todo o futuro a este dia de hoje' (Miguel Torga, Dies Irae).

11.5.18

O espetáculo do mundo

Maio 1968 - evocação no Camões
«O mundo está cheio de coisas trágicas, cómicas, heroicas, bizarras e surpreendentes e quem não for capaz de se interessar pelo espetáculo que ele oferece renuncia a um dos privilégios que a vida lhe pode dar.» Bertrand Russell, A Conquista da Felicidade

A tentação é considerar que os dias oferecem trabalhos e não privilégios. No entanto, remar contra o marasmo pode ser um privilégio surpreendente.
Aqui e ali, sob um aluvião de certezas, eleva-se uma dúvida, uma faísca de compreensão. Até a repetição pode deixar no ar um "se"... Talvez, mais tarde, um filho pule da moldura e a mãe lhe acompanhe o voo e ela deixe de se sentir defraudada...
Submissos, pensando que eram insubmissos, guardam silêncio sobre o sentido, já não sabem bem se do mundo, se de si próprios... até porque o dia se vai fazendo noite - a única noite que poderá ser verdadeiramente sua...
E é um privilégio contemplar os rostos desconfiados perante a ideia de que há vida para além do aconchego, do sossego, da rotina... quase despertos, libertos do dia... maternal.

10.5.18

Já espigado

«... as práticas ligadas à Quinta-feira da Ascensão, o dia da Espiga, em que estas se colhem como ato propiciatório do bom desenvolvimento das searas e se realizam percursos processionais, com intervenção do clero, na prática das rezadas, rogações, bênção dos campos.» Joaquim Pais de Brito, in O Voo do Arado, pág. 222.

«Em vários locais do Ribatejo colhem-se habitualmente três espigas de trigo, três malmequeres amarelos e três papoilas, mais um raminho de oliveira em flor, um esgalho de videira com o cacho em formação e um pé de alecrim ou de rosmaninho florido. As espigas querem dizer fartura de pão; os malmequeres, riqueza; as papoilas, amor e vida; a oliveira, azeite e paz; a videira, vinho e alegria; o alecrim ou rosmaninho, saúde e força.» No dia da espiga  

Já espigado, confesso que só colhi três espigas, porque as encontrei no caminho da farmácia... Fi-lo por impulso, mas não fui mais além. Apenas fiquei a pensar na sabedoria (esperteza) de uma Igreja que 40 dias antes impôs a Quaresma e 40 dias depois convida o rebanho a colher flores... ( e não me venham com o argumento estafado de que antes de Cristo viera Moisés, pois a implícita conciliação nunca existiu...), quando o que o povo precisava era de pão.
O que me preocupa verdadeiramente são as causas desta ocultação de culturas anteriores que, supostamente, viveriam longe de Deus, isto é, insistiam em viver com os seus deuses. O que me preocupa é o folclore nacionalista...
De qualquer modo, o povo que nada entende de ortodoxia, sempre soube viver de bem com Deus e com o Diabo...

9.5.18

Não há conto sem acontecimento...



Repito: 'Não há conto sem acontecimento'... Não me apetece voltar a explicar, embora haja quem não perceba porquê e pense que escreve contos, estórias... Ou seja, a melhor desculpa que me dão é que 'escrever já é em si acontecimento'... Indulgente, tolero...
Portanto, sempre que me contam um conto, só desperto quando o acontecimento irrompe... Hoje, o acontecimento surgiu sob a forma de epifania. Surpreendido, perguntei qual era o significado de tal termo. A resposta foi sincera 'não sei'... Ora ali estava um acontecimento - aparição -, apesar da arredia espiritualidade da hora...
... a não ser que a atenção se voltasse para a cavidade de um plátano que vai acolhendo um ninho sem que ninguém dê conta do acontecimento - e ainda bem! Ou para a luz matinal que, sem glória, procurava atravessar as copas frondosas das tílias...

8.5.18

apenas gente

«- mas – ia eu para dizer, mas calei-me de repente –» Herberto Helder, Letra Aberta


Há um ponto a partir do qual deixa de fazer sentido retorquir não tanto porque a gente seja mínima, mas porque é apenas gente.
Ora, se é gente é porque não ouve e o que vê é outra coisa, apenas gente.

7.5.18

Preferimos a 'vidinha'...

Para além do que vemos, que me abstenho de descrever para vos evitar a maçada, há sempre a possibilidade de criar uma história. De imaginar alguém que queira ir mais além, de situar, de preferência, essa enigmática personagem no tempo e no espaço, atribuindo-lhe um sonho, uma ambição, um interesse, uma inutilidade...
Mas como fazê-lo sem memória?
Por estes dias, venho insistindo nesse imenso reservatório de acontecimentos, de sentimentos, de sensações, de leituras não, apenas, como constituinte de identidade pessoal e coletiva mas, sobretudo, como alavanca essencial à resolução de problemas... 
Venho insistindo na articulação dessas memórias como a lava vulcânica essencial à criação de novas oportunidades, mesmo que, inicialmente, o vulcão se revele ameaçador...
A insistência é, no entanto, inútil, porque preferimos a 'vidinha', preferimos ficar à porta a fingir que a abelha é uma ameaça intransponível...

6.5.18

Ainda pensei numa corrida de obstáculos

Procurava seguir o voo das aves para os lados do Samouco, quando dei de caras com uma instalação abandonada.
Ainda pensei numa corrida de obstáculos, mas a ideia era absurda. Se se tratasse de um campo de treino militar, a disposição das estruturas daria cabo dos recrutas.
Só quando avancei na direção das salinas, compreendi que, afinal, a explicação seria simples - tratar-se-ia de uma estrutura utilizada na secagem de bacalhau - abandonada...
Por associação de ideias, veio-me à memória o esquecido Henrique Tenreiro, dirigente da Junta Central das Casas de Pescadores... o que me empurrou para uma pequena pesquisa sobre a importante personagem do Estado Novo. Aqui registo uma hiperligação que me parece conter uma análise imparcial, pois o fio da história é frequentemente tortuoso: Henrique Tenreiro



5.5.18

Espreitas

Se estamos fartos deles, para que é que continuamos a dar-lhes atenção?
Estando a contas com a justiça, o melhor seria deixá-los em silêncio até que Ela se pronuncie...

Espreitamos cada detalhe, minimizamos ou ampliamos cada movimento. O sentimento de indignação cresce, absurdo.
Entretanto, quem é que ganha com esta morbidez em que vivemos?
A resposta é simples: os donos dos meios de comunicação.
Em nome da transparência, o melhor seria começar por esclarecer quem são os donos...

4.5.18

A poeira socrática

A ilusão.
A megalomania.
A pegada socrática.
(Agora, a vergonha! A destempo...)
Tanto tempo para sacudir a poeira socrática!
Tanto tempo!
Até Pirro teria deixado as sandálias na areia...

3.5.18

A Sísifo...

«Un visage qui peine si près des pierres est déjà pierre lui-même!» Albert Camus, Le mythe de Sisyphe

Pior do que ser pedra é ter que voltar a subir a montanha, embora sem pressa, pois o castigo é eterno. A Sísifo resta gerir a subida e a descida, indiferente ao olhar de Zeus...
A Sísifo resta gerir a eternidade, pesaroso ou prazenteiro, conforme o sentido de humor de cada momento... ciente de que foi a liberdade que o condenou...
Entretanto, um amigo contempla o raro equilíbrio das pedras; outro amigo espera que a festa comece para que o seu número se cumpra - ambos de passagem, felizmente... O último talvez preferisse "dizer" a septilha de Miguel Torga:
Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances 
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

Que os Poetas me perdoem, pois do fruto concedido, prefiro metade para a subida e outra metade para a descida.

2.5.18

É uma questão de tempo!

«O mundo é um lugar confuso, contendo coisas agradáveis e desagradáveis, em desordenada sequência. O desejo de criar um sistema claro ou regras que o governem é no fundo uma consequência do medo, uma espécie de agorafobia, o temor de espaços vazios.» Bertrand Russell, A Conquista da Felicidade.

Já nem as quatro paredes garantem o sossego de quem aspira a que o respeitem ou que lhe reconheçam algum saber. 
Lá dentro, os estados de alma são de constrangimento, de um sentimento tácito de clausura, em que raramente alguém é capaz de verbalizar que só  ali está porque o obrigam - a interação forçada, a escuta gorada... O mestre já não compreende por que motivo deixou de o ser...
Apetece disciplinar aquelas almas, mas como se estas se ausentaram ou nunca chegaram a ocupar os corpos que a tradição lhes reservara...
A alternativa, por um instante atrativa, esfuma-se ao pensar que, tal como os cavalos se viram substituídos pelas máquinas, também os corpos, por ora presos entre quatro paredes, acabarão substituídos por robots mais colaborativos e disciplinados...
De nada serve ter medo!

1.5.18

Avençado? não acredito!

Como se sabe, entre 'pinho' e 'caruma' há uma relação inquebrantável e, neste caso, há também uma coincidência no nome próprio 'manuel', o que me provoca uma certa revolta, quando vejo que as vozes se vão encarniçando contra um ministro tão dado ao fandango... Em 2009, a minha zanga era mais com o patrão do que com o empregado:Um par de... 
Hoje, continuo cético, pois não acredito que tenha havido um ministro avençado. O mais provável é que o BES, por algum servicinho prestado, tenha decido remunerar o manuel pinho a prestações. Afinal, o BES não nadava em dinheiro...
Eu ainda hoje continuo a pagar prestações ao Novo Banco pelo empréstimo que me concedeu para que pudesse adquirir casa. E faço-o sempre na data estabelecida. Imagine-se o que teria acontecido se eu tivesse chegado a ministro!?