Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

31.1.18

Por um toque de inveja

«Le double est devenu une image d'épouvante dela même façon que les dieux deviennent des démons après que leur religion s'est écroulé.» ( Heine, Les dieux en exil)

Confesso que ler Freud me diverte, sobretudo desde que me apercebi que o psicanalista era um grande leitor e percebia imenso de literatura.
Ao ler o ensaio L'inquiétante étrangeté, dei com algo em que nunca pensara: afinal, os demónios não passam de deuses caídos em desgraça. Por outras palavras, abandonados pelos seus crentes...
(Creio que já mo tinham explicado, mas eu não percebera, nem sei se a interpretação seria a mesma.)
A verdade é que, para mim, o Bem era a outra face do Mal; ou seria ao contrário? Os deuses e os demónios, indissociáveis, senhoreavam o universo numa competição sem limites, em que nós nos arrogávamos o direito de os imitar, convictos  de que um dia lhes ocuparíamos o lugar...

No essencial, os deuses de ontem, venerados e bajulados, transformaram-se por um toque de inveja humana nos demónios que nos entram pelos olhos e pelos ouvidos e que nenhum exorcista conseguirá extinguir...