20.1.18

O relógio

Não lhe toco. Passo dias sem o olhar...
Só quando me alheio do ruído, lhe oiço o balanço... e sei que ele não se preocupa que eu tenha deixado de reparar nas horas, como se só estivesse interessado em fazer-me companhia...
Sem deixar de o ouvir, verifico, de momento, que ele pouco se atrasa, mesmo sem ter que ir a qualquer lugar...
Nisso da pontualidade somos parecidos, só que, ao contrário de mim, ele parece não se incomodar.
Como eu gostava de ser ele!

19.1.18

O Último Profeta


«Se a imaginação e o mistério não estão connosco, não vale a pena escrever.» Maria Ondina Braga entrevistada por Mário Santos, Público, 9.12.1995

Foi certamente essa certeza que alimentou Fernando Pessoa ao escrever MENSAGEM!
Perante o desconchavo a que Portugal chegara, na ausência de feitos que pudesse imortalizar, Pessoa optou por imaginar um futuro que, de algum modo, fosse capaz de despertar os portugueses coevos da modorra em que jaziam.
Esqueceu a História e atirou-se ao Mito e, pelo caminho, assumiu o papel de último profeta do Quinto Império, procurando devolver a esperança e a vontade necessárias ao Sonho, sem o qual o Senhor acabaria por esquecer o povo eleito que unira o Mar, mas que não soubera preservar o Império... 
O último profeta (Screvo meu livro à beira-mágoa), mais do que a voz do Senhor, surge como seu interpelante, procurando, assim, que o último fôlego da Humanidade seja obra de Portugal - o verdadeiro herói de MENSAGEM.

18.1.18

Por estes dias

Saciada a fome, não resta nada. 
Nem a mortalha escapa à voragem.

Por estes dias, o mandarim repousa à espera que a Natureza o reintegre no jardim dos pássaros...

A tristeza que fica é a certeza de que nem a mortalha escapa à voragem...

17.1.18

Cabras sapadoras!?

O Governo vai avançar este ano com projectos-piloto de "cabras sapadoras" com rebanhos dedicados à gestão de combustível florestal na rede primária, anunciou esta quarta-feira o secretário de Estado das Florestas, destacando o reforço na prevenção de incêndios.
sapador - soldado de engenharia preparado para o assalto a fortificações.
sapa - pá para levantar a terra cavada.
sapar - executar trabalhos de sapa; minar.


Posso estar enganado, mas o senhor Miguel Freitas (Curriculum) não deve perceber nada de cabras. Consta que, caprichosas, as cabras se estão nas tintas para tudo o que não seja ruminar de estômago bem repleto... e eu só estou a falar das cabras, porque quanto aos bodes, esses há que poupá-los para que a espécie não se extinga.
Por outro lado, na velha tradição bucólica, o senhor secretário de estado bem poderia pensar em projetos-piloto alternativos de toupeiras, patos, porcos, vacas e até girafas se a União Europeia ainda autorizar a sua importação...
De qualquer modo, com tanta gente desempregada, o melhor é ordenar às cabras que retoucem, de acordo com o significado ainda em voga no interior do país, pois lá para o litoral algarvio há muito que o verbo deixou de ser transitivo...

15.1.18

Uma relação mal resolvida ou mal traduzida...

Com tanto estrangeiro embasbacado a fotografar a fachada, não resisti... até porque, de livro na mão, enregelava, à espera diante do nº 104...
Acabara de entrar no ensaio "L'inquietante étrangeté", de Freud e, tal como este, procurava uma tradução adequada, mas nenhuma me agradava, apesar da estranheza inquietante (angustiante) me parecer uma hipótese razoável...
Por seu turno, Freud ia gastando páginas atrás de páginas com o resultado das suas pesquisas sobre o significante nas diversas línguas europeias  correspondente a unheimlich, e parece que não encontrou, dando corpo à ideia de que as línguas guardam em si identidades (e mistérios) intraduzíveis!!!
Esta viagem linguística, a certa altura, revela-se deliciosa, quanto à tradução de unheimlich: « o italiano e o português parecem contentar-se  com palavras classificáveis como perífrases. No árabe e no hebreuunheimlich coincide com o demoníaco, o que provoca arrepios...» A tradução é minha e não é muito fiável, pois ainda faço fé no Luandino Vieira que não me contratou em 73/74 para as Edições 70, embora nunca me tenha explicado porquê...  
Daqui, talvez, se possa extrair que, para os portugueses, não há nada de verdadeiramente assustador e, muito menos, demoníaco... nem sequer a degradação das fachadas...
Em termos freudianos, resta saber quando é que esta familiaridade com a degradação terá tido início. Espero que não tenha sido uma relação mal resolvida entre D. Afonso Henriques e Dona Tareja, sua mãe, cujos vítimas terão sido os mouros despejados das amuradas...

14.1.18

Aliviado

Frequentemente, opto pelo silêncio. 
Hoje, no entanto, quero expressar o alívio que senti ao ouvir a confirmação de que Santana Lopes perdera as eleições...
O vedetismo do personagem não prometia nada de bom para o País.
De Rui Rio, espero que seja honesto e responsável - o que, afinal, espero de todos aqueles que abraçam a ação política... mas que não abusem dos abraços e da lamechice. 

12.1.18

Lembro-me de quase nada

A esta hora, ainda não saí da escola. Ocupo o tempo a eliminar ficheiros, designadamente de fotos sem valor... até que me surge a foto do lugar onde comecei a ler, a escrever e a contar... Observo-a mais uma vez e verifico que não me lembro do poço (da cisterna). Será que já lá se encontraria?
Lembro-me de quase nada ou, melhor, recrio o jogo do pião e a vontade de ter um pião que me custou uns tabefes valentes e a consequente devolução... a humilhação fatal que bem poderia antecipar o oráculo que me terá condenado definitivamente a este magistério. 
Lembro o austero professor, sem qualquer memória do perfil, apenas o gesto de chamar o aluno e de o castigar sem apelo nem agravo... e depois o regente porqueiro... e a jovem Mécia, urbana, em terra labrega que, pacientemente, me soube encaminhar para esta sala vazia, cercado de computadores   passivos e inúteis...
E claro, por perto, as azinheiras e as oliveiras de sempre...

10.1.18

Por uma questão de comodismo

Na opinião de John D. Sutter, especialista em aquecimento global,  estamos a menos de duas décadas de distância da próxima extinção em massa no planeta Terra e a primeira causada pelos seres humanos. Sem futuro

Faltam 20 anos para o fim da Terra! E eu que pensava morrer sozinho, vejo-me obrigado a morrer em companhia...
Por este andar, nada do que fazemos tem qualquer sentido. 
Por uma questão de comodismo, vou esperar que o senhor Sutter não passe de um novo Nostradamus, porque se estivesse à espera de uma alteração do comportamento humano mais valia antecipar a viagem...

9.1.18

Não gosto

"Ele, o homem. Ele, o testemunho, continuam vivos." Marcelo Rebelo de Sousa, RTP Notícias
               (Mário Soares)

Compreendo a intenção, mas não gosto da afirmação. 

Em primeiro lugar, porque devemos respeitar os mortos.
Em segundo lugar, porque a missão dos políticos é ocuparem-se dos vivos.
Finalmente, porque a valorização do passado só serve para diminuir o presente.  Até porque o argumento do exemplo nem sempre é conveniente...

8.1.18

O mundo interior

Hoje, a escrever, só se fosse sobre o mundo interior. O exterior de tão aborrecido enjoa-me, deixa-me incapaz de me aproximar da janela que permite avaliar se a ilha se vai extinguindo ou não...
Não é que a ilha me interesse excessivamente, porém sei que ela se projeta no meu horizonte, tal como imagino que, sem mundo interior, não sou senão um boneco ao lado de uma infinitude de outros bonecos, todos iguais...
Se imagino que tenho mundo interior é porque ainda sou do tempo do exame de consciência, posteriormente substituído pela autoanálise e ... pela autocrítica, embora esta já exigisse um palco em que os bonecos eram manipulados pelo bonecreiro...
Como se vê, do mundo interior nada digo, pois a esta hora, a paisagem escureceu, deixando-me a alma virada do avesso...
Desconfio até que o meu mundo interior nunca existiu ou, então, é indizível... E quanto à alma, o melhor é começar a arrepiar caminho...

7.1.18

A nova censura vive do lixo

«O princípio base do funcionamento do aparelho censório era de que todo o conteúdo dos jornais, incluindo os anúncios, títulos, fotografias, composição, paginação e os próprios boletins meteorológicos, estavam sujeitos à censura. (...) A suspensão de uma notícia podia ocorrer sempre que os serviços de censura achassem necessário consultar um superior hierárquico sobre essa matéria. As notícias provenientes das agências noticiosas estrangeiras eram submetidas à censura directamente nas agências receptoras.» Censura / Regulamento de 1936
«As Instruções Gerais da Política de Informação do Regime Fascista (1932?) proibiam todas e quaisquer referências que afectassem o prestígio dos governantes, das autoridades e entidades oficiais, referências a assuntos ligados à ordem pública, notícias de julgamentos ou deportações de presos políticos, notícias de crimes, suicídios, infanticídios, alusões aos serviços de censura... Até mesmo os anúncios de astrólogos, bruxas e videntes são proibidos. Todas as marcas da intervenção da censura, como por exemplo os espaços em branco, deveriam igualmente ser camufladas.»
Maria Inácia Rezola, DN, 24.11.1991

A leitura atenta destas regras e das instruções só serve para mostrar ( e já não é pouco!) que o tempo decorria de forma muita mais lenta durante o Estado Novo e que, para este, o controlo da comunicação social era fundamental.
Hoje, como deixou de ser possível controlar todas as redes de comunicação, a alternativa é enxameá-las de tudo o que no século passado era proibido, acrescentando novos ingredientes como a devassa das chamadas de voz,  das mensagens, dos e-mails e, sobretudo, fabricando-os como mecanismo de intoxicação.

6.1.18

Salamim - a palavra que eu ignorava

«Chega o Inverno; e hoje, que é domingo, sabes em que eu me entretenho? Em partir pinhões com uma pedra à porta de casa. Compram-se aos salamins no padeiro do lugar, um brutamontes de mangas arregaçadas e braços peludos e cheios de pasta de farinha, que nos diz: - Viva! com mau modo. No enfastiamento domingueiro, o que se pode fazer senão isto?» Cesário, entediado, escrevia a Bettencourt Rodrigues

Finalmente, a chuva de inverno vai caindo e com ela chegam as horas de enfado que vou ocupando em desarrumações e a ler excertos de jornais. 
No dia 13 de Dezembro de 1987, surgiram, no Diário de Notícias, vários artigos dedicados a Cesário Verde. Um deles intitulava-se mesmo Linda-a-Pastora: a quinta com janela para o Chiado. O título dá como assente algo que não passava de um desejo (in)confessado do escritor a contas com uma recorrente instabilidade emocional... 
A ideia de olhar a cidade a partir do campo parece-me tão válida como a contrária, mas o que, neste artigo, despertou a minha atenção não foram nem o Jacinto nem o José Fernandes queirosianos, mas, sim, o termo salamins.
Aqui está uma palavra que eu ignorava - salamim - que os dicionários definem como "direito de corretagem que se pagava em Diu". Creio, no entanto, que Cesário se está a referir ao comerciante vagamente indiano que, à época, lhe vendia as pinhas...
Se Cesário tivesse tido notícia do preço do pinhão neste Natal - 80 € / 100 gramas - talvez não se tivesse sentido tão aborrecido...
Pensando bem, neste Natal, havia salamins que vendiam o pinhão mais barato  - 60 € / 100 gramas. Só que eu não os conhecia como tal, pois o preconceito encarregou-se de os nomear de modo pouco educado.

5.1.18

Orfeu e Eurídice

"No acaso da rua o acaso da rapariga loura." Álvaro de Campos

Sem predicado, sem um ponto determinado numa rua por nomear, a rapariga loura não passa, afinal, de uma recordação da rapariga loura original, desperta do passado irreal da única rua cujo lugar de encontro se desfez...
Deste modo, ao sujeito, desfeito o encontro inicial, transmutado num outro, só lhe resta escrever versos que o tornem aos olhos dos tolos - maravilha das celebridades...

... maravilha fatal da nossa idade, perdida (irremediavelmente) da visão imediata...

4.1.18

A culpa é do açucar

A leitura literária pressupõe a capacidade de relacionar, mas como se a  memória falha?
No entanto, a consciência dessa falha traz frequentemente relações imaginadas no momento de leitura, provavelmente, inapropriadas, mas sem contraditório, pois do outro lado mora o vazio...
De tal modo que já não sei o que é pior:  se a incapacidade de relacionar por falta de leitura, se a frustração por saber que tempo houve em que a interpretação fulgurante se terá perdido porque a mente se foi degradando...
Dizem-me, agora, que o grande culpado é o açúcar. Não sei se será tarde, mas prometo que tudo farei para o eliminar da minha dieta...

3.1.18

Mais dia menos dia


«Mais dia menos dia matam-nos através de uma imagem. Abrimos um computador e morremos.» AL BERTO

Mais dia menos dia o computador resolve-nos o problema...
Só que o problema somos nós!
De nada serve voltar atrás
De nada serve esperar...

Mais dia menos dia nunca será futuro, 
porque o futuro não se mede em dias...

o futuro, um outro lugar...
talvez uma caixa de segurança com muita pirotecnia...

2.1.18

Se fosse nas nuvens...

Entre as nuvens, a lua. Se fosse nas nuvens, a abordagem já era outra...
Embora me possa considerar satélite, ainda prezo alguma independência de raciocínio, o que me leva frequentemente a tolerar certos comportamentos irrefletidos, umas vezes próprios da juventude, outras específicos do envelhecimento...
Não se trata nem de submissão nem de condescendência mas, sim, de opção, que não reflete qualquer vaidade ou soberba... com fases... 

Vistos de Cascais a "reinventar o futuro"...

Já é difícil construir o presente!
Ora o senhor Presidente quer que nós reinventemos o futuro. Nem sequer nos exorta a inventar / a imaginar o futuro...
Estes portugueses sempre lá longe e não no lugar onde deveriam agir!
Em 2018, vamos adiar o presente e colocar os olhos no Longe... e, em coro, vamos repetir "Reinventar o futuro!"
Outra ideia do senhor Presidente é que somos tantos e tão dispersos que, vistos de Cascais, passámos a ser muitos "Portugais"...