21.12.17

Está-nos na substância

No antigo Egipto, o mesmo termo significava, por exemplo: curto e longo; claro e escuro; belo e feio; alto e baixo; honesto e desonesto; verdadeiro e falso; forte e fraco...* Quem chegou a tal conclusão foi K. Abel (1884) que, provavelmente, ao assinar Abel ficaria sempre na dúvida se não deveria registar-se como Caim...
No essencial, o 2º termo não era o antónimo ( a negação) do primeiro, mas simplesmente o fundamento do primeiro. Como conceptualizar claridade se o tom não pudesse estender-se até à escuridão?
Talvez seja por causa desta particularidade da linguagem humana que desconfio cada vez mais dos sábios, dos justos e dos impolutos... 
Já Freud defendia que há linguagens, como a dos sonhos, em que a negação está ausente... tudo é asserção por muito agradável ou inconveniente... 
... e como bem sabemos, à força de ser agradáveis, acabamos por ser inconvenientes... está-nos na substância!

* o ponto e vírgula visa desfazer o equívoco - cada par seu termo (significante)... Pelo menos, os egípcios sabiam poupar...