Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

30.11.17

Encómios da Hora

O vento e o frio argumentam melhor do que eu. Impassíveis, ouvem as exigências e depois movem-se sorrateiramente, sorrindo dos planos e dos seus autores.
Eu, pelo contrário, reajo - alerto para as discrepâncias de comportamento, comparo o dia de ontem com o de hoje, sem qualquer sucesso. A não ser, refrear o argumento, impondo uma regra - Não sejas burro!
Afinal, tudo o que fora exigido foi derrotado pelo tempo... 
Entretanto, Átropos segue inexorável: - desta vez, foi o Zé Pedro (dos Xutos & Pontapés)... e a nação mergulha em encómios da Hora...

29.11.17

A notícia atravessa-se

Pode ser que o frio justifique o adiamento, só que o esquecimento provocado pela manhã passada no cabeleireiro é preocupante... de qualquer modo, o problema parece ser o plural de 'ancião' - anciãos, anciões e anciães... Por outro lado, o mostrador do smartphone está transformado num campo de batalha em que os ícones são varridos sem apelo nem agravo.
(...)
A meio da tarde, a notícia atravessa-se - Belmiro de Azevedo morreu aos 79 anos. De súbito, nas televisões, os comentadores elogiam-lhe o espírito empreendedor, o desprezo pela classe política...
A pulso, enriqueceu, tornou-se um dos homens mais ricos de um dos países mais pobres da Europa, só que Átropos não distingue a riqueza da pobreza humana...
(...)
De manhã, a mesma substância de que o raciocínio anda arredio...
Entretanto, a viagem a Budapeste esfumou.se. Há pulsões que deveriam ser interditas! Até porque ficam caras...

28.11.17

Se andasse para trás

...
confirmava se a gabardine que já foi minha está em condições de suportar o frio de amanhã que a chuva essa já estará de partida...
verificava se 50 euros, em numerário, serão suficientes para pagar a pintura do cabelo e outras alfaias achinesadas que irremediavelmente se aprestam a saturar-me a casa...
voltava a retirar o automóvel do pátio assombrado por viaturas dimensionadas para as grandes avenidas e precipitava-me para a boca do Metro de Moscavide...
enfrentava  a embalagem de carne picada e transformava-a num esparguete à minha moda de que ninguém se queixa, provavelmente excesso de educação....
regressava ao pacote de testes, ordenava-os, classificava a primeira pergunta do I grupo e o II grupo, num critério absurdo, mas de quem está a apalpar terreno deveras conhecido, embora aqui e ali surja uma surpresa - ou será uma esperteza...
espreitava o Facebook a verificar se em Hamburgo a vida decorre sem sobressaltos - chove e a temperatura continua a baixar... e a senhora Merkel andas às voltas com um Governo improvável - quem diria que a Germânia regressava ao tempo dos godos...
consultava o OGE 2018,  para me assegurar que para o ano a minha situação laboral e financeira  irá agravar-se, ao contrário do que apregoam as forças esquerdistas que pensam que sem pagar aos credores é possível penalizá-los...
explicava pacientemente que o bulício de Bernardo Soares é diferente do de Cesário Verde e que vale a penha saber-lhe o significado e que quando o semi-heterónimo se quer coevo do Poeta da cidade, ele se está imaginar contemporâneo, mesmo que o meu interlocutor também necessite de perceber que eu e ele somos contemporâneos porque habitamos o mesmo tempo...
ou, então, aproveitava para elucidar que a angústia é, afinal, a expressão de um medo (phobos) sem objeto e que vive paredes-meias com a ansiedade... e talvez, assim, alguém compreendesse que a angústia é um luxo relativamente recente - há quem diga que surgiu nos finais do séc. XVIII...
e, claro, se andasse para trás, talvez, em vez de fazer o caminho das Olaias, tivesse preferido a Rotunda do Relógio - que ele são vários... e eu sou só um...

27.11.17

The best!

Começa por perguntar as horas.
Como se o silêncio o perturbasse, passa a mão pelo cabelo, e pergunta pelas cotações...
Volta a perguntar as horas... para segundos mais tarde, se afirmar como ' the best', prometendo obter a nota máxima...
À direita, procura cumplicidade na confirmação das respostas...
A colega da frente irrita-se com a verborreia pré-verbal do hiperativo postiço; os restantes sorriem como se nada houvesse a fazer...
Regressa às horas, como se quisesse confirmar que o tempo parara e pergunta se lhe concedo mais tempo...
Pergunta inútil, pois não sou o dono do tempo...
Entretanto, mergulha no enunciado... 

26.11.17

'the new art fest' 17... no Antigo Picadeiro do Colégio dos Nobres


Antes que se fizesse tarde, lá fui visitar 'the new art fest' 17, e não me foi fácil descortinar o vídeo Linha de Código 2016/2017 de Jorge Castanho e Alexandre Barão, cuja arte não sou capaz de apreciar, apesar do belo efeito estético, mas que, reconheço, souberam aproveitar o espaço oferecido pelas "Caves" do Liceu Camões - ou estarei enganado?
Esta dificuldade de apreciação deve-se à minha clara iliteracia neste tipo de performances, pois sinto-me incapaz de distinguir se elas são apenas 'presenças' efémeras ou se abrem portas para universos a que deixei (culpa minha!) de ter acesso...
No geral, foi com alguma perplexidade que circulei por entre tão estranhas criaturas, ficando um pouco preocupado com a antropóloga (Maria Lopes, 'O Campo da Consciência') que só tenciona apresentar o resultado final da sua investigação em 2029; por outro lado, os robôs do Tiago Rorke são bem mais pacientes do que eu, pois conseguem completar um jogo de batalha naval em 4 dias... Ao observar aquela caneta, pensei que ela bem poderia revolucionar o fabrico de tapetes de Arraiolos - Quem sabe?
Espero que "os criadores" me perdoem esta cada vez mais acentuada "grafomania".

25.11.17

JI-GEUM-EUN-MAT-GO-GEU-DDAE-NEYN-TEUL-LI-DA

A double bill is a theatre or cinema performance in which there are two shows on the programme.  
JI-GEUM-EUN-MAT-GO-GEU-DDAE-NEYN-TEUL-LI-DA é o título do filme sul-coreano de HONG SANG-SOO (2015).
Em tradução portuguesa, SÍTIO CERTO, HISTÓRIA ERRADA (na tradução inglesa RIGT NOW, WRONG THEN).
De regresso à Cinemateca, pensei inicialmente que o filme poderia documentar a Coreia do Sul, mas não - este (duplo) filme, de forma minimalista, a partir da mesma situação, recria dois possíveis narrativos suportados por diálogos, por vezes à beira do non-sens, mas que sugerem um tom de paródia quer dos estereótipos sul-coreanos quer dos estereótipos cinematográficos...
Neste caso, o desconhecimento da língua (e da cultura) em que o filme se desenvolve limitou-me a compreensão da intenção de Hong San-Soo...

24.11.17

Ao abandono, o docente

A ideia de que a Escola é, em si, uma comunidade faz parte do discurso político e, como tal, a Lei reconhece-lhe competência para desenhar o Projeto Educativo que deveria ser singular...
Diga-se, de passagem, que essa competência é mitigada, pois o Estado continua a interferir em matérias essenciais como o estatuto disciplinar do aluno, o papel do meio envolvente e, sobretudo, dos pais e encarregados de educação. Para o efeito, nos últimos anos reforçou as competências do Conselho Geral e transformou o Conselho Pedagógico num órgão de consulta do Diretor...
Na verdade, o Projeto Educativo (e a sua extensão, o Regulamento Interno) transformam a Escola numa "pequena república", só que lidos atentamente, verifica-se que a Escola Portuguesa ignora os seus funcionários, designadamente os docentes...
Ignora o seu estado físico e psicológico, ignora o efeito da pressão a que diariamente são submetidos, ignora o seu envelhecimento, não havendo, nas escolas, nenhum gabinete de acompanhamento que os possa ajudar a superar as dificuldades, sem os atirar para o consultório psiquiátrico ou para um ensimesmamento aviltante...

Caruma agradece

Ontem, finalmente, choveu, e , quando tal acontece, Caruma agradece...
Agora, está a chover. Esperemos que continue e que não comecemos a queixarmo-nos.

22.11.17

Todos os dias de cada ano, os professores são postos à prova...

Todos os dias surgem comentários desagradáveis sobre os professores, como se eles fizessem parte de um grupo de parasitas responsável pela ruína do país ... 
Não sei se os, agora, comentadores não são aqueles mesmos meninos / meninas que, na sala de aula, raramente  prestavam atenção à matéria em estudo, preferindo a conversa entre pares...
Não sei se os, agora, comentadores não são aqueles mesmos meninos / meninas que, na sala de aula, tudo faziam para copiar pelo colega mais aplicado - não só os testes mas, até, os trabalhos de casa...
Não sei se os, agora, comentadores não são aqueles mesmos meninos / meninas sempre prontos a pôr-se em bicos de pés, acusando os professores de incompetência, à menor falha, lapso, sinal de cansaço...
Não sei se os, agora, comentadores não são aqueles mesmos meninos / meninas que sempre confundiram a sala de aula com o pátio da escola...
Não sei se os, agora, comentadores não são aqueles mesmos meninos / meninas para quem a vida escolar mais não era que uma forma de passar o tempo, pois o futuro não dependeria do sucesso escolar nem da interiorização de valores, como a responsabilidade e o respeito - que não a obediência sabuja...
No entanto, desconfio que a maioria dos críticos dos professores integra o grande grupo de parasitas que, nas últimas décadas, aprendeu a roubar os portugueses... e que eu saiba não foram os professores que lhes ensinaram tal arte...
Os professores não são nem uma seita nem uma raça e, em muitíssimos casos, são as maiores vítimas da erosão da sociedade.
Diariamente, os professores são postos à prova, sofrendo danos físicos e psicológicos que ninguém se preocupa em avaliar... Todos os dias de cada ano... 

21.11.17

Dilema

Que Ela esbracejava, já sabia... Quanto ao resto, nunca consegui descrevê-la. Só  agora  percebi que ela tem cabeça e pernas...
Uma cabeça que afirma perentoriamente: A HISTÓRIA NÃO VOLTA PARA TRÁS!
Duas pernas que replicam: ENQUANTO NÃO RECUARMOS NÃO AVANÇAMOS! (para o abismo)...
Ora se a cabeça avança e as pernas recuam, como é que Ela vai aprovar o orçamento para 2018?

20.11.17

Parece-me bem!

Amesterdão recebe Agência Europeia do Medicamento.

Parece-me bem! Liberalizadas as drogas leves, quem melhor para gerir as restantes drogas?

19.11.17

MENTIRA

"Segundo a mesma fonte, dos cerca de 99 mil professores que existem no Ministério da Educação, cerca de 22.300 atingiriam o topo da carreira nessa situação, passando assim ter uma remuneração base da ordem dos 3.500 euros brutos. A contagem do tempo de serviço entre 2011 e 2017 resultaria ainda num aumento salarial anual de 15 mil euros para cerca de seis mil professores, adiantou."

- Qual é o professor dos ensinos básico e secundário que, no topo da carreira, recebe aproximadamente 3.500 euros brutos? É preciso explicar ao senhor ministro das finanças que os professores foram excluídos do 10º escalão e nem nesse escalão se atinge esse valor. A carreira fecha no 9º escalão!
Há muitos professores, que já deveriam estar aposentados, e que já lá estiveram... e depois foram colocados no 9º... ( são as manobras de um regime intoxicado por falsas verdades...)
É um pouco como o lugar comum de que os professores não são avaliados. MENTIRA. Ao longo dos anos, a avaliação tornou-se uma FARSA por culpa de Governos e de Sindicatos...
Mas desperdiçou-se muito tempo com ela e muitos professores foram enganados. 
Não é só nos BANCOS que há ENGANADOS e ROUBADOS, também os há nos Bancos das Escolas! E muitos!

18.11.17

Exigir é fácil e prometer também não é difícil

Exigir é fácil, sobretudo, porque se avizinham eleições... e prometer também não é difícil quando se tem como objetivo ganhá-las...
O problema é que o dinheiro é escasso...
Já aqui o referi várias vezes: governar implica uma estratégia global. Por exemplo, todo o sistema educativo português necessita de ser revisto.
Há, pelo menos, 20 anos que a tecnologia fornece as ferramentas necessárias a uma reformulação do parque escolar, à redefinição da matriz curricular e, particularmente, à reforma das metodologias de ensino... só que continuadamente duplicamos os recursos e os resultados, apesar do que certos organismos internacionais apregoam, são um desastre... Claro que as estatísticas estão contra mim!
Falta visão para acabar com as velhas rotinas e com os parasitas.

17.11.17

Não sei se sorria

Hoje perguntaram-me se o Virgílio era o Vergílio (Ferreira) e quem era o Ésquilo... e por que motivo os Futuristas se chamavam futuristas e faziam a apologia do Momento (do Presente), sem esquecer essa maldita ideia de que «a guerra é a única higiene do mundo»...
Isto da referência é uma chatice - Virgílio, autor da Eneida, modelo para o Camões épico? A referência é tão ou mais assustadora que a robótica, essas máquinas infernais devoradoras de empregos... bem mais perfeitas do que o próprio homem... Ah, ser completo como uma máquina! 
Esmagados pela inteligência artificial, sem querer entender a raiz humana dessa inteligência, parecemos os escudeiros, os almocreves ou portageiros de outros tempos, incapazes de compreender que, afinal, os maiores derrotados foram os cavalos e não os burros - estes espreitam ironicamente  pela janela o repasto dos porcos humanoides.
Talvez, aqui e ali, ainda  haja alguma coerência - S. Paulo bem dizia aos Coríntios que o seu mister não era batizar mas evangelizar... Não sei se o evangelista teve sucesso... no meu caso, a inutilidade das minhas palavras está garantida, mesmo que esta não passe de um desafio ao Útil...

16.11.17

Um sorriso...

Há situações que nos exigem um tal domínio das emoções que a razão se torna rude para além daquilo que a regra social exige.
A tensão sobe ao ponto de se derramar sem controlo.
Há, no entanto, ao anoitecer, um sorriso que tudo compensa. E há, sobretudo, a esperança...
(...)
Para trás, fica o estacionamento a céu aberto,  a 1 euro / hora, numa avenida que dizem ser espanhola... e talvez venha a ficar a indiferença médica dos últimos quinze anos...
O que não fica para trás, são os conselhos de quem há muito percebera que o acompanhamento médico não seria o mais adequado.

15.11.17

A falha

A luta vai solene.
O ministro hospitalizado não foi preparado para a batalha...
A mim falta-me o espírito corporativo e a genica paroquial. 

A leitura global diz-me que a luta é justa, mas que o país está cada vez mais desigual. E assim irá continuar, apesar das pequeníssimas vitórias de Pirro.

Entretanto, por aqui, depois dos incêndios, a seca... Já só falta a neve! 

13.11.17

Não abdicar

Não recuar.
Não aceitar.
Não pactuar.

Se cair, levantar-se e continuar a andar.
Andar sempre, mesmo se a sombra alastrar.

Não esperar o barqueiro sombrio...nem entrar no rio triste.
Não abdicar
                   da razão a troco de uma qualquer verdade.

12.11.17

Um psicopata escreve o quê?

Um psicopata não assumido escreve sobre o quê?
Em primeiro lugar, há psicopatas que simplesmente não escrevem, embora falem pelos cotovelos sobre tudo o que imaginam ser a realidade (deles), porque a dos outros, essa não existe.
Depois há os psicopatas cuja escrita é o depósito de todos os rancores e de todas as invejas - escolhem um alvo, viram-no do avesso e não descansam enquanto a caricatura não assoma ao canto da página. Há até quem vá ao ponto de caricaturar Deus, esse invisível e indizível ser que assombra a mente das criaturas e, em particular, dos psicopatas... nestes sob a máscara do Diabo.
Há também aqueles psicopatas que, de tão livres, eliminam todo o tipo de censura, porque estão convencidos de que a verdade vive oculta para lá da consciência e dos padrões de cultura, caindo assim numa escrita automática que lhes traz de volta a dignidade, para não dizer a divindade... ( Já estou a ver os dadaístas e todos os divinos surrealistas!) 
Em conclusão, ainda não é hoje que abro a torneira até porque se o fizesse corria o risco de desatar abraçar tudo quanto mexesse... mas a razão diz-me "comporta-te, homem, não é porque tiveste um pai e um padrinho austeros que vais agora inundar o país de afetos, mesmo se o teu mandato é de seca - ou uma seca..."

10.11.17

Os psicopatas gostam de escrever

«Os psicopatas denunciam mais facilmente o seu delírio, escrevendo do que falandoLuís Cebola, Psiquiatria Clínica e Forense, pág. 146


Para demonstrar o carácter esquizofrénico da obra de Fernando Pessoa, o monárquico Mário Saraiva (O Caso Clínico...) arranca este argumento às páginas de Luís Cebola, só que basta uma consulta do verbete da Wikipédia para deduzir que dificilmente o antigo diretor clínico da Casa do Telhal (1911-1948) subscreveria a ideia de que Fernando Pessoa fosse um psicopata...

De qualquer modo, fico avisado. Vou escrever cada vez menos. Se não cumprir é porque a psicopatia tomou conta da mim... Ainda se escrevesse alguma coisa que se aproveitasse!

9.11.17

Relíquias

Nem crucifixo, nem presidente do conselho, nem presidente da república...
Apenas uma secretária e um estrado devorados pelo caruncho... até a cadeira foi substituída... relíquias...
Ora relíquias só nas igrejas e nem em todas!
Apenas um argumento em defesa da preservação do mobiliário acarinhado pelo Estado Novo: quando subo ao estrado,  a minha visão torna-se mais abrangente e mais disciplinadora, para não dizer autoritária... a nostalgia da cátedra...

8.11.17

O essencial

«O essencial é saber ver; 
Saber ver sem estar a pensar;
Saber ver quando se vê.
E nem sequer pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.»
 Alberto Caeiro


Espero que ninguém se tenha precipitado e concluído que eu possa considerar Fernando Pessoa como um bluff.
Se assim fosse, nós também o seríamos, porque, no essencial, o homem pessoano é uma representação perfeita da deriva a que o homem do século XX se viu condenado ao querer romper com a velha ordem, muito por força do progresso científico e tecnológico...
Há, por seu turno, uma outra questão que mereceria ser analisada: o impacto da poesia de Fernando Pessoa na formação pessoal dos adolescentes.

7.11.17

"É imperioso banir da Cultura portuguesa o bluff Fernando Pessoa"

«Para a dignidade da Cultura portuguesa, é imperioso banir da literatura o bluff Fernando Pessoa e remeter o poeta ao seu real valor, que o tem e lhe basta.» Mário Saraiva, O Caso Clínico de Fernando Pessoa, pág, 164, Universitária editora

Não fosse um avô editor ter tido o cuidado de me fazer chegar às mãos tão precioso estudo, e eu teria continuado a ver em Fernando Pessoa a expressão de um mundo ávido por compreender a inquietação que o minava, depois que o Positivismo se revelara incapaz de determinar a Lei que tudo regeria... Num momento em que o Todo era definido como mais do que a soma das partes, Fernando Pessoa, num esforço titânico, desenhava caminhos que ia percorrendo, de preferência em simultâneo, embora soubesse desde início que o resultado o deixaria num estado de frustração que só uma boa dose de autodomínio lhe atenuaria a impotência. A impotência do ser.
E, assim, os caminhos criados são veredas alternativas ao desespero da humanidade. A arte como alternativa à impotência do ser... e não a expressão da impotência do homem que sofreria de hebefrenia mista...
(...)
Doravante, vejo-me obrigado a desconfiar se a leitura da obra de pessoana não será um veneno, irresponsavelmente, dado a ingerir à juventude portuguesa, contribuindo desse modo para o definitivo enterro da alma lusa...

Nota: A esquizofrenia hebefrénica é uma forma de esquizofrenia caracterizada pela presença proeminente de uma perturbação dos afetos. As ideias delirantes e as alucinações são fugazes e fragmentárias; o comportamento é irresponsável e imprevisível. Existem frequentemente maneirismos. O afeto é superficial e inapropriado. O pensamento é desorganizado; e o discurso, incoerente. Há uma tendência ao isolamento social. Geralmente, o prognóstico é desfavorável devido ao rápido desenvolvimento de sintomas "negativos", particularmente um embotamento do afeto perda da volição. (Wikipédia)

6.11.17

Não queremos obedecer...

Não queremos obedecer, mas somos treinados para deixar de pensar. Agora, tornou-se moda definir aprendizagens essenciais... e lá vamos nós identificar conteúdos  transversais, desenhar estratégias jesuíticas encorpadas de iniciativa e de criatividade... recriar o mundo.
Podemos não saber que um jesuíta é um cristão e que, como tal, serve uma doutrina milenar que nos mata a razão e nos transforma em servos obedientes de um deus ausente... Já nem sequer somos capazes de olhar para a palavra e identificar a raiz ...
É como aquelas árvores que são apenas troncos suspensos do fungo que as corrói...

5.11.17

O outono do inverno

Se o dia de hoje fosse diferente dos anteriores é que seria de estranhar. Voltou o Sol, embora mais tímido e cá em casa abriu a época oficial de inverno. 
Ricardo Reis ensina que, na verdade, a estação é o outono do inverno, mas esse não passa de um esquizoide que, apesar de recusar o passado e o futuro, se vestiu de uma cultura vetusta e cansativa - Para quê aprender grego e latim, estudar os clássicos, imitar Anacreonte, Píndaro e Horácio, e sobretudo, apostar num epicurismo triste e decadente?
O melhor mesmo é o silêncio, mas não sei o que é feito da moira Átropos... O óbolo já está preparado...

4.11.17

Na arca de Fernando Pessoa mora um homem menor

«Se pretendêssemos terminar com uma frase a propósito, diríamos que a heteronímia de Fernando Pessoa se condensa numa palavra: esquizofrenia.»
(...) 
«Todavia que as extremas do campo das letras, e do campo da medicina sejam respeitadas nas suas legitimidades. Esta condição é absolutamente imprescindível para a leitura correta e inteligente dos escritos pessoanos
                        Mário Saraiva, O caso clínico de Fernando Pessoa, Universitária editora, 1990

De acordo com Mário Saraiva, a arca deveria ter ficado por abrir... porque lá dentro se encontra um homem menor, paranoico e esquizofrénico
De acordo com Mário Saraiva, só Mensagem dignifica o autor.
De acordo com Mário Saraiva, os  estudiosos que proponham qualquer interpretação da obra que não leve em conta a demência, a despersonalização esquizofrénica de Fernando Pessoa, não são pessoas sérias...
Eu, por mim, já proibi os meus alunos de irem além da interpretação dos textos, esburgando-a de qualquer avaliação clínica do Poeta... Caso contrário, proponho que se retire a Odisseia do cânone ocidental, pois nada sei de Homero...

3.11.17

Sempre que me refiro ao Cardeal...

Sempre que me refiro ao Cardeal faz-se silêncio. Não entendo.
Afinal, sua Eminência não tem o dever de pedir (ordenar) aos presbíteros que movam o olhar dos crentes para as nuvens cinzentas que atravessam os céus! E que orem para que as águas divinas se abatam sobre nós, ímpios incendiários que nunca aprendemos o verdadeiro significado da sarça ardente...
Creio que o Cardeal da sua Torre altaneira tem uma visão distinta da dos meteorologistas, pois, como é sabido, estes enganam-se facilmente...
Talvez o silêncio tenha origem no facto de ser um daqueles ímpios que nunca compreendeu nem o pastor nem o rebanho. E não é por falta de aplicação!
Aborrecem-me os cardeais que insistem em recorrer a receitas antigas, como tem vindo a ocorrer com o novíssimo (?) António Damásio que, sem qualquer tipo de reverência, vem citando Fernando Pessoa, sem lhe mencionar a graça...

2.11.17

O Poder e a chuva

Estou a pensar na infalibilidade de certos sacerdotes, mal rogaram aos crentes que começassem a rezar, desatou a chover. Abençoados sejam e que a chuva se mantenha!


Em certos romances de Pepetela, a sorte do Rei joga-se na sua capacidade de fazer chover. Os conselheiros do Rei esclarecem-no ou confundem-no quanto à probabilidade de os céus se abrirem nem que seja em pequenos charcos... E claro quando a chuva cai, é a festa no povoado e a consagração do monarca...

Em Portugal, morto o Rei, nem o Presidente nem o Primeiro-Ministro se revelam capazes de fazer chover. Deve ser por isso que o Presidente aproveita todas as lágrimas do povo, enquanto que o  Primeiro-Ministro recolhe ao Gabinete, temeroso que o poder lhe escape definitivamente...
No entanto, na sombra, move-se o Cardeal, que não pode perder a oportunidade de mostrar que a chuva é de origem divina,... e eis que a chuva abandona o Céu e se derrama sobre a terra portuguesa...
Que a bênção cardinalícia não nos abandone!

1.11.17

Em dia de Todos os Santos

Há verbos que utilizamos sem lhes pesar o sentido. São tão banais que nem os vemos nem os ouvimos, mas eles encontram-se em cada eixo verbal...
E o simples facto de os enunciarmos define o modo como cada um de nós se relaciona com o predicado, isto é, com o ato enunciativo ( a modalidade)
Vejamos, os verbos dever e querer, por mais vinculativos que possam ser, apontam para a virtualidade - nunca sabemos se o que desejamos, de forma mais ou menos coerciva, será realizado... Os verbos poder e saber, cada vez mais postos em causa, continuam a marcar a atualidade. Os verbos ser e fazer dão corpo à realidade... o problema é que dificilmente resolvemos o problema da identidade e do sentido da ação...

Como é que em dia de Todos os Santos, começo a perorar sobre modalidades, que não as desportivas? Pelo simples motivo que um santo menor, mas com vontade de ser maior - Rui Santos - acaba de dizer em voz alta aquilo que é sonho de muitas vozes caladas: Pode estar em causa a descida de divisão do Benfica...
Pode marca a atualidade, marca a vontade justiceira de Rui Santos, mas está longe de corresponder à realidade.