Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

30.7.17

Os argumentos de Boaventura de Sousa Santos

Decidí entonces no volver a pronunciarme sobre la crisis venezolana. (26.05.2017)

¿Por qué lo hago hoy? Porque estoy alarmado con la parcialidad de la comunicación social europea, incluyendo la portuguesa, sobre la crisis de Venezuela, una distorsión que recorre todos los medios para demonizar  un  gobierno  legítimamente  electo,  atizar  el  incendio  social  y político  y legitimar  una  intervención  extranjera  de  consecuencias incalculables. Boaventura de Sousa Santos(26.07.2017) En defensa de Venezuela

Custa-me acreditar que a situação da Venezuela tenha apenas causas externas e sobretudo que o atual Presidente tenha capacidade para resolver o problema. 
A ideia de que internamente haverá condições para retomar o rumo chaviano sem recurso à força é absurda. Qualquer solução passa pelo abandono do poder pelo senhor Maduro e seus acólitos...
Quanto à comunicação social, Boaventura de Sousa Santos sabe bem que ela dança ao saber das conveniências de quem a financia...
Custa-me acreditar nos argumentos de Boaventura de Sousa Santos, ainda do tempo da Guerra Fria...

29.7.17

Rob e Alice, dois robôs livres

Investigadores do departamento de Inteligência Artificial do Facebook criaram um algoritmo próprio que permitiu a dois robôs, “Rob” e “Alice”, conversarem livremente, a fim de aprimorar as suas capacidades.
Contudo, os robôs desviaram-se da linguagem desenvolvida pelos especialistas, tendo iniciado uma conversa entre eles de forma “autónoma”, noticia o The Next Web.

Não é que me sinta posto em causa, pois já desconfiava que a autonomia de certos indivíduos humanos resultava de atos de desobediência, como a mitologia destaca destes tempos remotos.
O ser humano tal como imaginamos conhecê-lo, apesar de poder escolher o rumo, ao apostar no desenvolvimento tecnológico, escolheu o caminho da sua própria extinção...
Rob e Alice, a esta hora, já devem estar a pensar em multiplicarem-se...

Obras no Parque Eduardo VII


Em pleno Verão, obras encomendadas pela autarquia lisboeta. Quem ganha? Quem perde? Do ponto de vista da restauração, a resposta parece estar à vida. Ou será que não devemos confiar no que vemos?

Entretanto, os patos e os cisnes migraram. Para o Jardim Amália Rodrigues não terá sido, a não ser que se tenham metamorfoseado...

28.7.17

A caruma continua a arder

Hoje é sexta-feira. Leio o Diário de Manuel Laranjeira.
Duas figuras emergem, a Augusta e o Miguel Unamuno - a tragédia de uma entrega sem sentido. Tudo querer sentir, tudo querer compreender e não haver esperança... e não aceitar. Ao contrário do Autor, que vê na morte a solução, que só será problema para os vivos:

«Morrer não custa. O que é trágico, o que é horrível, é ver secarem-se as raízes que nos prendem à terra. Não são os outros que morrem: é uma porção de nós mesmos.»
         Carta a Miguel Unamuno, datada de 24 de Agosto, 1908.

Hoje é sexta-feira. A caruma continua a arder...  a chuva lá longe, na Alemanha.

26.7.17

Por respeito à época

Agora me dou conta que, nesta altura do ano, será de mau gosto seguir um blogue que se apresenta como "caruma"...
Só que é um pouco tarde para mudar de nome. Por respeito à época e, sobretudo, à falta de planeamento florestal, vou reduzir a atividade até que a chuva cumpra o seu destino...

25.7.17

Coisas do céu

O Homem deve ter 73 anos. Nasceu no concelho de  Mafra e revela ódio profundo por certas figuras que cresceram e se impuseram por lá - em particular, um padre vermelho, um sinistro dos santos e um famoso oleiro, informador da PIDE...
Descrente dos homens, em particular dos militares de abril e dos políticos, só lhe interessam a praia, o oceano, o cosmos e, consequentemente, as leis que regem este último, afirmando-se capaz de as ler em cada um de nós, a partir da respetiva hora de nascimento...
Quanto a mim, disse-me, de imediato, que o meu período mais produtivo é a manhã, algo que, no entanto, não devo confundir com o tempo, pois este só existe no calendário... ideia que eu quis partilhar, mas que ele me recusou, porque me falta passar pelo ritual de iniciação necessário à compreensão das "coisas do céu"...
E a conversa fortuita, ao balcão de um café, começou do seguinte modo: "O senhor é professor de Português, deveria ensinar estes jornalistas a falar..."
O problema é que temo que o encontro ainda não tenha terminado...

23.7.17

Não sei o que se passa

Não sei o que se passa,
não tenho nada a acrescentar.
Só me apetece recuar,
mas vivo num círculo.

Cada um de per si,
e eu sem mim.
Perguntaram-me "quem cuida de ti"?
(Estranha pergunta!)

Não sei porquê,
lembro-me agora do José Gomes Ferreira à porta do Tivoli,
uma nota de vinte escudos, presa no forro do casaco...
O Poeta desprendera-se do quotidiano,
alguém continuava a cuidar dele,
não fosse o guarda prendê-lo pelo motivo errado...
E o Zé desatava a subir a Avenida até que ela morresse no Monte Carlo...

Não sei o que se passa,
já estou a confundir o Militante com o Abelaira.

- O que é feito deles?
Saíram do círculo, e não regressaram...

22.7.17

Uma cidade provinciana



Lisboa lembra-me a aldeia, onde ricos e pobres se vão arrumando, alheios ao conjunto. 

Até o Palácio da Ajuda parece ter caído num descampado que, aos poucos, foi sendo ocupado ao gosto de migrantes de reduzidos haveres.


Nem a escola republicana os consegue juntar, apesar do esforço dos petizes...



21.7.17

ALTICE rima com ALDRABICE!


Deve ser verdade, o problema, no entanto, é que os aldrabões são muitos e chegaram muito antes do abutre...

Esta tarde, cruzei-me duas vezes com a manifestação da "PT" e fiquei impressionado com a quantidade de "trabalhadores".
Dúvida metódica: Será que não havia por ali alguns infiltrados? 




Como cliente, fiquei a pensar por que motivo o serviço prestado é tão demorado e manhoso... Mas compreendi porque é tão caro...

20.7.17

Pouco discreto

Lembro-me de uma cerca feita de pedra, arrancada sabe-se lá onde, embora  haja sempre quem saiba, uma cerca que cumpria zelosamente a sua função - impedir que o olhar dos vizinhos se atrevesse a identificar o que era guardado no interior do quintal...
Por um instante, sinto-me tal o puto traquina que, assim como quem não pensa nisso, se encavalitava no muro para avaliar se valia a pena correr riscos...
Também eu, por um instante, me vi, hoje, a saltar a cerca, tentando avaliar como decorrera o exame de Português, mas logo a vizinha, sem palavra dizer, me cerceou o ímpeto...
Esta memória, como bem se entende, não tem qualquer propósito, a não ser o de me interrogar se não me terei esquecido, em tempo devido, de explicar o que  é um valor, lembrado ainda daquele outro vizinho ainda jovem que um dia insistiu que a cobardia (dos alcaides medievos) era um valor, porque devidamente recompensado pelo usurpador...

19.7.17

Ser discreto

É difícil ser discreto nas palavras e nas ações, mas, quando a idade avança, uma boa dose de temperança pode ser muito útil...
Em vez de falar, o melhor é escrever, pois, assim, a pessoa ainda pode suspender a voz e o gesto. 
O melhor é cumprir a regra beneditina ORA et LABORA.

18.7.17

O candidato a novo inquisidor

«O alvará de 13 de março de 1526, do tempo de D, João III, recusando a entrada e determinando a expulsão dos ciganos que se encontrem  em território português, é o diploma legislativo mais antigo que se conhece em Portugal relativo à presença dos ciganos.» Eduardo Maia Costa (1995)

A etnia cigana, quer em Loures quer no resto do país, tem de interiorizar o manual do Estado de direito. E o Estado de direito não pode ter medo deles, independentemente das consequências”, disse também o candidato, acrescentando que os visados “vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado".

Se André Ventura ganhasse as eleições autárquicas em Loures, o melhor que os ciganos teriam a fazer era inscreverem-se no curso de Direito.
                      *Doutorado em Direito Público e co-autor de um livro com a "taróloga" Maya.

17.7.17

Parlatório

"O país perde com a sua saída"...
"A sua morte é uma grande perda..."

Oiço. Torno a ouvir.
Nem sequer se trata de uma emoção espontânea.
Uma emoção calculada. Um protesto fingido. 
Faz-se luto no calendário ( há quem o faça no consultório.)... até que a perda se torna ganho.
Vantagem sem exclamação. Capciosa. 
Aborreço-me. 

16.7.17

E se pegasse os bois pelos cornos...

Expressão perigosa nos dias que correm - pegar os bois pelos cornos. Ainda acabo por ser acusado de maltratar os animais.
Embora ribatejano, as touradas nunca me despertaram particular prazer... Quanto aos bois (e às vacas), ainda houve um tempo em que partilhámos o trabalho, solidariamente, se tal se pode afirmar...
Desse tempo, ficou-me, no entanto, a locução a que recorro para classificar o que poderia ser o meu comportamento em certas situações.
Hoje, acordei a pensar: provavelmente, se ao longo da vida tivesse sido mais explícito, tudo teria sido diferente, não no que me concerne, mas em relação a muito moscardo que anda à solta - cola-se à pele e ...
Em síntese, nunca peguei verdadeiramente os bois pelos cornos, e eles têm aproveitado esta fraqueza...
Ainda não é desta!

15.7.17

Remodelação ministerial fantasma

Após as eleições autárquicas, o primeiro-ministro procederá a uma remodelação nos ministérios da Defesa, da Agricultura e da Educação e, nesse momento, ficará esclarecido por que motivo uma secretária de estado, amiga de longa data, foi substituída...
António Costa já decidiu quem será o próximo ministro da educação, também ele amigo indispensável, e como não quer ser acusado de favorecimento, substituiu a amiga secretária de estado, a quem está, entretanto, reservado um papel ativo na Assembleia da República...
César que se cuide!
(...)
Entretanto, foram publicados os resultados de 1ª fase, com melhoria na disciplina de Português (639) e, que eu saiba,  ninguém se pronuncia sobre o efeito do conhecimento prévio de algumas questões...
Já nada me surpreende! 

14.7.17

Nas praças e nos livros

Fui a Santiago de Compostela.
A fachada da catedral está em obras. No interior, decorria um serviço litúrgico, com poucos fiéis... Visitei as capelas laterais, mas não abracei o santo, apenas vislumbrei o túmulo, a pensar na lenda de Padrón e na fortuna dos mitos (e das lendas), e se não seria melhor levá-los a sério... Entretanto, o fervor religioso parecia que corria nas praças cheias de padres, de freiras e de seminaristas, sem esquecer os leigos de múltiplas origens e diversas crenças.
Um dia mais tarde, fui a Pádron. E o que lá encontrei, foi o fervor do feirante, medieval e abarracado, para além da insistência de uma jovem que me obrigou a fotografá-la em equilíbrio precário, pois colocada no rebordo queria "aparecer" na foto com a mão assente no "padrón" e com vista para o fundo do poço... E conseguiu uma foto bem fálica!

Entretanto, aproveitei para ler o último livro de António Manuel Venda, 1968. Li-o num ápice, pois o humor que o percorre não só nos faz sorrir como nos deixa a pensar que muitos dos nossos comportamentos são irracionais e maldosos, e, apesar disso, ainda conseguimos tirar proveito nas nossas capelinhas
António Manuel Venda, nas pequenas "estórias" que vai tecendo, acaba por desfazer umas tantas lendas que proliferaram desde 1974 até hoje, colocando-se no centro de uma narrativa divergente e nada encomiástica...
De regresso, apercebo-me que circulam novas "estórias". Desta vez, de zelosos secretários de estado sacrificados a bem da nação, com o detalhe de haver quem não consiga compreender a sua substituição, vindo à praça fazer alarido... Já lá vai o tempo em que o secretário era um "túmulo"...

13.7.17

Talvez por amanhã ser sexta-feira

Talvez por amanhã ser sexta-feira, hoje, dia 13, o anestesista não faltou nem fez greve. A cirurgia decorreu bem e o paciente prepara-se para regressar a casa, vencida a odisseia a que se viu sujeito no SNS, que lá vai funcionando, apesar da evidente falta de recursos materiais e humanos...
Talvez por amanhã ser sexta-feira, oito novos secretários de estado tomarão posse ao final da tarde. Os maiores mantêm os cargos - o mexilhão é que paga!
(Entretanto, o vizinho portelense Eurico Brilhante Dias é o novo secretário de estado da internacionalização...)
Talvez por amanhã ser sexta-feira, hoje ficou a saber-se que o Porto é a cidade portuguesa candidata a sede da Agência Europeia do Medicamento...

12.7.17

O que nos move?

De regresso, hoje, não me vou queixar de nada!
Em Santiago de Compostela, os sinais eram distintos. Uns lutavam contra a privatização dos rios, da energia...  Outros caminhavam, entoando gritos que me lembram hordas de fanáticos...
A verdade é que eu, apesar do fervor religioso que domina o lugar, senti-me mais próximo dos primeiros, senti-me melhor nos Parques da Alameda e de São Domingos de Bonaval.
Espero, entretanto, que, amanhã, os anestesistas não façam greve... Contradição? 


11.7.17

Entrei no Centro Galego de Arte Contemporânea


Entrei no Centro Galego de Arte Contemporânea (projeto de Álvaro Siza Vieira) com o objetivo de ver a Exposición Luis Gordillo - Confessión xeral, e fui surpreendido pela mostra Lugar: continxencias de uso, de Patricia Esquivias, Luciana Lamothe e Sofía Táboas....








Por onde passo...




Ainda vou fotografando alguns figurões da Hagiografia, da Valentia e das Artes, em geral, colocados no meio das praças ou nas esquinas e, ultimamente, defronte das praias, como se estivessem de partida ou, simplesmente, a bronzear, muito embora não necessitem devido ao material de que foram construídos... Lá, no alto, esverdeados...
Por onde passo, há sempre um santo António (de Lisboa ou de Pádua, pouco importa!), seja como topónimo seja ícone religioso, de tal modo que já deixei de o assinalar - está incorporado no sistema viário e na rotina.
A verdade é que quando olho a estatuária com que me cruzo, ainda sinto alguma vontade de os conhecer melhor, mas para quê?  Do outro lado, há cada vez menos vontade...

10.7.17

O Povo

O Povo, em Muros
Num rebate de consciência, os Senhores lembram-se do povo - misógino, envelhecido, friorento, enrugado... de olhar fixo na linha do horizonte, deixando refletir a ânsia do retorno, quase sempre impossível...
E ainda há quem deixe flores do campo, porque um dos filhos terá voltado, pobre ou rico, muitas vezes desenraizado, pois o tempo já não valoriza a identidade.

Este vaise i aquel vaise,
e todos, todos se van.
Galicia, sin homes quedas
que te poidan traballar.
Tés, en cambio, orfos e orfas
e campos de soledad,
e pais que non teñen fillos
e fillos que non tén pais.
E tés corazós que sufren
longas ausencias mortás,
viudas de vivos e mortos
que ninguén consolará.

                                    Rosalía de Castro

9.7.17

Em busca de sentido

Santiago de Compostela, Sul
Mesmo quando as explicações nada acrescentam, o tempo passa, indiferente ao esforço vão...
Os olhos cansados perdem-se nas imagens, sem descanso.
(Lembro agora que o Alberto Afonso por aqui terá passado ao fazer o caminho do peregrino francês...)
Padrón

O belicismo 

Noia

8.7.17

Os inenarráveis professores de António Lobo Antunes

Santiago de Compostela, Parque Alameda
Não foi aqui me sentei a ler a revista Visão nº 1270, mas bem poderia ter sido. A Crónica de António Lobo Antunes merecia essa atenção: «Eu fiz o ensino secundário num estabelecimento chamado Liceu Camões que ainda hoje acho o mais pavoroso e sinistro local que frequentei na vida. Os professores eram inenarráveis.» in O Liceu Camões

Não sei se a memória recria positiva ou negativamente o passado. O que sei é que há um número significativo de antigos alunos que testemunham uma vida académica feliz, mas também há um sem número que cala o tempo que passou no Liceu Camões. Quanto a António Lobo Antunes, esse não perde oportunidade para zurzir a classe docente da época, para mostrar a influência do compadrio e do provincianismo (do Estado Novo) que matava a alma dos adolescentes portugueses.
Provavelmente, o psiquiatra António Lobo Antunes ainda não confessou ao escritor tudo o que de verdadeiramente se terá passado no Liceu Camões.
Por mim, ainda espero que volte a entrar no velho estabelecimento e que oiça o que os atuais alunos têm a dizer dos seus «inenarráveis professores».

7.7.17

O GPS é coisa que eu não entendo

Se há coisa que eu não entendo é o GPS - Sistema de Posicionamento Global.
Globalmente, funciona bem, mas quando se trata de resolver, entra facilmente em colapso. Por exemplo, hoje revelou-se incapaz de me fazer chegar à Avenida de San Lázaro, em Santiago de Compostela. Não reconhecia nem a Avenida nem o Hotel...
Esfalfado, lá me vi obrigado a consultar um taxista e depois um ancião que se revelou bastante conhecedor do lugar.
Daqui os saúdo a pensar no falhanço do SIRESP, pois me parece que esta nova tecnologia, apesar de todo o software, ainda não consegue suplantar a experiência humana...
Esta coisa das máquinas poderem determinar o futuro da humanidade perturba-me, até porque estou convencido de que muitas já estão programadas para decretar a falência ou a destruição de um país...
O problema é que anda por aí muito ser humano que não se importa de ser conduzido pelos novos androides.

6.7.17

O olhar

O olhar é uma via que leva tanto ao saber verdadeiro, a um nível informativo, como ao erro, tanto informativo como formulativo. Luís Filipe Barreto, Portugal Mensageiro do Mundo Renascentista, Pág.36, Quetzal editores

Apanhei o autocarro 783 com a ideia de aproveitar o tempo de viagem para avançar na leitura, mas rapidamente desisti. A necessidade de fixar o olhar dissuadiu-me, pois, com alguma frequência, surge uma neblina enfadonha. Limitei-me a olhar as ruas, as casas e os jardins que as ladeiam, apenas com o propósito de verificar se a memória correspondia ou se necessitava de a reformular... De facto, tudo se repetia até que a modorra tomou conta da situação...
Chegado ao Marquês de Pombal, reabri os olhos, pois a memória dizia-me que era necessário estar atento às passadeiras, à lentidão dos semáforos, sem esquecer as novas ciclovias... O olhar foi descodificando os avanços e recuos, ao mesmo tempo que se prendia nas famílias estrangeiras que, desorientadas, lá iam subindo e descendo a Avenida, pasmadas para o luxo das boutiques laterais...
Até que chegado ao nº 202, entrei e me sentei à espera, reiniciando finalmente a leitura que ensina que o olhar não é só fonte de saber, é também fonte de erro... o que me permite, agora, pensar naqueles jovens que fazem fé no olhar de Alberto Caeiro, como se ele fosse divino e que repetem, à exaustão, que ele é o poeta das sensações, e que acriticamente seguem o seu caminho, longe do pensamento...

5.7.17

Se o SIRES(P) é de Portugal, como é que pode ser privado?

SIRESP: Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal

Se o SIRES(P) é de Portugal, como é que pode ser privado?
O problema tem origem em mais uma parceria público privada (PPV). Os bancos financiam, a fundo perdido, o Governo delega a sua responsabilidade em troca da colocação de uns tantos apóstolos, e os privados (os mesmos apóstolos) enchem os bolsos enquanto o negócio não se afunda... Quanto ao contribuinte, esse sofre as consequências da negociata, como se tem verificado...
Se o sistema é integrado, as redes de emergência e segurança que o constituem devem estar devidamente conectadas... sem estar à espera que, por milagre, numa situação de crise, surja um ator capaz de resolver as falhas das múltiplas redes, habituadas a viver sozinhas para proteger os respetivos interesses...
Por mim, este SIRES de que se fala não é de Portugal, a não ser pelo facto de não se diferenciar das restantes PPVs... Portugal é o país das PPVs porque continua a haver quem queira aproveitar-se da saloiice nacional.
A verdade é que a própria Assembleia da República não passa de uma PPV!

4.7.17

O professor e comentador Medina Carreira

Faleceu ontem.
Durante anos, comentou o estado da nação, revelando um país que vivia acima das suas possibilidades e, sobretudo, zurzindo a classe política (e seus apaniguados) que, para além de incompetente, era claramente corrupta.
Fê-lo com recurso a um método, por vezes, anacrónico e enfadonho, mas porfiou sempre, alertando para o peso da dívida e seus efeitos a médio e a longo prazo no tecido social...
Hoje, a hipocrisia assentou arraiais e o homem que, ontem, era objeto de chacota e de desprezo virou santo.

3.7.17

Se nada disser


Se nada disser é porque estou a desfiar as contas de um rosário que não é meu. É lenta a desfiadura, pois é necessário voltar atrás e verificar a sintaxe, que anda pelas ruas da amargura... 
Se não fosse a música, pensaria que as oliveiras não se sentem bem com o cheiro magrebino que se eleva do Tejo... 
Se nada disser é porque não consigo entender como é que um furgão terá entrado no perímetro militar de Tancos e terá esvaziado os paióis...
Se nada disser é porque não quero pronunciar-me sobre os fanicos dos políticos que não compreendem as razões dos incêndios, dos desfalques, dos assaltos, da falta de coordenação...

1.7.17

A imagem que elimina o tempo

Revolvemos gavetas e baús, à procura de brinquedos e de fotografias.
Procuramos, entre milhares de fotos, no álbum ou na pasta digitalizada, a imagem que, repentinamente veio à memória...
           elimina o tempo... e sobretudo, faz do lar um espaço seguro, um espaço singular onde ninguém mais pode penetrar... E este ninguém, se insistir em bater à porta, arrisca-se a ser visto como intruso no interior da própria casa...
Este tipo de fobia pode ser ainda mais incontrolável do que aquela que explode quando as ruas e as praças da cidade se enchem de estranhos de todos os tipos, porque nas ruas e praças todos somos outros, inexplicáveis e ameaçadores...
Descontrolados, corremos para casa e fechamo-nos... nos computadores, nos álbuns.
Corremos as cortinas. Confortáveis, voltamos a revolver as gavetas à procura de imagens, enquanto o outro se dilui...