Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

30.4.17

Kim Jong-un é "louco"?

De loucos, todos temos um pouco! E Kim Jong-un tem tudo!
Vive num país farpado, rodeado de idólatras hilariantes, proibidos de dizerem não e cujo único objetivo é fabricar armas de destruição maciça, convencidos de que só assim sobreviverão ao ataque iminente do Eixo do Mal...
O ar tonto da figura oculta um cérebro narcisista e megalómano capaz de tudo dizimar para se sentir venerado como um deus.
Entretanto, altas figuras da administração americana vão rejeitando a hipótese de que Kim Jong-un  seja louco, pois sabem que, apesar de tudo, Donald Trump ainda é mais louco.
Enfim, a tendência da atual política internacional é colocar loucos à frente dos destinos do mundo, o que significa que andamos todos loucos...
Até, aqui, em Portugal, há cientistas políticos que consideram que Macron é bem mais perigoso (louco) do que a Marine le Pen...
Por este andar, ainda acabamos a desejar o regresso de Adolfo Hitler, que de louco não teria nem um pouco...
Não são os deuses que andam loucos, somos nós.

29.4.17

Esta insistência

Esta insistência nos detalhes pessoais está a tornar-se contraproducente. Em nada contribui para a descoberta do que me move, pois não vislumbro qualquer progresso e aumenta-me os níveis de ansiedade. É um pouco como se escrever fosse um meio de enclausuramento.
É uma ânsia em que o objeto se vai dissipando, pois não se sabe quando o tempo acaba - o meu tempo! Porque se o tempo absoluto não existe, eu nem um nó chego a ser numa qualquer cadeia ininteligível.
Talvez seja esse o motivo que explica os jogos de automutilação: incapazes de definir etapas, ocupamo-nos a testar a existência, pois do sentido há muito abdicámos.
Visto que o tempo sempre foi uma das minhas obsessões, hoje resolvi recorrer ao canal das gravações e procurar a série GENIUS (1º episódio)... e lá encontrei o Albert Einstein, o internacionalista, em colisão com os padrões políticos, morais, sociais e científicos do seu tempo - do nosso tempo. Vou esperar pelo episódio da próxima 5ª feira, ansioso... 
  

28.4.17

Voz dissonante

Não canto! Cedo fui dissuadido. A voz dissonante abafava a melodia angélica do coro juvenil que reunia todas as noites depois do jantar. Era apenas um corpo mudo à espera do termo do ensaio...
Ela, a senhora, talvez distraída com o tricot ou com as piadas foleiras do todo-poderoso, esqueceu-se de me dar tolerância de ponto, embora eu, em 1967, tenha comparecido, desidratado e ávido da sombra de uma azinheira, por mais pequena que fosse...
Não encanto! Cedo percebi que a minha presença podia ser temida - relembro o dia em que me ofereceram uma pequena coruja ou seria mocho? Anda perdido (a) numa gaveta, mas nunca esqueci o tempo em que ela, a senhora, me cedeu um hotel católico (?), para que eu pudesse formatar umas dezenas de catecúmenos com dinheiros europeus - gastava-se à tripa forra!
(Agora queixam-se da dívida! Querem pagá-la em 60 anos, mas qual, a de ontem ou a de amanhã?)
O desencanto avolumou-se quando fui desviado para um ramal, por lá ficando uma dúzia de anos a polir os cacos de uma ânfora perdida...até que, certo dia, bati com a porta.
Entretanto, substitui as azinheiras por plátanos ainda mais caducos, perdendo definitivamente a esperança de que a senhora baixasse os olhos, não para mim que o não mereço, mas para todos aqueles que morreram longe, na guerra santa ou na diáspora fiel, para todos aqueles que percorrem o calvário da falta de saúde, para todos aqueles que envelhecem sem conseguir um trabalho que lhes dignifique os dias...
Dizem-me agora que a senhora me quer dar tolerância de ponto. E se eu, voz dissonante, não quiser?

27.4.17

De que serve "ter opinião"?

«À quoi ça te sert-il d'avoir un avis? Ce n'est pas toi qui vas décider?» Jean-Paul Sartre, La mort dans l'âme.

Num tempo em que as ideologias se esboroam, de que serve "ter opinião"?
Na Rússia, na Turquia, nos Estados Unidos, no Brasil e, agora, em França, assistimos à morte das ideologias, cujo maior ou menor sucesso se baseou sempre na capacidade de formar opinião.
As sociedades secretas, as igrejas, as universidades,  a imprensa geraram as correntes e as contracorrentes que justificaram os ideais que pareciam nortear as sociedades...
Entretanto, multiplicaram-se os pregadores, os comentadores e os avençados, sem esquecer as certezas do cidadão comum... e tudo se liquefez.
Apesar do aluvião de iluminados, a verdade é que quem decide já só vive para afirmar a sua presença no mundo - à maneira existencialista. O que é muito pouco!

26.4.17

Náufrago em terra

Das naus espera-se que naveguem de forma segura. Sabe-se, no entanto, que muitas naufragaram, deixando cargas preciosas no fundo dos oceanos. Dos tripulantes e passageiros, o tempo lavou-lhes a memória de viagens afortunadas e promissoras... Apesar de tudo, o naufrágio deveria ser considerado um subtema do grande tema que é a viagem...
Aqueles de nós que não andamos embarcados, desconhecemos o ímpeto dos ventos e a força dos vagalhões, e quanto aos náufragos há muito que os abandonámos em areais invernosos...
Por mim, nada posso dizer sobre as viagens e as grandes catástrofes marítimas, o que não evita que me sinta um náufrago em terra, sobretudo, quando as aves se revelam impiedosas comigo...

25.4.17

Neste 25 de abril, ideias perigosas

Neste 25 de abril, várias ideias assomam, perigosas:
- "Este já não é o país dos cravos, mas dos cravas!" (popular, ou talvez não!)
- Roman Jakobson, ao enunciar uma das funções da linguagem: a função mágica: "a poesia está na rua" (nas paredes e nos quadros de Vieira da Silva); "paz saúde habitação", outro modo de dizer a "revolução" do "povo é quem mais ordena!";... "MFA, o povo amigo está contigo"... 
          O eco perdura nos cravos que melhor fora que fossem rosas (de Isabel, de Leonor...) e não punhos erguidos, fechados, deslaçados...
- E do fundo da memória: a ORDEM do Estado Novo, a celebrá-la até à sua extinção; a LIBERDADE de Abril de que pouco sobra...
           porque os seus paladinos se servem dela para asfixiar, para mentir, para roubar...
Tempos houve em que vivíamos num país ignorante, pobre, colonialista e amordaçado. Hoje, vivemos num país virtual, ignorante, falido e roubado...
                                               e os ladrões continuam à solta! 

24.4.17

Cul-de-sac

O liberal pró-europeu Emmanuel Macron venceu a primeira volta das presidenciais francesas com 24,01% dos votos, à frente da líder da extrema-direita francesa Marine Le Pen que conseguiu 21,30% dos votos, segundo os resultados definitivos do escrutínio de domingo.Eleições 1ª volta França

A ideia de que a França seja pró-europeia, nos tempos que correm, parece-me forçada.
Por outro lado, a ideia de que os franceses se deixam seduzir pela vertigem do isolamento, em nome de valores xenófobos e fratricidas, assusta-me.
No entanto, a França já deu imensas provas de ser capaz de mergulhar no abismo, ressurgindo como se nada tivesse acontecido.
Os resultados eleitorais de ontem parecem ser a expressão da ruína dos valores de que a França tanto se orgulhou nos últimos séculos.
No que respeita à situação portuguesa, qualquer resultado nos será desfavorável, pois não creio que desta vez se possa dizer "do mal o menos".
A não ser a curto prazo!  

23.4.17

Na idade da razão

«Déjà des morales éprouvées lui proposaient discrètement leurs services: il y avait l'épicurisme désabusé, l'indulgence souriante, la résignation, l'esprit de sérieux, le stoïcisme, tout ce qui permet de déguster minute par minute, en connaisseur, une vie ratée.»  Jean-Paul Sartre, L'âge de raison

A leitura deste romance não é fácil, pois as personagens, pequenos burgueses com pretensões inteletuais, vão pondo à prova a ideia de liberdade, confinando-a à satisfação de desafios pessoais, apesar da Guerra que se anuncia e da que vai martirizando a república espanhola...
A questão mais importante acaba por ser a da insensibilidade de Mathieu face à gravidez inesperada de Marcelle, o qual, para se libertar do fardo da responsabilidade, acaba por roubar cinco mil francos à decadente Lola, sem, no entanto, ser punido...A punição resume-se quase sempre à inveja e à censura dos "amigos", ao consumo excessivo de álcool e de droga, como se a sociedade não existisse. O crime é, afinal, uma questão existencial, pessoal.
Mathieu, professor de Filosofia, admirado pelos discípulos, atinge cedo a idade da razão, deixando-nos a sensação de que o mundo (da drôle de guerre) retratado por Sartre é postiço e imoral...

Por mim, fico-me com o epicurismo desencantado, a indulgência sorridente, a resignação, a seriedade e um certo estoicismo, pois também eu já cheguei à idade da razão.

22.4.17

A diferença

A nudez surgiu no dia em que duas criaturas foram desterradas do Paraíso. Amaldiçoadas, descobriram a diferença, a dor e o trabalho.
Mais do que a dor e o trabalho, aquilo que mais as incomodou foi a diferença e pode dizer-se que sem esse detalhe  a razão teria pouca possibilidade de se afirmar como critério de ação, no caso, como meio de ocultação. O clima também terá ajudado, mas a parra foi a primeira figura da condição humana.
Durante séculos, fomos enaltecendo as criaturas que se dedicavam a superar essa condição, isto é, aquelas cuja ação se centrava na revelação de terras, de ideias, de ferramentas, do OUTRO...
Agora, enquanto milhões de famintos e desnudos são abandonados à sua sorte, andam por aí uns tantos inteligentes envolvidos em polémicas sobre o que vestir ou despir para afirmar a diferença.  
Haja paciência!

21.4.17

A verdade da mentira

Vivemos onde raramente nos deslocamos
Ignoramos o que nos convém
Reconstruímos a memória rasurando o que nos é inútil
Promovemos o que não praticamos
Fingimos admirar a arte narcísica e decadente
                       RITUALMENTE
Volúveis e poéticos, deformamos a realidade até que ela pereça sob as asas do abutre
Canonizamos as nossas fraquezas, idolatrando-as
            em mitos, heróis, santos e outras criaturas
                           angélicas, demoníacas
Prestamos-lhe culto e roubamos o óbulo ao barqueiro
As nossas indulgências já não edificam basílicas
somem-se em paraísos de ocasião com maior ou menor
                       DEVASSIDÃO
É absurdo querer conhecer o homem, pondo de parte a máscara

20.4.17

Tá certo!

Os EUA podem armar a burguesia. O governo não pode armar o povo. ‘Tá certo”, escreveu Miguel Tiago. Armas

Não há dúvida que ando mal informado! 
Parece que os milhões de mãos que pegam em armas nos Estados Unidos são, afinal, mãos burguesas. Quanto à Venezuela, o sonho do deputado Miguel Tiago é que o Senhor Maduro arme as mãos proletárias e nos devolva um milhão de portugueses burgueses...
(Tempo houve em que as mãos proletárias angolanas (e não só!) nos devolveram cerca de um milhão de portugueses. Será nostalgia? Criancice?)
Estamos de regresso à luta de classes! Agora, imagine o deputado Miguel Tiago que o senhor Castro distribuía armas ao povo cubano ou que o ditador norte-coreano agia no mesmo sentido... Será que os burgueses que governam Cuba e a Coreia do Norte sobreviveriam?

19.4.17

Os interesses dos professores

Desde a Antiga Grécia que os professores não têm interesses. A sua existência deve-se à vontade de aprender de uns tantos que, à medida que iam ganhando poder, sentiam necessidade de compensar quem os tinha ajudado a crescer e a afirmar a sua autoridade, umas vezes despótica, outras, democrática...
Claro que os professores, cedo, escolheram o seu lado. Uns pugnaram por um ensino elitista; outros defenderam afincadamente a formação de cidadãos conscientes dos seus direitos e  dos seus deveres... não creio que, entre os direitos, sejam de considerar os interesses...

(E também há aqueles que se afirmam professores e que, de facto, nunca o foram...)
  
Os interesses dos professores eram, afinal, as suas necessidades, reconhecidas pela comunidade que, em vez de os desconsiderar como acontece atualmente, sentia que era sua obrigação estimá-los e compensá-los pelos serviços prestados.

18.4.17

Pronunciamento de Mário Nogueira

Os sindicatos não têm nenhum acordo, nem nenhuma posição politica. Nada se eleva acima dos interesses dos professores”, disse o secretário-geral da organização, Mário Nogueira, durante a intervenção que antecedeu o início do desfile.Manifestação de professores

As aulas recomeçam amanhã. A Fenprof agendou para hoje um desfile protestativo de professores. O seu secretário-geral fez um pronunciamento de isenção que me deixa ainda mais incréu do que já era...
Por este andar, ainda vou ver o Mário Nogueira a beijar o anel de Sua Santidade, o Papa, em Fátima.

17.4.17

As sementes do mal

Lido à distância, isto é, fora de contexto, Jean-Paul Sartre define a "liberdade" como absoluto:

«En classe de philosophie, il avait eu de vives sympathies par le communisme et Mathieu l'en avait détourné en lui expliquant ce que c'était la liberté. Boris avait tout de suite compris: on a le devoir de faire tout ce qu'on veut, de penser tout ce qui semble bon, de n'être responsable que devant soi-même et de remettre en question, constamment, tout ce qu'on pense et tout le monde.»
                                                             Les chemins de la liberté, L'âge de raison

Leio e releio a "filosofia de vida" de Boris e dou comigo a pensar em todos aqueles que herdam, procuram e conquistam o poder tendo como objetivo a afirmação pessoal da sua existência. Por exemplo, Tayyip Erdogan, o Falcão, é, a partir de ontem, o sultão da Turquia, podendo fazer recuar as suas origens a Mahmud de Gazni, que governou o império Gasnávida entre 997 e 1030.
Se levarmos em conta os antecedentes, o novo sultão não descansará enquanto não alargar o território turco e, sobretudo, não perderá a oportunidade de se perpetuar no poder...
Tayyip Erdogan é um exemplo dos atuais caminhos de liberdade, mas há muitos mais... O melhor é nem sequer os nomear!

16.4.17

O lixo deles que também é o nosso!

O número de mortos no Sri Lanka na sequência do colapso de uma montanha de lixo na sexta-feira foi hoje elevado a 20, e os residentes temem que mais vítimas estejam soterradas.

Só nós produzimos lixo! 
Só nós o empilhamos... 
Só nós, que inventamos todas as formas de destruição, nos revelamos incapazes de o transformar ou de o eliminar, de tal modo que criámos o negócio da exportação e da importação de lixo. Isto é, para esconder o problema, gastamos fortunas a deslocalizar o lixo para os países mais pobres, para os lugares mais recônditos...
Nesta santa Páscoa, o acréscimo do consumo significa uma maior produção de lixo. 
Será que nos preocupamos minimamente de modo a evitar que um destes dias uma montanha de lixo desabe sobre as nossas cabeças?

15.4.17

Tudo se desvirtua

António Marto nota, contudo, que "hoje está a tomar-se consciência de que Fátima é um activo muito grande do ponto de vista da economia nacional, por causa do turismo, do chamado turismo religioso".Fátima 2017

Não se pode dizer que, do ponto de vista religioso, Fátima me incomode porque nunca cheguei ao ponto de compreender os fenómenos sobrenaturais - houve tempo em que vivi de perto as peregrinações e até participei em algumas, não por vontade própria, mas por efeito do contexto sociocultural em que nasci e fui educado. Neste caso, o esforço educativo não obteve sucesso!
Compreendo que as consciências mais permeáveis procurem uma razão para o que as aflige, pois não se satisfazem com a mera existência, mesma se anónima e efémera. Compreendo que se procure a essência daquilo que assoma como réplica de uma fonte singular, divina, porque esse é um dos traços da condição humana...
Só não entendo que a Igreja católica portuguesa se preocupe tanto com a economia nacional. Esse nunca foi um factor decisivo no seu comportamento ao longo dos séculos.
Afinal, as Igrejas da Reforma preocupavam-se muito mais com a componente nacional, a começar pela língua do culto.
Apesar de tudo, em 1967, a Igreja católica apostólica romana tinha preocupações mais nobres:  a denuncia da irracionalidade do colonialismo português.Paulo VI em Fátima 
E eu, ovelha peregrina e anestesiada, lá estive em Fátima, no dia 13 de Maio, sob um calor intenso e com os pés numa lástima...

14.4.17

Nos subterrâneos da vida

Eles não são diferentes de nós, talvez um pouco mais revoltados, mas razões não lhes faltam... Assimilados ou excluídos, vivem nos subterrâneos da vida...
(Por isso eu compreendo todos aqueles que, genuinamente, os querem socorrer, mesmo correndo o risco de serem abatidos ou de serem ostracizados...)
Só não compreendo aqueles de nós que exultam porque uma bomba infernal os pode perseguir nas profundezas da terra... até porque os conflitos não se ganham, exceto pelos senhores da guerra...
E convém não esquecer que "eles" podem estar longe ou estar entre nós e que quem os gera somos nós...

13.4.17

O dever mais importante


O dever mais importante é dizer a verdade. (Kant)

O problema é que não sei qual é o critério (e se há só um!) que permite determinar a verdade.
Será que, à maneira de Tomé, nos devemos reger pelos factos materiais? 
Ou será que a imaginação, mesmo se contrária à materialidade, é, também ela, capaz de gerar verdade, não a mentira, o fingimento psíquico, artístico...?
A arte diz que sim. E a vida? 
Novalis fez-nos crer que "quanto mais poético, mais real". Gostava que assim fosse, mas não me parece que seja verdade...
Por exemplo, Sartre explora em "L'âge de raison", os limites da liberdade, apresentando situações verosímeis e bons argumentos, no entanto a verdade humana faz do homem um ser escravo, embora frequentemente histriónico - pragueja, esbraceja, mas não vai a lado algum...

11.4.17

A Escola do Ressentimento

O PNL são extensas listas indicativas de livros, adequados para cada etapa, que os professores são convidados a escolher”, disse, acrescentando: “O cânone aplicado à escola é uma coisa profundamente errada”.Isabel Alçada e o cânone

"A Escola do Ressentimento deseja derrubar o cânone de modo a fazer avançar os seus supostos (mas inexistentes) programas de mudança social". Harold Bloom, O Cânone Ocidental.

«A defesa dos cânones já não pode ser levada a cabo pelo poder institucional central; eles já não podem ser considerados obrigatórios, se bem que seja difícil ver como é que o funcionamento normal das instituições do saber, incluindo o recrutamento do pessoal docente, pode passar sem eles.» Frank Kermode, Formas de Atenção, 1985.

Não tenho a certeza de que o cânone aplicado à escola seja uma coisa assim tão disparatada. O que é relevante, tal como aponta Harold Bloom, é que há na inteligência do burgo uns tantos ressentidos por terem sido marginalizados pelo ministério de Nuno Crato e que não perdem oportunidade para trazer ao debate as figuras erradas - o genuíno gosto pela leitura dos nossos jovens e a superior clarividência e sapiência das famílias...
Pelo que me toca, preocupado com a preservação da identidade, mesmo que esta tenha que ser adaptada às circunstâncias, preferia que o cânone literário global tivesse um lugar central na formação do pessoal docente... e que os professores voltassem a desempenhar a função que lhes compete, deixando de ser meros ouvintes dos disparates acumulados em fontes sem qualquer valor científico e estético.

10.4.17

Quando os adolescentes viajam

Desde que inventaram o tempo escolar que criaram a adolescência.
A adolescência tornou-se, assim, um período que separa a  infância da vida adulta, sendo de esperar que seja de aprendizagem, de maturação. 
Nos últimos dias, rebentou a notícia de que 800 (?) adolescentes portugueses foram expulsos de unidades hoteleiras espanholas, acusados de vandalismo... Descontado o exagero dos números, típico da rivalidade ibérica, é bem provável que os jovens se tenham excedido, não porque sejam portugueses, mas porque há muito que deixaram de ser educados por quem tem essa obrigação - os pais. E os professores que o digam!
Porque todos os dias, há professores (sobretudo, diretores de turma), enxovalhados por adultos que não querem o bem dos adolescentes, isto é, não querem que eles cresçam num clima de responsabilidade e de rigor.
E depois há um Ministério da Educação cúmplice da insanidade mental reinante pois, ao promover o reforço da comunidade na vida escolar, esquece que essa comunidade se encontra profundamente doente.
Quanto aos adolescentes, para começar, só deveriam realizar viagens de finalistas depois de terem concluído o 12º ano...   

9.4.17

Mais autores africanos ou mais autores de língua portuguesa?


Professores de Português querem mais autores africanos nos currículos...os escritores africanos têm também pouca expressão nos currículos.Autores africanos?
Não estão representados nos conteúdos obrigatórios do programa, aparecem só na área de projeto de leitura”, afirmou Edviges Antunes Ferreira, lamentando: “Não há mesmo uma área que contemple o estudo dessa literatura”. (sic)
Será que existe uma identidade africana? Será que nesse conjunto haverá um subconjunto constituído por escritores africanos de matriz portuguesa?
A pressa de dizer é inimiga do pensar! Em Angola, há escritores, tal como em Moçambique, na Guiné, em São Tomé, em Cabo Verde... Só que a matriz cultural e linguística é feita de raízes muito diferentes, o que não permite colocá-los todos no mesmo saco, a não ser por preconceito, o tal lugar, onde o dizer atropela o pensar...
Enquanto professor de língua portuguesa, apenas recomendaria que os programas de Português resistam aos estereótipos que inviabilizam o conhecimento diacrónico e sincrónico do que é a riqueza literária produzida, tendo como suporte a língua portuguesa, aqui, na América, na Ásia, em África ou na Oceania...

A nós só nos resta ser afundados sem aviso prévio

Ainda não me saiu da cabeça a ideia de que o Presidente dos Estados Unidos ordenou um ataque, como retaliação, a uma base militar sírio-russa, mas tendo o cuidado de avisar os proprietários.
Será provavelmente um novo conceito de guerra que visará fomentar a produção e o comércio de armas...
Mais do que saber se se trata de um Novo Tratado de Tordesilhas, o importante é conhecer quem é que controla os mercados acionistas, e aí os senhores Putim e Trump parecem acertados, procurando deixar a China de fora... 
Os Chineses que se cuidem... que a nós só nos resta ser afundados sem aviso prévio...

7.4.17

Como escrevi ontem

Como escrevi ontem, o inferno está em nós. 
Os sintomas são cada vez mais evidentes. De nada serve querer matar os demónios alheios se, a cada passo, geramos o mal...
As instituições não conseguem reger-se por valores universais. Preferem o relativismo axiológico e as inerentes fronteiras, sempre mais musculadas...
Cerram-se as portas, reforçam-se as janelas, criam-se sucessivos perímetros de segurança e até a própria terra vive cercada por milhares de satélites de espionagem. 
A pegada de cada um repete-se milhares de vezes ao dia, pondo definitivamente termo à vida privada.
Em cada círculo que se abre, acantonam-se as castas, esperando que elas não rompam as barreiras. E se o fazem, metralham-se ruidosamente ou gaseiam-se no silêncio das horas...

6.4.17

O Inferno não mora ao lado

C'est marrant la jeunesse, pensa Mathieu, au-dehors ça rutile et au-dedans on ne sent rien.  Quem o escreveu foi Jean-Paul Sartre, em L'âge de raison / Les chemins de la Liberté, 1945.

A ideia parece-me um pouco obscura, a começar pela oposição entre o brilho exterior e o vazio interior. Não sei se a distinção ainda faz sentido, porque aquilo que vou observando é a multiplicação de figuras dúbias, mentalmente formatadas por encenadores cujo único interesse é o capital. 
Claro que as réplicas ainda acreditam que têm sentimentos e, sobretudo, que têm o direito de desocultar aquilo que pensam ser a sua singularidade. E fazem-no umas vezes sem pudor, outras lamuriando-se por não ser compreendidas ou mesmo por serem reprimidas. 
Como Sartre proclamou noutro lugar e a outro propósito: - L'enfer ce sont les autres!
Creio, contudo, que o Inferno não mora ao lado...

O que aqui registo mais não é do que a expressão da minha surpresa perante a morte daquilo que outrora era designado como "a intimidade" e que, como tal, não procurava a exposição pública.

5.4.17

Não tenho nada a dizer

Perguntado se tinha alguma coisa a dizer sobre o rendimento e o comportamento..., respondi automaticamente: - "Não tenho nada a dizer..."
Eu próprio me surpreendi. Ao fim de 42 anos, deixei de ditar para a ata uma série de lugares-comuns que, de facto, nada acrescentam... Trata-se dum ritual revelador do imobilismo em que caímos.
O que temos tombado nas atas de pouco serve, até porque elas se tornaram depósito de burocracia confinada a meia dúzia de tópicos, em que os contactos com os pais e os encarregados de educação predominam, isto é, atos que deveriam ser matéria de outras atas...
É um pouco como nos mass media, as notícias já não registam acontecimentos, são apenas repetições e encenações decalcadas de uma matriz industrial...
E depois há essa evidência absurda, num tempo de enorme evolução tecnológica, mais não fazemos do que confirmar atos pretéritos... e assim ocupamos o tempo, com a sensação de que ele nos faz falta, mas já não sabemos para quê.
Cumprimos uma inevitabilidade improdutiva.
Para quem se arrepia com a referência às reformas estruturais, aqui fica o registo de que na Escola (Educação / Ensino / Formação) há uma reforma estrutural por fazer.

4.4.17

Talvez haja uma explicação

Podia expor, aqui, situações de perspicácia, de matreirice, de zelo, de inibição, até de lucidez... Contudo, só uma situação de ansiedade permanece. Uma ânsia de natureza milagrosa, inútil, a meu ver, pois os milagres não conseguem abrir brecha na minha racionalidade...
Talvez haja a uma explicação, um pouco protestante, para esta minha resistência - não terei recebido a graça divina, o que quer dizer que não sou eu que passo ao lado da divindade, é ela que não quer nada comigo...
Da sarça eleva-se uma contradição já um pouco fria, mas, na verdade, eu até considero a ansiedade estimulante, desde que ela não me esgote as forças e me faça superar as horas da desgraça...
O dia de hoje fica marcado por essa ansiedade positiva que, penso, se irá manter nos próximos dias por mais carregados que eles se afigurem. 

Há, todavia, situações para as quais não há explicação: não saber interpretar exames clínicos, usar canadianas para fugir a certas obrigações, desconversar, ou mesmo "distrair-se" para escapar à exposição pública... sem esquecer o político que diz não saber o que são 'reformas estruturais'...

3.4.17

A jovem professora

Com o tempo, abandonou a cabeceira da mesa. Senta-se agora de frente para o espaço que se alarga e revela não só a porta de entrada (de saída), mas também a sala do fundo. O movimento aumenta nos intervalos e as conversas, por vezes, intensificam-se ao ponto de se confundirem numa algaraviada feminina estonteante...
As mãos pequenas e nodosas imobilizam-se longe dos ponteiros do relógio e os olhos perscrutam os pequenos gestos até que, de súbito, a jovem professora, ao folhear o boletim Confluências (2ª série /janeiro-março 2017), apercebe-se que, a seu lado, se encontra o autor mencionado na pág. 3.
Será aquele um primeiro livro? Haverá outros? 
O autor, de pé, à cabeceira da mesa, lá vai acrescentando que sim, que há outros, de poesia... Entretanto, talvez, devido ao renome da escola em que foi colocada recentemente, a jovem professora aproveita para interpelar o colega sentado à sua frente, querendo saber se este também já publicou algum livrinho.
Azar o dela, as mãos pequenas e nodosas foram sempre demasiado canhestras...  

2.4.17

A angústia

A angústia é um estado físico e mental que asfixia o corpo e desorienta o espírito. 
Para os existencialistas, a angústia era um sentimento iniciático que abria o horizonte para a revelação do homem em si. Provavelmente, esta ideia é uma extrapolação forçada de alguém a contas com o absurdo da existência de um Deus alheado do terror humano.
Na perspetiva existencialista, o lá-fora era de tal modo horrível que se tornara impensável aceitar que o ser pudesse pré-existir antes de cada indivíduo e, sobretudo, que a essência fosse capaz de explicar a efemeridade da vida... 
Apesar de tudo, a angústia lidava com a expectativa de uma duração razoável - o terror da morte era ainda um tema exótico...
Hoje, a angústia consome o momento e cresce demolidora.

1.4.17

Liquidação da identidade

Que o Fado é uma boa desculpa para tudo o que (não) acontece, não tenho dúvida. Que o Futebol preenche a vida de uma boa parte dos portugueses, também não duvido. Que Fátima continua viva como refrigério para umas centenas de milhares de portugueses, é inquestionável...

Não tenho dúvida, mas não sei por que motivo. Não creio que seja apenas uma questão de atavismo. Provavelmente estamos já na fase da liquidação da identidade: primeiro, o território; depois, as empresas; finalmente, nós... 

Bem sei que há quem defenda que a nossa identidade, embora obsoleta, se resume ao Fado, ao Futebol e a Fátima, mas não me conformo.