Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

31.12.16

Neste fuso horário

Duas mulheres, já idosas, caminham, não sei se em direção ao centro comercial, se à igreja.
O caniche precipita-se para o meio da estrada, mas ainda não será em 2016 que acabará atropelado.
Agora que 2016 está a terminar neste fuso horário, reconheço que, pessoalmente, este foi um ano muito duro. De qualquer modo, vivo rodeado de ilusionistas...
(...)
A criança aprumada, de mochila azul, espera. Entretanto, parqueado o carro, o avô, de cigarro empertigado no canto da boca, avança. Dão as mãos, e partem rumo a 2017.

30.12.16

Apesar do ceticismo

Apesar do ceticismo de que fui dando prova ao longo de 2016, pressinto que 2017 será um ano de novos desafios que só poderão ser vencidos se não nos faltar a coragem de que os pescadores são, ao longo da História, o melhor exemplo.
O resto é vaidade! O resto é narcisismo! O resto é prepotência!

29.12.16

O frenesim da passagem

«Je n'ai jamais de chance avec les hommes." Quem o diz é a protagonista de Eugénie Guinoisseau, de Grégoire Delacourt, in Les Quatre Saisons de ´L'été, 2015.

Ao homem, nas diversas idades, falta o jeito, a constância, falta o sentimento. O homem é um bruto! Se exceção houver é porque esse homem é cândido, prefere outro homem e, nesse caso, regressa a fidelidade, a paixão, a sensibilidade... e até a bestialidade, mas não com a mulher, esse ser incompreendido, que, em cada idade, exige uma dedicação exclusiva, como se o mundo apenas fizesse sentido centrado no "corpo" e na reação que possa despertar nas feras famintas...
Saciadas, as feras abandonam a presa até que a fome regresse...
Agora que o novo ano se aproxima, o frenesim da passagem mais não é do que o voto de que tudo possa recomeçar, mesmo se por um breve instante, pois o homem é bruto...
(...)
Só não percebo, por que motivo não é permitido ao homem exclamar "Je n'ai jamais de chance avec les femmes!" Provavelmente, teria de ser poeta; só assim seria compreendido, pois a sensibilidade não lhe faltaria...

28.12.16

A viscosidade

Pouco importa o que fica para trás - nem nostalgia nem saudade! Apenas, a viscosidade desperta atenção - talvez nela possa encontrar a redenção.
Ligeira hesitação entre 'redenção' e 'salvação'. Nenhum dos termos satisfaz, pois qualquer um deles pressupõe crime (erro, falha, pecado). O que fica para trás, por muito que pese, já nada pode fazer pelo presente... 
Poder-se-ia pensar que a solução se apresentaria cristalina, mas a verdade é que a transparência anda há muito desaparecida. Longe vai o tempo da luz!

27.12.16

A espera

Outrora, talvez fosse a demanda...
Nos últimos anos, tem sido a espera. Nuns casos, a espera iguala-se à demanda, pois o objetivo continua por atingir - o graal, godot, a carta ...o inominável; noutros, a espera, apesar de repetida, é pontual, circunstanciada - o desespero, o cansaço e até a satisfação de ver o sucesso de uma operação...
Quem espera, desespera!
Hoje, pelo que fui ouvindo e observando enquanto esperava, sinto que há quem tenha muito mais motivos para desesperar, porque só a crueldade da morte os poderá libertar...

26.12.16

El coronel no tiene quien le escriba... agasta-me e empolga-me

El coronel no tiene quien le escriba, de Gabriel García Marquez

À medida que a leitura avança, o comportamento do coronel deixa-me agastado, pois prefere alimentar o galo a cuidar devidamente da esposa enferma. Na verdade quem faz das tripas coração para que não morram à fome é ela... É ela que o incentiva a vender o relógio de parede, a vender o quadro, a vender o galo, embora nunca o incentive a procurar um trabalho - derrotado politicamente, espera pacientemente que o governo lhe atribua uma pensão pelos serviços prestados à pátria na Guerra dos Mil Dias. Durante 15 anos, todas as sextas-feiras, ele espera que o carteiro lhe entregue a carta que, finalmente, reconheça o seu direito...
A novela foi publicada em 1961, apesar de escrita em 1957-58, tempo em que o autor passava fome em Paris, pois o governo colombiano ia encerrando os jornais de que era correspondente. Ao lê-la, veio-me à memória a peça de teatro "En attendant Godot", de Samuel Beckett, publicada em 1952. Pode ser coincidência, mas o coronel surge-me como reencarnação de Estragon e Vladimir à espera de Godot...
De qualquer modo, o absurdo da situação do coronel é mais politizado, pois as referências à ação política são bem mais evidentes. Desde um Governo (do general Rojas Pinilla) que não respeita os seus inimigos políticos, a uma censura que, no caso do cinema, era controlada pela Igreja que classificava todos os filmes como atentatórios dos bons costumes - anunciando o seu veredito através de 12 badaladas diárias...
(...)
O galo acaba por se tornar no símbolo principal desta novela, porque deixado pelo filho Agustín, fuzilado, representa para o coronel e para o povo de Macondo a esperança de que a ditadura terá um fim. Não se sabe é quando!
Quanto à escrita e à composição de Gabriel García Marquez é tão enxuta e tão cheia de humor que só me resta relê-lo...

25.12.16

Rafael Escalona... e a fantasia em que vivemos

Aproveito o dia de Natal para ler a novela "El coronel no tiene quien le escriba", de Gabriel García Márquez e, no avanço da leitura, descubro o compositor e trovador colombiano Rafael Escalona (1927-2009).
Aqui, registo uma das suas trovas que ilustra bem a fantasia em que vivemos:

Voy hacerte una casa en el aire
solamente pa´que vivas tú.
Despues le pongo un letrero bien grande
con nubes blancas que diga "andaluz"

Cuando Andaluz sea señorita
y alguno le quiera hablar de amor
el tipo tiene que ser aviador
para que pueda hacerle la visita
el tipo tiene que ser aviador
para que pueda hacerle la visita

Y si no vuela no sube
a ver a Andaluz en las nubes
y si no vuela no, no llega allá
a ver a Andaluz en la inmensidad

Voy hacre mi casa en el aire
pa´que no me la moleste nadie

Como esa casa no tiene cimientos
tiene el sistema que he inventado yo
Me la sostiene en el firmamento
los angelitos que le pido a Dios

Si te pregunta como se sube
deciles que muchos se han perdido
para ir al cielo creo que no hay camino
nosotros dos iremo´ en una nube
para ir al cielo creo que no hay camino
nosotros dos iremo´en una nube

Y si no vuela no sube

Voy hacer mi casa en el aire
pa´que no la moleste nadie
es que voy hacerla en el aire
pa´que no la moleste nadie

A noite de natal de 2016

A noite de natal, que se vai extinguindo, foi um pouco melhor do que a do ano anterior, não por efeito da coligação de esquerda, mas porque, estrategicamente, os participantes não se envolveram nas habituais polémicas - a visão utópica foi condescendente com a visão bem informada, realista e cética.
E convém não esquecer os ausentes, uns irremediavelmente; outros, por puro egoísmo...
Quanto à coligação de esquerda, apesar de mais otimista, nada trouxe que ajudasse a resolver os problemas dos participantes na ceia de natal.
Como banda sonora, regressou o Feiticeiro de Oz! (1939) Pelo que vejo a visão utópica continua a apreciar o filme de Victor Fleming....

23.12.16

O cinema social de Ken Loach

O filme "Raining Stones", de Ken Loach foi realizado após o termo da governação de Margareth Thatcher (1979-1990). De certo modo, pode ser lido como consequência do thatcherismo, pois mostra o estado em que vivia a classe operária na periferia de Manchester ou de Liverpool.
Os desempregados recorriam a expedientes, por vezes, à margem da lei, para impedir que a perda de "estatuto" económico e social se tornasse visível.
Curiosamente, neste novo mundo, os sindicatos desapareceram e cederam o lugar à Igreja (católica). Uma igreja que abraça a causa dos novos pobres e que não hesita em proteger o pai desesperado que, ao tudo fazer para assegurar que a filha não tenha tratamento desigual na cerimónia da primeira comunhão, acaba por contribuir para a morte do agiota que, pela força, tirava proveito da miséria social.
No essencial, o cinema social de Ken Loach ilustra bem as consequências da política levada a cabo pela coligação PSD-CDS, entre 2011-2015.

21.12.16

O Natal...

Nunca percebi se o Natal tem dono, todavia alguém inventou um Pai que faz muitas compras num mercado gigantesco para alegria de muitas crianças, apesar do número daquelas que são esquecidas ser quase igual ao das prendadas...
Por conseguinte, há crianças que riem e muitas, anónimas, apesar de terem pai e mãe, sofrem... E há também quem enriqueça à conta do negócio, sem falar dos que se empanturram como se não houvesse dia 26...
Sobre o Natal, há muitas teorias, mas aquela do menino nas palhinhas, rodeado por José, que, afinal, não era pai, e de Maria, que nunca conheceu homem, sem falar dos tristes animais, a quem naquela noite roubaram uma parte do estábulo, é a que mais me impressiona desde os tempos em que era criança...
No entanto, nunca me explicaram que, face a certas sociedades em que «o aborto e infanticídio eram praticados de maneira quase normal, de tal modo que a perpetuação do grupo se efetuava por adoção, muito mais frequentemente do que por geração, sendo um dos objetivos principais das expedições guerreiras obterem crianças»*, os sacerdotes sentiram necessidade de santificar o nascituro... Só que o escolhido foi o Filho, feito por um tempo menino...
Uma história que sempre me pareceu mal contada, mas que continua a servir de alibi a muitos comportamentos, uns dignos, outros indignos...
No Natal, sobe-me a tensão arterial!

Entretanto, Boas Festas!

*Claude Levi-Straus, Tristes Trópicos, Cadiueus.

20.12.16

Línguas de fogo...

Não sei se as metáforas ensandeceram, mas as que encontro andam tão estafadas que me apetece calcá-las e deixá-las a fenecer. Parecem ter sido moídas por um energúmeno, que atolado numa qualquer lixeira, decidisse lançá-las aos abutres de serviço na Academia ou lá como se chama o clube  de sapiências que tomou conta das universidades, politécnicos, institutos e quejandos...
Ouvi dizer que as metáforas só são pertinentes se perderem a referencialidade e ficarem a levitar no espaço cerebral dos seus criadores, deixando os leitores a decifrar puzzles irresolúveis. Basta sonegar duas ou três peças para que a metáfora se eleve acima das cabeças, para depois sobre elas poisar como língua de fogo...
O problema é que as línguas sagradas parecem ter vontade própria, pois são elas quem decide quem integra o falanstério dos eleitos, são elas quem agracia e quem deixa de fora... E os eleitos não se fazem rogados, desatam a voz, assaltam as cadeiras e ocupam-nas vitaliciamente.
Há até uns tantos, que depois de mortos, ainda continuam assombrar-nos com a sua inexplicável opacidade.   

19.12.16

Transtorno coletivo

Poder-se-á pensar que a tirania é um privilégio dos estados ou daqueles que aspiram à conquista do poder, mas, pela amostragem dos últimos anos, a violência individual serve-se (ou esconde-se por detrás) de causas mais ou menos nobres para satisfazer instintos autodestrutivos. 
Temos assim uma conjugação explosiva que levará inevitavelmente a uma permanente retaliação e à morte de qualquer tipo de humanismo que ainda possa persistir.
As mortes, por exemplo, em Alepo, em Ancara e em Berlim são a prova do transtorno coletivo em que vamos mergulhando.

18.12.16

O que mais irrita...

 
O que sobra do Império é bastante absurdo!
As portas de madeira carcomida, o metal ferrugento, os púcaros amachucados, as aves empalhadas  e depois, uma natureza defenestrada e pessoas fascinadas por uma melopeia guerreira, convencidas de que a mudança liberta, mesmo se a nova exploração as torna infra-humanas.
O que mais irrita é a quantidade de ferrugem, os arquivos mortos, a ideia de que nada vale a pena.





Está quase tudo na exposição de Antonio Ole. A bromélia, não.

O mapa do tesouro

«O governo de Passos Coelho prometeu o mapa dos diamantes a Angola, uma semana após ter tomado posse e quatro dias antes de ser derrubado no Parlamento.»

Enquanto uns esfolaram e mataram, durante 100 anos, para rastrear o território angolano, um governo desmiolado entrega o mapa do tesouro.
Gesto solidário, pensarão uns; gesto perdulário, pensarão outros.
Por mim, é mais um ato irresponsável, de desrespeito pelo passado, mesmo se de sangue.

Quanto às contrapartidas, o tempo dirá... ou talvez o Correio da Manhã.

17.12.16

Desabafo em dia de ranking

Espaço vetusto. Equipamento obsoleto. Corpo docente envelhecido. Corpo discente heterogéneo e mal preparado...

Ranking tradicional: 146 (10,85).
Ranking alternativo: 225 (0,58)

Todos os dias são esforçados, mas os resultados não premeiam o empenho da comunidade escolar.
E no próximo ano, tudo continuará...

Claro que há sempre quem olhe para o lado. Ainda por cima... para o lado errado.

16.12.16

O telefonema do Hospital Central de Lisboa

Se não formos direto ao assunto, ninguém nos segue.
Pois, faça-se a vontade de quem ainda a tem ou pensa ter!
A cirurgia estava marcada para as 11 horas. A receção no hospital Curry Cabral marcada para as 10h45.
Às 10h05, o telefonema: - o Senhor ainda está em casa? Não vale a pena deslocar-se, o anestesista acaba de avisar que não pode estar presente...

No metro, o utente do SNS desespera. (Preparara-se para a intervenção, há meses considerada urgente, desmarcando todos os compromissos previstos para a semana anterior ao Natal, não ingerira qualquer alimento, sólido ou líquido, avisara os amigos... e a agora o telefonema! Ainda pensara que estivessem preocupados, não fosse ele atrasar-se. Nada disso! E de chofre, nova pergunta: - Será que é possível realizar a cirurgia no Natal ou no Ano Novo?)

Sob chuva intensa, o paciente desloca-se à Secretaria do Hospital. A explicação não muda uma vírgula: - O anestesista não apareceu. (Já na  consulta de preparação, também marcada para uma sexta-feira, o anestesista não aparecera.) A funcionária, solícita, procura encontrar nova data na agenda - um nome de outro doente é riscado... e a cirurgia fica marcada para o dia 27, uma terça-feira, dois dias depois do Natal...

(O testemunho é do "adulto responsável", cujo dever é acompanhar o doente no pós-operatório, prestando-lhe os cuidados que o SNS passou a delegar nas famílias para evitar maiores custos.)

15.12.16

Um pássaro esverdeado

Acordo cedo. A gata arranha a porta. E não sei se acordo cedo porque a gata arranha a porta ou se a gata arranha a porta porque acordo cedo.
Ela sabe que não lhe quero abrir a porta, mas que pode tirar vantagem, pois reforço-lhe a ração da madrugada. Eu quero distraí-la do objetivo inicial, no entanto desconfio que o objetivo dela seja diferente do imaginado.
Até porque a gata, satisfeito o apetite, desloca-se para a sala, e imobiliza-se junto do computador à espera que eu o ligue... e verifique quem está online ou se, no tempo de Morfeu, algo aconteceu de verdadeiramente insólito.  E esfíngica, observa todos os meus movimentos até que eu conclua as rotinas da madrugada...
Só reage à abertura da porta que dá para o patamar... aí, ela consegue esgueirar-se e não perde a oportunidade de subir o lanço de escadas que dá acesso ao sótão. Abro a porta do elevador à espera que ela queira entrar, porém ela prefere regressar a casa ou, em alternativa, descer o lanço de escadas que dá acesso ao 11º andar.
(a escrita, neste, momento torna-se mais difícil, pois ela insiste em dar-me marradas e em digitar uns sinais ++++, o que é o menos, pois de seguida a vítima é o S. José que corre o risco de ficar sem bordão.)
A Sammy vive cá em casa como viveria em qualquer outra casa, apesar de aqui ela poder exercitar-se no varão, sem nunca esquecer o seu velho peluche - um pássaro esverdeado, reduzido à expressão mínima. Por vezes, oferece-mo... e eu agradeço.
(... )
Há uma hora atrás, perguntaram-me se iria "passar o Natal à terra". Pergunta inofensiva, mas que me surpreendeu de tal modo que eu retorqui "Qual terra?" E pensei "aquela terra nem cemitério tem!" Só agora dou conta que não posso voltar à terra, pois a Sammy não gosta de descer de elevador, embora possa voar atrás do velho peluche esverdeado...
Entretanto, já lhe prometi que, um destes dias, vamos ler  O Gato Preto, de Edgar Allan Poe:

«Não espero nem solicito o crédito do leitor para a tão extraordinária e no entanto tão familiar história que vou contar. Louco seria esperá-lo, num caso cuja evidência até os meus próprios sentidos se recusam a aceitar. No entanto não estou louco, e com toda a certeza que não estou a sonhar. Mas porque posso morrer amanhã, quero aliviar hoje o meu espírito. O meu fim imediato é mostrar ao mundo, simples, sucintamente e sem comentários, uma série de meros acontecimentos domésticos. Nas suas consequências, estes acontecimentos aterrorizaram-me, torturaram-me, destruíram-me. No entanto, não procurarei esclarecê-los

14.12.16

Eu nunca fui a Benguela!

Eu não vou à piscina!
Eu não bebo coca-cola!
Eu nunca fui a Benguela!
No entanto, o tio Vítor foi a Luanda dizer que era dono de uma piscina cheia de coca-cola em Benguela!
(...)
Eu ainda tenho um tio que conheceu Luanda, Sá da Bandeira e Benguela. (Um dia ofereceu-me um avião que esteve imenso tempo imobilizado sobre um guarda-fato!) Este tio nunca me deu conta da existência de qualquer piscina cheia de coca-cola - nem sequer na Jamba! A verdade é que este tio, que deixou Angola minutos antes do camarada Neto presidente da RPA ter tomado de posse, se recusa a contar a sua desventura africana...   
(...)
Em Luanda, parecia só haver gasosa, uns camaradas cubanos, sem esquecer os camarades sovietes a construir um mausoléu com forma de foguetão...
Em Lisboa, já ninguém sabe quem foi o camarada presidente Neto, para quem os camaradas sovietes iam construindo um mausoléu leninista... e muito menos o que é um mausoléu...
Em Lisboa, os putos nasceram todos a beber coca-cola e a ver televisão a cores, e pensam que a natureza é uma chatice... e que o passado nunca existiu.
Em Lisboa, nem na rua há putos. Estão todos online, não se sabe a fazer o quê... talvez, a experimentar o cyberbullying ou a aprender uns truques de magia para matar o tempo nas aulas de Português. 

13.12.16

O seu a seu dono

A administração do Santander afirma ter tomado, por 46 vezes, a iniciativa de propor a renegociação desses contratos, face aos potenciais prejuízos acumulados depois de 2008. Mas, na ausência de um acordo, os 9 contratos de swap, celebrados entre junho de 2005 e novembro de 2007 com a Metro do Porto, Metro de Lisboa, STCP e Carris, estão a ser julgados desde o passado dia 12 num tribunal em Londres, por iniciativa do banco espanhol.

Como prezo o rigor, relembro que os piores contratos de swaps são posteriores a junho de 2005, e que António Guterres, foi primeiro-ministro de Portugal entre 28 de outubro de 1995 e 6 de abril de 2002.
Almeida Garrett defendia, nos anos 40 do século XIX,  a criação da lei da responsabilidade ministerial que punisse todos aqueles que pusessem em causa a "res publica". Não sei se na arca do legislador existe tal lei, verifico, no entanto, que as responsabilidades continuam por apurar... o que permite que "as guerras de alecrim e manjerona" se perpetuem...
De qualquer modo, quem é que lê António José da Silva e Almeida Garrett?

Em 2013, quatro empresas públicas de transportes de passageiros consideraram inválidos os contratos 'swap' celebrados, suspendendo os respetivos pagamentos. Em causa está uma factura superior a 1.300 milhões de euros.
O Tribunal Superior (High Court) de Londres rejeitou esta terça-feira um recurso de quatro empresas públicas de transporte portuguesas, mantendo a decisão da primeira instância que determinou a validade dos contratos 'swap' com o Banco Santander Totta (BST).

12.12.16

António Manuel de Oliveira Guterres

Não é possível ficar indiferente!
António Guterres, nascido a 30 de Abril de 1949, tomou hoje (12.12.2016) posse como secretário-geral da ONU, o cargo mais distinto a que alguém pode aspirar, não pelo força que possa deter, mas porque poderá efetivamente contribuir para a construção de um mundo diferente, para melhor: mais solidário, mais pacífico e mais equitativo.
Na cena internacional, esta é a posição mais elevada que um português jamais atingiu. Um português que sempre procurou ser melhor nos estudos, na vida profissional, na vida política e, sobretudo, na defesa dos mais pobres e das vítimas das guerras e das calamidades que têm assolado os vários continentes.
Com este perfil, acredito que António Guterres tudo fará para que, doravante, o mundo seja um pouco menos triste, mesmo sabendo que a mesquinhez dos interesses lhe criará novos obstáculos, todos os dias.
Mas há que subir a montanha!

11.12.16

No reino das sombras

Um destes dias, alguém me perguntou se o "epílogo" surge no princípio ou no fim da obra... surpreso, respondi sem perceber a razão da questão. Era suposto o leitor observar o manuscrito e verificar a posição da sequência...
Entretanto, não pensei mais no epílogo até que, ao assistir ao bailado "La Bayadère", no Teatro Camões, recordei o episódio no meio do terceiro ato " No Reino das Sombras".
Não sei se por causa da duração, a verdade é que me interroguei sobre o motivo porque demoramos tanto tempo nesse reino sombrio... Afinal, dele nada sabemos!
Para nosso bem, e sobretudo dos que nos acompanham, o epílogo deveria ser breve... e quanto ao reino das sombras já era tempo de o democratizar, pois creio que por lá o poder é poeira...

10.12.16

O tempo anterior

Esquecer os problemas! Nem sempre o trabalho o consegue, pois muitos dos problemas advêm do próprio trabalho... Por estes dias, estou a contas com 'trabalhos' que revelam falta de rigor.
Falta de rigor não do momento, mas do tempo anterior - um tempo lúdico que, por ser tal, se aceitou que pudesse pactuar com o desleixe, com a desatenção e com a indisciplina... Tudo, a meu ver exógeno, mas que os cientistas do comportamento insistem em considerar endógeno; por pouco, dirão que as atitudes são inatas e, como tal, todas desculpáveis...
De qualquer modo, o que mais me preocupa é que, num tempo em que o trabalho é raro, este tempo anterior gere tanta inadaptação, tanta desorientação, tanta irresponsabilidade. 

9.12.16

Não há como o trabalho...

Não há como o trabalho para nos fazer esquecer os problemas! Sobretudo, quando, por entre tanto disparate, nos surge pela frente um jovem de 15 anos que não só leu detalhadamente a Odisseia, de Homero, como é capaz de a apresentar oralmente, captando a atenção dos colegas...
Oralmente, sim, porque a maioria cultiva a leitura, convencida de que a eficácia comunicativa é atingida com tal suporte...
Bom, não estraguemos o dia com lamúrias e consultas estafadas que insistem em ignorar o mundo que nos abraça.
Como se de finda se tratasse, remato lastimando que o Criador ande tão esquecido de que, para além de sofrer, todo o Homem deve trabalhar para ganhar o pão de cada dia...

8.12.16

Tolhido, em dia santo e feriado

Ontem, nada registei porque a tensão arterial me tolheu os movimentos, quase todos... As causas ficam por explicar... apesar de uma quota da responsabilidade poder ser atribuída ao Dédalo lisboeta que insiste em derrotar o automobilista que, de súbito, se vê a braços com a necessidade de se deslocar a vários lugares da cidade em plena hora de ponta...
Hoje, ainda tolhido, vejo-me obrigado a reduzir as tarefas, rejeitando a hipótese de me deslocar a um hospital, porque tenho a certeza de que a tensão iria aumentar de tal modo que o organismo não resistiria ao choque hospitalar. Sim, porque o SNS, em dia santo e feriado, derrota qualquer utente que decida entrar-lhe portas dentro...
Resta-me, assim, relembrar o dogma da Imaculada Conceição, padroeira de Portugal, desde o dia em que D. João IV, no Paço de Vila Viçosa, lhe outorgou a coroa, talvez por agradecimento, iniciado por D. Afonso Henriques e reforçado pelo santo Nuno Álvares Pereira, por "nos ter livrado dos nossos inimigos", apesar de Sua Alteza não ter assistido em vida à capitulação do inimigo "castelhano"...
Como já estou a ficar cansado, deixo para melhor oportunidade uma particular reflexão sobre a necessidade que deu origem ao dogma, no singular e no plural, pedra angular da Santa Madre Igreja e do Reino de Portugal e Algarve, sem esquecer os territórios situados para lá (ou no meio) do mar...

6.12.16

Pouco lhes importa...

Todos repetem que o homem é sociólogo, que nasceu em 1977, que escreve... e que recebeu o 'Prémio Sagrada Esperança', entre outros por mencionar... Fiéis ao Google, repetem que escreve crónicas, pouco lhes importando que, de verdade, escreva "estórias"... 
Por investigar, fica a origem do 'Prémio Sagrada Esperança', e no Mausoléu do esquecimento repousa o patrono... o Google poderia ter ajudado, mas não foi o caso...
(Tal como poderia ajudar a esclarecer o 'milagre" do dia 8 de dezembro, e da sua padroeira...)
Ninguém quer saber que tipo de escrita é que um sociólogo pode desenvolver quando olha para o bairro (ou para o musseque) onde cresceu - para a infância de um país que cresce junto com o seu povo. E tudo num tempo em que todos são camaradas!
E como tal, ninguém parece surpreender-se com a abundância de camaradas sovietes e cubanos - nem lá, na terra de Ondjaki, nem cá, nesta terra tão multicultural e tão alheada da sua História...
Se se lhes explica que há diferença entre 'História', 'história', 'conto' e 'estória', e que essas palavras exprimem relações de domínio e de autodeterminação, entreolham-se num desabafo mudo... Pouco lhes importa se o sociólogo transformou a sua análise dos diversos grupos que se cruzam na sua rua em "estórias" questionadoras da realidade quotidiana de um tempo que persiste em reproduzir-se...

5.12.16

Religiões e crenças

Há as religiões e há as crenças, embora eu descortine poucas diferenças.
Na religião, os fiéis procuram viver em rede, sob orientação divina. A rede, apesar de se esperar que seja horizontal, dispõe-se verticalmente, de acordo com um modelo hierárquico que acaba por gerar diferenças inaceitáveis.
Depois, ou antes, há a crença, onde cada indivíduo despreza a rede, para ficar a sós com o seu "demónio", mas que, farto de solidão, acaba por gerar cismas que desembocam em redes, também elas verticais...
(...)
É um pouco incompreensível que eu me entretenha a dissertar sobre tais assuntos, mas a ideia tem uma causa: a construção (ou será edificação?) do Templo da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias  - A Igreja Mórmon... no Parque das Nações.

4.12.16

Voluntários ou prosélitos?

Chamam-lhes voluntários, mas pelo modo como fazem barreira nas entradas das pequenas e grandes superfícies, eu vejo-os como prosélitos que abarcam causas de forma irracional.
Curiosamente, os estados patrocinam esse zelo porque lhes retira a responsabilidade de promover o trabalho devidamente remunerado, de combater a doença e de fomentar uma educação assente em valores que evitem o fervilhar das seitas, da clubite, em suma, de qualquer tipo de fanatismo.
A desigualdade e a injustiça são as causas do alastrar do proselitismo e, consequentemente, de todo o tipo de radicalismos.

3.12.16

A vida dentro de um lenço de bolso

«Necessita-se de pouco para existir: pouco espaço, pouca comida, poucos utensílios ou ferramentas, pouca alegria; é a vida dentro de um lenço de bolso.» Claude Lévi-Strauss, Tristes Trópicos, A Terra e os Homens.

O antropólogo não resistiu à síntese sob a forma de metáfora - na Ásia, na Índia, na fronteira da Birmânia, o homem, em contraste com as castas mais elevadas ou com o europeu da classe média, mais não era do que um lenço de bolso.

Nesta quadra de consumo excessivo, de esbanjamento e de desperdício, talvez conviesse recordar que cada lenço que utilizamos é o preço de uma vida... uma vida que nunca teve noção da sua humanidade.
E por este andar, uma vida que, tendo noção da sua humanidade, se arrisca a perdê-la de modo desesperante. 

2.12.16

Não é a leitura de Manuel Laranjeira que me deprime

Não sei se ainda há quem leia "Diário Intimo" de Manuel Laranjeira, e temo mesmo que se tal acontecer a sua leitura possa ter um efeito depressivo, embora eu creia que a depressão, ao contrário do que muitos apregoam, seja uma particularidade mais ou menos permanente do leitor, caso contrário não se atreveria a folhear de forma aleatória tal livrinho...

(Eu conheço uns tantos leitores a quem basta a capa e umas linhas da contracapa para formar um juízo definitivo sobre a obra. Como ainda hoje me referiram "aquilo não vai com o meu estilo de leitor".)

Estilo aparte, eu folheio os dias e deixo que olhos se percam no abismo das palavras:

Quarta, 3 de Junho

Invade-me a infinita tristeza da existência, o tédio infinito da vida, dos homens e das coisas.
Tudo é de uma instabilidade asquerosa!
Se eu pudesse ao menos - ser alegre e abafar o ruído este aborrecimento sem fim!
Às vezes lamento-me de não ter nascido estúpido, muito estúpido, como a estupidez.

O Diário Íntimo é do Manuel Laranjeira (1877- 1912), que eu não tenho diário... até porque dificilmente um estúpido seria capaz de dar conta da sua estupidez... De qualquer modo, não é a leitura de Manuel Laranjeira que me deprime...

1.12.16

Não fosse a ironia dele (A.S.)

«Refunde-se tudo, porque é na refundação que está doravante a virtude.» António Souto, 2016, Dupla Expressão Crónicas, No refundar está a virtude (Outubro de 2012), DebatEvolution - Associação.

Não fosse a ironia, poder-se-ia imaginar um cronista doutrinário. Mas não, o sujeito da escrita cultiva o olhar do pícaro que, em tempos, serviu com desvelo o poder do momento, sem, no entanto, se deixar iludir... e que com essa servidão aprendeu que, infelizmente, o futuro não é muito diferente do presente, ao contrário do prometido nos idos de abril, do seu abril, feliz - eufórico.
(...)
Agora que a tarde avança, não querendo refundar nem restaurar nada, pois essa missão é reserva do poder, vou entrelaçando o contentamento do cronista António Souto com a sensação de que tenho andado a adjetivar o tempo, de forma abusiva.
Escravo do adjetivo, crio a ilusão de uma extensão, ora material ora imaterial, que me desvincula da substância, a única que verdadeiramente pode ser incinerada...
Como tal, a leitura e a escrita são formas de incisão e de cisão em aberto...

Tempo medíocre

O episódio, em Cabo Ruivo, não terá qualquer significado, mas é revelador do modo como os CTT gerem o atendimento. Às 22:48, havia 68 pessoas em espera. Postos de atendimento:3. Funcionários, atenciosos,  sem mãos a medir.
Utentes, pacientes, na sua maioria. Havia, no entanto, a oportunista decadente, que levava a mãezinha de 90 anos, para poder passar à frente. Havia, também, o psicótico incapaz de compreender que se o sistema informático das Finanças falha, os CTT não lhe podem validar a operação que ele poderia ter resolvido no escritório ou em casa (...)
Despacho concluído às 0:08 horas do dia 1 de dezembro, data de restauração sem objeto...
Hoje, o país entrou em modo de pausa... e assim vai continuar até à próxima 2ª feira. E depois, no dia 8, o país voltará a descansar, que bem merece...
Lá fora, a chuva, a espaços...
Em Chelas, noite, apenas. Do metro saíam vultos, apressados, bamboleantes, de olhos mortiços...
(...)
E eu sem tempo para saudar as novas crónicas de António Souto - Dupla Expressão -, ed. debatevolution, apresentadas por António Manuel Venda, na Biblioteca da Escola Secundária de Camões.
Crónicas de um tempo medíocre em que o cronista vai entrelaçando episódios irrelevantes, procurando-lhes a intemporalidade em que repousam. E esse pousio é que é a causa do desencanto de que nos falaram os Antónios...