Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

29.11.16

Pouco importa...

Pouco importa se eles compreendem, pouco importa se o novo dia é frustrante, pouco importa se  nos desconsideram...
... eu trabalho para que eles tenham esperança.
No entanto, asseguro, desde já, que depois de morto, eles não poderão contar mais comigo.
De nada importará o que tenha feito, dito ou escrito.
Felizmente! Não há nada mais aborrecido do que uma assombração!

28.11.16

Só querem que eu os não defraude

Eles querem bons resultados e quando os não obtêm a culpa é minha.
E eu até estou de acordo com eles - até me encontrarem, o seu desempenho era classificado como excelente...
Tento ouvi-los, mas não consigo - não respondem ou cavaqueiam entre eles, como se eu não estivesse presente.
Tento lê-los, mas fico destroçado - não compreendem, não interpretam, não redigem com um mínimo de correção.
Alertados para a situação, não se preocupam. Deixam de ouvir.
Preferem memorizar definições estrangeiradas, descontextualizadas.
Porquê?
Porque compreender, interpretar, definir, textualizar... dão trabalho... e exigem atenção, disciplina, rigor.
E afinal eles só querem bons resultados!
Só querem que eu os não defraude... que lhes devolva o tempo em que eram felizes.
Que enfado! Para eles e para mim!

27.11.16

A posse arruína e conforta

Mesmo se desnutridos, deslavados  e engelhados, poucos são os que desprezam o luxo. Vejo-os nos passeios a olhar as montras como se a sua posse os compensasse do fracasso a que se sabem condenados...
A posse arruína e conforta. Ser o outro idealizado é tão deslumbrante que a montra deixa de ser obstáculo. Lá dentro a tentação fácil, a crédito, baila esfuziante, indiferente à sorte dos que se arrastam nas ruas e nas vielas...
Agora que o Natal se aproxima, os vendilhões ( e os seus criados) não poupam na iluminação, mesmo se os clientes desnutridos, deslavados e engelhados já não têm dinheiro para pagar a fatura de eletricidade... e vão ter que passar frio e acabar por dormir na rua...
Na quadra natalícia, o mafarrico anda à solta .

26.11.16

Tempo social

O conceito de 'tempo social' anda associado ao desenvolvimento industrial, à urbanização e ao surgimento de novas tecnologias... com início no século XIX.

Para mim, o tempo social é um pouco diferente. Vejo-o constituído por um conjunto de indicadores de uma ação externa que determina a atitude do indivíduo em qualquer idade, estando presente em todas as épocas e em todos os lugares, mesmo que o avanço civilizacional seja reduzido.
Nesta perspetiva, a ação de cada um de nós é condicionada por cronótopos distintos, em função do lugar, da idade e das instituições que nos enquadram.
Deste modo, a liberdade individual não passa de uma quimera, como bem sabem todos os rebeldes que um dia sonharam e quiseram incrementar uma qualquer forma de revolução. E por mais que nos custe, a indisciplina é, também ela, a prova de resistência ao tempo social, que, por vezes, deve ser pensado na sua pluralidade... Do sonhador Fidel de Castro nada tenho a dizer, embora ainda não tenha parado de pensar no comentador de 'política cubana' que, na RTP 1, afirmou que o americano Trump irá ajudar a "amortizar a morte de Fidel"...
AMORTIZAR A MORTE!

Enfim, em todos os atos que, hoje, executei, vejo com dificuldade que tenha iniciado algum que não fosse determinado pelo cronótopo em que me inscreveram - fazer compras, classificar testes,  ir à Cinemateca ver o filme de Raffaello Matarazzo, CATENE, estacionar num parque que me cobrou 5, 25€ por duas horas... até as lágrimas despoletadas pelo melodrama, sem esquecer este apontamento.

25.11.16

Idadismo, o que é?

- O que é o idadismo? A palavra existe?
- Sim, existe como designação de uma atitude discriminatória em relação às pessoas idosas.

No Auditório Camões, a Associação "Cabelos Brancos", criada por duas "jovens" Ana Caçapo e Luísa Pinheiro, promoveu uma "tertúlia" sobre o tema "idadismo", tendo como convidados Bernardo Barata e Carlão, distintos produtores, compositores e músicos. 
Esta atividade, incluída no PAA da Escola Secundária de Camões, visa provocar nos jovens estudantes  do ensino secundário uma nova abordagem do processo de envelhecimento.
Através de perguntas dirigidas aos convidados - "Como é que cada um pensa a sua velhice?"; "Já se imaginou velho?"; "A idade limita o exercício da profissão?"; "A vida na estrada contribui para um bom ou mau envelhecimento?" -, a moderadora procurou que a plateia juvenil se questionasse sobre a sua relação com os idosos... e também com a idade, pois parece que, afinal, sempre existe um "antes" e um "depois"... ou ainda será cedo para pensar nisso?
Não querendo deixar, aqui, nenhuma apreciação crítica, registo a boa receção das turmas presentes e, em particular, a colaboração de alguns alunos, recentemente chegados a Portugal, e com entendimentos distintos do nosso modo de encarar o envelhecimento. 

24.11.16

Não sei se é do frio...

Não sei se é do frio, mas sempre que o Inverno se anuncia, os burocratas da avaliação regressam.  Querem dar dignidade ao sistema que não se sabe se começa nas escolas e termina nos exames ou, pelo contrário, se os exames condicionam de tal modo o trabalho do professor que este não passa de uma marionete governada por "doutores", editoras, encarregados de educação, sem esquecer o pessoal de cada partido que vai ocupando os salões das fundações, dos institutos, dos ministérios, das secretarias regionais, camarárias e outras que tais...
O professor, à mercê dos interesses do momento, já não faz parte desta narrativa... a não ser que seja tão bestial que, também ele, consiga engrossar a fila dos fregueses que se preparam para dividir entre si o bolo orçamental.
Agora, são os alunos que vão ver alterados os modos de avaliação; amanhã, serão os próprios professores...
E o pior são os patinhos que acreditam que as migalhas lhes vão chegar, quando a lei, há muito, os condenou a não sair do charco... 

23.11.16

O étimo

Aluno: - Qual é que é o étimo?
Professor: - É sempre o defunto!

E ao defunto não se pede que se mova... Dos filhos, legítimos ou bastardos, já não se pode dizer o mesmo, a não ser que tenham, também eles, ficado pelo caminho.

Ora, digam lá, quem é que quer ser étimo?

«E por en tenh' eu que é mui melhor
de morrer homem mentr' lhi bem for.»
     Martim Moxa

22.11.16

Da variante africana da língua portuguesa

Na questão das variantes da língua portuguesa, começo a interrogar-me se fará sentido ensinar que há uma variante africana, designação tão genérica que pouca informação nos conseguirá dar sobre o verdadeiro resultado do contacto do português com as línguas locais.
Em territórios extensos e distantes, polvilhados de culturas diferentes, só um estado despótico poderia realizar a homogeneização da expressão dos cidadãos... Como bem sabemos, nem em todos os territórios, tradicionalmente, considerados de expressão portuguesa, há estados, democráticos ou despóticos, capazes  de assegurar a escolarização das populações...   
E mesmo que cada estado conseguisse definir uma política da língua, nunca o faria em nome de uma entidade abstrata, no caso a variante africana.
(...)
Entretanto, em Portugal, os jovens de 15 / 16 anos, que supostamente dominam a variante europeia, vão confessando, por exemplo, ao ler Ondjaki, que compreendem e falam quotidianamente a língua d' "Os Da Minha Rua"...
O que me deixa a pensar que a distante e polvilhada rua africana desagua cada vez mais nas nossas escolas, europeias e portuguesas, sem ser necessário pisar solo africano. Mas fá-lo num registo muito empobrecedor!
(...) Quanto à variante brasileira, o melhor é começar a gravar os «papos» nos centros comerciais, nos cabeleireiros, nos bares e nas fachadas dos prédios...

21.11.16

Nem sei como explicá-lo

Nem sei como explicá-lo, mas é como se o  tempo pudesse ser representado por uma casca espessa, cheia de nós cada vez mais difíceis de interpretar e, em simultâneo, por uma película tão fina que não suporta qualquer enraizamento...
Por mais que se insista que a árvore tem raízes milenares, que é necessário observar o seu crescimento e ramificação, a verdade, mesmo se provisória, é que a folha se move ao sabor da chuva e do vento, à mercê do frio e do calor.
Por um instante, a película parece ganhar consistência, mas rapidamente se perde na confusão dos dias.
Li, há uns minutos, um queixume sobre o ocaso dos amigos, e não pude deixar de pensar que a história de cada vida se assemelha ao curso da folha que já nem o rouxinol ousa travar.  

20.11.16

Impossível, hoje!

«As viagens são consideradas geralmente como sendo uma deslocação no espaço. É pouco. Uma viagem inscreve-se simultaneamente no espaço, no tempo e na hierarquia social.» Claude Lévi Strauss, Tristes Trópicos

A sucessão de lugares, a vertigem do percurso, o tempo insuficiente para encurtar a distância, como se os intervalos nada pudessem contar, apenas dourados estéreis fastidiosos - a viagem...
O espaço só ganhava consistência se houvesse um pouco mais de tempo - raro. Impossível, hoje! E quando espaço e tempo confluíam, isso significava, por um lado, mais folga financeira e, por outro lado, descoberta de desnivelamento social - de desigualdade.
Por aqui, é a bananeira que expõe um cacho de bananas contra a chuva e contra o frio, insistindo numa viagem condenada ao malogro...
Acolá, é a Fundação Calouste Gulbenkian que mostra As Linhas do Tempo que a regem, como se a viagem pudesse ser nossa (1986-1956-2016). A entrada é livre e gratuita!
O difícil é ficar indiferente à riqueza que permite este festim do gosto que inebria e que convida à viagem...
Por mim, hoje, o meu pensamento está com a bananeira...

19.11.16

Na praça José Fontana

O projeto assenta em 38 turmas. Hoje, as turmas são 42. O espaço é o mesmo - consequência: as salas vão aumentar de área, podendo, assim, aumentar o número de alunos... ou, pelo, contrário, as salas vão diminuir de área, de modo a criar gabinetes de trabalho...
Diz-se que o investimento é de 12 milhões de euros para escorar o edifício, modernizá-lo e, pelos vistos, deitar umas salas abaixo. Ou não será nada disto?
Há uns anos, o investimento era de 20 milhões para escorar o edifício, acrescentá-lo, em pisos e salas. O acréscimo não causava problema, o que incomodou muita gente foi a vintena de plátanos que insistem em florescer nos pátios...
Desconfio que daqui a uns anos, nada disto será problema. O tempo tudo cura!   

18.11.16

O Deus deste dia é brasileiro!


Para que diacho fui eu colocar-me "entre ruínas"?
Deus não perdoa! Na sua sapiência infinita, entra por este blogue e provoca-me, acusando-me de não o acolher devidamente - afinal, ele espera que eu lhe solicite ajuda...
Desconfio que o Deus deste dia é brasileiro: os pronomes não enganam (você / seu)... sem esquecer o "relacionamento".
Pessoalmente, preferia estar numa 'relação' com um Deus que me ajudasse desinteressadamente. Afinal, não sou eu que o impeço de cumprir a sua missão.

17.11.16

Por entre ruínas

«A verdade é sempre provisória.» José Fernandes Fafe, A colonização portuguesa e a emergência do Brasil, Círculo de Leitores, Temas e Debates, 2010.

Se a verdade é sempre provisória, o que dizer da mentira?
Provavelmente que, com o tempo, o que era certo deixa de o ser.
Talvez tenha sido por isso que inventaram as religiões - a melhor maneira de contrariar a ideia de que a "morte é certa"...
Dizem-me que os Estados Unidos da América prosperaram porque a religião calvinista admitia que o capital seria a chave da redenção do indivíduo...
Dizem-me, também, que o Brasil se atrasou na redenção capitalista, porque a religião católica sempre foi um entrave ao sucesso da pessoa, porque esta vivia vigiada pelo dogma de fonte divina... isto é, romana...
Por mim, que nada sei, espanta-me que, em 2017, Estados Unidos e Brasil possam vir a viver em convulsão permanente, como parecem anunciar os apelos à guarda pretoriana.

E nós, por aqui, na boca do túnel, por entre ruínas...

16.11.16

Os professores bestiais são raros!

«Basta que (...) para que, nas carteiras, os olhos adquiram outro brilho e o silêncio se torne explicitamente natural e fecundo.» Mário Dionísio
 
Já não basta que o professor se afaste do conteúdo a memorizar ou da resposta a dar!
Logo que as raízes procure explicitar, a interrupção é inevitável " mas isso é história", "mas isso é português antigo ou nem isso - latim, talvez!".
Logo que procure explicar que o nome próprio contém uma história por achar, uma responsabilidade acrescida, um sentido de pertença a não alienar, o silêncio que nunca chegou a ser desfaz-se em grunhidos e em sorrisos gulosos...
Logo que pressinta que tem que voltar a explicar que a comparação são dois termos em que a substância do segundo serve para dar conta da bestialidade do primeiro, alvoroçam-se as mochilas e vão "sa via"  / ou à sua vidinha.
(...)
Para tudo há uma explicação: - os professores bestiais são raros!
 

15.11.16

Nos 100 anos de Mário Dionísio

Para que não se construa o futuro sem memória!

Nos  100 anos de Mário Dionísio, exposição cedida pela Casa da Achada.






Esta exposição pode ser visitada até ao dia 24 de Novembro nas Caves da Escola Secundária de Camões.




14.11.16

Os campos de jogos


Abandonados há anos, os campos de jogos tiveram um custo. Qual? Ninguém quer saber.
Desaproveitados há anos, os jovens não podem exercitar-se ao ar livre, o que também tem um custo. Qual? Pouco interessa se a Higiene e Saúde são descuradas!
Ao longo dos tempos foram identificadas as razões para tal abandono. Não sei se hoje ainda são as mesmas, a verdade é que os arbustos ocupam, imperturbados, os campos de jogos... e os responsáveis dormem, também eles, o sono dos justos.
Com o decorrer dos dias, o assunto vai caindo no esquecimento, e a natureza agradece!


13.11.16

Breve

Não gosto do título "Carta aberta ao Marcelo" do Diretor do DN, Paulo Baldaia! (DN, 13.11.2016)
Embora no artigo, Paulo Baldaia se dirija sempre ao Exmo. Senhor Presidente, a familiaridade do título banaliza a função do presidente da República portuguesa...
Talvez Paulo Baldaia se tenha deixado arrastar pela imagem do presidente da República a estender roupa para as televisões na Cova da Moura...
Neste caso, Paulo Baldaia transforma o DN num jornaleco. Ao Diretor do DN exige-se mais decência...

12.11.16

Por uma escola decente!

Não sei se o senhor ministro da educação faz ideia do nível de língua dominante nas escolas portuguesas. Nem sei se tal preocupação existe... A verdade é que surgem todos os dias testemunhos da pobreza linguística em que a comunidade escolar mergulhou...
A informalidade popular assentou arraiais escorada num único pilar - o calão - linguajar universal tão banalizado que os locutores nem consciência têm do que vão papagueando. De qualquer modo, a promoção do indivíduo (que não da pessoa!) estriba-se na força ilocutória do palavrão...
Já lá vai o tempo em que se defendia uma 'escola participativa'; agora, refere-se muito a 'escola de qualidade'.
Creio, no entanto, que a escola de hoje é o lugar da indecência, da bufoneria... uma escola que aliena, porque favorece o 'indivíduo' em detrimento da 'pessoa'...
Como eu gostaria de estar enganado!

11.11.16

Lição menor

«Envio-vos como ovelhas para o meio dos lobos; sede, pois prudente como as serpentes e simples como as pombas. Tende cuidado com os homens...» São Mateus, Livro II

Embora entenda a mensagem, tenho cada vez mais dificuldade em aplicá-la, pois já não sei como distinguir as serpentes das pombas.
Por outro lado, se observarmos de perto verificaremos que pombas e serpentes se movem pelo interesse que, para simplificarmos, designamos por instinto...
Em conclusão, a prudência também nos pode defraudar.

10.11.16

Dispersei-me mais uma vez!

Dispersar: Fazer ir para diferentes partes.
Dispersão biológica: conjunto dos processos que possibilitam a fixação de indivíduos de uma espécie num local diferente daquele onde viviam os progenitores.


Hoje, fui acusado de dispersão!
Lembrei-me, de imediato, do professor e comunicador Vitorino Nemésio. Não podendo ombrear com tal referência da cultura lusófona, pus-me a pensar se a acusação não teria origem numa qualquer doença do espírito... Consultei três dicionários, um de Filosofia, outro de Psicologia e, finalmente, um de Psicanálise. Nenhum deles aborda a "dispersão" como doença mental...
Insatisfeito, ainda pensei nas recentes neurociências, mas sem resultado... até que dei comigo a magicar nos processos migratórios e, em particular, nos degredos a que foram condenados milhões de homens, mulheres e crianças na Alemanha, na URSS e na China ( ver 'Gulag'), só para me situar no séc. XX.
Neste momento, dou conta que já entrei em dispersão, embora sem vítimas, penso...
Não sei se desista, porém apercebo-me que a acusação é a expressão do desprezo absoluto do que de positivo e de negativo a História oferece - um desprezo gerado pelo sistema de ensino que, alguns, ainda designam por 'sistema educativo'...

Sem saberem, os acusadores acusaram-me de os 'querer fazer sair' do habitat em que se sentem confortáveis - a caverna da alegoria... de Platão. A minha luz está a apontar-me o dedo " não digas nada, esquece Platão, a caverna, e nunca pronuncies a palavra 'alegoria'... limita-te ao Pavlov, mas nunca o cites".

Peço desculpa! Dispersei-me mais uma vez. Vou regressar à caverna... E acabar com as hiperligações!

9.11.16

A consequência

«Quem semeia ventos, colhe tempestades.» provérbio

Acordei cedo e esbarrei na incerteza.
No entanto, o resultado já não oferecia dúvida.
E pensei: - O que é que irei dizer aos meus jovens alunos sobre o futuro determinado por estas eleições americanas?

De súbito, o provérbio esclareceu-me a resposta. Donald Trump abateu-se sobre todos nós como uma tempestade. Esta, porém, mais não é do que a consequência. De nada serve querer, agora, exorcizá-la.  
Porquê?
Porque não há consequência sem causa, ou seja, o problema foi criado por todos aqueles que, nas últimas décadas, soltaram os ventos da desigualdade e da iliteracia... ( as dinastias, as oligarquias, as plutocracias...)
Por enquanto, vou esperar que depois da tempestade surja a bonança... e que não seja necessário elevar uma forca em cada praça...

8.11.16

As eleições nos Estados Unidos

A imprudência é um comportamento que, creio, deve ser imputado à ignorância. Ora, nos países mais ricos, dominados pelas elites mais esclarecidas, servidos por tecnologias de ponta e por armamento cada vez mais sofisticado e destruidor, há cada vez mais pobres cujo acesso à escola não vai além dos rudimentos necessários à sua identificação.
Identificação que não identidade! Estes ostracizados têm em comum o desprezo absoluto pelo cosmopolitismo e pelo liberalismo, pois este encontrou meios de os marginalizar, amputando a liberdade a todos prometida...  Liberdade, em termos de sucesso individual no seio da comunidade, apenas reservada aos acumuladores de riqueza.
Aquilo a que estamos a assistir nos Estados Unidos é à destruição da democracia através da subversão total do conceito de liberdade.
Depois do acentuar das desigualdades, do colapso das doutrinas da fraternidade, laicas ou religiosas, entrámos num tempo em que, através do voto, a imprudência pode tornar-se um instrumento de terror e de caos.
A questão já não está em saber quem ganha as eleições, mas em perceber se a partir de amanhã restará de pé algum pilar do sistema democrático. Ou seja, se não iremos assistir ao enterro dos pais fundadores...   

7.11.16

Da imprudência

«Na sociedade estado-unidense reina a liberdade de culto e não há religião de Estado. Porém, com os que não professam nenhuma religião essa tolerância diminui. Porque a sociedade é fundamentalmente e esmagadoramente religiosa (desta ou daquela Igreja, desta ou daquela seita). Daí que, se um negro pode ser presidente dos Estados Unidos, um ateu ou um agnóstico... pomos dúvidas.»  José Fernandes Fafe (2010), A Colonização Portuguesa e a Emergência do Brasil, pág. 63, Temas e Debates / Círculo de Leitores.

Se, amanhã, Donald Trump ganhar as eleições, as fronteiras elevar-se-ão no interior da União. O grande império americano chegará ao fim, à semelhança do que aconteceu com a URSS.
E nós, ficaremos à mercê dos ventos da discórdia...
Por hoje, resta-me a esperança de que José Fernandes Fafe tenha razão, pois não conheço o Deus de Trump, embora pressinta que os fundamentalismos o sirvam fielmente.

6.11.16

O pai foi em viagem de negócios

Emir Kusturica nasceu a 24 de novembro de 1954, já no final do período informbiro (1948-1955), tempo em que Tito rompeu com Staline... A palavra informbiro designa o modo pelo qual os Jugoslavos se referiam ao Cominform, uma abreviação para "Secretariado  de Informações".
É dessa época que Kusturica extrai o argumento do filme "Otac na Sluzbenom Putu"  (O pai foi em viagem de negócios), realizado em 1985.
Quem nos conta a história é o pequeno Malik que, de início, acredita que a ausência do pai se deve a negócios, mas que, com o tempo, perceberá que a razão é outra. O pai, apesar de deportado pela polícia política ... foi vítima de cupidez.
Malik conta-nos, assim, a odisseia da família num cenário político de traição e convenção, em que o dinheiro acabará por ser o único valor.

5.11.16

Afinal, eu não sou geek!

Chamada de “Davos para Geeks”, a Web Summit realiza-se entre 7 e 10 de novembro no Meo Arena e Feira Internacional de Lisboa (FIL), e traz consigo vários eventos paralelos que juntarão os mais institucionais e os mais informais, em momentos de discussão, mas também de descontração, como a Night Summit e os Pub Crawls ou a Surf Summit, que arranca hoje na Ericeira.
Os bilhetes para a Web Summit custavam 900 euros cada um. Para jovens entre 16 e 23 anos, a organização vendeu ainda milhares de bilhetes promocionais a nove euros.

Afinal, eu não sou 'geek'! Estou fora do padrão de peculiaridade ou de excentricidade  que carateriza estas 'pessoas'. Tenho bem mais de 23 anos e o que ganho não me permite adquirir um bilhete por 900 euros para este evento... Provavelmente, esta minha ausência acabará por significar que eu sou qualquer coisa como 'uma não pessoa', fazendo, desde já, parte da 'peste grisalha', que não merece qualquer respeito... até porque na Web Summit pouco restará da língua portuguesa.
Há, no entanto, algo que eu posso assegurar é que, de 7 a 10 de novembro, ninguém me apanha no Parque das Nações...  

Geek (pronúncia no IPA: [ˈgiːk]) é um anglicismo e uma gíria inglesa que se refere a pessoas peculiares ou excêntricas, fãs de tecnologia, eletrônica, jogos ...

4.11.16

Ser diretivo

Depois de tanto tempo a desconstruir, decidi que, doravante, serei muito mais diretivo...
O que é que isto significa?
É simples! A construção do 'novo' círculo esgotou-se - a liberdade extravasou de tal modo que a comunicação definhou...
O anseio voltou a ser de clausura - eliminação da razão e aposta em tarefas que matem qualquer tempo de partilha construtiva...
É como se a consciência se tivesse esfumado ou a ciência tivesse perdido o sentido da sua edificação.

Ser diretivo é levar a cabo um processo de robotização.

3.11.16

Operação Zeus

Vivir a la ocasión. El governar, el discurrir, todo ha de ser al caso. Querer quando se puede, que la sazón y el tiempo a nadie aguardan. Baltasar Gracian, Oráculo manual y arte de prudencia.

Tudo leva a crer que chegámos a um ponto em que a ocasião faz o ladrão. Não há dia em que não decorra uma investigação a crimes de corrupção ativa e passiva. Desta vez, está em curso 'a operação Zeus'. Pobre Zeus!
Lá vai o tempo em que a honestidade (a honra) determinava os limites à ação humana, exigindo uma resposta rápida e adequada a cada situação, e na medida do saber e do poder de cada indivíduo.
Desprezados o saber e a honestidade, cada um deita a mão ao que pode, uns de forma discreta, outros à tripa forra.

2.11.16

A circunstância

Hay a veces entre un hombre y otro casi otra tanta distancia como entre el hombre y la bestia, si no en la substancia, en la circunstancia; si no en la vitalidad, en el ejercicio de ella.
                           Gracián, Baltasar: El discreto

A diferença não se encontra na substância, mas, sim, na circunstância. Um ditador na Venezuela, na Guiné Equatorial, na Turquia, na Síria, na Coreia do Norte, na Rússia ou a caminho da Casa Branca, não se distingue, em substância, dos condenados à morte, ao desemprego, à pobreza - à miséria, tout court.
De facto, é a circunstância que permite que uns tantos se apropriem do poder - não interessa, aqui, a sua natureza - para esmagar as restantes criaturas... E a circunstância, como se sabe, é feita de espaço e de tempo de que o ditador se vai apropriando para melhor gerir a sua bestialidade, apesar de, neste caso, a propriedade nada dever a quem carrega o peso da falta de alma...