Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

30.6.16

A inocência do diretor do Museu da Presidência

«O Diretor do Museu da Presidência da República, Diogo Gaspar, é suspeito de levar para a sua residência de férias, no Alentejo, quadros e estátuas da instituição.»

Estou convencido de que o Diretor da Museu da Presidência, Diogo Gaspar,  levava as obras de arte para casa para as poder estudar sossegadamente. Os ex-presidentes eram muito espalhafatosos (Sampaio e Cavaco) e estavam sempre a interpelá-lo sobre os temas, a perspetiva, as cores, os materiais, o claro-escuro, a adequação ao lugar...
Se forem chamados a depor, Sampaio e Cavaco darão certamente testemunho dos fins de tarde, em que Diogo Gaspar, depois do apurado estudo provinciano, lhes satisfez minuciosamente a curiosidade.
Só esse zelo e abnegação podem explicar a necessidade sentida pelos ex-presidentes da República de o condecorar...

A luz verde do senhor Wolfgang Schäuble

O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, declarou esta quarta-feira que Portugal precisa e deve pedir um novo programa de ajustamento. Mais, acrescenta o governante alemão, se o fizer terá 'luz verde'.

Este alemão, apesar do recuo, disse o que a Alemanha quer de Portugal. Por mais que os nossos governantes se contorçam nas cadeiras ou inventem soluções para "esconder" a dívida dos bancos, das empresas, do estado e dos particulares, o caminho está à vista de todos... 

Penso que deveríamos levar a sério o conselho de Wolfgang Schäuble, e dizer-lhe que, em Portugal, "luz" e "verde" são termos incompatíveis... 
O senhor Wolfgang Schäuble, para além, de deixar de fingir que se precipitou, o melhor que tem a fazer é dar um pouco mais de atenção à cultura portuguesa, até porque nela encontrará muita da prepotência que o caracteriza.

29.6.16

Um exemplo de ironia: a excecionalidade da retenção

O Ministério da Educação defendeu que cabe às escolas decidir se um aluno com muitas negativas passa ou não de ano, no âmbito do caráter de excecionalidade das retenções previsto na lei, interpretado de forma livre pelos estabelecimentos.

Leio a nota do ME, tendo no horizonte a recomendação do FMI de que Portugal necessita de reduzir o número de professores, e eu concordo não com o ME mas com o FMI...
Há alunos que transitam com 7 classificações negativas e outros não. Transitam para onde? 
Pois, deve ser para o ano seguinte. E o que é que fazem no ano seguinte? Dão cabo da turma em que são inseridos e fazem perder a paciência ao Diretor de Turma, sem esquecer os pobres dos professores, às voltas com as chamadas estratégias de recuperação e / ou de enriquecimento. 
Muito da depressão dos docentes tem origem nesta trapalhada, em que muitos chutam para a frente de qualquer modo, porque é considerado incorreto reter o aluno ou, em alternativa, criar turmas de nível.
O insucesso não é apenas resultado da retenção. Em muitos casos, ele é fruto da transição. Há, por aí, muito sucesso individual que tem contribuído para o atraso estrutural deste país.
Não consigo entender por que motivo não são criadas turmas de nível nas disciplinas estruturantes, como Português, Matemática, Língua Estrangeira, História, Filosofia... com os recursos docentes e pedagógicos mais adequados.
Sim, mas para isso, o ME tem de se instalar nas escolas, averiguar o que lá se passa e disponibilizar os recursos financeiros necessários.

Nota final: a figura da autonomia pedagógica é, neste caso, uma boa desculpa para a (ir)responsabilidade do ME.


28.6.16

A ironia não é coisa séria!

Eu raramente leio a revista Visão. Não por falta de visão, mas por falta do vil metal. No entanto, quando o faço, consulto sempre a ficha técnica para verificar se o meu antigo aluno, Filipe Luís, por lá continua. Lembro-me dele, porque integrava uma turma do 9º ano (Escola Secundária de Santa Maria - Sintra) de boa cepa - vários alunos mostravam-se competentes no exercício da escrita, tendo já iniciativa jornalística e radiofónica...
Esta memória, creio que está correta, mas pode ser o resultado de "um desmiolado" capaz de "vender a própria mãe para dispor de acesso livre ao Estado" ou, em alternativa, uma daquelas "pessoas de bem que se servem dos gays para se promoverem". Esta classificação, um pouco contraditória, tem autoria: o sociólogo Alberto Gonçalves.
Quem, de vez em quando, lê os meus desabafos, sabe que eu tenho especial apreço por este sociólogo, que eu costumo encontrar ao domingo no Diário de Notícias. A verdade é que não esperava encontrá-lo na Visão, mas, afinal, ando mal aconselhado - ele deve estar um pouco por toda a parte, a destilar o ódio que nutre pelo PS...
Desta vez, o principal alvo é a sua direita que anda cega, o que me leva a pensar, provavelmente, de forma incongruente, que a ironia é um tropo incompreendido pela direita. A ironia não é coisa séria!
E curiosamente lembro-me que sempre me afligi quando os meus alunos não conseguiam perceber se aquilo que eu lhes dizia "era a sério ou a brincar"... 

(Visão, 8 junho 2016, última página.)

27.6.16

Renovação geracional

Num tempo de globalização e de mudança tecnológica constante, esperar-se-ia que aqueles que mais tempo trabalharam cedessem o lugar aos mais jovens. 
Essa substituição seria naturalmente regenerativa, porque traria nova energia, novas ideias e, principalmente, uma superior capacidade de lidar com a mudança...
Por exemplo, na educação, esse processo de substituição traria uma aproximação geracional que, em si, só poderia reforçar o clima relacional e, consequentemente, acelerar o desenvolvimento cognitivo...
Por essa Europa fora, as gerações mais velhas, em nome do statu quo, opõem-se à mudança, sempre que ela significa integração e aceitação do outro... 
Mas não são apenas os mais velhos, são, principalmente, os governantes que não compreendem que só a renovação geracional pode dar sentido à vida daqueles que, apesar de mais habilitados, se arrastam e fenecem pelas vilas e cidades e, ao mesmo tempo, garantir o futuro dos mais idosos.
Caso não consigamos fazer a tempo e de forma honrosa essa renovação, acabaremos, todos, mais pobres, mais revoltados e mais tristes.

26.6.16

Documento de orientação para reuniões de final de ano

Transcrição de documento disponibilizado por Paulo Guinote. 
Já por cá ando ao serviço do Ministério da Educação há mais de 41 anos, e nunca vi nada tão completo.
Burrocracia2

Ontem

Não sei se o jogo Portugal - Croácia merece tanto frenesim, mas a verdade é que Portugal passou esta etapa. 
Só não compreendo é que com tão bons jogadores, a bola não chega ao Cristiano Ronaldo.
O melhor seria, talvez, pedir a Nossa Senhora de Fátima que o Fernando Santos ponha o Renato Sanches a jogar de início e já, agora, que o autorize a rematar.
(...)
Não sei se, ontem, aconteceu alguma coisa mais neste país. Parece-me que o Fernando Pimenta ganhou o campeonato da Europa, mas não o de futebol...

PS. O canoísta Fernando Pimenta conquistou, no campeonato da Europa, duas medalhas de ouro, em Moscovo: K1 5000 e K1 1000.


25.6.16

Da miséria humana

Que haja perto de três milhões de refugiados na Turquia ou que a população sénior do Reino Unido, porque não gosta que a paisagem humana se modifique, tenha votado a favor da saída da União Europeia são questões de pouca monta.
No Sul da Europa, o mais importante são as festas, a praia, a comidinha, o futebol e até a religião - as seitas proliferam com os seus escaparates móveis...
Pelo que acabo de observar, na  primeira página de um pasquim,  vinga a mesquinhez, pois, não podendo humilhar antecipadamente Cristiano Ronaldo, coloca-o numa posição dúbia...

24.6.16

Na noite do Brexit...

Na noite do Brexit, Marcelo e Costa participaram no S. João no Porto. Amanhã, não irão perder o jogo de Portugal contra a Croácia.
Só se S. Cristiano Ronaldo não nos fizer ganhar a eliminatória é que despertaremos para o afundanço financeiro e para o retrocesso económico...
Entretanto, o partido alemão já começou a acusar a "geringonça" de nos estar a colocar a jeito para o caos que se avizinha, como se Passos e companhia não tivessem fortemente contribuído para engordar o partido dos eurocéticos. 
Com esta classe política, não vamos lá! 
O melhor seria aproveitar a próxima vinda do Papa a Portugal para, pelo menos, beatificar o Cristiano Ronaldo... e deixarmo-nos definitivamente de políticas...

(Nos bastidores, está a ocorrer uma interessante mudança de diretores nos jornais. Porque será?)

23.6.16

Os exames deveriam ser realizados ao princípio da noite

Ana Allen Gomes lembra que existe, inclusivamente, investigação que sustenta a marcação de exames, a partir da adolescência, para o período da tarde, com início às 15h00. E quando assim é "adolescentes e jovens adultos têm mais oportunidades de obter uma duração de sono adequada na véspera do exame".
 
Eu acredito na ciência meridional, sobretudo, quando ela, para assegurar que os jovens tenham dormido e repousado o suficiente antes das aulas e dos exames, defende que eles devem passar as manhãs - até à hora da sesta? - na caminha... 
As madrugadas já não são o que eram! Imagine-se que os capitães de Abril, na noite de 24, tinham ido para as docas, dormido até tarde, e iniciado a marcha ao entardecer...
 
Explicaram-me, em tempos, que "o adolescente" era um produto dos liceus. A criança, em vez de entrar de súbito na vida adulta, passou a viver um intervalo de escolarização que permitiu gerar essa nova fase de maturação, que foi designada por adolescência...
Entretanto, com a extensão da escolaridade obrigatória e a criação de vários graus no ensino superior, os adolescentes passaram a ser considerados jovens adultos. Só não se sabe é quando que esta nova fase termina: aos 30, aos 40 anos?
Caso esta minha reflexão resulte de alguma ciência, a verdade é que trabalho atualmente para um ministro da educação - jovem adulto. A esta hora, já o ministro terá lido a tese da cientista Ana Allen Gomes...
Em conclusão, espero que, no próximo ano letivo, mesmo que os exames não possam ter início ao anoitecer, comecem às 15h00, em ponto...

A shadenfreude do Correio da Manhã TV...

«Il existe un joli mot allemand, Shadenfreude, la jouissance de l'infortune d'autrui. C'est ce sentiment qu'un journal doit respecter et alimenter.» Umberto Eco, Numéro Zéro, page160, Le Livre de Poche.

Cristiano Ronaldo é, apenas, o alvo de maior renome de que o grupo Correio da Manhã se serve para proporcionar prazer à custa da desgraça alheia.
Acidentes, incêndios, rixas domésticas, casos de corrupção, todos servem o mesmo objetivo: lucrar com a boçalidade do espectador e do leitor. E por isso, as " imagens" são repetidas à exaustão; as notícias são recicladas, desenterrando o lado obscuro da vida dos próprios defuntos, como acontece, por exemplo, com as alusões mais ou menos explícitas ao pai do Cristiano Ronaldo...

Perante este jornalismo, de tipo abutre, por mais que critiquem o Cristiano Ronaldo por ter atirado o microfone ao lago, eu compreendo-o perfeitamente - Quem não se sente não é filho de boa gente!

22.6.16

Não gosto de empates nem de empatas

Não é por nada, mas não gosto de empates nem de empatas. Na vida, como na bola, o empate não serve ninguém.
Por esta hora, sinto-me feliz. Vou esperar por sábado, ciente que, no jogo, o empate não é solução. Como eu gostaria que esta minha confiança fosse extensiva à vida política portuguesa. 

21.6.16

Estaremos a ficar desenvergonhados?

«...ça signifie que nous sommes en train de perdre tout sentimento de honteUmberto Eco, Numéro Zéro, page 232, Le Livre de Poche.
(Já não sei se estamos a ficar desenvergonhados ou se nunca aprendemos a ter vergonha.)
Esta minha indecisão é filha de um estado contraditório em que a educação judaico-cristã me fez respeitar certos princípios (valores?), como os do pudor, da responsabilidade e da honra. Sempre que desrespeitasse alguma destas regras, deveria sentir vergonha, confessar o pecado e arrepender-me... Por outro lado, Nietzsche e Freud alertaram-me para o peso excessivo da censura cultural e pessoal, deixando-me a balouçar entre a autocrítica permanente e um certo tipo de libertinagem, bastas vezes, antissocial.
Ouvi ou vi escrito que Armando Vara pede uma comissão de inquérito parlamentar que avalie o seu contributo para a bancarrota em que o país mergulhou. O mesmo exigem o PSD de Passos e o CDS de Cristas, embora por motivos diferentes...
Todos eles se dizem católicos; nenhum será judeu, quero crer. No entanto, comportam-se como suicidas a quem a palavra do Livro nunca terá chegado. 

20.6.16

Domani (Amanhã)

Domani é o nome de um jornal, imaginado para, sem chegar a ser publicado, dar conta do modo como o jornalismo perde, por inteiro, a independência e de como os jornalistas são  controlados por um diretor ao serviço de um "patrão", cujo único fito é eliminar todos os que lhe podem travar a ambição.
O que acabo de escrever procura interpretar o pensamento de Umberto Eco no romance Número Zero. Apesar de publicado em 1992, só agora o leio, mas vejo nele, mais do que o manual do mau jornalismo da época, uma antevisão do jornalismo da atualidade...

(Em leitura: Umberto Eco, Numéro Zéro, Le Livre de Poche)

PS. Creio que este livro deveria ser de leitura obrigatória de jornalistas, advogados, magistrados, sem esquecer algumas das vítimas da comunicação, dita, social.


19.6.16

O pecado privado e o pecado público

Ontem, pedi aqui perdão, mas não disse do quê.
E também ninguém se preocupou com a falta do complemento direto. Terão, talvez, pensado que me referiria à minha ausência na manifestação em defesa da escola pública. De certo modo, era verdade - o meu espírito gregário é frágil.
No entanto, o que eu quero reafirmar é que nada tenho contra a escola pública nem contra a escola privada. Estudei e ensinei em ambas, e encontrei virtudes e defeitos nas pessoas que as serviam ou que, infelizmente, se serviam delas / nas pessoas que as servem ou que, infelizmente, se servem delas.
Sei que insistir neste tipo de abordagem pode parecer insanidade minha, mas é assim que penso.
O pecado privado em nada se distingue do pecado público. Por exemplo, o padrão comportamental da gestão do CGD é, afinal, o mesmo do BES, do BANIF, do BPN, do BPP.
Ambos arruínam o país. Nenhum tem perdão. No entanto, os responsáveis continuam à solta. Provavelmente, porque, num país católico, só o Juízo Final lhes ditará o destino...
E isso eu não perdoo!

18.6.16

Espero que me perdoem...

Espero que me perdoem, mas eu nunca fui de autos de fé, touradas e procissões!
Raramente, fui a uma manifestação. E quando fui, não posso dizer que me tenha arrependido, mas senti-me sempre a mais. 
A verdade é que detesto fenómenos de massas, talvez porque considere que os pastores são verdadeiros manipuladores de opinião, acabando mais cedo ou mais tarde por tosquiar o rebanho...
(...) Nada tenho contra a escola pública, nem a consigo imaginar como inimiga da escola privada. Para mim, simplesmente, há homens e mulheres, nos dois lados, que não são dignos de se ocupar da instrução do cidadão.

17.6.16

Se eu fosse inglês...

Se eu fosse inglês, votaria a favor da saída da União Europeia. Não é que a ilha se baste a si própria, mas pode sempre aprofundar os laços económicos e financeiros com as suas extensões coloniais, evitando, deste modo, a supremacia germânica...
Portugal, antiga e reiterada extensão colonial inglesa, no essencial pode apresentar os mesmos argumentos que o Reino Unido, pois o centro da Europa insiste em desligar-nos do passado de descoberta e, posteriormente, colonial.
A verdade é que, se a nossa soberania, no passado, sempre foi frágil, hoje, não passa de uma ilusão. Não há matéria em que possamos tomar uma decisão sem a aprovação do suserano.
(...)
À Alemanha, a saída da Inglaterra acaba por ser conveniente. A médio prazo, acabará por aceitar a adesão da Turquia e negociar acordos económicos favoráveis com a Rússia...
E Portugal, em vez de ser o rosto da Europa, como defendeu Fernando Pessoa, acabará por ser a porta dos fundos.

16.6.16

A violência corrói os nossos dias

Jo Cox, representante de "West Yorkshire" no Parlamento britânico foi assassinada.

Não há hora em que a violência não seja notícia e, sobretudo, repasto para multidões famintas de sangue. 
A causa pouco interessa, embora se saiba que, em muitos casos, a violência pontual procura que a mesma se multiplique.
Parece que, por toda a parte, a agressão substitui a palavra, sem esquecer aqueles que usam a palavra para incitar à violência.
Da Rússia aos Estados Unidos, passando pela Turquia, pela França e pela Inglaterra, a vertigem da barbárie tomou conta dos comportamentos mais primários, atirando a educação para o caixote do lixo.

Jo Cox, defensora de causas humanitárias, é a vítima ideal para os fundamentalistas que, a todo o momento, calcam aqueles que procuram preservar a lenta humanização do homem.
O que, ultimamente, se tem visto, é o despertar da irracionalidade que, no passado ainda próximo, fez milhões de vítimas.

15.6.16

Dizem que o exame foi "superacessível, superfácil"...

Pouco tenho a dizer! Afinal, a "geringonça" não mudou nada, a não ser, talvez, a ideia de colocar os alunos do 12º ano a opinar sobre o papel da educação «na construção dos ideais, da liberdade e da justiça social.»
Vamos ter muitas opiniões, todas "superfavoráveis", com muitos exemplos e zero argumentos! 

E andou o Eça a testar sistemas educativos, para concluir que, em Portugal, a educação não levava a lado nenhum: desenhou personagens, testou-lhes o carácter, mergulhou-as no meio, ora provinciano, ora citadino, sem esquecer o cosmopolita... e NADA. Tudo na MESMA!

Se o exame era "superacessível", espero que as respostas não sejam "superfrouxas" e "superpopularuchas".

14.6.16

Amanhã, há exame de Português

Será que a 'geringonça' se entendeu para substituir José Saramago e Sttau Monteiro por Manuel Alegre? Por dar a palavra a um daqueles poetas vivos que sempre soube escutar os outros poetas?
FIQUE CLARO que eu não sei responder...
No entanto, se me pusesse a adivinhar escolheria o poema AS PALAVRAS:

Palavras tantas vezes perseguidas
palavras tantas vezes violadas
que não sabem cantar ajoelhadas
que não se rendem mesmo se feridas.

Palavras tantas vezes proibidas
e no entanto as únicas espadas
que ferem sempre mesmo se quebradas
vencedoras ainda que vencidas.

Palavras por quem eu já fui cativo
na língua de Camões vos querem escravas
palavras com que canto e onde estou vivo.

Mas se tudo nos levam isto nos resta:
estamos de pé dentro de vós palavras.
Nem outra glória há maior do que esta.

Manuel Alegre, O Canto E As Armas, 1967

(Expliquemos lá então a opção de Manuel Alegre, sem esquecer a circunstância...)

E se quisesse escolher outras "palavras", escolheria as de Eugénio Andrade...

13.6.16

Exercícios de ansiedade gramatical




 
Este post pode parecer descabido. No entanto, vou arriscar colocar aqui o questionário que acabo de elaborar para todos aqueles alunos que têm o hábito de procurar em CARUMA respostas para algumas das suas dúvidas.
Desta vez, o melhor é ter uma Gramática à mão...
Os enunciados foram extraídos do Diário de Notícias de 12 de Junho de 2016.



1.       Emigrantes gostam do hiperativo e do hiperotimista.

a.       Classifique, quanto ao processo de formação, as palavras sublinhadas.


2.       Alunos portugueses são dos que têm mais férias no verão.

a.       Substitua dos por um pronome demonstrativo.

b.       Divida a frase em orações e classifique-as.

c.       Na 2ª oração, existe um modificador. Transcreva-o.

d.       Em 1 e 2, o grupo nominal não é antecedido pelo determinante artigo. Explique porquê.



3.       Foram aprovados dois protestos. Os socialistas votaram dos dois lados…

a.       Classifique sintaticamente o constituinte sublinhado.

b.       Substitua por um quantificador a expressão “dos dois lados”.

c.       Classifique esse quantificador. 

d.       Coloque na voz ativa a primeira frase.



4.       Para os Portugueses, o grande problema é o défice público. Neste capítulo, Portugal é incorrigível.

a.       Classifique, quanto à formação, a palavra sublinhada.

b.       Classifique-a, também, quanto à função sintática.

c.       Explicite o antecedente de “Neste capítulo”.

d.       Identifique dois grupos preposicionais e descreva-os.

e.       “Neste capítulo” é um estruturador de informação ou um reformulador explicativo?



5.       Nos EUA, a bossa-nova institucionalizou-se de tal forma que os americanos acham que é deles…

a.       Classifique, quanto à sua formação, a palavra sublinhada.

b.       Divida as orações, e classifique a segunda e a terceira.

c.       Transcreva o antecedente “deles”.

d.       Na primeira oração, o verbo é pronominal ou pronominal reflexo?

e.       Na frase transcrita, destaque os elementos linguísticos que asseguram a cadeia de referência.



6.       Promoção do mês: um corte de cabelo à Ronaldo por 16 euros.

a.       16 corresponde a que tipo de quantificador? (Interrogativo, universal, existencial, relativo, numeral fracionário, numeral cardinal…)

b.       Observe a frase nominal e transforme-a numa frase verbal.

c.       Indique a função dos dois pontos no enunciado.

d.       Especifique a constituição do grupo preposicional “à Ronaldo”.

e.       “Corte” é uma forma de base ou um caso de derivação não afixal?

f.        “de cabelo” é um complemento do nome ou um do modificador restritivo do nome?

g.       Dê um exemplo de modificador apositivo do nome.



7.       É o segundo em meia dúzia de dias. Na semana passada, vi na televisão um amigo, jornalista de carreira longa e escritor de basta obra, falando sem complexos da sua experiência como motorista de tuk-tuk em Lisboa.

(…)

- Joel Neto! – ouço, num berro inesperado, entre a exultação e o calduço, algures na rua dos Fanqueiros. – O que é que faz aqui sua excelência, pá?! Veio à capital?!

É outro escritor e jornalista ainda, e com uma obra mais expressiva do que o primeiro – dos jornais à TV, dos livros de viagem à ficção. Pára a motinha, com os turistas assarapantados no banco de trás. Apita, fez três aceleradelas, ri-se. Cumprimentamo-nos calorosamente, perguntamos pelas patroas e depois ele perde-se pela rua do Comércio.


a.       Joel Neto aplica o acordo ortográfico de 1990 ou não? Justifique.

b.       Na frase “É o segundo em meia dúzia de dias”, a palavra sublinhada funciona  é uma catáfora porque o referente se apresenta antes ou depois?

                                                               i.      Transcreva o referente.

c.       “segundo” é quantificador numeral ordinal ou cardinal?

d.       Em “jornalista de carreira longa e escritor de basta obra”, os adjetivos têm, ambos, valor restritivo ou não? Explicite.

e.       “Tuk-tuk” é exemplo de empréstimo interno ou externo?

f.        Nas orações “Apita, fez três aceleradelas, ri-se”, a coordenação é sindética ou assindética?

g.       Em “O que é que faz aqui sua excelência, pá?!”, o ato ilocutório é assertivo ou diretivo?

                                                               i.      Classifique o deítico sublinhado.

                                                             ii.      Em termos sintáticos, qual é o valor do termo sublinhado.

                                                           iii.      Comente a expressividade da sequência “sua excelência, pá”.

h.       No texto transcrito, a pergunta “Veio à capital?!” é, ou não, exemplo de um processo de Implicatura conversacional? Justifique.

i.         O texto de Joel Neto corresponde a um protótipo injuntivo-instrucional ou a um protótipo interrogativo.

j.         No último período do texto, identifique dois exemplos de conotação.

k.       Em relação aos meios de transporte “a motinha” é um hipónimo ou um merónimo?

12.6.16

A escola pública e o ensino das línguas

"As minhas filhas fizeram o jardim-de-infância e a primária numa escola pública. E agora estão na Escola Alemã, (...) tem a ver com a opção por um currículo internacional. Para mim era importante que elas tivessem uma educação com duas línguas que funcionassem quase como maternas, digamos assim. Se assim não fosse, andariam obviamente numa escola pública." Alexandra Leitão, secretária de Estado da Educação.

A secretária de Estado da Educação, Alexandra Leitão, tem dado provas de coragem ao afrontar os interesses instalados no Ensino Privado, no entanto, na entrevista dada à Visão, faz prova de falta de visão política, pois se o ensino público deve promover a igualdade, em matéria de ensino das línguas estrangeiras, não o faz já há muitos anos, por mais que se aposte no ensino do inglês desde o primeiro ciclo.
Um país periférico da União Europeia, se quiser competir com o centro dessa comunidade, tem de generalizar o ensino das línguas nacionais dos parceiros europeus mais poderosos, e fazê-lo recorrendo a professores devidamente habilitados e a métodos adequados à idade dos jovens alunos. E a senhora secretária de Estado sabe disso, como, em geral, a classe política o pratica com os seus filhos.
Ainda, nos últimos dias, tive oportunidade de compreender a fragilidade da situação portuguesa, ao assistir à projeção internacional dos filmes realizados pelas oficinas de cinema de países como a Bulgária, o Reino Unido, a Alemanha, a Finlândia, a Lituânia, a França, Portugal, a Bélgica, a Espanha, Cuba, o Brasil e o México. As oficinas eram constituídas por jovens, entre os 7 e os 18 anos. Durante 3 dias, os jovens realizadores, produtores e atores apresentaram defenderam o filme produzido por cada equipa e, sobretudo, questionaram de viva voz o trabalho das restantes oficinas.
Ora nesta situação de exposição pública, não pude deixar de compreender a dificuldade portuguesa em questionar os trabalhos apresentados ou de compreender as questões colocadas na Cinemateca Francesa.
Há um défice imperdoável num dos pilares da formação e da educação em Portugal - o ensino das línguas estrangeiras. A senhora secretária de Estado da Educação sabe-o, porque não ignora que há um "currículo internacional" e que o escolheu para os seus filhos...
Não se trata, aqui, dos jovens portugueses serem mais ou menos ricos ou pobres. Trata-se, sim, de desenhar uma política da língua materna e estrangeira que nos tire da periferia...

11.6.16

De Paris, fica-me uma imagem de caos

Pic-nic
De Paris, fica-me uma imagem de caos. O lixo amontoa-se a céu aberto. As avenidas abrem-se em estaleiros intermináveis. Ontem, fechadas ao trânsito, eram infindáveis vazadouros humanos conduzidos por pastores de ocasião, pendurados nas grades das grandes obras, e vigiadas por milhares de agentes das forças militarizadas... Os adeptos do futebol davam expressão ao contentamento, de uma forma brutal, ensurdecedora e irracional. É assustador como cantam a marselhesa, à exaustão...
Da racionalidade cartesiana, pouco sobra... De tal modo que a deslocação a Paris, para mim, terminou numa visita demorada ao Père Lachaise...
(...) 
Pode parecer estranho, mas esta minha ida a Paris pouco teve de turístico. Afinal, o meu papel era o de acompanhar um grupo de nove jovens (dos 16 aos 18 anos) cujo objetivo seria o de apresentar o "filme-ensaio" realizado no âmbito do projeto "À nous le cinéma! Une expérience de cinéma à l'école".   
A verdade é que um grupo de jovens portugueses, nesta faixa etária, em Paris, tem inevitavelmente uma outra prioridade e, quando tal acontece, o papel do acompanhante torna-se muito espinhoso.
Paris ter-lhes-á ficado na memória, apesar dos riscos vividos, regressando todos a precisar de dormir...

10.6.16

Em Paris, l'important c'est la musique!

Já é tarde e estou impaciente.
O dia começou cedo. Só que o avião (da Vueling) partiu com duas horas de atraso. Em Orly, pensei que tinha regressado a Sacavém - o condutor do transbordo parecia um principiante; os taxistas (3), nenhum sabia o caminho para a Cinemateca francesa - nem o GPS ajudava...
Entretanto, as horas tinham passado sem almoço; foi-nos dito, que por iniciativa de um colega de outra escola, alguém nos tinha reservado 17 sandes. O problema é que ninguém sabia delas - tinham sido roubadas! 
Reduzidos a dez sandes (de frango /atum) que levaram imenso tempo a ser confeccionadas, os meus acompanhantes acabaram por entrar na sessão da tarde, que decorria na sala Henri Langlois, cinco minutos antes daquela ser dada por terminada...
Na atmosfera, apesar de tudo o que nos ia acontecendo, reinava uma certa euforia. A ministra francesa do Ambiente tinha estado presente, vários realizadores compareceram e explicaram os documentários que foram apresentados no período da tarde...
Depois houve pic-nic: brasileiros (ricos e pobres) descobriram em Paris que havia portugueses de Lisboa e da margem sul Tejo...
Já tarde, chegados ao hotel, os jovens prepararam-se com esmero para a noite de Paris... e aí começou a minha impaciência que ainda não terminou... Percorrida a rua Faubourg de Saint-Antoine em direção à Praça da Bastilha, fiquei a perceber que a História pouco importa... L'important c'est la musique!  

8.6.16

Nos próximos dias

Nos próximos dias, vou tentar perceber como é que a meteorologia influencia o cinema, porém, talvez, acabe por descobrir que a questão é mais de tema do que de influência. Por outro lado, também me interrogo se não seria melhor procurar o modo como o clima influência o cinema.
Só que a minha perceção desta temática parece estar errada, pois o clima e o tempo serão ramos da meteorologia.
O tempo abarca o estado físico das condições atmosféricas num determinado momento e local. Ora o cinema, se não for produzido em estúdio, será sempre determinado pelas estado da atmosfera e do lugar.

7.6.16

Uma ideia triste

Pode parecer uma ideia triste e absurda. A verdade, no entanto, é que depois de passar umas horas nos corredores das urgências do Hospital de S. José, dei comigo a pensar que os cemitérios deste país são muito mais hospitaleiros...
Não só o espaço é insuficiente para todos aqueles que se veem para ali atirados, alguns sem qualquer noção do tempo e do lugar, como é evidente a falta de clínicos e de pessoal de enfermagem.
Hoje, por exemplo, nas urgências, para além de todo o tipo de doentes, alguns moribundos, havia presos, guardas prisionais, polícias de trânsito, bombeiros, maqueiros, seguranças privados, voluntários... só não havia médicos, e os que por ali circulavam eram tão novinhos...
É muito triste que os doentes passem o dia inteiro nas urgências, o que os leva, frequentemente, a abandonar o Hospital sem terem sido devidamente atendidos. E, também, é triste que o facto de ser estrangeiro possa permitir passar à frente...
Em conclusão, quando eu for internado num hospital ou num hospício, não me visitem. Peço-vos que deem um  passeio pelo cemitério mais próximo,  e descansem uma boa hora à sombra hospitaleira de um cipreste...

6.6.16

Do rigor avaliativo

Estou indeciso! Não sei se escreva sobre uma certa tendência da escola pública ou sobre uma ideia do romancista Stendhall: Rapporter du revenu est la raison qui décide de tout dans cette ville qui vous semblait si jolie. L'étranger qui arrive, séduit par la beauté des fraîches et profondes vallées qui l'entourent, s'imagine d'abord que ses habitants sont sensibles au beau...» Le Rouge et le Noir, Livre premier.

Um pouco como o estrangeiro que chega a Verrières, e perante a beleza do lugar, imagina que os habitantes são sensíveis ao belo, também eu quero acreditar que a escola pública se rege pelo rigor avaliativo. No entanto, verifico, a cada ano que passa, que há um número significativo de alunos que consegue obter vinte valores, na avaliação interna, nas mais diversas disciplinas, sujeitas ou não a exame externo.

O vinte, mais do que premiar a excelência, consagra um tempo de emoção vivida pelo professor que se revê no discípulo, um pouco como o pai se revia outrora nos sucessos do filho...

E o mais interessante é que este tipo de excelência, em muitos casos, não tem qualquer continuidade no prosseguimento de estudos, até porque, na verdade, estamos perante  perfis que não trazem qualquer contributo enriquecedor  à comunidade... 

Agora que se aproxima o professor-tutor, desconfio que o número de vintes irá crescer ... como se os portugueses apreciassem o rigor.


5.6.16

Não é fácil chegar à praia

Não é fácil chegar à praia se quisermos ir pela Marginal.
Há quem mande a PSP cortar o trânsito durante uma manhã inteira. 
Não sei quem manda nem se paga o serviço. O que sei é que o cidadão acaba desviado para a auto-estrada, sem aviso atempado, tendo que pagar retrocesso e portagens.
Por outro lado, também não sei por que motivo é necessário cortar estradas em lugares onde há tantas pistas para peões e para ciclistas... E bem sabemos como estas soluções são caras para o contribuinte...
Nada contra a pegada ecológica! Mas, nestes casos, desconfio que a iniciativa, para além de pouco limpa, é, sobretudo, política... 

4.6.16

A árvore

Uma árvore, de pé!
Há uns tempos, parecia condenada...
Hoje, certas zonas do tronco reflorescem, como se a morte se tivesse distraído...
Também nós estamos condenados, mas quem sabe se um dia parte de nós desabrochará noutro lugar ou noutra hora..
Um destes dias, disseram-me que, no ano passado, por esta altura, eu definhava a olhos enxutos. Quem sabe se parte de mim não regressou à vida?
O ano passado, por esta altura, eu observava a felicidade  das poupas e não dei conta da morte da árvore. 
Afinal, as poupas ainda não regressaram e a árvore não morreu.

3.6.16

Só há dois paradigmas!

(Provavelmente, isto não tem qualquer interesse!
Isto é o quê? Qual é o referente?)

- A morte. Ela condiciona tudo! Não tanto ela, mas a conceção que dela temos: determina o modo como vivemos, a interpretação que fazemos da arte...
No essencial, só há dois paradigmas: o trágico e o religioso (dramático).

Perante alguém que confessava que, com a passagem do tempo, lhe parecia que desaprendia de ler, eu quis explicar-lhe que ler é descobrir a morte da vida, isto é, responder à pergunta: Será a morte o fim ou um tempo de passagem?
A arte, até hoje, ainda mais não fez do que posicionar-se: do classicismo greco-romano a todas as suas renovações; do cristianismo a todas as restantes religiões... A arte, por vezes, procura apresentar-se como alternativa, mas acaba por ser, sobretudo, a expressão de uma sucessão de dúvidas, incapaz de afrontar o enigma que resume a condição humana...
O meu interlocutor deixou de ouvir-me, porque acha a questão inútil. Lá no íntimo, prefere não se interrogar sobre a finalidade da sua própria vida... e depois queixa-se do texto.

2.6.16

Do que eu ouvi e vi

Ouvi o professor doutor Miguel Metelo Seixas proferir uma significativa conferência sobre a "Heráldica hoje: porquê, por quem e para quê?
Registo com particular cuidado a concisão da definição: A heráldica é um código visual que recorre a imagens - sinais.
A heráldica, hoje, parece retomar uma das funções que preenchia na Idade Média: informar, motivar e persuadir grupos de indivíduos, em geral, analfabetos.
Para todos os efeitos, a heráldica IDENTIFICA e cria, para o bem e para o mal, elos...

Vi uma sala esvaziar-se num ápice. Bastou que terminasse a informação da classificação do terceiro período. As preocupações com o exame nacional esfumaram-se e a debandada foi quase total. Sobraram quatro almas! Espero que os dois sonetos de Camões não lhes tenham feito perder o apetite...

Finalmente, ouvi a formadora de uma oficina de cinema dar uma lição sobre a falta de responsabilidade de quem ESCOLHE uma determinada tarefa e depois descura de forma sistemática o seu envolvimento no projeto, sem apresentar razões válidas... Numa oficina, o projeto é de todos os que a ele aderem.... e não, apenas, do mestre.
O espírito do oficina é difícil em contextos de aprendizagem, onde se insiste em premiar a infantilidade... ou a prosápia.

1.6.16

Ouvimos ou não ouvimos?

Ouvimos ou não ouvimos? - a dúvida.
-  Sim, ouvimos tudo o que nos disse e fizemos tudo o que nos disse.
- Tudo? - hesitação - 'Tudo' abarca o que foi dito ou apenas aquilo que quisemos ouvir?
Por exemplo, já percebemos que 'tudo' é um quantificador universal, embora não saibamos para que  é que serve um quantificador e porque é que é classificado como universal... Não seria melhor chamar-lhe global?
Esta problemática lembra o Eusébio da Silveira - não confundir com o Ferreira! -, que andava a ler a História de Todos os Povos do Universo. Pobrezinho! E ele nunca teve que aprender que 'todos' também era um quantificador universal. O universo do Eusebiozinho era tão tacanho que ele jamais teria compreendido o que significava universal. E a bem dizer ele não lia, só folheava uma velha enciclopédia e deixava que a vista se imobilizasse sobre as ilustrações. Nunca chegámos saber quais eram as ilustrações que ele mais apreciava, apesar de podermos suspeitar que essas ilustrações seriam espanholas, mas não de Santa Teresa de Ávila...
A Santa Teresa de Ávila do catecismo! O pobrezinho também era muito forte em pontos de doutrina. Sabia-os todos de cor.  Se lhe fosse dada a oportunidade de resolver o grupo da  gramática do exame nacional de Português de 2016, em vez de obter um certificado de bacharel, seria, de imediato, premiado com o grau de doutor...
Ainda a propósito do que ouvimos, - o senhor nunca nos falou desse eusébio, nem do ega, nem do maranhão, nem de qualquer perdigão. E também não o ouvimos falar do brasão - só vagamente de um sebastião; e talvez dum bonifácio, que nos disseram que era reverendo...
Só que nós não sabemos o que significa reverendo. Não temos dicionário!Temos smartphone, mas o senhor nunca disse que o poderíamos utilizar para saber o significado das palavras. Até agora só aprendemos a passar a vista pelas ilustrações. Até já lá encontrámos a Santa Teresa de Ávila, de Jean Genet - que nos sonhos era devassa. - O que é que significa devassa?
- E, afinal, se não ouvimos e não sabemos é porque o senhor não presta.