Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

31.5.16

Bem podíamos mandar eliminar o luar!

Disseram-me um destes dias que "Felizmente Há Luar!"não era nenhuma obra-prima, como se uma peça de teatro nascesse para ser prima-dona.
Surpreendido, procurei explicar que, em 1961, Luís Sttau Monteiro tinha como objetivo contribuir para uma mudança política que pusesse cobro a um regime caduco, que enviava para as cadeias todos os que lutavam contra a ditadura, contra a guerra colonial, contra a censura, contra o obscurantismo, embora ciente da dificuldade do empreendimento: 
SOUSA FALCÃO: Mas como, Matilde? Como é que se pode lutar contra a noite? 

Em 1961, o próprio dia se transformava em noite para aqueles que eram citados como opositores do regime:
SOUSA FALCÃO: Ao chegar a S. Julião da Barra, meteram-no logo numa masmorra e aí ficou todo o dia, às escuras, até que, ao cair da noite, uns oficiais lhe mandaram uma enxerga e duas mantas por piedade... {Gomes Freire d'Andrade)

Não era preciso ser opositor! Bastava uma denúncia! A ditadura não sobrevive sem inimigo e, como tal, se não houver, inventa-se...
Apetecia-me falar do luar, mas para quê? É óbvio, o luar foi inventado para iluminar a noite. Agora que a iluminação pública não nos falta, bem podíamos mandar eliminar o luar...
Afinal, o luar também não é uma obra-prima! 
De qualquer modo, arrisco e vou transcrever duas sequências significativas desta peça de Luís de Sttau Monteiro:
A - D. MIGUEL FORJAZ (com raiva): É verdade que a execução se prolongará pela noite, mas felizmente há luar...
B - MATILDE (Para o Povo): Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina! Até a noite foi feita para que a vísseis até ao fim... (Pausa) Felizmente - Felizmente há luar!

30.5.16

A 17 dias do exame nacional de Português

Não é surpresa, mas, nesta altura do ano letivo, há sempre um encarregado de educação que se queixa do professor do educando. 
Passaram três anos desde o início do ciclo, e o professor ainda não anunciou aulas de recuperação e de preparação para o exame nacional. E, sobretudo, o professor terá descurado o Dicionário Terminológico e o Novo Acordo Ortográfico. 
Chegou, assim, o momento de ajustar contas, não com quem sempre perturbou o processo de ensino e de aprendizagem, mas com quem foi excessivamente tolerante com os caprichos juvenis...
(...)
A 17 dias do exame nacional, há aqueles alunos que, finalmente, decidiram comprar uma Gramática de Português, embora não saibam qual, apesar do professor, todos os dias, levar uma para sala de aula, indo ao ponto de registar no quadro (e no sumário) o número da página referente ao conteúdo em foco, E claro também há jovens que se queixam dos professores que lhes recomendaram a compra ou, em último caso,  a consulta de uma Gramática, por exemplo, na Biblioteca Escolar...
(...)
Como Freud bem explicou, isto não passa do conteúdo manifesto, porque há sempre um outro, ainda mais traumático - o conteúdo latente.
Quando aborrecemos o rigor e o método, quem paga é a competência de leitura. Com o tempo, desaprendemos de ler e, sem leitura, não há escrita que resista.
(...)
Mais do que o desconhecimento da Gramática, o exame nacional põe a nu os efeitos da indisciplina, da instabilidade emocional e do amor-próprio, nos domínios da compreensão, da interpretação e da produção de texto...

29.5.16

Um país assoreado

Tejo, em ano pluvioso
Em finais de maio, num dia em que choveu por várias vezes e de forma intensa em Santarém, desloquei-me às Portas do Sol, na expectativa de ver um rio caudaloso e pujante. Infelizmente, a água alagava as margens, e o rio lá ia contornando os bancos de areia.
Se há coisa que nunca percebi é a razão por que boa parte do leito do Tejo continua assoreado.
(...)
Triste, deixei a cidade e acabei na autoestrada, de regresso a Lisboa. Só que, afinal, os bancos de areia estendiam-se, a toda velocidade, pelas faixas de rodagem, em direção a São Bento. 
Na estação de serviço de Aveiras, compreendi como é difícil ensinar as boas maneiras - amarelos ou não, ninguém respeitava a instrução - FILA ÚNICA; ninguém parecia ter aprendido que não deve passar à frente nas filas...
E eu que passei anos numa escola privada, paga pelas esmolas dos crentes, a aprender os fundamentos da cortesia, esperei pacientemente que o aluvião se desfizesse - tal como me tinham ensinado num outro tempo...
Mas não, na autoestrada, os bancos continuaram amarelos, embora vislumbrasse uns tantos vazios...
E o Tejo continua assoreado! E o país continua assoreado!

28.5.16

O refeitório Jesuíta

A entrada no museu diocesano de Santarém é cara - 4 euros. No entanto, paguei a renda disposto a saber o que é que fora feito do espaço em que vivi durante quase seis anos. Restauradas a fachada e a igreja, fui surpreendido pelo recheio - arte sacra - e, sobretudo, porque pude voltar a entrar no refeitório. 
Está como o conheci, mas sem padres nem seminaristas... No seu lugar, o relicário de São Gil, cercado de painéis e de candeeiros de iluminação... 
Saí de lá com uma emoção inesperada, a relembrar a sopa de abóbora, as travessas de carapaus fritos, os medalhões de carne e, sobretudo, um arroz divino. E claro que na mesa dos padres e dos prefeitos, havia tal aprumo que, por mais burgessos que fôssemos, alguma coisa haveríamos de aprender...
Neste regresso ao passado, acabei por saber que o enfermeiro Domingos, no meu tempo (1965 - 1970), já foi fazer companhia aos três bispos de outras conversas. Na verdade, deveria referir quatro, pois descobri que o primeiro bispo diocesano se encontra sepultado na igreja do Seminário, embora um pouco distante do meu altar preferido.



Finalmente, fui informado que o meu padrinho de crisma, padre Fernando Campos, ainda faz os seus passeios, apesar de já não celebrar missa... Isto de ter um padrinho que não vejo desde 1970 é estranho, sobretudo porque ele é o principal responsável pelo estado de meditação em que vivo - homem de pouca ou nenhuma fé!

27.5.16

Uma leitura ousada de Frei Luís de Sousa

Santarém
Eis, aqui, ao lado, uma leitura ousada do III ato de Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett. 
Se for a Santarém, não se esqueça de observar esta escultura, mesmo ao lado da Avenida do Brasil, bem perto da Domus Justiae.
E já agora aproveite para (re)ler o drama que melhor dá conta da veia dramática de um dos portugueses que mais se esforçou por tornar Portugal um país civilizado.
(Esta postagem é dedicada a todos aqueles que um dia me asseguraram que leram o drama cujo o autor tencionava revolucionar o teatro português.)

26.5.16

Em nome do rigor pedagógico

Em nome da transparência das decisões, do rigor orçamental e da qualidade pedagógica, bom seria que todos tivéssemos acesso ao custo de cada escola, pública ou privada.
Estou em crer que a atual polémica em nada serve a melhoria do sistema educativo, pois, se no universo das escolas privadas há quem se sirva delas para acumular riqueza pessoal, no universo das escolas públicas, embora haja muitas geridas com rigor não apenas financeiro mas também pedagógico, outras há que mais não são do que sorvedouro de dinheiros públicos.

É preciso saber o que é feito do dinheiro entregue a cada estabelecimento de ensino, recorrendo a uma observação que contemple o investimento na qualidade do ensino e da aprendizagem. Não basta olhar para os resultados no final de cada ano escolar e continuar a despejar dinheiro em programas de recuperação oportunistas...

25.5.16

Feriados e dias santos

Feriado - diz-se do dia em que se suspende o trabalho e as aulas, por prescrição civil ou religiosa.

Em Portugal, os dias santos de religiões, que não a católica, não são feriados. Porquê?
Creio que um governo socialista, apoiado pelas forças de esquerda, deveria acabar com esta discriminação.
Se todas as religiões devem ter o direito de celebrar os seus deuses e o seus santos, não se entende que, em pleno século XXI, a matriz do Estado Português continue a ser o Catolicismo.

Pessoalmente, não entendo por que motivo grande parte da população, que vive distante de qualquer religião, é obrigada a usufruir de um dia santo como, por exemplo, o do Corpo de Deus.

Demagogia e oportunismo...

24.5.16

Ainda se o professor pudesse aplicar a extrema unção!

Esbaforido, só lhe importa saber quando é que pode realizar os testes em atraso. Não se importa de fazê-lo por atacado.
Outro, nem sequer aparece, mas manda mensagem ao colega para que ele coloque a mesma pergunta. Neste caso, respondo sempre do mesmo modo ao mediador: - Veremos!
Claro que ainda há aqueles que não aparecem nem dão qualquer explicação com ou sem recurso a mediador - colega, diretor de turma. Um destes dias, irão aparecer com o ar mais cândido, justificando que estiveram doentes e que já é tarde para realizar qualquer tipo de tarefa... 

Na escola pública, o professor, como o médico ou o confessor, tem de estar sempre disponível. Ainda se o professor pudesse aplicar a extrema unção! Não consta que algum moribundo tenha sido obrigado a prestar uma derradeira prova, a não ser a do temor de que o confessor possa estar farto de água benta... e chegue fora de horas...

Estes incidentes, noutros tempos, eram críticos, agora não passam de contratempos. 
Qualquer semelhança com a realidade é pura fantasia de quem se enganou na vocação.

23.5.16

O que dói

O que dói é saber.
O que dói
é a pátria que nos divide e mata
antes de se morrer.
Eugénio de Andrade, setembro 72

O que dói
é não querer saber
ou fingir não saber
que as pátrias nos dividem e nos matam
antes de se morrer.

O que dói
é haver quem pense que matar é um ato figurado
e que, a ter ocorrido, foi noutro tempo...
e noutro lugar.

O que dói
é haver quem pense que se morre
apenas quando tiver de ser...

O que dói
não é sofrer o que tem de ser.
O que dói
é saber que há quem nos impeça de viver.

22.5.16

Solilóquio? Creio que sim...

Solilóquio? Creio que sim. 
O solilóquio é uma fala que alguém dirige a si próprio. De certo modo, esta fala não pode ser considerada réplica, pois esta pressupõe a existência de um diálogo ou, pelo menos, um colóquio. Como alguns querem, ando muito longe da interação.
Eu bem gostava de interagir, mas lá, no fundo, sinto que de mim só querem conformidade. 
(...) 
E o solilóquio arrasta-me para a ataraxia de Demócrito - a tranquilidade de alma, a ausência de perturbação - bem próxima da apatia dos estóicos...
No entanto, por mais que me esforce, há sempre alguém a desassossegar-me. E os caminhos do desassossego são tantos que, em certos momentos, me apetece acabar com o próprio solilóquio... 

Bem sei que os Poetas sabem como resolver o problema, mas eu não. Nunca fui poeta! Tolo, sim!

21.5.16

O binómio de Cesário Verde irrita-me

Binómio é uma noção cujo termo é composto pelo prefixo bi e por um vocábulo grego que se pode traduzir como “parte” ou “porção”. Isto significa que um binómio é formado por duas partes.

Há binómios irritantes! Um deles é o famoso binómio de Cesário Verde. Não há manual - sebenta, aluno ou professor - que não fale do binómio 'cidade-campo' na poesia de Cesário Verde. O único que nunca usou tal termo foi o Poeta.
No essencial, Cesário Verde foi reduzido a esse binómio. Independentemente da pergunta, as respostas começam todas pelo binómio: o poeta, cansado da cidade, refugia-se no campo...
Embora o Poeta tenha introduzido a modernidade, no sentido baudelairiano do termo, na literatura portuguesa, isto é, tenha deslocado o olhar do campo para a cidade, descrevendo-a, à luz do sol e da iluminação pública, nas suas 24 horas, tenha desenhado os tipos sociais que  a povoavam e, em particular, as desigualdades, tenha condenado a injustiça e celebrado o trabalho, a verdade é que a imagem que dele se vulgarizou coloca no mesmo patamar o campo. 
E fá-lo sem sequer se dar ao trabalho de assinalar que o campo de Cesário é totalmente diferente daquele que durante centenas de anos suportou a literatura ocidental. O campo de Cesário é um campo produtivo, ao contrário do campo do classicismo e do romantismo, onde nada acontecia a não ser algumas cenas cinegéticas, piscatórias... sem esquecer as amorosas, felizes ou trágicas...
O campo de Cesário não é um espaço de evasão, mas um território que continua o espaço do trabalho citadino, apesar de mais eufórico...
De qualquer modo, a novidade que Cesário nos trouxe foi a CIDADE - a Modernidade com todas as suas contradições.  

20.5.16

O triângulo virtuoso pode ter nascido defeituoso...

Gaiola garrafão
Por uma qualquer razão genética, nunca fui capaz de desenhar o que quer que fosse que merecesse a minha aprovação, o que, sempre que necessário, disfarcei com o recurso a uma régua, um esquadro e, em certos casos, um compasso... embora este último sempre exigisse de mim um rigor que não estava ao meu alcance e, principalmente, de quem sonhasse pertencer à confraria dos pedreiros-livres. 
Portanto, condenado à imperfeição, lá vou recorrendo às figuras geométricas. Mas não sou o único!

Acabo de ler um artigo de Carlos Moedas, "O desafio dos desafios na UE: recuperar o otimismo", publicado no DN de 15 de maio de 2016, em  que o Comissário europeu para a investigação, ciência e inovação revela uma nova visão da geometria / geografia europeia:

«Ora, a estratégia da Comissão para promover o crescimento económico baseia-se num triângulo virtuoso: investimento, reformas estruturais e responsabilidade orçamental

Tenho estado a dar voltas ao triângulo, porém não consigo perceber como é que esta estratégia pode ser aplicada em Portugal. Parece-me que este triângulo deve ter nascido com defeito...

19.5.16

As vacas portuguesas estão prontas a voar

Ainda a propósito do esmagamento da soberania portuguesa, expus a um grupo de jovens a minha preocupação sobre a indiferença de que davam mostras.
Procurei convencê-los de que o teatro de forma épica visa questionar o leitor /espectador sobre o seu próprio tempo e não sobre o tempo da fábula. Por exemplo, a peça Felizmente Há Luar estabelece um nítido paralelismo entre 1817 e 1961, no que concerne à ação do antigo regime e à ocupação estrangeira. Expliquei que compreendo que não queiram aprofundar a História desta apagada pátria; no entanto, disse-lhes que não entendo que ignorem que as nossas decisões políticas de pouco servem, pois quem nos governa é a União Europeia e os seus tentáculos no terreno... apesar de, hoje, o primeiro ministro ter prometido que as vacas portuguesas, proibidas de nos darem mais leite e derivados, estão prontas a voar.
Quem diria?

18.5.16

A juventude portuguesa ignora a questão da soberania

«Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
(É ainda dado ao cálculo dum lance
Pra a efeito horas depois)
É ainda entregue ao jogo predilecto
Dos grandes indif'rentes
Fernando Pessoa / Ricardo Reis 


Batem-se pela independência pessoal desde cedo mas, paradoxalmente, não dão qualquer importância à soberania coletiva.
O cânone literário - de Fernão Lopes a Camões, passando por Vieira, Garrett, Eça, Cesário, Pessoa, Sttau Monteiro,  Saramago - retoma reiteradamente a questão da soberania nacional.
O resultado prático é uma farsa gigantesca, pois há muito que a competência de leitura se degradou e, sobretudo, o desinteresse pelo futuro coletivo se instalou.

Quando a Comissão Europeia trata Portugal como uma colónia, estou sem compreender qual é causa do comportamento da juventude portuguesa.
Por vezes, chego a pensar que Portugal mais não é do que uma invenção de meia dúzia de iluminados que nunca olharam à sua volta...

17.5.16

A triste Penélope e o pobre Orpheu

Uma poupa na Portela
Não posso afirmar que chegaram as poupas, porque, de facto, até agora só consegui avistar uma.
Não sei se ela terá vindo adiante para verificar se o terreno e o clima lhes serão favoráveis no verão e no outono de 2016...
A verdade é que esta poupa, este ano, procurou um terreno mais próximo da igreja, apesar de muito mais poluído, ao contrário do que acontecera com as poupas do ano anterior que se tinham refugiado num jardim afastado do bulício...
Vou ficar à espera para ver se compreendo alguma coisa do que se passa no universo das poupas, pois no meu nada acontece de significativo. Ou será que estou cada vez mais desfasado da realidade?
É que agora vivemos a vertigem de desfazer o que de mal foi feito. Mas tal será possível? Os governos portugueses lembram-me a triste Penélope...
Creio que a continuarmos assim, acabaremos como o pobre Orfheu...

16.5.16

Bem ao nosso gosto

«Hoje, com o alastramento planetário do kitsch como género universal do gosto, era inevitável que a grosseria se acentuasse no nosso país arcaico, tão próximo do pós-modernismo.»  José Gil, Portugal, Hoje. O Medo de Existir, 2004, pág. 196.

Segundo os entendidos, ao colocar a vulgaridade na ordem do dia,o Kitsch caracteriza-se por agradar a uns e desagradar a outros.
Em Portugal, os artistas são, por ora, ícones ambivalentes, cujas obras são enterradas com eles e, em muitos casos, são mesmo cremadas.
Entretanto, já me esquecia que hoje é o dia internacional de histórias de vida. E como tal, não posso deixar de interrogar o conceito. Histórias de vida! Porquê? Não nos basta uma história?Provavelmente não. Porque mais importante do que a vida vivida é, afinal, a narrativa da vida... e, aqui, chegados, com maior ou menor grosseria, cada um inventa as histórias de vida mais convenientes...

15.5.16

Andam a encornar as línguas

«O Bloco (...) encorna o PS à esquerda (encorna é uma tradução possível de to corner, encostar a um canto)...» João Taborda da Gama, DN de 15 de maio de 2016.

Ontem, o festival da Eurovisão quase que eliminava as línguas nacionais. Não fosse a Áustria ter decorado um refrão em francês e uma ou outra mistura linguística, pensar-se-ia que as nações europeias teriam sido extintas... Bem, os italianos ainda vão fazendo jus à tradição!

Hoje, JTdaGama sai-se com esta de que o Bloco de Esquerda anda a encornar o PS. Eu ainda pensei que o verbo estaria a ser utilizado no seu sentido genuíno, mas não, tinha que meter futebol e ainda por cima inglês...

Com ou sem escola pública, há que respeitar as línguas nacionais, a começar pela comunicação social. Bem sei que o JTdaGama gosta de trocadilhos, porém... 

Já basta a quantidade de linguistas e de gramáticos que nos querem convencer que a origem do Português é anglo-saxónica e não latina!    

14.5.16

Das coisas e dos animais sensíveis

Das coisas sem respiração não sei o que dizer, porque já não as sei contar.
Houve tempo em que reparava numa pedra e dizia 'ali está uma coisa inerte'. Depois, comecei a pensar que talvez a pedra tivesse uma vida secreta...
Só que a teoria do conhecimento acabou-me com a indecisão no dia em que me convenceu que esta vida se resume à relação do sujeito com o objeto. Nesse momento, descobri-me como Sujeito, senhor de múltiplas coisas - tanto dava que elas respirassem ou não...
Lembro-me até de um certo Bexiguinha convencido de que podia dispor da vida de todas as coisas, embora não soubesse distinguir as coisas vegetais das coisas animais, umas racionais outras inapelavelmente irracionais, porque alguém se esquecera de as ensinar a falar.
Este Bexiguinha acabou por se transformar numa coisa, porque, no sentido recentemente aprovado pelo Parlamento português, terá deixado de ser um animal sensível... É uma decisão acertada que, na minha opinião, deveria começar por ser aplicada na AR - há por lá tantas coisas inertes!
De qualquer modo, vou passar a ter mais cuidado. 
Doravante, vou dar mais atenção ao tronco da árvore, à relva e à ave acabada de chegar. Até o cimento me parece que tem uma vida secreta - uma alma! 

13.5.16

Três bispos

O corredor espelha
o bispo vermelho
das baionetas francesas

(querubins
penam sem fim)

um dia o falcão partiria para beja
outro dia outro campos partira
e morrera gaseado
na banheira da nazaré...

no encerado derrama-se ainda a púrpura
da cerejeira estéril...

e deixaram-me assim...

12.5.16

Encontro com o escritor Mário de Carvalho


Hoje, 12 de maio de 2016, pelas 10 horas, a convite da professora bibliotecária, Maria Teresa Saborida, três turmas receberam o escritor Mário de Carvalho. 
Feita a apresentação do convidado, a turma de Latim, da professora Rosa Costa, expôs, através de um «power point», o resultado da pesquisa efetuada na obra "Quatrocentos Mil Sestércios" (1991) sobre as referências de origem latina, em termos lexicais (toponímia e onomástica) e culturais (rituais domésticos e espaços familiares e sociais).
Deste estudo fica a ideia de que escrever é uma atividade que exige trabalho porfiado, pois, como Mário de Carvalho confirmou, «o escritor tem obrigações para com o seu leitor». Afinal, só compreendemos o presente se lhe conhecermos as raízes!
Questionado pela moderadora sobre a 'qualidade' do tempo que viveu no Liceu Camões, quando, aqui, frequentou o último ciclo do ensino liceal, Mário de Carvalho revelou que esse período correspondeu a uma experiência complexa, pois se encetou relações de amizade com colegas que se distinguiram ( e distinguem) em importantes áreas da vida portuguesa, também descobriu, de forma dolorosa, como é que se asfixiava o anseio democrático...
Quanto à preparação da sua escrita, Mário de Carvalho frisou a importância que dá à observação do quotidiano e a tudo o que vai acontecendo no mundo em que vivemos. Contrariando o senso comum, para o autor, escrever é um trabalho árduo que não admite anacronismos e que deve acrescentar e não repetir - revelando, a propósito, que continua fiel ao labor e ao rigor de Flaubert.
Num apontamento centrado na obra "Quem disser o contrário é porque tem razão" (2014), foi visível a importância que Mário de Carvalho atribui a este "Guia prático de escrita de ficção", numa época em que a escrita parece resumir-se a uma «falange hegemónica de prescrições, conceitos e juízos primários (...) a chavões e estereótipos» arrancados ao 'senso comum' (e não ao 'bom senso') e à 'sabedoria das nações'...
Por fim, sintetizando o modo como o escritor se dirigiu a quem aprecia o oficio da escrita, esta breve nota, do muito que ficou por dizer, termina com um conselho:
«O ponto é que se identifique e conheça o que se está a rejeitar, ou que isso tenha, que mais não seja, razoáveis possibilidades de existir, pelo menos nos seus contornos. Porque, às vezes, o arroubo de protesto também grita as palavras da fantasia ou da irrelevância.» op. cit., pág. 33, Porto editora.

Da fantasia e da irrelevância...

11.5.16

Nenhum Rodrigues aceitaria o papel de títere

Tem sido difícil escapar à chuva nestes últimos meses e, pelo andar da carruagem, também não vai ser fácil evitar as notícias sobre o 'ministro da educação". 
Cansado do Crato, prometera a mim próprio não me ocupar do Tiago Rodrigues, porque não sei quem é: falta-me o tempo para lhe investigar o pensamento sobre a arquitetura do sistema educativo e os valores que o devem orientar... 
Cada vez que rebenta um caso, sinto-me desorientado, pois não descortino uma estratégia; apenas, um número avulso... 
Dizem-me que o ministro não passa de uma máscara. Não acredito. Nenhum Rodrigues aceitaria o papel de títere. Consta que o velho bonequeiro é quem manda na "educação" em Portugal. Prefiro não acreditar.

Talvez por me ver em silêncio e um pouco amargurado, um colega aposentado, mas apostado na reposição da memória do passado, ofereceu-me um texto de António Carlos Cortez, «Aos alunos portugueses e ao  actual ministro da Educação», Público, 11 de maio de 2016, pág. 44.
O artigo, não sei bem como classificar  o referido texto, ocupa uma página inteira. (Parece estar na moda oferecer páginas inteiras a certos colaboradores!) E também não sei o que é que o ministro da Educação poderá aproveitar de tal contributo: a ideologia do divertimento;  a política da língua; a memória histórico-literária; o acordo ortográfico; o regresso da Literatura; a dignificação da classe docente; a avaliação; a formação; o fastio discente; a náusea docente ...


10.5.16

Aborreço-me sempre que medram para mim

Leio, mas aborreço-me sempre que alguém escreve sobre outrem sem lhe conhecer a obra. 
O que quero dizer é que conhecer a obra de outrem é muito mais do que ler umas recensões críticas, um artigo de um académico, sem esquecer a "prosa " veiculada pela web...

Aborreço-me sempre que me dizem que leram uma obra, mas dela nada conhecem... 
Aborreço-me sempre que medram para mim para dizer que um qualquer autor é desprezível só porque lhes promete trabalho.... 

O trabalho, por exemplo, de consultar um dicionário... O trabalho, por exemplo, de conhecer o léxico específico de uma profissão. Até a abulia e a ociosidade deveriam merecer mais atenção...

Aborrece-me a displicência e a negligência e, em particular, aborrece-me o ar empinado de certas criaturas que para tudo têm uma opinião definitiva.
  

9.5.16

Sr. Alberto Gonçalves, "ao ponto da obesidade"?

O sociólogo Alberto Gonçalves celebrou o 1º de Maio com um exemplo da sua ciência:

«Fernando Rosas é um homem notável. Em décadas de carreira política, nunca lhe descobri uma opinião favorável à liberdade, à democracia e ao progresso, embora encha sempre a boca com esses vocábulos ao ponto da obesidade (...) O Dr. Rosas não serve para coisa nenhuma, excepto de exemplo a fugir.» DN, 8 de Maio de 2016

Não é que eu seja um seguidor de Fernando Rosas, custa-me, no entanto que ele seja tão maltratado por quem não tem o cuidado de definir o que entende por "liberdade", "democracia" e "progresso"... Apesar de tudo sabemos que para Fernando Rosas a liberdade é a dos ´´povos, a democracia é ´popular' e o progresso 'social'´... Fernando Rosas é um daqueles indivíduos que está sempre pronto a combater o Antigo Regime onde quer que ele renasça...
Podemos não concordar com ele, mas o Doutor Rosas explica com clareza o que pensa e não atropela a língua portuguesa, como acontece com o Sr. Gonçalves que, se não se cuida, acaba por se empanturrar com os seus próprios dislates linguísticos. 
- Ao ponto da obesidade, Sr. Gonçalves?

8.5.16

O oriente do ocidente

Museu do Oriente
Museu do Oriente
Hoje fui visitar o Museu do Oriente, em Lisboa... Inaugurado há 8 anos, este museu traz a muitos que nunca foram ao Oriente alguns dos traços culturais que nos distinguem. 
Gostei do que vi ( exposições) e do que ouvi  ( música do norte da Índia), mas não resisto a perguntar: Por onde é que andam os milhares de orientais que hoje residem em Lisboa?

Enquanto não obtiver resposta, vou perscrutar o centro da terra com a curiosidade do felino que procura libertar-se da serenidade oriental...

7.5.16

A Microsoft mentiu

O sistema operativo Windows 10 da Microsoft, instalado em cerca de 300 milhões de dispositivos, vai deixar de ser grátis.

Os sistemas anteriores descontinuados, o que é que sobra ao utilizador? PAGAR...
E se desligássemos os computadores e restantes gadgets durante uma semana?

Primeiro acena-se com a cenoura...

GTESC apresenta Sete Crianças Judias

No Auditório da Escola Secundária de Camões, o GTESC apresenta Sete Crianças Judias, de Caryl Churchil nos dias 6, 8 e 10 de Maio de 2016, com encenação de Maria Clara Melo da Silva; cenografia de Mário Rita; desenho de luzes, som e luz de João Lacueva e José Alvega; filmes de António Manuel; interpretação de Carolina Falcato, Maria Carrilho, Helena Real, Diogo Guerra, Beatriz Felício, Ana Beatriz Santana, Gonçalo Romão, Maria Portugal, Ana Rodrigues, Marta Rocha e Graça Gomes; Vozes de Helena Real e Ana Rodrigues; Expressão de Beatriz Felício. 

Esta noite, o GTESC apresentou à comunidade o trabalho de aprendizagem realizado ao longo do presente ano letivo. Com a dramatização de Sete Crianças Judias,  o GTESC comenta o que se passa no Mundo, sem se comprometer com nenhuma das fações em conflito, porque os argumentos de uma e de outra parte estão inevitavelmente comprometidos com valores particulares... o que fez do texto de Caryl Churchill pretexto para uma adaptação que visa defender princípios que, por definição, deveriam ser universais...
Sete anos depois de Maria Clara Melo da Silva ter fundado o GTESC, a representação desta noite mobiliza a quase totalidade das linguagens que, de há um século para cá, vêm dominando os palcos, pondo termo à dicotomia que suportava a ideia de que o movimento, a luz, o som, a imagem... mais não seriam do que auxiliares do chamado «texto principal"...
Quem conhece o texto de Caryl Churchill, terá certamente ficado surpreendido com a qualidade do trabalho realizado por todos aqueles que integram o GTESC 2015-2016.
Apesar da oliveira da "madrinha"  Maria do Céu Guerra, as Sete Crianças Judias do GTESC não se deixaram confinar à Faixa de Gaza.

6.5.16

A guerra não se explica! Nem às crianças!

A propósito do monólogo dedicado a Gaza, Sete Crianças Judias, de Caryl Churchill

A guerra não se explica! Nem às crianças!
Na guerra morre-se! Por vezes, sobrevive-se sem perceber como. Quem sobrevive também não sabe porquê.
Claro que há os que não podem morrer na guerra. Vivem longe ou, então, mandam na guerra. 

Às crianças que vivem a guerra de nada serve explicar o que é a guerra nem a história da guerra. O melhor é mostrar a todas as crianças o mapa dos que vivem longe da guerra, o mapa dos palácios dos senhores da guerra...
O melhor é mostrar-lhes que há senhores da guerra que vivem na sua própria casa, na sua própria rua, na sua própria escola, na sua própria sinagoga, na sua própria mesquita, na sua própria igreja, na árvore mais frondosa do terreiro mais próximo... e talvez seja melhor mostrar-lhes que, entre as próprias crianças, também há senhores da guerra...

Bom seria que não fosse necessário ficar à espera que as crianças crescessem. Para quê colocar sobre os ombros das crianças a responsabilidade que é nossa, os que vivemos longe e os que mandam na guerra?

5.5.16

Com pinças

Com pinças... escrever mais do que isto já é atrevimento. 

Aos dezoito anos, a verdade é uma forma de enxovalho.
Traçar um plano e aplicá-lo é desnecessário.
Distinguir uma ideia de uma ação parece insensato.
Ignorar o significado das palavras não aflige ninguém. 
Ler segundo uma instrução é uma forma de tortura.

Há temas pobres e temas ricos. Por ora, a Internet parece ser um tópico desinteressante. Tal como a leitura!

Aos dezoito anos,  o ponto de fuga encontra-se na escrita criativa. 
Com pinças... acrescento: - E se fossemos lendo o "Guia Prático de Escrita de Ficção", de Mário de Carvalho... até porque "Quem Disser O Contrário É Porque Tem Razão"...

Quem souber dizer o contrário... 

Com pinças também se pode dizer o contrário.

4.5.16

Sem qualquer expectativa

Bem sei que os linguistas e certos filósofos da linguagem estão convencidos que «dizer é agir», eu por enquanto preocupo-me com aqueles que confundem o pensamento com a ação. Em abstrato, isto pode enervar, mas eu sei bem do que estou a falar.

Publiquei esta breve reflexão no Facebook, sem qualquer expectativa, convencido que o pensamento vive de ideias e de certas imagens, nem todas. Há por lá umas tantas que atrofiam!
Consta que há por aí um paradigma que confunde tudo: os leitosos que nada fazem, os achistas instantâneos e, sobretudo, os narcisistas de serviço...
Eu bem tento, mas há dias em que esmoreço... chego a pensar que o melhor seria subir ao palco e despejar tudo para a plateia.
Para quê? Continuaria a falar sem demover. No meu caso, o provérbio «água mole em pedra dura tanto bate até que fura" não se aplica.

3.5.16

A Internet em versão escolar

A Internet permite-nos falar «com o outro lado do mundo, com pessoas do outro lado do mundo».
O outro lado? Quanto a este, estamos esclarecidos! Será assim mesmo?
A Internet será um «tema viral», uma vez que a «aderência» é cada vez maior?
O que é um «tema viral"? O que é feito da adesão? Caiu em desgraça?
A Internet permite  mesmo  «travar conhecimento com a cultura italiana»? Bom, ao fim da tarde, marcamos encontro... Espero não me atrasar! É que ela há muito que espera por mim...
Será que faz algum sentido que haja quem «se dedique à Internet»? Não sei se antigamente havia quem se dedicasse à máquina de escrever, embora as boas esposas se dedicassem aos maridos e aos filhos, sem esquecer as que procuravam  o «outro lado do mundo»...
Acabo de encontrar um enunciado que me assegura que «a Internet pode ser uma fonte de dispersão para a sociedade».
Pobre sociedade, tão global e tão dispersa!

Será que faz  algum sentido afirmar que «a minha Internet está muito lenta»?
É bem feita! Ora, se sou tão comedido quando me refiro à Luz...

2.5.16

O sociólogo Alberto Gonçalves escreveu-me...

Embora não saiba quem eu sou, o sociólogo Alberto Gonçalves escreveu-me nos seguintes termos:

«Aos cépticos, lembro que, pormenores à parte, em Caracas a coisa também começou assim, com o poder tomado por um bando de rústicos, nostálgicos do comunismo ou meros oportunistas de carreira. E também houve bazófia, proclamações de soberania, injúrias a imperialistas imaginários, juras de amor à liberdade, promessas de imparável progresso...» DN, 1 de maio de 2016.

Quem quiser entender a ciência deste sociólogo que leia o artigo "A Venezuela é o futuro". Estão lá os dados todos!
Eu sou um dos céticos que duvida da bondade das instituições europeias, que não crê na solidariedade dos credores, que está convencido que o imperialismo existe... e que o senhor Alberto Gonçalves se está a exceder, escrevendo por encomenda...
Pode ser que eu esteja errado e que, afinal, o sociólogo tenho ponderado devidamente os dados e a sociologia seja uma ciência exata, cujos resultados são fraternamente acolhidos pelo Diário de Notícias... ao domingo, dia de todos os senhores.

1.5.16

No dia da mãe, António Barreto escreve sobre os pais

No dia da mãe, António Barreto queixa-se de que o Ministério, os sindicatos e os professores não apreciam os pais:

«E muito menos os pais. Metediços, ignorantes e incompetentes são os epítetos que muitos professores e quase todos os sindicatos reservam para os pais dos seus alunos. No que são acompanhados pelo ministério que jamais fez reais esforços para interessar os pais e lhe dar tempo, proporcionar estruturas de participação sincera e atribuir responsabilidades e poderes.» DN, 1 de maio de 2016.

Melhor seria começar por afirmar que, em geral, é a MÃE que é a encarregada de educação, papel que, atualmente, chega a ser desempenhado  pela AVÓ. E que a mãe faz na escola o que sempre fez na vida: defende a cria de tudo e de todos, com maior ou menor razão. Sempre foi e, assim, continuará a ser.
Embora não seja meu hábito defender o ME, tenho que reconhecer que, se faltam condições aos encarregados de educação para uma maior participação na escola, a responsabilidade deve ser partilhada por outras áreas da governação e do sector empresarial privado e público. Quanto à irritação dos professores, o melhor seria analisar, com realismo, a situação dos atuais docentes e, em particular, dos diretores de turma.
Quando um investigador docente universitário observa os ensino básico e secundário, fá-lo, em regra, de forma especulativa, de acordo com pressupostos razoáveis, mas cujas conclusões são, na maioria dos casos, inadequadas. E porquê?
Porque raramente é encarregado de educação, sobretudo se pai, porque nunca desempenha a função de diretor de turma, porque não tem tempo para participar no Conselho Geral da escola, e porque tem uma péssima noção do que significa ser docente na escola atual: continua a pensar que a sala de aula é o lugar para dar conta dos resultados da SUA investigação, que na sala de aula ainda há lugar para o primado magistral e, sobretudo, ignora... o que eu, por ora, não me atrevo a reportar...