Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

30.4.16

Paul Verhoeven dos anos 60

Li algures que Paul Verhoeven (Amesterdão, 1938) é um realizador mal comportado ou, pelo menos, que a sua obra desafia a moral instalada.
Talvez seja verdade, no entanto, a "Cinemateca com o IndieLisboa" acaba de mostrar cinco dos seus documentários, realizados entre 1960 e 1965, e fiquei com a ideia de que este realizador não seria assim tão mal comportado.
No documentário HET KORPS MARINIERS, a celebração dos 300 anos do Corpo da Marinha (1665-1965), não vi ponta de sátira, não vi sombra de ironia. O Corpo da Marinha é instruído para um cenário expansionista e de hegemonia territorial.
(...)
O tema do mau comportamento preocupa-me por causa da ambiguidade com que o perspetivamos. Nuns casos, tudo fazemos para nos vermos livres dos mal comportados; noutros, incensamo-los pela rebeldia de que são capazes... E em muitas situações, os mal comportados que rejeitámos acabam por ser objeto da nossa veneração secreta...  

29.4.16

Há coisas que aborrecem!

Só pode ser força de expressão dizer que 'há coisas que aborrecem'. A própria 'força de expressão' não me agrada, parece-me querer exprimir uma certa atitude mental de quem é preguiçoso, mas não se consegue calar...
Não querendo queixar-me dos do costume, olho hoje para  a Avenida Gago Coutinho, pejada de táxis, no sentido do Areeiro e quase vazia no sentido contrário - os poucos automobilistas eram forçados a circular na faixa do bus; as restantes faixas serviam as forças da ordem, encavalitadas em motas alemãs, exibindo o seu potencial de fogo... Fiquei um pouco apatetado, vindo-me à memória "A Inaudita Guerra..." do Mário de Carvalho.
A verdade é que não gostei daquela encenação poluidora e anacrónica. Nem daquela nem da maioria das 'formas de luta' que recorrem ao desperdício...

E a propósito de desperdício, aborrecem-me os restaurantes onde se pode comer à tripa forra por uma dezena de euros. Com tanta miséria, empaturrar-se deveria ser considerado crime! 
Acontece que, por razões familiares, ao início da tarde, vi-me acantonado numa dessas manjedouras. Contrariado, lá escolhi três ou quatro ingredientes, e fui avançando no esvaziamento do prato ao ritmo dos outros comensais e, quando menos esperava, surge um simpático funcionário que me interpela: - Então, o sr. não se serve de mais!?
Francamente, bastava olhar para mim, para perceber que isso me aborrecia...

28.4.16

Fernando Cabral Martins na ES de Camões

A memória é um elemento essencial de qualquer poética. Pelo menos é o que infiro das palavras de  Fernando Cabral Martins que, hoje, se deslocou à Escola Secundária de Camões para abordar o tema "Algumas Imagens da Poesia de Mário de Sá-Carneiro". Não tanto a memória do tempo vivido pelo jovem Sá-Carneiro, há mais de 100 anos, no Liceu Camões, nem sequer a memória da relação privilegiada com Fernando Pessoa, mas, sim, o papel da memória na génese e na substância do ato poético. 
O que Fernando Cabral Martins procurou vincar foi que o que, hoje, deve interessar é o legado poético e não tanto o Poeta, porque só a poesia dá conta do diálogo que ele foi capaz de estabelecer com o modernismo baudelairiano e com as vanguardas que foram respondendo às várias crises despoletadas pela revolução industrial: a crise da vida social ( o anonimato do homem citadino); a crise da comunicação (o impacto dos novos mass media); a crise psíquica ( o dilema da identidade).
Neste sentido, o cosmopolitismo de Mário de Sá-Carneiro foi um fator essencial à produção de uma vanguarda - a vanguarda de Orpheu - em que as fronteiras entre as diversas artes se esbateram, gerando sucessivas expressões artísticas (paulismo, futurismo, cubismo, expressionismo, interseccionismo, sensacionismo...) e, sobretudo, agindo de  forma visceral naquele que é hoje considerado o expoente máximo da geração do Orpheu: Fernando Pessoa.

Eu não sou eu nem sou o outro
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro.
   Lisboa, fevereiro de 1914

Na poesia de Pessoa há extensos vestígios da Eurídice que nunca desapareceu da arca pessoana...

(Outros tópicos merecedores de atenção: a ideia de que a vanguarda não implica rutura;  a noção de que os poetas decadentes não o são - combatem a decadência; o paulismo como "disparate" provocador de bom senso; o interseccionismo, expressão literária que fixa o essencial do cubismo; os "performers" modernistas; Mário de Sá-Carneiro, produtor do Orpheu, financiado pelo pai...); a sinestesia, intersecção de duas sensações ou de várias realidades distintas; a centralidade de 1915...)

PS. Fernando Cabral Martins na ES Camões: 27.10.2009; 27.01.2011; 28.04.2016

27.4.16

Porquê eu?

Explicar a técnica narrativa de um autor como Saramago não é fácil, sobretudo explicar o modo como o narrador se posiciona em relação à história e procura coagir o narratário a acompanhá-lo na construção de um ponto de vista demolidor da História oficial e da verosimilhança tradicional. O discurso do narrador, nas suas diversas faces, desconstrói a expectativa do leitor tradicional e dá um abanão nas convicções académicas e populares.
Em abstrato, nada disto é inteligível, o que determina uma estratégia de leitura minuciosa, lenta, capaz de pausas mais ou menos prolongadas para clarificar as múltiplas referências de que o texto se alimenta. Só quem acompanhe este processo didático poderá fazer uma pequena ideia de como a atitude dentro da sala de aula pode conduzir ao sucesso ou ao sucesso interpretativo, e consequentemente à formação do "leitor". Sim, porque o leitor não nasce feito nem deve ser objeto de formatação.
Há muito que acredito que aprender a ler é uma atividade que deve ser cultivada diariamente, embora os meus atuais interlocutores andem muito distantes deste ponto de vista. Não todos, felizmente! Mas há uns tantos que se estão marimbando, e que perturbam permanentemente o processo de aprendizagem...
Por princípio, resisto até um limite que, no meu caso, é o da minha própria dispersão. No entanto, em cada aula, selecciono um "alvo" e pergunto-lhe o "que é que o traz à sala de aula". Em regra, a minha pergunta fica sem resposta ou, melhor, acabo por ser confrontado com uma argumento definitivo: - Porquê eu?
Um bom exemplo de pressuposição, porque, afinal, há tantos outros desatentos, marimbando-se. O implícito fica comigo: Deixe-me em paz, vá chatear outro... Eu sei muito bem ler! Não preciso disto para nada...    

26.4.16

A racionalidade conjugal da morgada de Travanca

A presidente do Conselho de Finanças Públicas (CFP), Teodora Cardoso, rejeitou hoje que este órgão consultivo tenha uma postura ideológica, defendendo antes que respeita a racionalidade económica.

A racionalidade económica é um conceito que me provoca azia. Em primeiro lugar, porque a racionalidade só pode ser estabelecida pela razão humana; em segundo lugar, porque a economia é uma categoria que não deve descurar a ideologia que, pela sua origem, pressupõe um governo do homem para o homem.
Para mim, não é admissível que um perito em finanças públicas tenha uma visão da governação estribada nas regras do galinheiro de salazar: os trabalhadores põem os ovos e os safardanas abocanham-nos...

A dona Teodora Cardoso lembra-me outra Teodora, a do Calisto Elói:

- Valha-me Deus! - exclamou ela aflitivamente. Tu dizes-me coisas que me fazem endoudecer! Pois tu não vês que eu já não posso dar o meu coração a outro enquanto for casada com um?
- Vejo que me não amaste nunca, Teodora . Dize a verdade... Nunca me tiveste amor?
- Eu sei cá, primo! ... Se me casasse contigo, tinha-te amor... Assim como casei com meu marido, que hei de fazer eu agora?  
 Camilo Castelo Branco, A Queda dum Anjo - diálogo entre os primos Teodora e Lopo, cap. XXIX.

25.4.16

Que me desculpem os nostálgicos de abril!

Já me sentei ali. Sob um sol tímido, procurei o sopro do dia. Procurei que a aragem me libertasse da asfixia.
Por momentos, a temperatura subiu e eu respirei melhor.
O alívio foi, no entanto, breve. Talvez ainda possa regressar, mas não sei se fará sentido até porque há outros bancos... de jardim que os outros já tiveram melhores dias.
De qualquer modo, hoje, sei que de pouco serve regressar ao passado, por isso interrogo-me se ainda faz sentido "voltar" a 1974, quando uma boa parte da população nasceu depois dessa data... E sobretudo, questiono-me sobre o tempo de vida das revoluções.
A última revolução, se não está moribunda para lá caminha. Que me desculpem os nostálgicos de Abril!

24.4.16

"Alguma coisa mudou"... para pior

«Houve uma época em que os professores estavam muito mais próximos dos alunos, em que se esforçavam por lhes dizer: " As tuas condições atuais não têm necessariamente de moldar o futuro." Mas alguma coisa mudou.» Kalaf Angelo Epalanga, DN, 24 abril 2016

O Diário de Notícias presta hoje um bom serviço, ao abordar a questão do "racismo institucional" que tem medrado nas escolas portuguesas, com poucas exceções, como será o caso da Secundária de Azevedo na Damaia.
Kalaf Angelo Epalanga, entrevistado no mesmo diário, dá conta de que, na sua opinião, os professores mudaram de atitude - tornaram-se mais distantes e menos conhecedores do meio onde trabalham...

Eu concordo que alguma coisa mudou para pior. Em primeiro lugar, mudou o modelo de formação de professores que, nos anos 80 e 90, dava particular atenção à individualidade do aluno e ao meio. Depois, a partir de 2005, mudaram o estatuto do professor e do aluno.
O primeiro foi transformado em «mão-de-obra» indiferenciada, sem qualquer reconhecimento de saber e de competência relacional e pedagógica. O segundo, o aluno, passou a ser mais um, subordinado a critérios de ensino que descuram por inteiro as aprendizagens iniciais - não basta definir metas -, é preciso alterar os mecanismos que permitam que todos possam atingi-las...
O responsável pelo "racismo institucional" é o ministério da educação, incapaz de definir uma política educativa que proporcione igualdade de aprendizagem, e não de oportunidades porque elas são poucas, independentemente, da origem social e cultural cada cada aluno.

23.4.16

POR FAVOR NÃO MEXA NOS ANJOS!

Palmela
Palmela
Que posso eu acrescentar? 
Estes anjos são tão esbeltos, tão diáfanos, que só posso imaginá-los a fugirem da igreja onde os têm reféns... Quanto ao pedido, não o entendo, pois eu nunca faria mal a um anjo!
De qualquer modo, saí da igreja com pena deles, e nem a injunção de Cristo a Lázaro SURGE ET AMBULA me alegrou...
Preferia que o Senhor lhes devolvesse a missão para que os criou, mesmo que alguns lhe tenham desobedecido...
E também não compreendo por que motivo parecem querer seguir caminhos opostos. Melhor seria que dessem as mãos! Que seguissem o exemplo da esquerda portuguesa.
Ou será que estes dois anjos, tão esbeltos e tão diáfanos, representam a direita portuguesa?
Bom, nesse caso, POR FAVOR NÃO MEXA NOS ANJOS!

22.4.16

José Rodrigues dos Santos ajuda a explicar o que é um derivado não afixal

Ainda não eram 20 horas, e já o José Rodrigues dos Santos vociferava UM ARRASO ÀS PREVISÕES DO GOVERNO.
De imediato, pensei naqueles meus alunos que não entendem do que é que se está a falar quando se explica e dá exemplos de derivação não afixal. Aquele ARRASO vem mesmo a calhar - um grupo de peritos em finanças públicas ARRASARA repetidamente o governo. É que eu passei o dia a ouvir a notícia, apesar do JRS  a apresentar como a última novidade, capaz de provocar a queda do próprio céu...
Afinal, o que é um derivado não afixal? De acordo com os linguistas lusitanos, trata-se de um nome deverbal gerado por um verbo, (de modo não canónico) - o parênteses é meu! Não canónico pela simples razão de que, em certos épocas, não há tempo para aprender nem vontade para  seguir as regras, por exemplo, da derivação por afixação. Há por isso muitos nomes deverbais: abalo, agasalho, busca, janta, espanto, insulto, toque, troca... Ao JRS deve ter faltado o tempo para construir um enunciado menos tonitruante! (A falta de tempo de quem tanto escreve!)
Já agora aproveito para concluir a lição sobre o desrespeito pelo cânone:  Dias houve que, por razões de conveniência financeira, alguém sugeriu que o melhor era converter os judeus, obrigando-os a adotar um nome cristão, novo já se vê pois os velhos tinham todos senhor e senhora. E foi vê-los a trocar de nome: coelhos, cavacos, cristas,  sapateiros, ferreiros, ferros, anzóis, martelos, portas, marmelos, relvas, costas, seguros, rebelos,  figueiras, saramagos, uvas, zimbros - todos nomes comuns que viraram nomes próprios... 
E os mais extraordinário é que os linguistas acabaram com a velhinha derivação imprópria, batizando-a de conversão, certamente em homenagem à conversão forçada dos judeus em cristãos-novos.
Não sei se há por aí alguém que se chame auto da fé!

21.4.16

Defraudado

Às 18.05, sentei-me em frente do coreto. Inexplicavelmente, este estava deserto. A miudagem habitual desaparecera. As aulas tinham terminado, e o negócio mudara de lugar... Senti-me defraudado. Na fachada do Liceu, três vultos de outrora pareciam, como eu, frustrados. Creio que o Mário era o que estava mais triste, talvez porque merecesse o lugar central...
Ele que chegou mais cedo, cedeu o lugar a outro Mário que de Dyonisos  teria muito pouco ou, talvez, o engano seja meu.
O dia fora longamente preenchido e improdutivo, apesar da agitação circundante... No entanto, ainda vislumbrei aqui e ali uns olhos surpresos, porque, apesar de tudo, não me conformo com o lugar-comum.

20.4.16

Uma arca cheia de ismos

Devo andar a exprimir-me mal. Por vezes, chego a imaginar que certos termos já estão classificados como arcaísmos. Talvez o arcaísmo não passe de uma arca cheia de ismos. Definição nada ortodoxa mas que, quem sabe, pode pegar de estaca...
Por exemplo, o Mário Nogueira resolveu imitar o professor Marcelo, e veio a público classificar o novíssimo ministro da educação, tendo lhe atribuído classificação positiva. Só que desconheço os critérios de classificação. Espero que nada tenham a ver com nomeações de familiares, amigos, amigos dos amigos - povo de esquerda em geral...
A própria esquerda já colocou na arca os velhos ismos. Como diria o António Barreto, por estes dias, preferimos os rapazes e as raparigas e, sem ofensa, os neutros - velha reminiscência latina, por ora, bastante maltratada...
O que verdadeiramente interessa são as sacristias, lugar onde, afinal, o destino do contribuinte é cozinhado.

19.4.16

Democracia de confessionário


As ideias surgem-me avulsas e inconsequentes, mudas seguem o seu caminho que é não incomodar ninguém. No entanto, uma delas não para de me dar comichão no cocuruto - vivemos numa democracia de confessionário.
Anda por aí um Costa, mais propriamente, o Carlos, que fiel servidor do eurismo, esconde informação vital ao decisor ou a quem pensa que ainda decide... Qual confessor, o Carlos não informa o governo das patranhas congeminadas lá para os lados de Frankfurt, deixa-o enredar-se em soluções de última hora que acabarão por levá-lo ao cadafalso. Diz que são as regras do sigilo, ignorando que, em democracia deveria vingar a transparência...
Afinal, o velhinho segredo de estado continua a fazer o seu caminho... e as suas vítimas, muitas!

18.4.16

De viés

Se a sociologia é uma ciência, do que é que estou a falar quando acuso um sociólogo de ser de direita, o qual, por seu turno, já acusou outro de ser de esquerda? Poderá a ciência ser de direita ou de esquerda? Ou, afinal, a sociologia nunca foi uma ciência, resumindo-se à ideologia daqueles que não conseguem despir-se das vestes do poder?
(...)
Passa por mim uma criatura que me evita o olhar e que se refugia na vitrine do hotel  para me observar de viés, como se não me conhecesse. No instante, interrogo-me sobre o mal que lhe terei feito, e sigo caminho... Mais adiante, outra criatura, em visita institucional, saúda-me majestaticamente, como se lhe faltasse a montra, e eu sigo pensando no perdigão que subiu a uma alta torre...
Apesar da visão refractiva me cansar cada vez mais, procuro esquecer aqueles que me olham de viés, mas é difícil.
(...)
O confronto verbal ignora a tema e perde-se em atalhos. A referência vive embrulhada na motivação, diluindo-se na banalidade do cidadão comum que, por sê-lo, voltou a ser súbdito...

17.4.16

Alberto Gonçalves, sociólogo de direita

 «Porque é que isto acontece? Ninguém faz ideia. Um governo do partido derrotado nas urnas, chefiado por uma nulidade irresponsável, herdeiro da histórica competência do PS, repleto de adolescentes mentais e iluminado pela ponderação do PCP e do BE tinha tudo para funcionar. É a história do maluco que se lançou várias vezes do 3º andar com consequências aborrecidas - e agora lança-se do 5º para ver se aterra ileso.» Alberto Gonçalves, Sociólogo, DN 17 de abril de 2016.

Primeiro não quis acreditar que fosse possível viver num país governado por uma nulidade irresponsável, depois reli o excerto de «Aos comentadores de "direita"» atento aos sinais de IRONIA. E percebi que os fundadores do PS eram incompetentes, que os quadros atuais pertencem à categoria dos adolescentes pré-adultos, que o PCP e BE não passam de grupos de destrambelhados. Quanto à história do maluco, desconheço o referente.
Embora pensasse que o Sol quando nasce é para todos, hoje sei que não é bem assim. O Sol ilumina os comentadores de "direita", mesmo que estejam adormecidos. De qualquer modo, o sociólogo Alberto Gonçalves já começou a despertá-los.
Sem querer ofender o ilustre sociólogo - afinal, a Sociologia também pode ser de direita! Salazar  foi uma nulidade irresponsável ao bani-la das Universidades - vou lembrar-me deste dia sempre que entrar ou passar por perto da Quinta Pedagógica dos Olivais.

16.4.16

Nunca fui escuteiro

As andorinhas ainda não chegaram, porém os escuteiros estão um pouco por toda a parte.
O dicionário da  Porto editora define o ESCUTEIRO como «mancebo pertencente a uma associação organizada, que se exercita em serviços humanitários e se prepara para a defesa da Pátria.»
A definição parece-me um pouco retrógrada: ignora as mancebas; confunde o escutismo com o voluntariado; revela uma matriz militar...
Eu nunca fui escuteiro, embora tenha sido seminarista, voluntário à força, tenha cumprido o serviço militar, campista e caravanista...
Bem vistas as coisas, só me falta ser escuteiro, mas creio que o melhor seria começar por rever a definição do termo...

15.4.16

espirro com letra minúscula

espirro com letra minúscula
(nunca atribui grande dignidade ao espirro)
a verdade é que raramente espirro
só que quando espirro a carcaça desfaz-se...
(...)
 talvez seja por isso que perco a paciência
(de mim todos esperam que seja paciente
há mesmo quem pense que nasci paciente)
só que ninguém ouve a carcaça a desfazer-se
(...)
casco velho cheio de frinchas
depois de me embebedarem os quistos
querem agora dissecar-me os gânglios
só que eu  prefiro o mar de sargaços
ou será de engaços
abstémio
disse-lhes que sim, daqui a seis meses,
sejam pacientes que eu vou ver se não espirro
(...)
se um costa incomoda muita gente
dois costas incomodam muito mais
e sobretudo um incomoda o outro

14.4.16

Não sei se...

Não sei se o atual ministro das finanças anda a esconder a verdade, mas custa-me aceitar que aqueles que, nos últimos anos,  nos mentiram diariamente venham acusar quem quer que seja de mentiroso.

Não sei se o Bloco de Esquerda não tem mais nada para fazer, mas parece. Talvez pudesse aproveitar o tempo para estudar um pouco de Gramática! Consta que o BE quer substituir o masculino pelo neutro para acabar com a discriminação. Haja paciência!

Não sei se o Almada Negreiros discriminava os ciganos, no entanto não deveria tê-los trazido à baila na guerra ao Dantas:

O DANTAS É UM CIGANO!
O DANTAS É MEIO CIGANO!

... e sobretudo não deveria ter discriminado as CIGANAS!

13.4.16

No reino da informalidade

As fronteiras podem ser uma fonte de conflitos, a história o ensina. Um pouco como a formalidade pode matar a espontaneidade e a imaginação.
Há, contudo, um certo tipo de informalidade que, como o aluvião, tende a ignorar as regras que impedem a subversão de valores e de comportamentos.
Dito de outro modo, há cada vez mais comportamentos que esmagam todo e qualquer valor.
Nem já os detentores do poder revelam ser capazes de separar a res púbica da res privata. O primeiro-ministro delega num amigo a responsabilidade de o representar em negócios equívocos.
Os exemplos são múltiplos!
Vivemos no reino da informalidade e quando tal acontece vinga a estupidez.

12.4.16

Francisco Nicholson, aluno do antigo Liceu Camões

«O ator, argumentista, escritor e encenador, Francisco Nicholson morreu esta terça-feira de manhã, 12 de abril. Internado no hospital Curry Cabral, o ator encontrava-se doente devido a complicações resultantes de um transplante hepático a que fora submetido há uns anos. 
Francisco Nicholson começou a fazer teatro aos 14 anos, no antigo Liceu Camões, sob direcção do encenador e poeta António Manuel Couto Viana, a convite do qual veio a pertencer ao Grupo da Mocidade, que integrou com, entre outros, Rui Mendes, Morais e Castro, Catarina Avelar e Mário Pereira.»

Será que a Morte prefere os dias sombrios? Há dias em que assim parece. Talvez, porque deixámos de encarar a morte como lugar de passagem ou, em alternativa, de reintegração no cosmos.  

11.4.16

Perante a soberba

Pouco posso dizer sobre as grandes questões, pois, do que conheço do passado, estas não passam  de querelas de ambiciosos sedentos de poder e de riqueza.
Por outro lado, do que conheço do presente, a maioria vive animadamente o momento, alheia aos problemas do mundo, como se vivesse num universo paralelo. E talvez viva!
Um universo que despreza o ponto de vista de quem quer que seja. Em certos dias, é mesmo necessário pedir desculpa por ainda cumprirmos o dever de explicar que o ponto de vista é o lugar a partir do qual se observa, a partir do qual se pensa... um lugar concreto, diferente sempre que ousamos mudar, aprofundar, questionar, propor outro caminho...
Perante a soberba, não querendo deixar de ser corteses, baixamos a voz, eliminamos as convicções, e resguardamo-nos nas definições.
Um destes dias, mais não faremos do que ler o manual de instruções...

10.4.16

Um poeta, ministro da cultura

Do Medo

1

Não pode o poema
circunscrever o medo,
dar-lhe o rosto glorioso
de uma fábula
ou crer intensamente na sua aura.
Nós permanecemos, quando
escurece à nossa volta o frio
do esquecimento
e dura o vento e uma nuvem leve
a separar-se das brumas
nos começa a noite.

Não pode o poema
quase nada. A alguns inspira
uma discreta repugnância.
Outras vezes inclinamo-nos, reverentes, ante os epitáfios
ou demoramo-nos a escutar as grandes chuvas
sobre a terra.
Quem reconhece a poesia, esse frio
intermitente, essa
persistência através da corrupção?
Quase sempre a angústia
instaura a luz por dentro das palavras
e lhes rouba os sentidos.
Quase sempre é o medo
que nos conduz à poesia.

2

Voltando ao medo: as asas
prendem mais do que libertam;
os pássaros percorrem necessariamente
os mesmos caminhos no espaço,
sem possibilidades de variação
que não estejam certas com esse mesmo voo
que sempre descrevem.
Voltando ao medo: o poema
desenha uma elipse em redor da tua voz
e cerca-se de angústia
e ervas bravias — nada mais
pode fazer.

Luis Filipe Castro Mendes, in "A Ilha dos Mortos"

A velha Índia

 «Pertenço a um género de portugueses / Que depois de estar a Índia descoberta / Ficaram sem trabalho...» Álvaro de Campos, Opiário.

Para lá do verde, o investimento alemão; por detrás, o que resta da velha Índia –  a ponte.
Bom seria que os políticos  se empenhassem mais em construir pontes do que em destruí-las.
(...)
Na Índia de hoje, a tragédia:
«O incêndio que deflagrou este domingo num templo indiano, provocado por fogo-de-artifício, causou pelo menos 102 mortos e 280 feridos, segundo um novo balanço oficial. Milhares de indianos juntaram-se na madrugada de hoje num templo hindu de Puttingal Deva, na província de Kerala, sul da Índia, para celebrar o festival Vishu, quando o local de lançamento do fogo-de-artifício a ele associado foi alvo de uma explosão.» Correio da Manhã

9.4.16

A Voz inútil é um modo de dizer

A Voz inútil é apenas o modo de dizer que naquele serviço o número de enfermeiros é de tal forma reduzido que não sobra ninguém para responder às questões dos familiares dos doentes.
Curiosamente, no serviço de internamento, o familiar e o amigo do doente são esclarecidos de que só o médico pode dar informação e como tal o melhor é ligar para a unidade, só que do outro lado irrompe uma Voz inútil...
Chegados à unidade, por exemplo de Cuidados Intensivos Neurocriticos, não há médico à vista, e apenas se vislumbra um enfermeiro em frente de um terminal de computador, provavelmente a preencher a ficha clínica dos doentes...
De qualquer maneira, não me posso queixar: o António está a recuperar bem da intervenção... e cá fora sempre pude observar o castelo de S. Jorge, apesar de bem distante.

A Voz inútil

Estou desde as 18 horas de ontem a ligar para o serviço de neurocirurgia do Hospital de S.José. O telefone toca durante meio minuto até que uma Voz 'responde', Lamentamos, de momento não é possível atender. Volte a ligar mais tarde.
Bem gostaria de saber de quem é esta Voz e quanto é que lhe pagam para realizar esta tarefa inútil.

Lá terei que me mexer e cumprir o preceito: Quem quer vai, quem não quer manda!

8.4.16

Partiu o ministro caceteiro

«Entretanto, o António Costa deve lembrar a João Soares que não precisamos de um ministro da cultura trauliteiro.» Caruma, 1 de Março de 2016

A nomeação de João Soares para ministro da Cultura só não me surpreendeu por ele ser filho de quem é. A Comunicação Social celebrou o 'homem de cultura', embora eu nunca tenha percebido porquê. Conhecia-lhe a arrogância que o levou a perder a renovação do mandato para presidente da CML, conhecia-lhe  o descaramento que o levara a apoiar Savimbi, contribuindo para a manutenção da guerra civil em Angola, conhecia-lhe as relações pouco recomendáveis com investidores chineses interessados na propriedade alentejana e não só...
No essencial, a cultura de João Soares resume-se a um discutível círculo de relações, com enorme dificuldade em aceitar a crítica... e que por isso reage como se ainda vivêssemos no século XIX.

7.4.16

Idalécio ou 'aquele que tem o espírito forte'

Passei anos a guardar papéis e eles são tantos e já amarelecidos que já não tenho paciência para os recuperar. Talvez pudesse digitalizá-los ou até copiá-los para o computador, mas falta-me o tempo e, sobretudo, sobra-me a ideia de que estes não iriam interessar a ninguém.
Apetece-me rasgá-los, de vez! De tempos a tempos, inicio a tarefa, mas acabo por suspendê-la. Vá lá saber-se porquê!
Nos últimos dias, tenho vindo a pensar que, definitivamente, perdi a hipótese de enviar os meus papéis para o Panamá.
Triste sina! Chego sempre tarde! Eu que prezo a pontualidade... a culpa é dos meus pais que não quiseram dar-me o nome de  Idalécio

6.4.16

De passagem...

Há tanta gente a necessitar de ajuda!Tanta gente em movimento!
Com maior ou menor diligência, desenvolvem-se estratégias de acolhimento e de integração. No entanto, quando se pensa na aprendizagem da língua portuguesa como forma de integração, há um momento em que todos desaparecem, como se o inglês bastasse para eliminar as fronteiras.
Afinal, o que se desenvolve através do ensino em inglês é uma nova forma de assimilação, em que as escolas em geral e, em particular, as universidades não passam de barrigas de aluguer.
A integração pressupõe o conhecimento da cultura do lugar, da sua especificidade linguística e histórica. Sem esse conhecimento, o imigrante e o refugiado (categorias, por vezes, indistintas) estarão só de passagem, mesmo que a linha que separa a vida da morte possa ser muito ténue... 

5.4.16

O mal-estar destes dias

Há sempre um dia em que a intimidade acaba exposta, mesmo se por prevenção ou para despistar sintomas recorrentes.
Há sempre um dia em que um amigo se prepara para regressar às mãos do neurocirurgião, mesmo se para por cobro ao crescimento de um cisto indesejado.
Há sempre um dia em que um filho decide regressar a Ancara, capital de um país, onde a repressão das oposições é cada vez mais frequente e violenta.
Há sempre um dia em que um colega nos parece ter subitamente envelhecido... 
Este é um desses dias!

(...)
Para a semana, esperemos que o vento frio se tenha afastado e que o pólen dos plátanos tenha cumprido a sua função.
Para a semana, esperemos que o mal-estar destes dias tenha cessado! 

4.4.16

Olho vê, mão pilha

«Mas os ‘Panama Papers’ batem o recorde em volume de dados, sendo a maior fuga de informação sobre offshores de que há registo: envolvem mais de 214 mil companhias. Os ficheiros incluem emails, fotografias, ‘powerpoints’ e partes da base de dados da Mossack Fonseca, a sociedade de advogados panamiana que está na origem da informação aparentemente mais relevante, num período entre a década de 1970 e 2016.» Imprensa, 4 de abril 2016 

Como escreveu Saramago em Memorial do Convento, «mas isto, confessemo-lo sem vergonha, é uma terra de ladrões, olho vê, mão pilha...» Só que Saramago, na circunstância, referia-se à arte de furtar portuguesa. Afinal, o furto é global, e como o polvo, sabe esconder-se nos lugares mais improváveis. No caso, no Panamá.
Paga-se o trabalho miseravelmente, corta-se nas pensões, condenam-se empresas à falência, colocam-se os povos no pelourinho, e para quê? Para que os abutres vivam à grande pelo menos desde os anos 70!

3.4.16

Pela integração

«Há duas maneiras de organizar a recepção de imigrantes. Uma tem a designação genérica de integração. A outra de multiculturalismo.»  António Barreto, DN, 3 de abril de 2016.
Vale a pena ler o artigo de António Barreto!
No que me diz que respeito, desde de meados dos anos 90 que pugno pela interculturalidade, uma das estratégias possíveis de integração. Nunca percebi como é que politicamente se pode defender a divisão do território em ilhas de cultura (religiosa ou outra...)
A maioria dos conflitos dos últimos 100 anos encontrou nessas ilhas terreno propício ao avanço de projetos de alargamento do chamado "espaço vital". Basta lembrar como Hitler anexou a Áustria, a Renânia, a República Checa, sempre em nome das minorias alemãs...
O que, afinal, em nada se distingue, por exemplo, da estratégia de Putin, mais recentemente...

2.4.16

Leituras várias

Desde as cinco horas que chuvisca e eu fui um dos tolos, embora não me possa queixar, pois o edredão secou enquanto o sol durou. 
Por entre os afazeres domésticos, o dia foi consumido numa caminhada e, sobretudo, em leituras várias: "O dia em que a jararaca voltou"; "Relations Internationales de 1930 à 1939"; "Les agressions allemandes et la marche à la guerre (1938-1939)"; capítulos primeiro e derradeiro de "Memorial do Convento"...  (Talvez, Santo Aleixo nos possa valer!)
Estas leituras podem parecer incongruentes, no entanto dão-nos a compreender a mecânica humana: por um lado a ambição desmedida; por outro, a inconsequência e a cobardia. 
O cruzamento de leituras de índole jornalística (Brasil atual), histórica (conflito entre ditaduras e democracias no séc. XX ) e ficcional, dá ao leitor o distanciamento necessário à compreensão do descalabro civilizacional em que estamos mergulhados.
Infelizmente, esta experiência é cada vez menos partilhada.
 

1.4.16

Para que serve a escola?

Quando não há uma relação direta entre o sucesso na vida e o sucesso escolar, qual é o lugar da escola no mundo atual? 
Tradicionalmente, a pergunta seria "qual é o papel da escola na sociedade atual?"
Na verdade, já não há sociedade e muito menos uma 'sociedade portuguesa' ou até uma 'sociedade europeia'. O que há são corredores que uns tantos percorrem, alheios ao interesse comum, e que, no final, se revelam portas de entrada para a riqueza e para a fama, independentemente dos meios para as atingir...
O sucesso na vida não obedece a qualquer critério ético, apesar de uns tantos continuarem a defender valores verdadeiramente anacrónicos, pois os media e as redes, ditas, sociais veiculam, ao segundo, atitudes e saberes despojados de qualquer criticismo.
A escola mais não é hoje do que um cais para onde são atirados os filhos daqueles que procuram o sucesso na vida a todo o custo nos corredores da desumanização e da alienação...
Nestas condições, para que serve a escola? Para que serve a escolaridade obrigatória de 12 anos?
Do ponto de vista relacional, qualquer observação revela que os laços desenvolvidos são fúteis e, por vezes, antissociais. Do ponto de vista da aprendizagem, não é difícil concluir que a matriz conteudística é desfasada da realidade e, como tal, desinteressante e aborrecida...