Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

31.1.16

António Lobo Antunes, sempre...

I - «Nunca esquecerei o início da minha carreira literária. Foi súbito, instantâneo, fulminante. Vinha eu de eléctrico para Benfica, depois de mais uma educativa tarde no Liceu Camões, espécie de campo de concentração aterrorizador e inútil, quando por alturas do Calhariz, uma evidência surpreendente me cegou: vou ser escritor. Eu tinha doze anos...»  António Lobo Antunes, Retrato do artista quando jovem - II, in Segundo Livro de Crónicas, pág. 137, Dom Quixote.

...Estávamos, assim, em 1954, sendo reitor do Liceu, Joaquim Sérvulo Correia (1950-1974)...

II - «Sempre que alguém afirma ter lido um livro meu fico decepcionado com o erro. É que os meus livros não são para ser lidos no sentido em que usualmente se chama ler: a única forma
          parece-me
     de abordar os romances que escrevo é apanhá-los do mesmo modo que se apanha uma doença.» António Lobo Antunes, Receita para me lerem, in Segundo Livro de Crónicas, pág. 109, Dom Quixote.

... Será por isso que, para mim, a leitura de António Lobo Antunes é aberta; pelo contrário, a leitura da obra de Saramago é fechada, o que perspetiva ao primeiro uma eternidade mais radiosa do que ao segundo.

III - «A minha estrada de Damasco ocorreu há cerca de dez anos, diante de um aparelho de televisão onde um ornitólogo inglês explicava o canto dos pássaros. Tornava-o não sei quantas vezes mais lento, decompunha-o e provava, comparando com obras de Haendel e Mozart, a sua estrutura sinfónica. No fim do programa eu tinha compreendido o que devia fazer: utilizar as personagens como os diversos instrumentos de uma orquestra e transformar o romance numa partitura.»António Lobo Antunes, De Deus como apreciador de Jazz, in Segundo Livro de Crónicas, pág. 131, Dom Quixote.

Ultimamente, leio os livros sem os anotar e sublinhar, o que, terminada a leitura, se revela uma grande chatice. Se quero fazer um apontamento, vejo-me obrigado a folhear o livro; no entanto, a vista raramente acerta, o que significa reler, tomar nota e voltar ao princípio. Para quem está de fora, isto só pode significar que me falta o método. Mas não, o que me acontece é o mesmo que ao hipocondríaco que foge a sete pés da saúde. Estar de saúde é estar morto! 

30.1.16

Talvez não seja picuinhice

«A ironia é o humor dos depressivos.»José Gameiro
 http://www.tsf.pt/programa/terra-a-terra/emissao/gouveia--vergilio-ferreira-5007298.html

Pouco tenho a dizer, a não ser que, enquanto leio António Lobo Antunes, vou escutando a emissão do programa Terra a Terra, dedicado a Vergílio Ferreira (TSF).
Pressinto que as minhas palavras não passam de picuinhices, mas gostaria de recusar a ideia de que Vergílio Ferreira tivesse sido «um mestre sem discípulos».
Num tempo de ortodoxias, Vergílio Ferreira era um professor heterodoxo que respeitava a pessoa do aluno, que o sabia ouvir, mas que recusava ser cúmplice de qualquer tipo de propaganda e detestava a mediocridade.
De qualquer modo, talvez não seja picuinhice ouvir quem o lê e quem o conheceu...

29.1.16

Apoquentado

´Apoquentar´ é uma daquelas palavras a que me habituei na infância. A minha mãe explicava o comportamento do meu pai, dizendo que ele andava apoquentado com a vida... Eu entendia que o céu não lhe sorria e por isso não me surpreendi quando um dia o vi partir para França, depois do granizo lhe ter destruído as vinhas.
O salto para França não lhe alterou o feitio, embora eu deixasse de ouvir falar da sua apoquentação. Por essa altura, quem andava apoquentado era eu, pois não compreendia o sentido da minha vida, apesar de me garantirem que o sentido da vida era servir...  
Durante anos, só esporadicamente ouvi conjugar o verbo 'apoquentar', e sempre na boca dos que serviam, sem receberem a devida compensação... 
Dir-se-ia que o termo 'apoquentar' só existia na boca da gente vulgar. Os poderosos desconheciam-no por inteiro, porque eles não se deixavam incomodar por miudezas...
De súbito, oiço o primeiro-ministro dizer que não está 'apoquentado' com as exigências da União Europeia - as divergências mais não são que miudezas!
Eu entendo o poderoso primeiro-ministro a quem o céu não tem faltado. Só que não consigo deixar de estar apoquentado... E parece-me que neste país há mais gente que vive apoquentada.

28.1.16

A solidão de Vergílio Ferreira

"A unidade do homem, centrada na consciência, desfaz-se à reflexão de que essa consciência é apenas «uma rede de comunicação entre os homens» e assim um homem solitário pode dispensá-la.! Vergílio Ferreira, Espaço Invisível 2, pág. 124, Bertrand editora, 1991

O homem solitário deste tempo deixou de ver reconhecida a consciência que lhe dava unidade, porque o conceito mudou de substância. Vergílio Ferreira, cada vez menos lido, não pode influenciar nem o estar nem o pensar, porque, afinal, o homem abdicou da consciência individual...
O homem já só existe se alinhado, isto é., se estiver presente nas redes sociais - redes de comunicação - cuja eficácia assenta na imagem fácil e na ideia medíocre.
Deste modo, ao ser molécula da consciência coletiva, o homem desfaz-se da sua possível unidade, deixando de ter valor como pessoa... passa a moeda de mão em mão...
(...) 
Hoje, o homem que optar pela solidão, morre... Vergílio Ferreira nasceu há 100 anos, escreveu uma obra que quis devolver ao homem a sua unidade ( a sua consciência), mas este não a quer mais.

27.1.16

Le Havre e o mundo à nossa volta

No âmbito do projeto "Moving Cinema", fui hoje à Cinemateca com três "alunos emprestados" ver o filme "Le Havre", do finlandês Aki Kausrimaki. 
Até ao momento da partida para a Barata Salgueiro, pensava que os dez alunos que integram a Oficina de Cinema da Escola Secundária de Camões, fossem cinéfilos... só que para meu espanto a maioria não deu notícia. Lá saberão porquê!
A proximidade das instituições permitiu que a deslocação se fizesse a pé e de forma célere. Todavia, na Conde Redondo ocorreu um pequeno incidente: um aluno deu uma cabeçada num semáforo, porque eu, atento ao que se passava no outro passeio, chamei a atenção para uma situação caricata. Um jovem, que descia a rua, chocou com uma corda de prumos sinalizadores de obra, deitando-os abaixo, sem revelar qualquer preocupação em os recolocar na posição correta. Entretanto, o mestre de obras, que saía do prédio em renovação, ficou estupefacto ao aperceber-se do que acabara de acontecer, sem, no entanto, perceber quem fora o responsável...
Desenlace: "o aluno emprestado" chocou com o semáforo sem lhe fazer qualquer mossa, facto que causou o gáudio de uns tantos africanos estacionados numa esquina.
(...)
A sala Félix Ribeiro estava cheia de petizes de origens diversas, mas alguns pareciam ter alguma dificuldade em compreender que o silêncio é condição necessária ao bom visionamento de um filme. Por outro lado, outros jovens, predominantemente de origem africana, revelavam uma apreensão muito interessante das situações, sem esquecer aqueles que conseguiam recordar o filme do ano anterior. 
(...)
Estas últimas reticências são a expressão de um intervalo gasto para entrega de uma caixa de música ao pai de uma criança de quatro anos que gosta de música, mas ainda não ouviu falar do topónimo Havre.
(...)
Ora os "alunos emprestados" também não sabiam que "Le Havre" é um porto francês - a pergunta surgiu a meio da Conde Redondo, ainda antes do semáforo... o que me fez lembrar o tempo em que nas aulas de Francês ensinava a geografia, a economia, a cultura de França, sem descurar a História, por exemplo, da ocupação alemã e da resistência...
Talvez por essa razão, o filme "Le Havre" recrie a situação dos emigrantes clandestinos e dos refugiados neste início do século XXI, mas com ecos comportamentais e icónicos do tempo da proliferação dos "campos de concentração" e do modo como as populações davam, ou não, proteção a quem era perseguido ou se via obrigado a fugir...
... Só que o desconhecimento dos lugares e dos tempos acaba por limitar a compreensão de obras cinematográficas, como a de Kaurismaki. Preferimos acreditar que as nossas "leituras" são capazes de dar conta do que, entretanto, vai acontecendo na "Jungle" europeia... 

26.1.16

Os calotes da campanha eleitoral

Em matéria de despesas da campanha eleitoral, sete candidatos não têm direito a qualquer subvenção estatal.
O Vitorino revelou-se senhor de muito tino, pois não terá gasto um cêntimo. O Edgar, apesar de não ser "engraçadinho", o Partido paga-lhe as despesas. O Morais, senhor de enorme moralidade, decidiu recorrer ao amigos do "face" para que estes lhe paguem a extravagância. O Neto já não tem idade para se queixar. Do Ferreira, não sei o que diga, mas terá património suficiente... O Jorge pouco mais terá gasto que uma ou duas avenças. E quanto à Maria Roseira, são rosas meu senhor... os seiscentos mil euros que terá gasto... Nem nunca D. Dinis chegou a saber! Porém, desterrou a rainha Isabel para Alenquer. Neste caso, desconfio que a quinta de Sintra acabará por mudar de mãos...

Quanto aos restantes, ratos de cidade, calaram-se bem calados, não vá o trovador tratá-los como, outrora, João Garcia de Guilhade fez a Dom Foam:


Dom Foam disse que partir queria
quanto lhi derom e o que havia.
E dixi-lh'eu, que o bem conhocia:
  "Castanhas eixidas, e velhas per souto".

E disso-m'el, quando falava migo:
- Ajudar quero senhor e amigo.
E dixi-lh'eu: - Ess'é o verv'antigo:
       "Castanhas saídas, e velhas per souto".

E disso-m'el: - Estender quer'eu mão
e quer'andar já custos'e loução.
E dixi-lh'eu: - Esso, ai Dom Foão:
       "Castanhas saídas, e velhas per souto".

25.1.16

Ao entardecer

Tudo começa acelerar, o frio alterna com o calor, o suor invisível entranha-se na pele depois de um longo banho catártico. 
Os santos de ontem caem em desgraça, e a salvação passa a estar do outro lado do telefone - qualquer resposta, que diga sim à imediatez, serve...
Ao entardecer, os argumentos perderam qualquer força. Só o silêncio e a obediência...
(...)
E quando os dias são de chuva, mesmo que a temperatura suba, tudo acelera ainda mais... e depois há o vento, quente ou frio, um demónio à solta...
(...)
Espero que ninguém pense que estou a referir-me ao "entardecer" de Cesário Verde. Há, de qualquer modo, a soturnidade da vida eivada de loucura, por vezes, pouco benigna.

24.1.16

Temos um novo Presidente da República

Temos um novo Presidente da República - Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa, nascido a 12 de Dezembro de 1948...

Esperemos que Marcelo Rebelo de Sousa saiba ser presidente de todos os portugueses, fazendo esquecer aqueles que, em nome do interesse dito nacional, contribuíram para o empobrecimento do país, hipotecando-lhe a soberania.

Apesar de tudo o que escrevi sobre o comentador, desejo que doravante o presidente saiba interpretar a lei, não como um solitário exegeta, mas como um homem permanentemente atento à realidade, sem transigir com todos aqueles que, em nome de interesses pessoais e corporativos, vão delapidando o património territorial, cultural e humano. 

Parece que a austeridade mora noutro lugar


Por onde circulo, os cafés estão cheios de um tempo ocioso.

A maioria dos clientes terá deixado de trabalhar há muito ou, talvez, nunca tenha trabalhado...
Não sei se já votaram ou se o tencionam fazer, mas o seu ar despreocupado preocupa-me...

Quando olho os cafés, e me dizem que vivemos em austeridade, fico sempre um pouco confuso: parece que a pobreza mora noutro lugar ou, então, não passa de uma fantasia... 

Dizem-me, entretanto, que os clientes dos cafés são estrangeiros, porém, quando apuro o ouvido, o argumento morre na chávena do meu café... 
Mais logo se verá!


23.1.16

Ao atravessar a Quinta das Conchas

Esta árvore parece ter uma vida difícil, porém não desiste. Ao atravessar a Quinta das Conchas, dei de caras com a sinuosidade torturada dos seus gestos e, primeiramente, pensei que o seu estado seria fácil de explicar: a secura do solo.

No entanto, ao olhar à sua volta, verifiquei que por perto se erguia um majestoso e frondoso eucalipto, o que desmentia de imediato que a água andasse arredia de tal lugar...
Afinal, o que falta a uma árvore sobra a outra. Injustiça, talvez!
A Natureza nem sempre favorece a equidade!

Enquanto medito, vou esquecendo

Vou votar? Não vou votar?
Se for votar, voto branco? Anulo o voto? Olho atentamente o boletim, e escolho o candidato mais velho, o mais novo, o mais bonito, o mais gordo, o mais magro?

(Estou na dúvida, pois não sei de quanto tempo disponho na mesa de voto para observar a foto de cada um dos candidatos.)

Esta meditação pode parecer disparatada, mas, na realidade, necessito de um critério de decisão. Ainda não passaram 24 horas e já me não lembro de nada de essencial: esqueci tudo o que eles disseram uns dos outros, ou fingiram não querer dizer; esqueci até qual dos candidatos é o mais beijoqueiro...

Como já esqueci quem são os candidatos, hoje já não penso mais neste tema.
Amanhã, se verá! Pode ser que me lembre de me deslocar à assembleia de voto e acabe por me deixar de fantasias... Na hora, talvez Deus me ilumine! Quem diria!?

22.1.16

A marca pessoal dos candidatos

Dia 24, há eleições para a presidência da República, e não sei em quem votar... Não por falta de candidatos, mas porque não lhes vislumbro perfil para tal responsabilidade.
Votei em 1976, em 1986, em 1996, em 2006, e sempre soube atempadamente o que fazer. Desta vez, não sei!

O modo como os candidatos se apresentaram ao país, lembra-me um grupo de pavões deslumbrados com as suas próprias plumas, que, a todo o momento, prometem cumprir com zelo a Constituição e servir o respetivo povo... Nenhum deles apresenta qualquer razão para que a Constituição seja revista, como se esta fosse a expressão de uma verdade indiscutível... Texto sagrado que só um ímpio ousaria desafiar! 
Todos estão prontos a jurar e a fazer cumprir a Constituição, deixando uma marca pessoal...

Se algum dos amigos quiser apontar dois ou três argumentos convincentes, ficar-lhes-ei muito agradecido.

21.1.16

Carta dos Deveres Humanos

Começa a preocupar-me que não haja uma Carta dos Deveres Humanos. 

Na procela política, há candidatos que clamam que não aceitam que lhes restrinjam os direitos...
Por outro lado, na vida diária, os indivíduos de todas as idades e condições, a todo o momento, reclamam os seus direitos...

Não quer isto dizer que não seja necessário combater permanentemente o desrespeito pelos direitos essenciais do ser humano e não só. Parece-me, no entanto, que, em termos de conduta, também deveria ser estabelecida uma Carta dos Deveres Humanos...

Por toda a parte, se verifica que muitos dos que exigem que os outros lhes reconheçam e zelem pelos direitos, se sentem, por seu turno, desobrigados de cumprir com deveres essenciais. 

E fazem-no, colocando-se ao abrigo da Lei e da Moral.


20.1.16

Escrever (Vergílio Ferreira)

« Escrever é ir descobrindo o que se escreve. Escrever é quando muito saber para que lados fica o que se procura. Mas como chegar lá? Como saber mesmo que fica para esses lados o que procuramos. Escrever (ou pintar, fazer música, etc.ou até mesmo discorrer em filosofia) é inventar ou criar e só a própria criação ou invenção nos diz por fim o que se inventou ou criou. Nos diz? Nem isso. Porque o que aí está não o sabemos bem, são os outros que no-lo explicam e enfim a sua significação fica sempre adiada enquanto a obra durar.» Vergílio Ferreira, Conta-corrente, nova série II, pág. 348, Bertrand editora

Pouco me importa registar que Vergílio Ferreira nasceu há cem anos (28.01.2016) e que com ele nasceram ou morreram outros vultos da cultura da nacional ou mesmo da cultura local, entenda-se, do Liceu Camões... 

(Ao contrário de outras eras, a informação está em linha, não sendo mais necessário recorrer a mediadores encartados que venham repetir pela enésima vez o que todos podemos alcançar e, também, é maçador aturar verdades construídas à sombra da ignorância do passado...)

O que vale a pena verificar é se, para além das homenagens, ainda há quem o explique, isto é, se ainda há quem o leia, aprendendo que escrever vai muito para além de qualquer processo de enfeudamento a um programa, seja qual for a respetiva natureza...

Escrever é descobrir que, para além das palas, se pode imaginar outras vidas. E esse é um caminho pessoal!

19.1.16

Falar a verdade

"Não acredites num tipo que te diz «falar a verdade». Não porque seja mentiroso, mas porque ele próprio a não sabe." Vergílio Ferreira, Pensar.

Escrevemos, muitas vezes, do que não sabemos, atrevendo-nos a afirmar que as enguias que, um dia, vislumbrámos num poço lá foram postas por algum pescador finório. Essa passa a ser a nossa verdade e com um pouco de sorte a verdade do interlocutor... Até que alguém explica que as enguias dos poços para lá foram empurradas pelos enchentes dos rios que ao inundarem os terrenos lhes mudaram o destino...
Quando nos dizem que «as cheias são as maiores de que há memória», embalados pela verdade da cantiga, deveríamos revisitar os poços para verificar se há por lá enguias...
Não há quem não «fale a verdade»! Em jeito de remate, eu próprio escrevo frequentemente «é verdade que...» 
(Prometo, estar mais atento!)

Nestes últimos dias, dez candidatos à presidência da República têm asseverado «falar a verdade» e, como pensou Vergílio Ferreira, nenhum deles a conhece. Como acreditar neles?

A verdade pressupõe a crença, e como tal nada do que é dito deve ser tomado como verdadeiro. Talvez possível... 
E nova dúvida se levanta sobre «a confiança» ! Pedem-nos que tenhamos fé - colectivamente ...

18.1.16

Escreve sem pressa

Se não sabes o que escrever, não te preocupes!

Lê uma página ou duas, ou mais se te apetecer.
Sai de casa, procura um jardim e, mesmo sem estares cansado, senta-te num banco, olha à tua volta, segue o voo dos pássaros, escuta-lhes o chilreado; observa os arbustos e as flores, procura-lhes a cor; com um pouco de sorte, talvez, oiças as crianças e o ranger dos baloiços. 
Ao regressares, não te debruces sobre o parapeito, deixa que o Intercidades se afaste - o comboio fica para o dia em que te encontres no cais... Observa apenas os idosos que regressam das compras, em silêncio e tristes, porque só compraram uma pequena parte do que sonharam...
  
Se não sabes o que escrever, não te preocupes!

Amanhã, tu ainda podes ler as páginas que te apetecer, tu ainda podes substituir o jardim pelo cais. Os idosos, esses, vão ficando por casa, tristes... a dormitar. 

17.1.16

Se possível, não escrevas...

Se possível, não escrevas, não digas nada.

Fica, apenas, a olhar a criança-ciclista que desce a rua, vinte metros atrás do pai-ciclista... O automobilista segue-os, incrédulo, acabando por ultrapassá-los com cautela numa recta antes de virar à direita...

Se possível, não escrevas, não penses na curva, na briosa criança-ciclista e no pai-ciclista para além da curva, destacado, como se toda a estrada mais não fosse do que uma pista reservada a ciclistas...

16.1.16

A chave que a vida nos oferece

                 «A pessoa tem de renunciar à sua própria chave
            aquela que todos temos para abrir a vida, a nossa e a alheia
            e utilizar a chave que o texto lhe oferece.»
                  António Lobo Antunes, Receita para me lerem 
                        Segundo Livro Crónicas, Dom Quixote

Habituados a trazer no bolso ou na mala a chave de casa, do carro... acreditamos que para tudo há uma chave. Uma chave anterior, exterior a nós.
As chaves são nossa propriedade, e quando as perdemos ou no-las roubam  caímos no desespero e, devotos de ocasião, rogamos a santo António que no-las traga de volta...
E se o santo nos falta, recorremos às chaves do Areeiro (passe a publicidade) que nos arromba a porta e nos faz pagar uma nova fechadura para que possamos regressar ao sossego do porta-chaves...

No entanto, quando se trata da vida, de a compreender, de a enfrentar, não há chaveiro que nos valha, porque cada vida tem a sua própria chave, difícil de encontrar e, sobretudo, porque falta-nos a disponibilidade para a aceitar... até porque na vida não estamos sozinhos, e cada um tem a sua chave como única. 

15.1.16

Deve ser do vento...

Não os conheci pessoalmente. Ou se calhar, conheci-os e perdi-lhes a voz, porque, para mim, sem voz não há conhecimento.
Ter-se-ão zangado por escrito, o que é inevitável para quem lhes lê as obras, conhece as capelas e a filiação.
Dizem-me que sob os plátanos fizeram uns tantos apóstolos, uns mais niilistas, outros crentes na salvação da humanidade oprimida.
Durante muito tempo, tive como seguro que os discípulos se detestavam uns aos outros, de tal modo que era impossível atribuir o nome de um a um plátano, sem que os apaniguados do outro se enfurecessem, exigindo a exclusividade do dito cujo...
Um era existencialista, forjado num seminário da contra-reforma; o outro era marxista, enfeitiçado pelas conquistas soviéticas...
Atormentados pela Morte, colocaram-na num pedestal, servindo-a escrupulosamente. O primeiro, substituiu-a pelo Desespero Absoluto; o segundo, acabou por ver nela o Redentor do rebanho oprimido.
Agora há quem queira juntá-los! Deve ser do vento...       

14.1.16

Situação I

(À porta da sala de aula.)

O professor abre a porta.
Os alunos precipitam-se para o interior.

O professor continua do lado de fora.
(...)
Os alunos saem em silêncio...

13.1.16

'Nem Só de Caviar Vive o Homem'

Ler um extenso romance exige tempo e, por vezes, paciência. Nem sempre, a intriga é suficientemente verosímil, sobretudo quando abarca um longo período, marcado pelo terror da guerra - de 1939 a 1958.

O romance Nem Só de Caviar Vive o Homem, de J. M. Simmel, é um bom exemplo de uma obra que, sem ter a guerra como tema central, dá conta dos modos como esta se desenvolve nos bastidores, misturando situações de espionagem e de contra-espionagem com negócios mafiosos de toda a sorte, sem esquecer o papel decisivo da gastronomia...
Num mundo desumano, o herói, Thomas Lieven, sobrevive porque há sempre uma solução humana:

«Ao longo de toda a minha vida desconfiei das palavras altissonantes e dos grandes heróis. Também nunca gostei de hinos nacionais, de fardas, e daqueles a quem chamam homens fortes.» op. cit., pág. 506.  

Em conclusão, vale a pena ler este romance porque ajuda a compreender os bastidores da segunda guerra mundial nos países beligerantes e nos países neutros, como a Suiça e Portugal, até porque boa parte da ação decorre em Lisboa, revelando o modo como o Estado Novo se comportou durante aquela época.
A informação sobre Lisboa, Estoril e Cascais, é rigorosa. 

12.1.16

Qualquer soldado raso pode chegar a general

Nesta República, qualquer soldado raso pode chegar a general - resposta de Nóvoa ao general Marcelo que entende que a Presidência só pode ser ocupada por generais e almirantes... 

Enquanto um parece socorrer-se de uma metáfora de origem castrense, o outro exprime literalmente a sua convicção de berço...

O problema é que ambos, apesar de se declararem abertamente comprometidos com o futuro, continuam a utilizar a linguagem do passado.

Por outro lado, a História ensina que só em contextos revolucionários e despóticos é que soldados rasos conseguiram alcandorar-se ao generalato.

E nesta guerra de senhores feudais, as donas continuam a ficar em casa.

11.1.16

D. Afonso Henriques tinha um cavalo...

«... D. Afonso Henriques tinha um cavalo porque os reis andavam a cavalo só os presidentes é que não sabem montar e nas batalhas o rei D. Afonso Henriques ia todo vestido de rei que é um fato de lata e entrava à espadeirada aos inimigos que fugiam dele não sei porquê...»
     Luís de Sttau Monteiro, Redacções da Guidinha

Para mim, um candidato a presidente que não saiba montar a cavalo não serve. Já passaram mais de cem anos desde que o último rei foi desmontado do cavalo, cedendo o lugar a presidentes que, na maioria, nunca aprenderam a montar a cavalo, embora tenham aprendido a ceder aos interesses dos poderosos e, até em demasiados casos, tenham aumentado a fortuna de familiares, amigos e sequazes...

Para evitar este descalabro, creio que o melhor seria só aceitar a candidatura a presidente de quem soubesse montar ou, pelo menos estivesse disposto a aprender. E depois o eleito presidente ia por esses campos fora, montado no rocim presidencial, à conquista das ilhas perdidas até reencontrar o Encoberto... o verdadeiro responsável pela queda da Cavalaria...

Texto motivado pela leitura de uma estrofe de D. Dinis:

Joam Bol' anda mal desbaratado
e anda trist' e faz muit' aguisado
ca perdeu quant'havia guaanhado
e o que lhi leixou a madre sua: 
um rapaz que era seu criado
levou-lh' o rocim e leixou-lh'a mua

10.1.16

MNAC - Museu do Chiado: 4,5 €

" O património é de todos, ajude-nos a conservá-lo."

A entrada no Museu Nacional de Arte Contemporânea custa 4 euros e cinquenta cêntimos. 4 euros e cinquenta cêntimos é quanto pagamos para a ver a programação atual.
Hoje, no Piso 3, visitei quatro das instalações* que se candidataram à 1ª edição do Prémio Sonae Media Art, tecnologicamente interessantes, mas efémeras.
A efemeridade não é, em si, um defeito. No entanto, quando o custo da entrada é tão elevado, estas ou outras instalações tornam-se invisíveis. Deste modo, o MNAC não só não divulga os artistas, como não obtém as verbas necessárias à preservação do património...

*Tatiana Macedo. INSTALAÇÃO VÍDEO DE PROJEÇÃO SIMULTÂNEA EM TRÊS ÉCRANS (vencedora) 
Patrícia Portela. PARASOMNIA, 2015
MUSA PARADISÍACA, CANTINA FÁBULA, 2015
RUI PENHA. RESONO, 2015    

9.1.16

Marcelo, sobranceiro

Tenho profunda esperança que os portugueses decidirão em janeiro o que não devem deixar para fevereiro”. Marcelo contraria Costa: “a primeira volta vai ser as secundárias da esquerda".

Pode até estar melhor preparado do que os restantes candidatos, porém Marcelo Rebelo de Sousa revela falta de humildade, como, se predestinado, lhe bastasse a vassalagem de um povo que ansiasse pelo Messias...
Imaginando-se anunciado por algum longínquo oráculo, Marcelo procura conquistar a tribo dos infiéis, abrindo mão, assim, do rebanho que naturalmente o seguiria, como se ele fosse o bom pastor...
Corre, no entanto, o risco de as ovelhinhas não serem tão mansas e cristãs como ele quer crer. Por vezes, as mansas ovelhinhas conseguem reconhecer o lobo, sobretudo quando ele é demasiado espalhafatoso e arrogante...

8.1.16

Sempre que um inteligente chega ao Ministério da Educação...

Sempre que um inteligente chega ao Ministério da Educação, é sabido que os modos de avaliar mudam.
Educar, nos últimos 20 anos, passou a significar "avaliar", "classificar"...
Pouco importa se há alguma coisa de consistente para aprender.
Pouco importa a qualidade da formação de quem é suposto ensinar.

De facto, é mais rápido alterar os modos de avaliar do que criar um sistema de formação de alunos e de professores adequado à realidade atual e que ajude a construir o futuro. Entretanto, vamo-nos entretendo com o passado...
Criar um sistema de formação exige tempo, e tempo é o que faz falta ao inteligente que, a toda a hora, chega ao Ministério da Educação.

7.1.16

A chuva e o vento

Pensar que a chuva cai da direita para a esquerda é possível. Neste momento, as gotas estão quase a chegar ao fim da linha ou, melhor, já mudaram de linha...
Se a chuva fosse chinesa, ela cairia da esquerda para a direita e, provavelmente, vê-la-íamos a saltar de linha...
Sob a forma de bátega, a chuva cai a direito, e as grossas gotas, em vez de correrem, fazem-nos perder a linha...
Há também uma chuva miudinha que não se sabe se cai e que, por vezes, nos entontece e, outras, nos refresca...

A chuva a que me refiro, na verdade, não cai; quase tudo o que lhe acontece é por força do vento.

Talvez devesse agora reiniciar: «Pensar que o vento sopra da esquerda para a direita é possível» e sem ter que ir à China «Pensar que o vento também sopra da direita para a esquerda»...
                                                             e em pouco estaria no olho do furação...

6.1.16

Bomba de hidrogénio: Surpresa ou hipocrisia?

Bombe H : « La Corée du Nord a surpris tout le monde » Le Monde

A Coreia do Norte surpreende o mundo inteiro!

Não acredito que um país que vive fechado sobre si próprio tenha capacidade científica, tecnológica e recursos financeiras para levar a cabo este tipo de testes, sem que outros países lhe forneçam os recursos necessários, inclusive humanos... 
E como tal, o espanto da comunidade internacional não passa de uma manobra de diversão. Quem é que pode crer que a China, a Rússia, os Estados Unidos, a Índia, Israel, o Irão, o Paquistão, o Reino Unido e a França nada saibam do que se passa na Coreia do Norte?

Os loucos, entretanto, continuam à solta: aterrorizam e condenam à miséria as  populações que, infelizmente, acabam por os idolatrar...
É importante não esquecer que em Portugal há gente boa que continua a confiar na bondade de regimes, como o da Coreia do Norte.
Esta é uma matéria sobre a qual todos os candidatos a presidente da República deveriam pronunciar-se.

5.1.16

Da opacidade da evidência

O que eu gostava de saber é por que motivo as evidências são tão opacas. Talvez, o problema seja meu, e eu não saiba o que é uma evidência. Será que há alguma relação entre a evidência e a vidência?
De facto, há muito que o meu pensamento sobre o estado do mundo é contestado pelos videntes que me andam cercando como as ondas de San Simion, só que a amiga era cega e por isso não tinha pejo em pedir aos elementos que lhe dessem novas do amado...
Há quem pense que a melhor forma de vida é esperar que lhe tragam a morte amortalhada no arco-íris, eu porquanto prefiro andar à chuva e ao sol, sabendo que por mais água que deitemos sobre o fogo, este nunca se apaga...
A esta hora, o leitor já estará a pensar a que evidência é que me estou a referir, sem compreender que é aquela que, por estar por cima do nariz, não pode ser objeto de vidência. 

4.1.16

Montesquieu e a decadência de Portugal

Da leitura das Cartas Persas (1721), infere-se que a expansão portuguesa, no opinião de Montesquieu, não teve êxito por motivos religiosos e demográficos.
Primeiramente, porque o catolicismo gerou uma visão do mundo retrógrada, inimiga da tolerância religiosa e da razão humana... Em segundo lugar, porque, em termos demográficos, a nação não tinha qualquer possibilidade de gerir as enormes parcelas do império inicial, apesar de não ter optado, como acontecera com a Espanha, pelo extermínio dos íncolas:

«Quanto aos portugueses, optaram por uma via oposta; não usaram da crueldade: por isso, foram rapidamente expulsos de todos os países que tinham descoberto. Os holandeses favoreceram a rebelião destes povos e aproveitaram-se dela.» Carta CXXII

O que Montesquieu não refere é que estes holandeses eram, em muitos casos, judeus expulsos da Península Ibérica, primeiro de Espanha e depois de Portugal.

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Faleceu o amigo Manuel Duarte Luís. Relembro-o como o homem bom que, nos anos 80, me convidou para com ele orientar a formação de professores no Colégio Vasco da Gama, em Meleças.
Profissional zeloso, procurou sempre que as escolas em que lecionou e de que foi diretor fossem espaços de educação, de aprendizagem e de socialização...
Para o Manuel Duarte Luís, o Outro era sempre uma PESSOA!
(4.1.2016)

3.1.16

O Prémio Vasco Graça Moura - Cidadania Cultural

O Prémio Vasco Graça Moura-Cidadania Cultural foi atribuído, por unanimidade, ao ensaísta Eduardo Lourenço, de 92 anos, anunciou hoje a Estoril-Sol, que instituiu o galardão, em parceria com a editora Babel.

Leio frequentemente a obra de Eduardo Lourenço, e reconheço-lhe o talento ensaístico e a capacidade de recuperar temas essenciais da cultura portuguesa na sua relação com a Europa e  com os restantes continentes, mas causa-me  perplexidade uma certa tendência na atribuição dos prémios: a veneração do mais velho em detrimento do mais novo...
A própria notícia, em vez de evidenciar o esforço do professor e ensaísta em prol da cidadania cultural (o que não deixa de ser pleonástico), prefere enumerar os prémios atribuídos e as condecorações recebidas...
Parece que só a morte do mais velho pode "libertar" o mais novo. Relembre-se, por exemplo, o culto de Manoel de Oliveira. 
De qualquer modo, o Estoril-Sol está no direito de atribuir o prémio a quem bem quer, embora creia que Vasco Graça Moura que, designadamente através da Casa da Moeda - Imprensa Nacional, deu um forte contributo para a divulgação da obra de Eduardo Lourenço, talvez preferisse ver reconhecido o trabalho de "alguém" das gerações mais recentes...

2.1.16

Não há honra nem dignidade...

«Não há honra nem dignidade no príncipe que se alia a um tirano. Diz-se que um monarca do Egipto mandou prevenir o rei de Samos da sua crueldade e tirania, intimando-o a corrigir-se: como ele não o fez, mandou dizer-lhe que renunciava à sua amizade e à sua aliança.» Montesquieu, Cartas Persas, Tomo II, pág.229-230, Tinta da China edições, 2015

Cartas Persas é uma obra pícara, escrita à maneira de Fernão Mendes Pinto, que põe em primeiro plano a defesa dos direitos humanos, em culturas determinadas por princípios religiosos discriminatórios, apesar de, por vezes, parecerem diametralmente opostas... 
Para quem, algum dia, leu Peregrinação é visível a influência do estilo pícaro de Fernão Mendes Pinto em Montesquieu e, em particular, da capacidade de espelhar os defeitos de uma cultura, contrapondo-a à hipérbole das qualidades de uma outra...
(...)
Hoje, por outro lado, o que Montesquieu nos ensina é que muito mal vai o príncipe (a União Europeia) que mantém relações de subserviência com o tirano ( o presidente da Turquia) por muito válidas que as razões possam parecer (acolhimento dos refugiados e expansão do estado islâmico)...

1.1.16

Ao contrário de José Tolentino de Mendonça

Sou matéria finita. Para lá da materialidade, nada experimento, apesar das religiões... Como tal, não me defino como tempo, nem como espaço - vivo um certo tempo e ocupo um determinado espaço, bastante mais material do que a duração...
Ao contrário de José Tolentino de Mendonça, não vejo como defender que «somos feitos de tempo, lavrados instante a instante pelos seus instrumentos» (E/58, 31 de dezembro de 2015). Que eu entenda, não é possível falar da materialidade do tempo até porque tal definição seria contrária à ideia de redenção que caracteriza todas as religiões monoteístas... 
Admito, sim, que estou no tempo enquanto a matéria de que sou feito não se consome. Depois ou antes, nada posso fazer a não ser ceder involuntariamente o lugar a outros... 
Ao contrário de José Tolentino de Mendonça, para mim estar no tempo não significa qualquer forma de desespero trágico, porque a redenção que tanto o ocupa pressupõe uma culpabilidade herdada e, sobretudo, uma graça divina que me seria imposta por uma força externa à matéria finita.
Quanto à nossa tarefa, basta-me o princípio da equidade...