Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

30.4.15

Complexidade e especialização

Como produto determinado e convencionado pela "inteligência portuguesa", e depois de alguns cálculos elementares para a minha idade, acabo de concluir que, apesar da escola exigir que os jovens saibam ler e produzir textos complexos, os devemos afastar de qualquer tipo de metalinguagem que implique especialização...
Pelas minhas contas, só, por volta dos 22 anos, o jovem estará apto a iniciar uma especialização (2º ciclo de Bolonha), mas sem que lhe seja exigido qualquer esforço de investigação - esta será parte integrante do 3º ciclo (de Bolonha, acrescentado), e deve concentrar-se na descoberta de novos lugares de migração que o possam acolher...
Entretanto, estou sem saber como será possível exigir que um adolescente aprenda a ler e a produzir um texto complexo...
Ainda resolvi procurar a definição de "complexo", mas desisto: afinal, o jovem só deve começar a aprender linguística, anatomia, química, psicologia, arte, bem mais tarde... Por enquanto, os rios ainda correm para o mar! Claro! Há sempre aqueles que correm para o mundo..., mas tal já implica especialização, investigação...

O verbete que se segue é para maiores de 22 anos. Ou será 23?

http://www.lexico.pt/complexo/
adj.
1. Diz-se do que possui ou engloba grande quantidade de elementos ou dimensões que, embora distintas, se encontram relacionadas entre si; que é complicado, de entendimento abstruso: uma situação complexa;
2. Que abarca, contém ou envolve numerosas questões, matérias ou coisas: uma matéria complexa;
3. Característica ou particularidade daquilo ou daquele que é intricado, difícil ou confuso: sistema ou técnica complexa;
4. Que não é claro ou percetível - que é obscuro ou impenetrável;
5. Diz-se do que pode ser avaliado ou observado de variadas perspetivas; que é multifacetado ou multiforme;
6. (Anatomia) Denominativo de todo e qualquer músculo par situado na área cervical na cabeça;
7. (Linguística) Referente ao vocábulo composto ou gerado por composição ou por derivação;
n.m.
8. Designação atribuída a um aglomerado de situações, eventos ou coisas que se encontram ligadas ou conectadas de algum modo entre si;
9. Estruturação ou conceção constituída por grande quantidade de componentes articulados ou concatenados que operam como um todo;
10. Designação de problema, perturbação ou inquietação (de cariz psicológica);
11. (Química) Denominação atribuída a composto químico em que é possível verificar a constituição de ligações de coordenação entre moléculas ou iões com átomos ou iões de metal;
12. (Psicologia) Aglomerado ou conjunto de pensamentos, sentimentos ou ímpetos interligados, normalmente de natureza inconsciente e com origem na infância, que representam parte constituinte da personalidade de uma pessoa, estabelecendo, às vezes, a sua forma de agir.
(Etm. do latim: complexu)
Sinónimo de Complexo
Sinónimos: abstruso, agregação, agrupamento, complicado, confuso, conjunto, difícil, dificuldade, inquietação, mesclado, misto, mistura, multifacetado, multíplice, obscuro e perturbação
Antónimo de Complexo
Antónimos: básico, claro, compreensível, descomplicado, desintrincado, fácil, incomplexo e natural

Uma Rapariga da Sua Idade, filme de Márcio Laranjeira

Estreou esta noite na Culturgest, a primeira longa metragem de Márcio Laranjeira - Uma Rapariga da Sua Idade
(No imediato, volta a ser possível ver este notável filme na próxima 6ª feira, 1 de maio, pelas 14h30 na Culturgest. A não perder!)

Ao contrário do sol queirosiano e turístico, neste Portugal, refundado em 2011, a luz é de cinza, e, quando chove, a água escorre por dentro, embora não elimine a sujidade que impregna o casario e as barracas de feira...
As pedras ausentes foram substituídas por limões cuja função é desestabilizar os incautos transeuntes - a imagem do limoeiro é recorrente, signo auto-irónico (?)
A agonia é apoteótica, dionisíaca não fosse a suspensão provocada pelo despertar da manhã e, sobretudo, pela presença dos gigantones...
As personagens vivem nessa suspensão, que, no caso português, é, afinal, a experiência de uma geração encurralada num determinismo atávico...

Trata-se de um filme que de Lisboa a Viana do Castelo, passando momentaneamente por Nova Yorque, nos dá conta da penumbra em que vegetamos, procurando uma explicação que nem a escadaria de S. Bento nem o fogo de artifício da Senhora da Agonia nos trazem... Até as singelas ovelhinhas fogem de nós!
Infelizmente, o realizador pode começar a pensar numa nova longa metragem, com mais cinza, mais non sense num caos superiormente organizado.
Estão de parabéns, o Márcio Laranjeira e toda a sua equipa. Resta saber se nós os merecemos!

28.4.15

Saramago explica o rapsodo que há na sua obra

15 de fevereiro de 1994

Regresso a um tema recorrente. Todas as características da minha técnica narrativa atual (eu preferiria dizer do meu estilo) provêm de um princípio básico segundo o qual todo o dito se destina a ser ouvido. Quero com isto significar que é como narrador oral que me vejo quando escrevo e que as palavras são por mim escritas tanto para serem lidas como para serem ouvidas. Ora, o narrador oral não usa pontuação, fala como se estivesse a compor uma música e usa os mesmos elementos que o músico: sons e pausas, altos e baixos, uns, breves ou longas, outras. Certas tendências, que reconheço e confirmo (estrutura barroca, oratória circular, simetria de elementos), suponho que me vêm de uma certa ideia de um discurso oral tomado como música. Pergunto-me mesmo se não haverá mais do que uma simples coincidência entre o carácter inorganizado e fragmentário do discurso falado de hoje e as expressões “mínimas” de certa música contemporânea.

José Saramago, Cadernos de Lanzarote

Hoje, recorro a José Saramago para combater o argumento da ilegibilidade, por exemplo, de MEMORIAL DO CONVENTO.
Apesar do parágrafo ser curto, continuará a haver quem prefira nem OUVIR nem LER em VOZ ALTA.

No âmago da rejeição estará certamente o modo como na infância o contador / inventor de histórias foi substituído pelo leitor, matando definitivamente o NARRADOR ORAL - o rapsodo (poeta popular, ou cantor, que ia de cidade em cidade recitando poemas épicos).

27.4.15

O que me choca é esta coisa das datas

Eu também não ouvi o discurso do sr. Presidente no "seu último 25 de abril". Pareceu-me até, pelos ecos a que não pude escapar, que o discurso já tinha sido escrito a 24 de abril... No meu caso, esta minha insubordinação não é preocupante, já que não sou candidato ao que quer que seja (Andam por aí comentaristas à solta, em regra surdos, que, desta vez estão chocados!)

O que me choca é esta coisa das datas. Já não há data livre! Há sempre um santo, uma efeméride a celebrar. Já ninguém se preocupa com o presente e muito menos com o futuro. A alienação é tal que até já há quem não se importe de consumir droga para cavalo... 
Parece que em 2017, vem aí o Papa Francisco! Daqui até lá, vai ser um regabofe. Todos à espera da amnistia...

Por este andar, ainda vou aprender mandarim para que, quando os chineses tomarem conta disto, possa emigrar para a China!

26.4.15

O poço e a corda

O poço é pouco profundo; a nascente é sazonal - depende da chuva de inverno que a ribeira dispersa rapidamente. Em tempos idos, diz-se que as enguias eram frequentes e que quem as colhia se servia de folhas de figueira para melhor lhes controlar a viscosidade... Já não sei se algum dia as cheguei a ver...
Parece-me, hoje, que aquelas enguias seriam dos poucos recursos que ali cresceriam por altura da segunda guerra mundial. A fome era inevitável por culpa própria e alheia. A terra não produzia o suficiente para matar a fome daquelas gentes; os candongueiros vendiam para espanha e para alemanha os parcos produtos arrancados à terra seca; os ingleses encareciam as exportações; os alemães não cumpriam os acordos resultantes do fornecimento de volfrâmio; e os americanos, sôfregos, não queriam saber de compromissos nem alianças...
Desse tempo, sobra o poço sem enguias e quase sem água. Só as silvas o enriquecem; as figueiras estão cada vez mais desvalorizadas, nem a madeira aquece; as oliveiras resistem, como salazar resistia, e os portugueses continuam a resistir: cada vez mais pobres, submetidos à austeridade...
Como se sabe, quem cai no fundo poço, se, entretanto, não morrer afogado, precisa de uma corda e de quem a puxe. 

25.4.15

O 25 de Abril não passou por aqui

Em entrevista conduzida por Nuno Azinheira (DN 25.04.2015), Paulo de Carvalho, embora centrando-se na sua história de vida, dá conta de que o passado, em vez de libertar, pode acabar por  nos murchar, como acontece a todos os cravos:

«O que pesa é ligarem-me sempre a essa música - E depois do Adeus - e ao 25 de Abril. O que pesa é que não se preocupem com o que eu ando a fazer. Isto é muito chato. Chato e um sinal da "incultura de uma série de gente com responsabilidades e que não é capaz de informar." "É muito fácil usar o rótulo de sempre. Ora, acontece que eu gravo um disco de três em três anos. Depois desses êxitos, já fiz muita música, já escrevi muitas canções. Mas as pessoas não sabem, estão presas ao passado." O 25 de Abril não passou por aqui.»

O problema não é que as pessoas não saibam, é que não que queiram saber... 
É tempo de criar novo refrão!

24.4.15

E depois veio o 25 de abril

«e depois veio o 25 de abril, cravos vermelhos, Grândola / vila morena, e o povo é quem mais ordena, e então / aparecem em toda a parte uns gajos que, faz favor, / era a eito, desde o Cristo Cunhal até ao jotinha: / o meu reino é para já...» Herberto Helder, A Morte Sem Mestre, pág.45-46.

41 anos depois, uns irão descer a avenida, outros subirão ao carmo; a vila morena, bastante mais pálida, derramar-se-á sobre o vermelho dos cravos...
Entretanto, os gajos,  já gagás, soltarão vivas a abril: uns de barriga cheia; outros de barriga vazia. Como se a Índia ainda existisse! 
À força de repetirmos o caminho, desembocámos no beco das almas depenadas pelos jotinhas, os únicos que sempre souberam encher o papo, não fossem eles filhos dos abutres do estado novo...

Estranho, estranho é que ainda haja quem acredite (ou nos queira fazer acreditar) que o povo é quem mais ordena... Peço desculpa pela heresia, mas bem sabem que sou um homem sem fé...

23.4.15

Nesta hora canina

Cães há que têm muita paciência: esperam minutos a fio que os donos desfiem as vidas que não são deles, a não ser no cavaco abjeto. Castrados.
Outros há que aceleram a trela, embora saibam que só lhes resta içar a perna e regressar à sombra dos donos. Fingidos.
Da matilha, o melhor é nada dizer, pois, genuína, não descansa enquanto não ceva a perna ao primeiro incauto que encontrar...

Hoje, ao sair de um supermercado, uma mãe comentava para a filha ao ver-me passar: Olha que cãozinho tão lindo, como ele olha embevecido para o senhor. Na verdade, o cão parecia uma bexiga de porco pronta a estourar... Mas fiquei-lhes agradecido, vá lá saber-se porquê?

Nesta hora canina, apenas lamento não conhecer nenhum cão caçador exímio em cevar coelhos...

A culpa é da palavra que acelera a trela e se enreda nela.

22.4.15

Conjetura

Antes que a pergunta se perca: - Para quê mudar a cara, se basta substituir a máscara?

No teatro grego, a cara nunca se mostrava; e mais não era do que o suporte das contingências que habitavam a esfera...

O teatro na sua origem era a expressão possível da matemática, isto é, da thike da mathema. Dito de outro modo: a matemática era a arte (thike) que dava forma ao conhecimento (mathema) do espaço e do tempo, que media e pesava a matéria...

Mais tarde, a matemática, para se soltar da esfera inicial, criou uma outra esfera já só constituída por símbolos que esperam, um dia, apagar todas as máscaras pondo, assim, termo às contingências.

PS. Dedico esta conjetura ao nosso amigo MSR que faz hoje anos, mas que não pode deixar de estar triste, lembrando que a tristeza é inseparável da alegria. Bom é saber que a dor de hoje é a expressão da alegria  de ontem... 

21.4.15

Em abril, das mil águas, nem um pingo de vergonha!

Das mil águas, abril não dá conta, dir-se-ia mês de mil nuvens esbranquiçadas... 
O povo lá segue aparvalhado, incapaz de punir quem ordena, preferindo ser carrasco de mulheres e crianças...
Uma parte ainda continua a entoar hossanas a abril, à espera que este lhe traga «a paz, o pão, habitação, saúde, educação».
Em abril, as rosas e os cravos continuam a florescer  e a outra parte do povo, a fenecer. Se, pelo menos, abril cumprisse as mil águas, talvez quem ordena fosse na enxurrada, e o povo deixasse de ser carrasco de mulheres e crianças...

No abril que corre, para além das estéreis nuvens esbranquiçadas, quem ordena já abriu as comportas da propaganda de tal modo que o povo segue aparvalhado, incapaz de punir quem ordena, preferindo ser carrasco de mulheres e crianças, sem esquecer os náufragos da terra e do mar das partes do médio oriente e de áfrica...

Quem ordena bem sabe que a culpa é dos trabalhadores, dos que não têm trabalho, dos que não têm terra!...
Como disse hoje um distinto sindicalista, a culpa é do povo que não compreende a ação dos sindicatos; a culpa é dos trabalhadores que não se sindicalizam...
Em abril, das mil águas, nem um pingo de vergonha! Só a rosa, só o cravo!

20.4.15

O desconsolo de tanto naufrago da terra

Bom seria que o sol brilhasse por dentro. Não é tanto o frio, mas o desconsolo de tanto naufrago da terra de ódio, de guerra, de discriminação, de fome... Aqui, na europa, a insensibilidade é absoluta, pois, em vez de cerrar fronteiras, bem poderia ter apostado na cooperação económica e cultural com os povos do norte de áfrica, com vantagens mútuas...
Sempre que se levantam muros, criam-se condições para que hordas famintas acabem por os derrubar. Sitiados, os europeus deixam morrer às portas os vizinhos, e um destes dias morrerão eles próprios de inação.
A europa atual não é mais do que uma quimera, refém de um eurismo que, por si só, acabará por cair às mãos de hordas famintas, internas e externas. Mais uma vez tudo se joga no mediterrâneo...  

Por fora, o sol brilha...

Por fora, o sol brilha; por dentro, chuvisca.  Nem sequer faz frio, apenas uma ansiedade de incumprimento ou de culpa infantil...
Essa velha culpa sempre presente, cristalizada no respeito pela arbitrariedade, e de que nada serve confessá-la em privado ou em público, porque a autoridade se confunde com a alteridade e esta, ao contrário do que diz o pregão, em vez de libertar, oprime.
O próprio sol brilha ou esconde-se, alheio a qualquer tipo de ansiedade. 
Por fora, o sol brilha; por dentro, fogo. E eu, apenas, cinza - o que resta da caruma...

19.4.15

Uma pedra exposta ao sol

Raramente escrevo de manhã. 
Hoje, no entanto, talvez por ser domingo e por ter avistado um estúdio móvel da RTP junto à igreja do Cristo Rei, decidi registar a minha paragem no jardim Almeida Garrett.
Escolhi a pedra exposta ao sol e sentei-me. E assim aquela pedra se tornou na ara da comunhão vital, diferente da do pão e do vinho que outrora preenchia as minhas manhãs. Era um altar intimista que não comunicava ao mundo a sua existência e que, apesar de tudo, foi perdendo o seu fulgor inicial. A narrativa de tanto repetida virou rotina e o frio foi-se entranhando nos ossos...
Há dias, alguém me perguntou se não me arrependera, talvez, hoje, entrasse porta dentro de algum doente preso ao leito... e o não solto saiu-me da boca ainda antes de pensar.
Afinal, basta-me poder escolher uma pedra exposta ao sol!
(...)
E li o DN e já esqueci quase tudo, excepto que o Papa argentino agradece aos italianos a compaixão com que nos últimos dias têm acolhido os náufragos de África que, no essencial, só procuram a clemência do sol(o) europeu.

18.4.15

José Mariano Gago, testemunho autêntico

«o Camões precisa mais que a memória duma página, coisa de nada, difícil. Nem o Camões, nem cada um de nós com ele, cabemos no tempo da escrita do espaço duma folha. Mas quando teremos o tempo necessário?»  José Mariano Gago, Liceu Camões 100 Anos 100 Testemunhos

Do meu contacto, distante, com José Mariano Gago habitam-me três palavras: fascínio, autenticidade e benevolência.
Homem benevolente, pronto a acarinhar quem o ajudou a aprender e quem, por instantes, para servir um desígnio, via nele um facilitador de soluções... A benevolência estende-se a essa ideia simpática de que todos os homens precisam de mais do que uma folha para registar  a sua existência. (Tantos são os que ontem e hoje falam elogiosamente de José Mariano Gago e que não merecem sequer referência no rodapé da vida!
Homem fascinado pelo espaço, nas suas diversas escalas, mas que sabia que o tempo lhe poderia frustrar a ambição de ir além do conhecido. E sobretudo, um homem, que tinha a noção de que só o conhecimento salvaria o ser humano de si próprio... Por amizade, José Mariano Gago confessou um dia que o Liceu Camões, que o acolhera dos 10 aos 17 anos, fora a academia matriz que, afinal, sempre procurou construir enquanto homem político ao serviço do seu país...
Homem autêntico que nunca vi colocar-se em bicos de pés, manteve-se por largos períodos na sombra, apesar da sua inteligência e compaixão...

17.4.15

Sem ressentimento...

«A nossa personalidade social é criada pelos pensamentos dos outros.» Marcel Proust

Um conhecido disse-me que eu estaria a "postar" demasiado no Facebook. Este remoque pareceu-me excessivo, até porque eu só reencaminho para o "face" os "posts" que vou rabiscando no meu blogue.
No entanto, este meu conhecido e "amigo" tem razão. Afinal, os outros pouco ou nada dizem das observações que vou fazendo e, provavelmente, nada têm a acrescentar, a não ser que a minha personalidade é pouco social e parece viver de costas voltadas para a espuma dos dias...
Ao procurar uma explicação para o reencaminhamento destas notas acabo por concluir que estou a ceder a uma necessidade de eco que, para mim, deveria ser secundaríssima.
A personalidade social vive do eco e quando ele não se faz ouvir pode levar à desilusão, ao ressentimento. E até a um certo desejo de vingança.

Na verdade, Caruma surgiu, não para alimentar a minha personalidade social, mas para que, à medida que a memória falha, reste um fio condutor sobre o qual ainda possa caminhar. Neste caso, caminhar sobre a Caruma!
Logo que a Caruma desapareça, o mais que poderá sobrar é um levíssimo traço que o tempo se encarregará de esfumar. E sem qualquer ressentimento!

16.4.15

Homens ressentidos

Os sinais e as provas da violência acumulam-se a cada dia que passa. A comunicação social e as redes sociais ampliam-na e parasitam-na, e nós que fazemos?  Passado o estremecimento, analisamos a violência como um instituto autónomo assente num grupo de assassinos e terroristas possuídos por uma mente doentia e destruidora. Isolamos a violência, e recusamos ver as causas  por mais evidentes que elas sejam...
Ora os indivíduos, que, a cada passo, sacrificam os mais fragilizados, são seres ressentidos porque, afinal, apesar de todas as promessas de igualdade e de liberdade, se veem condenados a viver num mundo que os atira para a miséria ou que os marginaliza pelas mais variadas razões...
Em Portugal, o ressentimento cresce e a violência só pode aumentar. Não há qualquer panaceia para este problema. Por mais que se pense que uma melhor educação pode minorar a questão, a sabedoria popular diz precisamente o contrário: Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.
E de nada serve fazer promessas, traçar futuros de esperança, se não formos capazes de lidar com o desfasamento entre o virtual e o real.

A este propósito, hoje vou citar a nota de rodapé nº 39 da obra de James Wood, A Mecânica da Ficção:
«A análise do ressentimento feita por Dostoiévski tem uma enorme relevância para os nossos problemas actuais. O terrorismo é, claramente, o triunfo do ressentimento (por vezes justificado); os homens na clandestinidade e os revolucionários russos de Dostoiévski são essencialmente terroristas. Sonham vingar-se de sociedades que lhes parecem demasiado brandas para merecer clemência. Tal como o narrador de Notas do Submundo «admira» o oficial de cavalaria que odeia, talvez haja um certo tipo de fundamentalista islâmico que odeia e «admira» o Ocidente secular, e odeia-o precisamente por o admirar ( odeia-o segundo o sistema psicológico de Dostoiévski, porque no passado foi beneficiado por ele - com as vantagens da medicina, ou a tecnologia necessária para pilotar aviões contra edifícios, por exemplo).»

De facto, o ressentimento não é apenas uma característica do fundamentalista islâmico, é uma característica de qualquer tipo de fundamentalismo, público ou doméstico. Sempre que o homem ama, ou mesmo possui, e se vê despojado do objeto de desejo, abre-se o pórtico do ressentimento para a avenida da violência... O ciúme, a raiva, o grito são os sinais. 
Mas quem quer saber? É mais fácil acusar e condenar.

15.4.15

Em modo de espera

O ecrã branco em modo de espera, de longa espera, dá tempo para que a cabeça descaia sobre a pressão das mãos, como se a chuva intensa a tivesse esvaziado... as avenidas alongam-se em caudais que afogam os rodados, e a pergunta surge do susto da sammy, porque é que em dois ou três minutos lisboa se torna líquida em vez do porto seguro a que outrora ulisses aportou...
Sem resposta, a sammy vê-se obrigada a fazer a dança da chuva antes que a íngreme escada da rua de são bento a liberte do susto, mesmo se, em troca, o veterinário lhe tire os pontos da costura recente... na verdade a sammy prefere o vento dos telhados ribeirinhos à chuva de lisboa...
O ecrã branco em modo de espera é, como dizem os literatos, metáfora das filas intermináveis de veículos de tal modo fascinados pelos arroios desesperados e esquecidos do tempo em que corriam para o tejo, que, também, preferem ficar em modo de espera, enquanto a cabeça descaída não se liberta das tenazes que insistem em sugar-lhe a serenidade...
Do vazio do ecrã branco salta, entretanto, um grupo virtual, reduzido ao voyeurismo ou, em alternativa, ao narcisismo... e a cabeça volta a descair sobre a pressão das mãos.

14.4.15

A morte módica

«como de facto dia a dia sinto que morro muito,
melhor é pôr-me de lado quando alguém puxa dos números,

agora parece que já ninguém nasce,
as pessoas agora querem é morrer,
e como não morrem bem porque no esplendor das obras as compensações são baixas,
procuram a morte módica,
vão todos juntos para as praias onde não há socorristas,
praias do inferno sem nenhuma salvação...»
Herberto Hélder, A Morte Sem Mestre, pág. 31, 2013
    Não é que queira contrariar o Poeta, mas é inevitável que os críticos literários ocupem o tempo a contar o número de vezes que ele de forma explícita, ou não, se refere a esse acidente da vida que é a morte... Por outro lado, a opção pela morte é uma consequência da austeridade imposta pela parte mais esperta da humanidade, não havendo, para a maioria, alternativa: Que a terra os engula ou o mar os leve sem testemunhas, sem custos!

Afinal, somos menos do que o risco sulcado na terra seca que o mar se prepara para abraçar, embora sem data definitiva... 

(Se os versos são do Herberto Helder, a foto é minha. Quanto aos críticos e aos espertos, ficam sem nome...)

13.4.15

Palavras para quê?



O que uns fazem, outros degradam. Ou será que o objetivo é precisamente valorizar o grotesco? A educação dá cada vez menos importância aos detalhes... Olhamos, mas não vemos... Aos nossos olhos, a beleza parece dar-se bem com o lixo.



12.4.15

Breves são as noites

Breves são as noites, quando Job e Raquel me surgem em sonhos. 
Como se estivesse num estado de vigília, surpreendo-me a perguntar porque me visitam tais reminiscências. E não encontro resposta, a não ser que Satanás os terá contratado para me pôr à prova a paciência... para me forçar a odiar quem dispõe das minhas horas...
E mesmo assim, não compreendo como é que Job e Raquel não recusam tal contrato, pois sempre se conformaram com a decisão do Senhor, embora quanto a Raquel não esteja muito seguro. Mais do que Raquel, consta que verdadeiramente paciente terá sido Jacob...
(...)
Ao adormecer, esperava não continuar a servir, pelo menos, durante sete horas... Parece-me, agora, que há em mim qualquer coisa de Labão... 

"O que Cavaco não diz"

Foto_Miradouro dos Capuchos_Costa da Caparica
Nesta foto, há um pouco de tudo: azul do céu e do mar; verde das leiras e dos bosques; torres de apartamentos e barracas...

Mas este não é o país de Cavaco Silva! No DN de hoje, Paulo Baldaia escreve um artigo intitulado "O que Cavaco não diz" e termina-o com uma dupla pergunta:«Estará Cavaco mais confiante numa maioria absoluta do PS do que Costa? Ou acha que é possível repetir a actual maioria?» 
Santa ingenuidade! Cavaco não antecipou as eleições legislativas, pois temia que o PS obtivesse a diabólica maioria absoluta. Cavaco tem mais medo do PS do que o diabo da cruz. Lá terá as suas razões, mas nunca foi capaz de as explicitar e de agir em conformidade. Preferiu agir sempre nos bastidores, apesar de confessar o seu horror à política de salão. No seu caso, a política é mais de cozinha!
Infelizmente, não está sozinho! À direita e à esquerda, muitos outros pensam do mesmo modo. E não se pense que estou a defender a ação política do PS das últimas décadas. O que me preocupa é que se queira matar à nascença o próximo ciclo de governação...

11.4.15

Na avenida de Berna, nem poeta nem romancista

Nem poeta nem romancista!
Para poeta, falta-me a capacidade de deixar de falar de mim, mesmo que o discurso viva centrado no EU, vítima da alteridade velada por palavras diferidas ou, como diria o Poeta, fingidas...
Para romancista, falta-me a visão da totalidade. Por exemplo, hoje, posso registar alguns detalhes. Salgueiro Maia estampado em tons de abril nas paredes de uma faculdade de ciências humanas, onde os protagonistas arremedam ciência, procurando, a todo o custo, desembaraçar-se do fator humano em nome de padrões ortodoxos que se vão excluindo uns aos outros, sempre ao serviço do vil interesse, do compadrio e de causas inconfessáveis...
Do outro lado da avenida, um templo religioso do estado novo, supostamente ao serviço dos fiéis desprotegidos, porque dos restantes infiéis é melhor nada dizer, apesar de nele, hoje, se oficiarem bodas multirraciais, parecendo que, afinal, o tempo ultramarino e de martírio de muitos salgueiros maia bem poderia ter sido evitado...
Mais perto da praça de espanha, há muitos detalhes que poderia registar, mas a minha atenção não foi além do pormenor assinalado no jardim gulbenkian - um verdilhão, ave que se pode ver e ouvir a partir de março. Ao observar as cores da plumagem, fiquei com a ideia de que a estampagem do salgueiro maia seria mais primaveril se lhe trocassem as cores da bandeira pelas do verdilhão.
Quanto ao templo religioso, os vitrais de Almada Negreiros continuam a filtrar a luz mística, sempre ensombrada pelo braço cardinalício que raramente deixou de servir o compadre salazar. Já é azar! 
Se por ali tivesse circulado o Eça, ele não se teria esquecido do restaurante o Pato que tão belas iguarias confecionava para o pároco e seus coadjutores, sem falar das irmãs e das sobrinhas... 
Claro que se o Eça tivesse escrito um romance sobre a avenida de berna, a faculdade de ciências humanas, ali residente, viveria mais desafogada, à volta da choldra que nos vai governando e formatando... 

10.4.15

O subtexto e o intertexto

«O subtexto é um instrumento psicológico que informa sobre o estado interior da personagem, cavando uma distância significante entre o que é dito no texto e o que é mostrado pela cena. O subtexto é o traço psicológico ou psicanalítico que o ator imprime à sua personagem durante a atuação.» Pawlo Cidade / http://teatrototalilheus.blogspot.pt/2013/04/o-papel-do-subtexto.html
e /ou
O subtexto é uma espécie de comentário efetuado pela encenação e pelo jogo do ator, dando ao espectador a iluminação necessária à boa receção do espetáculo,”  Patrice Pavis.

Em certas salas de aula, há sempre quem queira dar espetáculo, isto é, ser protagonista. O professor, ao desempenhar o papel de gestor de um plano gizado por programadores, editores e avaliadores, fica condicionado não só por um sistema externo  mas, também, por uma dinâmica interna, em que  o subtexto de cada candidato a protagonista arrasa por inteiro as hipóteses de interpretação, por exemplo, de um texto.
Imagine-se um texto em que o autor tece uma narrativa rica em intertextualidade, culta e popular, com intenção de colocar o leitor numa situação de revisitação e consequente conceptualização crítica.
Como o professor não pode prescindir de trabalhar o texto daquele autor, esforçar-se à certamente por tornar visíveis as fontes latentes e, sobretudo, pôr em evidência o aproveitamento dos respetivos enunciados, sem esquecer a natureza dialógica da escrita... o diálogo, por um lado com a cultura científica, artística e literária que, em expetativa, deveria fazer parte da memória do leitor, e, por outro lado, o diálogo com o leitor. 
A intertextualidade pressupõe, assim, a presentificação das fontes, do autor e do leitor. Só que o subtexto na sala de aula surge não como forma de diálogo, mas como rejeição de qualquer tipo de intertexto e consequente diálogo intertextual.
A nova cultura juvenil procura o palco para se afirmar, para se exibir;  pensa vir a governar o mundo fazendo tábua rasa de tudo o que lhe é anterior...
Vive numa casa flutuante envidraçada e a certas horas, tardias, sobe ao palco para dizer pilhérias, sem se preocupar, sequer, com a receção do espetáculo. 
E por isso, à medida que o protagonismo* aumenta na sala de aula, o professor escurece, deixando de ser sequer o encenador, quanto mais o exegeta ou o facilitador da aprendizagem...

* Tempo houve em que se dava ao ´protagonismo' o nome de 'indisciplina'! 

( Em causa, as noções de: fontes, autoria, citação, plágio, pastiche, intertexto, subtexto, leitor.)

9.4.15

Bartolomeu de Gusmão, um inventor com sonhos imperiais

Bartolomeu de Gusmão Um inventor com sonhos imperiais
07/08/2009 - 00:00
Público, Luís Miguel Queirós

Há 300 anos, o padre luso-brasileiro Bartolomeu de Gusmão fez subir um globo de papel a quatro metros de altura, aquecendo o ar no seu interior. Três quartos de século antes das experiências dos irmãos Montgolfier, inventava o balão aerostático e sonhava com um engenho que lhe permitiria dominar o mundo. 



No dia 8 de Agosto de 1709, o rei D. João V e a rainha D. Maria Ana de Habsburgo, acompanhados pelo núncio apostólico - o cardeal Conti, que depois seria o Papa Inocêncio XIII - e ainda por diversos fidalgos da corte portuguesa, reuniram-se na sala das embaixadas do Paço Real de Lisboa (destruído no terramoto de 1755) para assistir a uma demonstração do "instrumento de andar sobre o ar" do padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão. 
Esta data histórica assinala a primeira aplicação prática do princípio de Arquimedes a um aparelho aerostático e antecipa 74 anos a façanha dos irmãos Montgolfier, que em Junho de 1783 colocaram no ar, durante 10 minutos, um balão com 32 metros de circunferência. No mesmo ano, perante Luís XIV e Maria Antonieta, os inventores franceses fizeram subir no ar o primeiro balão tripulado. Mas só em meados do século XIX é que iria inventar-se o primeiro aeróstato dirigível. 

Ao contrário dos Montgolfier, que não pensavam em possíveis utilizações militares do seu invento, Bartolomeu de Gusmão, no início do século XVIII, sonhava já com um invento que daria à nação que o produzisse a capacidade de dominar o mundo. Na petição que apresenta a D. João V, procurando que este lhe conceda os meios necessários para fabricar o seu engenho, Gusmão enumera as potencialidades do aparelho que se propunha construir. Assegurando que este poderia percorrer duzentas léguas (mil quilómetros) num só dia, fazia notar ao rei que isto lhe permitiria "levar avisos aos exércitos em terras mui remotas", "socorrer praças sitiadas" e levar rapidamente notícias aos quatro cantos do império português. Apontava ainda as vantagens que um rápido transporte por via aérea iria trazer ao comércio e sublinhava que o seu "instrumento para se andar pelo ar" permitiria a Portugal "descobrir as regiões que ficam vizinhas aos polos do mundo" e calcular corretamente as longitudes. 
Se este inventário, que aliás persuadiu D. João V - o monarca deferiu o pedido num alvará datado de 19 de Abril de 1709 -, tem o seu quê de megalómano, também reflete um espírito visionário. O investigador Joaquim Fernandes, que há anos vem recolhendo materiais sobre a vida e obra do "Padre Voador", como Gusmão foi apelidado na época, afirma: "Supomos não exorbitar ao dizer que se trata da antevisão profética, com dois séculos de avanço face à concretização do avião, de uma geoestratégia baseada no domínio do espaço aéreo por uma potência imperial". A ideia de que a supremacia aérea pode permitir vencer um conflito militar não surpreenderá os que assistiram, no final do século XX, à guerra do Golfo, mas terá parecido bastante arrojado aos portugueses do início do século XVIII, que se divertiram bastante a mofar do pretensioso Ícaro que lhes chegava da colónia brasileira. 
O que primeiro despertou o interesse de Joaquim Fernandes por Gusmão foi justamente o vasto conjunto de poesias do século XVIII que satirizava o "Padre Voador". O investigador transcreve muitas delas no livro Mitos, Mundos e Medos. O Céu na Poesia Portuguesa, que deverá sair em breve numa coedição da Temas e Debates e do Círculo de Leitores. 
O mais prolífico dos detratores de Gusmão foi Tomás Pinto Brandão, que, mostrando-se bem informado, começou a escarnecê-lo em verso ainda antes de este realizar qualquer demonstração do seu aparelho. Um dos sonetos que lhe dedica abre com esta quadra: "Veio na frota um duende brasileiro/ Em trajo clerical, sotaina e coroa,/ Fez crer que pelo ar navega, voa,/ Um barco sem piloto e sem remeiro". E fecha um outro com este terceto: "Mete esse invento onde tens o siso,/ Vê se no vento que está nele voas:/ Que outro voar, meu Lourencinho, é riso". Terá mesmo sido Pinto Brandão quem deu ao invento o nome com que este passaria à posteridade: "Esta fera passarola/ Que leva, por mais que brame,/ trezentos mil réis de arame/ Somente para a gaiola (...)". 
O rapaz sobredotado
Mas Gusmão também teve defensores, a começar pelo marquês de Fontes, D. Rodrigo Menezes, que hospedara já o jovem prodígio brasileiro aquando da sua primeira, e pouco conhecida, viagem a Portugal. Em 1701, Gusmão, então com 15 ou 16 anos (nasceu em 1685 na vila de Santos, mas não se sabe em que dia), espantou Lisboa com um insólito reportório de habilidades. José Soares da Silva, autor de uma Gazeta em Forma de Carta relativa a 1701, conta que o jovem santista, que acabara de deixar a Companhia de Jesus por não querer tomar ordens, não só dizia "de cor todo o Virgílio, Horácio, Ovídio e demais clássicos", como também o conseguia fazer "para diante e para trás ou donde lhe apontarem". 
No que parece ter sido uma espécie de folheto publicitário dos dotes mnemónicos de Gusmão - reproduzido pelo autor da Gazeta -, lê-se que este prometia, entre vários outros feitos, "defender toda a filosofia, e também explicar a parte de Aristóteles com todos os seus embaraços", dizer "toda a escritura decoradamente e as dúvidas todas das línguas em que foi escrita". Mesmo que se admita algum exagero, tudo indica que o futuro "Padre Voador" foi um caso flagrante de criança sobredotada. 
Estreou-se como inventor ainda no Seminário de Belém, construindo um sistema que levava a água de um ribeiro até à escola, que ficava no cimo de um monte com cem metros de altura. Em 1705, quando se encontrava de novo no Brasil, registou o engenho na Câmara da Baía, obtendo a primeira patente outorgada a um inventor brasileiro. 
Irmão mais velho do prestigiado diplomata da corte de D. João V, Alexandre de Gusmão - foi o grande obreiro do Tratado de Madrid de 1750, no qual se fixaram as fronteiras do Brasil atual -, Bartolomeu tinha raízes no Porto. Segundo Joaquim Fernandes, era aparentado aos Afonso Gaya, "quatro irmãos naturais de Miragaia que partiram para o Brasil em 1531, na armada de Martim Afonso de Sousa". Com eles viajava o também portuense Brás Cubas, fundador da vila de Santos, onde os Gaya se instalaram. 
Nos anos que Gusmão passará em Portugal, construindo o seu engenho voador, dedicará algum tempo a investigar, a pedido da Academia Real da História, as origens da diocese do Porto. Demonstrando um rigor crítico que Joaquim Fernandes compara ao de Alexandre Herculano, desmontou diversas lendas dadas como verdadeiras, designadamente a que respeitava ao mítico bispo Julião.
O "Padre Voador"
Não há dúvida de que Bartolomeu de Gusmão foi um homem de capacidades intelectuais francamente invulgares. E durante algum tempo parecia ir dispor, em Portugal, de condições para as usar. D. João V apoiou-o sem reservas, a ponto de lhe ter emprestado, para fabricar o seu invento, uma casa que possuía em Lisboa, perto do local onde hoje se ergue a estação de Santa Apolónia. O monarca começara por lhe atribuir uma propriedade do duque de Aveiro, mas Gusmão argumentou que a do rei lhe parecia mais conveniente.
Após duas experiências goradas nos primeiros dias de Agosto, a de dia 8 foi finalmente bem sucedida. Gusmão não pôs no ar nenhuma "passarola", e muito menos a tripulou, como mais tarde iria correr. O seu engenho era apenas um modelo em escala reduzida, um globo de papel grosso, com uma chama a arder numa tigela incrustada na base, muito semelhante aos atuais balões de S. João. O balão chegou ao teto da sala e acabou por ser apagado pela criadagem no momento em que ameaçava incendiar os cortinados. 
Ainda antes destas tentativas, já as notícias do seu invento, acompanhadas de ilustrações fantasistas, apareciam nas gazetas europeias. Crê-se que o rumor terá chegado primeiro ao Vaticano, através do cardeal Conti, e que daí se expandiu para outros países. O mais imaginativo destes primeiros cronistas estrangeiros da façanha de Gusmão foi o autor de uma brochura austríaca que relata como o padre navegou por ar, aos comandos do seu "navio voador", de Lisboa até Viena, depois de ter aterrorizado os habitantes da Lua e de ter tido de enfrentar aves monstruosas. 
Já as delirantes gravuras que popularizaram a "passarola" na Europa tiveram, ao que parece, o dedo do próprio Gusmão, que, farto de que lhe tentassem roubar o segredo, terá providenciado, em conluio com o filho do marquês de Fontes, o seu único aprendiz, para que fosse encontrado um suposto plano da máquina, com explicações erróneas, cheias de "quintas essências", "magnetismos" e outro jargão científico da época.
O messias judeu
A verdade é que, embora tenha realizado uma nova ascensão em Outubro de 1709, desta vez ao ar livre, o "Padre Voador" nunca chegou a construir o engenho com que sonhava. Por falta de conhecimentos científicos e técnicos, mas também, provavelmente, argumenta Joaquim Fernandes, pelo ambiente hostil de um país que, ao contrário, por exemplo, da Inglaterra do tempo, se mantinha preso às doutrinas aristotélicas e ignorava os avanços que se estavam a fazer nas ciências físicas.
Talvez tenha sido para alargar os seus conhecimentos que Gusmão, entre 1713 e 1716, viajou pela Europa, tendo chegado a registar, na Holanda, uma máquina para drenar a água que alagava os barcos. A sua passagem por Amesterdão, destino privilegiado dos judeus portugueses e brasileiros, sobretudo a partir da unificação luso-espanhola de 1580, foi atentamente vigiada pela Inquisição. 
Joaquim Fernandes admite que os Gusmões - Bartolomeu teve 11 irmãos e irmãs - tivessem ascendência judaica por via materna. E parece constituir um possível indício nesse sentido um texto em que o seu irmão Alexandre ironiza com a suposta "pureza" genealógica dos cristãos-velhos. Recordando que basta recuarmos 8 gerações para termos, todos, 1024 avós, o diplomata perguntava: "Queria que me dissessem os Senhores Puritanos se têm notícia que todos fossem Familiares do Santo Ofício?". 
Certo, segundo Fernandes, é que Bartolomeu convivia com várias famílias de cristãos-novos, incluindo a do dramaturgo António José da Silva, dito "o Judeu". E já quando se deslocara à Holanda, o seu inimigo Pinto Brandão escrevera uns versos em que dizia: "Mudando de alma e de nome/ Quererá um certo apenso/ De Bartolomeu Lourenço/ Passar para António Homem". Se tivermos em conta que António Homem fora um sacerdote católico que morrera na fogueira, acusado de judaísmo, a sugestão torna-se evidente.
No final de Setembro de 1724, o "Padre Voador" foge para Espanha com um seu irmão mais novo, Frei João Álvares, projetando atingir a Inglaterra. O motivo imediato terá sido uma intriga em que se viu envolvido, que girava em torno de umas freiras de Odivelas que mantinham amantes na corte. Quando as religiosas foram presas e a Inquisição interveio, Gusmão, sobre quem já antes corriam boatos perigosos, optou pela fuga. Ele e o irmão adotaram nomes falsos e partiram, correndo o risco de levar na bagagem vários livros em hebraico. 
Bartolomeu morreu em Toledo no dia 18 de Novembro de 1724. A julgar pelo testemunho que o seu irmão mais tarde deu à Inquisição espanhola, já se convertera ao judaísmo em 1722. O estranho relato de João Álvares, que deve ser lido com cautela, já que o autor é um suposto arrependido a confessar-se ao Santo Ofício, mostra-nos, nota Joaquim Fernandes, um Bartolomeu de Gusmão no qual o inventor e o místico se fundem numa bizarra megalomania. 
Conta o frade que o seu irmão, aparentemente tomado de delírios messiânicos, estava convicto de que fora escolhido para restaurar Israel. Pretendia construir "uma aérea fábrica" com a qual dominaria o mundo e estabeleceria um único império universal, no qual os judeus reinariam sobre todos os povos, através do seu rei. Ou seja, ele próprio, Bartolomeu. 

8.4.15

Um dia incompleto e imperfeito

Às 7h15, o corpo de intervenção abalroa um táxi, na faixa do bus. Ou terá sido o taxista que refreou a marcha a testar a perícia das duas carrinhas policiais que pareciam persegui-lo?  Apesar da morrinha, o corpo policial mantinha-se na expectativa...

Às 8h15, a turma B chegou mais cedo, dando sinais de maturidade pouco comum nos dias de hoje. Haja esperança! Na verdade, a lição só estava agendada para as 9h00.

A meio da manhã, à conversa, os novos programas de Português e de Matemática irromperam, parecendo haver consenso quanto ao retorno ao passado. E porque não ao livro único do Estado Novo? 

De regresso à sala de aula, o principal acontecimento  não foram os condenados do auto de fé ou a irrupção do realismo fantástico (mágico), mas, sim, a agitação provocada por um abelhão que, afinal de contas, não queria analisar a virtuosidade descritiva de Saramago. Péssimo exemplo de discurso indireto livre!* Cansado da serpente que se precipitava para o Rossio, no caso, para a porta de saída da sala, o abelhão saiu tranquilamente pela janela, antes que o santo ofício o sacrificasse na divina fogueira de um novo auto de fé.

Marcado pela estranheza dos acontecimentos, saí, também, eu pela porta, e quando dei por mim estava na Livraria Almedina a comprar o livro " a mecânica da ficção", de James Wood. Por qualquer razão que ignoro, veio-me à ideia que esta compra não fazia  qualquer sentido. Afinal, quem é que, nesta fase, me poderia contratar para ensinar Literatura? Só que o abelhão  soprou-me ao ouvido que, talvez, "a mecânica da ficção" me pudesse ajudar a escrever sobre o Portugal contemporâneo, isto é, sobre a história da família materna e paterna de José Sócrates como metáfora da doença mental que nos devora...

Ao folhear "a mecânica da ficção, não pude deixar de verificar que esta, à escala global, só destaca dois portugueses, Fernando Pessoa e José Saramago, o primeiro porque o segundo escreveu " O Ano da Morte de Ricardo Reis"!

Abreviando, a Sammy, a gata voadora, regressou a casa, já esquecida do perigo dos beirais... 

Claro que, ao longo do dia, ainda fui recebendo algumas lições sobre a vida e a morte... Mas dessas, por respeito aos mestres, prefiro nada dizer... Tal como da chuva e do frio, dos buracos das ruas da capital e do trânsito, em particular, da zona ribeirinha...

* Se o autor desse voz ao coro, a 'virtuosidade' desapareceria, substituída pela 'sonolenta descrição'..., dando cabo da "extenuante exibição de estilo" do demiurgo.

7.4.15

Enterrado num poema

 (...) «queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima»
Herberto Helder, A Morte Sem Mestre, 2013

Ninguém está livre de ansiar um pouco mais, mas casos há em que o anseio é obsessivo, doentio. Até os pássaros intuem que há um momento em que é necessário que as crias experimentem o voo e esse é o dia das aves...
O poema lavrado em língua plena solta-se e foge, foge dos cemitérios, lavrados em língua plana.

Se a poesia puder ser pão, sê-lo-á, mas não para o poeta... não vão os versos ter o mesmo destino da padeira...

6.4.15

Fantasia literária

«a burro velho dê-se-lhe uma pouca de palha velha / e uma pouca de água turva / e como fica jovem de repente durante cinco minutos!» Herberto Helder, A MORTE SEM MESTRE, 2013

Não me parece que o burro recupere a juventude assim tão facilmente! Ainda se se lhe  desse uma medida de favas ou de cevada... 
A palha velha e a água turva é que o levam ao desfalecimento.

Em tempo de deslumbramento, andam à solta tantos burros que me apetece servir-lhes uma fava rica, a ver se se deixam de disparates...
Diz o provérbio que a sabedoria humana tem limites; a burrice, por sua vez, é infinita.



5.4.15

A palavra 'ressurreição'

«Posso mudar a arquitectura de uma palavra. / Fazer explodir o descido coração das coisas./ Posso meter um nome na intimidade de uma coisa / e recomeçar o talento de existir.» Herberto Helder, Poemacto, IV, 1961

Posso escrever aqui a palavra 'ressurreição', observá-la de perto, imaginar-lhe o movimento e a sombra em transformação. Posso confirmar que, em 1961, me era mais fácil aceitá-la como expressão de uma evidência por questionar, mas nunca me passou pela cabeça, virá-la do avesso, amputá-la do coração... A palavra 'ressurreição' entrou-me em casa, sem atravessar qualquer rio tejo, nem sob a forma de uma qualquer barca que atravessasse o mundo...
A palavra 'ressurreição', cercada de palma e de ramos de oliveira, com chagas onde os meus dedos se recusaram penetrar, existe excessivamente no meu calendário...
Para mim, a palavra 'ressurreição' não tem essa seiva regeneradora em que o Poeta parece acreditar...  

4.4.15

A Sammy caiu do telhado

A Sammy caiu do telhado. Dizem que foi o vento que a empurrou... Na calçada sangrava abundantemente, sem se saber a extensão das lesões. Os samaritanos levaram-na para o hospital mais próximo onde, depois de analisada e anestesiada, foi operada a uma pata..., sem esquecer a boca maltratada...
Entretanto, convalescente, foi levada para casa onde impacientemente espera que a libertem da tala metálica e, sobretudo, do colar de freira que lhe aumenta a fome e a sede...

A Sammy consta que já é figurante no filme do Márcio Laranjeira, Uma Rapariga da Sua Idade"... Quem quiser conhecer a Sammy não deve faltar à apresentação deste filme, na Culturgest, no dia 29 de abril, às 21h30...

Por este andar, a Sammy ainda vira protagonista!

Estou de plantão!

Estou de plantão!
Noutros tempos, castrenses, também comecei por ficar de plantão.
Noutros sonhos, mais antigos, via-me-me de plantão a uma sineta... uma fantasia com cor real!
E tempo houve, de infância, que fiquei de plantão a um berço, não fossem as cobras asfixiar a criança.. Esse foi um tempo em que as camisas do milho desataram a arder, os cântaros se esvaziaram, sobraram marcas por apagar...

Hoje, continuo de plantão! Um tempo em que nunca sei o que vai acontecer. 
Posso caminhar na rua, ir às compras, pagar todo o tipo de contas, ouvir o que todos têm a dizer-me, porque sabem o que dizer, embora eu já não saiba o que responder...  Posso ler o Poema Contínuo, de Herberto Helder, só não posso partir violenta e violentamente para o campo...

E faz-me falta!
Basta-me colocar os pés sobre o mato, olhar a encosta e depois observar a faina das abelhas, ouvir o chilrear dos pássaros. Ficar ali de plantão durante 10 minutos...

3.4.15

Uma comparação absurda do ministro José Branco

Quando confrontado com a morte de Silva Lopes, José Pedro Aguiar Branco afirmou que «Silva Lopes teve a felicidade de partilhar este momento com Manoel Oliveira» e destacou o economista como figura de relevo na política e economia do país.

Este ministro é um homem que cada vez que abre a boca mais valia que estivesse calado. Por um lado, José P. A. Branco vê na morte um momento de felicidade. Por outro lado, faz uma daquelas comparações absurdas que nem os meninos de coro se atreveriam a fazer...

Se a morte é um momento de felicidade e, já agora, de partilha, este ministro bem poderia aproveitá-lo.

2.4.15

Não a morte, mas o falecimento de Manoel de Oliveira

A duração e a extensão são frequentemente alimento deste blogue. E como tal, seria indesculpável que aqui não assinalasse não a morte, mas o falecimento de Manoel de Oliveira, aos 106 anos de idade.
Habituei-me a encarar a sua obra como a expressão do retardamento da passagem do tempo. Tudo era calculado de modo a evitar o inebriamento futurista.
Sempre que penso em Manoel de Oliveira, recordo a leitura das obras de Agustina Bessa-Luís, em que a suspensão do tempo é uma inevitabilidade.
É um pouco como se quem ama a vida se recusasse a avançar!

1.4.15

O único dia em que sou candidato

Poderia enumerar as tarefas executadas e as que estão em lista de espera, poderia enumerar os aborrecimentos e os desgostos, poderia enumerar as fraquezas e os medos, mas para quê? Se alguém prestasse atenção à enumeração, diria que está incompleta ou que peca por excesso. Ou nem isso, talvez se limitasse a proclamar que não passo de "um queixinhas". 
Não passamos de "uns  queixinhas"!

No dia das mentiras, talvez não seja descabido confessar que, ao fim de mais de quarenta anos nas salas de aula, o melhor seria candidatar-me a deputado, porque, segundo Catarina Madeira e Márcia Galrão*, o que há de mais parecido com o comportamento dos deputados no parlamento é a traquinice dos alunos na sala de aula... E convém não esquecer que ainda há por lá uma campainha estridente, ao contrário do que acontece na escola secundária de Camões, em que a campainha apenas se faz notar nos dias de exames....
Parece até que na Assembleia da República há queixinhas famosos...  

* Estes Políticos devem estar Loucos, a esfera dos livros.