Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

31.7.11

Num sábado…

 

mistério excesso
Bireun Seudati poço

Não sei quem mora na cave daquela oliveira de encosta. Um dia destes, acampo debaixo da figueira mais próxima… e espero.

As pereiras, logo que se viram livres do mato que as cercava, decidiram ser o maná das abelhas e das aves. E eu, oportunista, antecipei-me…

Um ponto de fuga explodiu no Museu Oriente para me mostrar que a arte é muito mais do que os meus sentidos costumam alcançar…

O poço resiste ao abandono, lembrando tempos de iniciativa… 

28.7.11

A pobreza…

Na cidade, a pobreza é mais grave.

Invisibilidade. Violência. Indigência.

A pobreza na cidade é mais grave do que nos campos, porque é possível escondê-la, dela morrer anonimamente; porque a rejeição e a marginalização despertam naturalmente uma resposta violenta; porque facilmente se cai na indigência, perdendo qualquer sentimento de auto-estima, qualquer traço de humanidade.

Neste cenário, que medidas tomam os governos contra a pobreza nas cidades? Apenas pensam na recapitalização da banca! Como se a banca não fosse uma das causas da desgraça que cai sobre nós!

À pobreza, a banca nada diz. A banca só arrasta para a pobreza…

Um governo que pensa mais na banca do que na invisibilidade, na violência e na indigência dos governados, é porque apenas serve o capital. É um pobre governo!

27.7.11

Exotismos!

Valorizamos facilmente o exótico. As árvores de porte altivo são quase sempre exóticas! Sem elas não teríamos jardins, naturais, tropicais ou outros!

Sem a intervenção estrangeira, Portugal não teria sido fundado nem, ao longo dos séculos, teria conseguido manter a soberania…

Hoje, acreditamos que a TROIKA não deve ser confundida com qualquer cavalo de Tróia…

Finalmente, estamos psicologicamente disponíveis para aceitar  avaliadores exóticos (externos).

Nuno Crato, 6ª feira,  anunciar-nos-á que uma nova TROIKA chegou ao Ministério da Educação. E nós bateremos palmas!

E depois andamos surpreendidos com o despertar violento do nacionalismo, embora pensemos que se trata de uma manifestação de exotismo – finlandês, austríaco… norueguês…

Haja paciência!

24.7.11

Maria Lúcia Lepecki

Pode parecer exagero, mas, com a morte de Maria Lúcia Lepecki, Portugal fica mais pobre. Era uma das poucas pessoas que, neste país, sabia ler e ensinar literatura – portuguesa ou francesa.
Tinha um método e aplicava-o à vista dos seus alunos. Não se apresentava como hermeneuta ou exegeta – era uma leitora metódica e perspicaz, incapaz de desprezar o receptor. Tratava-o com carinho, mesmo quando este se revelava pouco familiarizado com o texto…

Não sei se praticava a áskesis (ascese), mas, desde que a conheci, ainda nos anos 70 na Faculdade de Letras de Lisboa, até ao “encontro” sobre José Cardoso Pires, no Auditório da Esc. Sec. de Camões, sempre a vi como uma mulher virtuosa, no sentido que Diógenes de Sinope atribuía ao termo virtude. 

E para sempre assim ficará!

22.7.11

Carvalhal do Pombo na Literatura…

«Na sua casa da Avenida da Duque de Loulé faleceu o  conceituado capitalista e filantropo Afonso Ruas, natural de Carvalhal do PomboAquilino Ribeiro, O Arcanjo Negro, pág.97 

Em que circunstâncias terá Aquilino Ribeiro conhecido tão ignoto lugarejo?

A que Bajonca (barão da Bajonca papalino ou manuelzinho) se estaria Aquilino a referir ao escrever.«aquele Bajonca, que assim se chama a portela de Carvalhal do Pombo onde a avó, que atiraram à margem, deitou ao mundo aquele que passa por seu pai.» ibidem, pág. 102.

Apesar do desconchavo do mundo ( atentados de Oslo), a Literatura não pára de me surpreender!

20.7.11

Luz e sombra…

 

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Se as tarefas se amontoam ou a vontade é frágil acaba-se por não conhecer o que está na sombra ou para além da fachada.

Mesmo entrando, se à pressa, as peças da história podem deslumbrar, mas apenas isso.

Do martírio desta Santa Eufémia (porque há outras!) até  este registo crescem as sombras…

e nós, contentes…

e eu, apressado, já nem sei porque comecei…

(É tão cedo e já tão tarde!)

16.7.11

Ao ampliar…

 

Vila do Gerês

O que vemos é diferente do que pensamos ver? Ou será ao contrário?

O instantâneo aprisiona o que escapa ao raciocínio… Ao ampliar, ou filosoficamente perscrutando, através da indagação mais ou menos reflexiva, vemos o que lá estava, mas fora da nossa apreensão.

Incautos, amamos a certeza!

Mas quando a ampliamos, percebemos que deveríamos cultivar a dúvida!

15.7.11

Diferenças…

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A árvore dá frutos sem que eu lhe(s) saiba o sabor e o nome…

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Colocadas lado a lado, as rochas não conhecem o desespero do fim…

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Podiam ser as minhas janelas se eu tivesse alma!

P1010052 A borboleta cumpre… e eu interrogo-me!

14.7.11

A metamorfose

 

Ilusão

As pedras nuas surgem-nos insensíveis, estéreis; excepcionalmente preciosas. As fronteiras são claras! Só a picareta as pode pulverizar…

No entanto, por aqui, às pedras, no leito do rio, não se lhes vê as raízes, mas a cabeleira é abundante e verdejante, e florescem… só não vou a tempo de lhes saber o fruto.

Se Mia Couto por aqui passasse, inventaria, certamente, a estória do velho que, farto da cidade, se teria lançado ao rio na esperança de lhe descobrir a foz. Este, porém, metamorfoseara-o em pedra vegetal.

Por aqui…

 

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«Je suis moi-même la matière de mon livre.» Essais, Montaigne

( André Gouveia, Aquilino Ribeiro, D. João V, Montaigne, Sá de Miranda, António Variações – correspondências inesperadas!)

12.7.11

ALDEIA

 

Gerês 2 017 Contraste

Vou dar a leitura de ALDEIA (1946) por terminada. Uma obra difícil de classificar! O autor atribuiu-lhe o subtítulo “Terra, Gente e Bichos”, o que me parece adequado, pois retrata a terra montanhosa e pobre, frequentemente, na perspectiva do caçador, a gente lapuza e improgressiva, ignorante, violenta e néscia, e, finalmente, os bichos solidários, se domésticos, e ameaçadores – os lobos.

O conhecimento da terra, da gente e dos bichos é genuíno. O autor inquiriu de tal modo cada um dos temas que a nomeação e a qualificação se revelam terminologicamente precisos e sistémicos, obrigando o leitor a um efectivo esforço metalinguístico.

O ponto de vista de quem – supostamente influente – abandona o Chiado para mergulhar na serra da Nave, é implacável para com a Gente da ALDEIA, boa fornecedora de estórias de pedintes, espoliadores, parricidas, salteadores sanguinolentos, mas incapaz de contrariar o atávico mimetismo que faz das serras testemunho de tempos imemoriais. ( Os antropólogos deviam ter a obra de Aquilino Ribeiro como leitura propedêutica!)

São 15 capítulos, ligados pela Terra, que apresentam a origem, as tradições, a força dos elementos, o comunalismo primevo, estórias de torna-viagem, a acção dos caciques e, sobretudo, a miséria de um país que resiste à mudança…

São 15 capítulos cuja leitura é, muitas vezes, lenta porque nos distanciámos das coisas e dos seres, e, sobretudo, porque, ao perdemos a língua das Gentes, ficamos irremediavelmente desenraizados.

11.7.11

Pelas alminhas do Purgatório!

À consideração do ministro Nuno Crato que está a repensar As Novas Oportunidades (e não só!):

Em 1946, in ALDEIA, Aquilino Ribeiro pronunciava-se assim: «As  chamadas Escolas Industriais e Comerciais fabricam uma espécie de bacharéis às grosas. O que se recomenda é que façam artífices, bons e completos operários. Para isso haveria que reformá-las e criar nas cabeças de concelho escolas de arte e ofícios, individuadas conforme a fisionomia económica da região.»

Se o senhor ministro lesse Aquilino, chamava os presidentes das câmaras municipais e começava por  solicitar que lhe caracterizassem o tecido económico de cada região e só depois decidia o que fazer às Novas Oportunidades, aos Cursos Profissionais e outros que tais…

e fugia a sete pés dos famigerados portfólios prenhes de retábulos das alminhas do Purgatório e de mãos postas…

De nada serve querer reformar (poupar) se não se vê um palmo à frente do nariz!

10.7.11

No Gerês

Gerês Bernardo Santareno n’ O Judeu, e José Saramago, no Memorial do Convento, dão-nos uma imagem de um D. João V grotesco. Ou será a imagem que é grotesca?

Quando a Literatura se apodera da História em tempo de decadência, corre-se o risco de que a primeira, ao serviço de preconceitos ideológicos, molde de tal forma o imaginário do leitor que este fique incapacitado de interpretar a “realidade”, entendida como o conjunto das coisas, boas ou más…

Vêm estas considerações a propósito da nota solta: Uma capela em honra de Santa Eufémia, foi mandada edificar por D. João V, em 1733, aliás, o monarca que mais se interessou pela termas, construindo um hospital, residência para médico, boticário, capelas e poço para banhos termais.

Por outro lado, pensando ainda no leitor que não consegue distinguir as sensações dos sentimentos, creio que o melhor é viajar até ao Gerês. Aqui, predominam a cor e o som – as sensações auditivas e as sensações visuais. No lugar onde me encontro, diria que o som da cascata esmaga os verdes da floresta. Quanto ao olfacto, o eucalipto leva a palma ao restante arvoredo, mesmo ao vidoeiro…Gerês 018Gerês 008

Do tacto é melhor não falar, apesar de agora me lembrar que Almeida Garrett não resistia às nervuras das pétalas das rosas, e que Pessoa enamorado da música do romântico e do cérebro de Pascoaes, se atirou às sensações como se a razão nada mais lhe oferecesse como comboio de corda… Afinal, o problema de muitas pessoas é que continuam a criar os seus países, como se lá fora nada existisse!     

9.7.11

À nossa frente…

O sol escasseia. Das aves, não há notícia! A água segue o seu caminho… enquanto a velha senhora espreita os novos vizinhos. Poucos e silenciosos. Alguns regressam ao cair da noite – são belgas e ingleses. Apenas a rádio ‘Fundação” transmite música inglesa, indiferente à presença dos belgas…, embora de hora a hora repita: “à nossa frente só está você!»

Lugar do Vidoeiro

6.7.11

A causa pública

A um político só fixo o nome a partir do momento em que me convenço que este serve a causa pública. E hoje faleceu uma das poucas mulheres cuja acção política despertou há muito a minha atenção: Maria José Nogueira Pinto. Na minha memória, está agora sentada ao lado de Maria de Lourdes Pintasilgo.

Sempre lhes admirei a convicção e a coerência!

5.7.11

Exemplo…

MOODY'S CORTA 'RATING' DE PORTUGAL PARA 'LIXO'.

Eis um título que, de forma exemplar, dá conta do lugar de Portugal no mundo: o caixote do lixo. Metonimicamente, o “caixote” desaparece para ficar apenas a metáfora em que Portugal soçobra definitivamente. Já nem a língua portuguesa nos salva!

A tirania de agências, como a “moody’s’”, deveria servir para nos questionarmos sobre as nossas opções: ou lutamos por uma república federal europeia ou abandonamos a união europeia e, consequentemente, o euro.

O que não se pode aceitar é que diariamente sejamos humilhados e, sobretudo, devemos combater a política de terror que nos está a ser imposta.

3.7.11

O argumento…

Nas eleições legislativas de 5 de Junho, 85% dos votantes sufragaram a solução dos credores.’ É este o argumento que dá início à ditadura democrática, porque a partir da agora só nos resta pagar e calar. Qualquer desacordo vai ser visto como inoportuno e como causa próxima do falhanço que nos ameaça.

Uns tantos passarão a manifestar-se nas ruas em defesa das “conquistas de Abril”, indiferentes à nova ideologia. Para esta, no entanto, a causa remota, está nessas mesmas conquistas.

Apesar de metade da população não ter votado nas recentes eleições, está aberto o caminho para a gestão do terror porque, aparentemente, 85% dos portugueses apoiam as medidas que os condenam à pobreza.

Em nome da transparência, criam-se e propagam-se falsas evidências. O cilindro da propaganda já está no terreno: abençoam-se os princípios e os objectivos, na expectativa que as estratégias sejam convincentes e os custos diminutos.

No caso das estratégias falharem, resta o recurso à força. ‘85% dos votantes sufragaram a solução dos credores.’    

1.7.11

Nem a sorte nem a magia…

«-Não podemos falhar! Não podemos falhar!» Um enunciado a considerar nas fórmulas mágicas da afirmação de impotência…

Em vez da aposta no trabalho e na contenção, preferimos o esconjuro dos padres da igreja a que nos acolhemos. Quase que apetece gritar que É a hora! mas ficamos por: É o momento!

Fica, todavia, uma dúvida razoável: Não podemos falhar em quê? Para Eça, seria a vida! E para nós, há alguma coisa mais importante do que a vida? Não seria melhor, de uma vez por todas, admitir que falhámos como nação!

Nem a sorte nem a magia nos tirarão do açude em que tombámos, mas talvez pudéssemos aproveitar para criar umas trutas!