Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

30.11.08

No Porto...



No Porto com muita chuva. Sem GPS por causa do isqueiro avariado. Primeiro, sem mapa e depois com mapa enxarcado... Tudo porque o Star Inn. Low cost design hotel, situado na R. Senhora do Porto, se revelou, quase, inacessível pela Estrada da Circunvalação... uma odisseia a lembrar a pior cegueira retratada por Saramago...
Salvou-se, no sábado, na Casa da Música, o concerto de violino ( Lucia Luque), de violencelo (Andrea Battistoni) e de piano (Sérgio Baietta) que interpretaram Beethoven e, sobretudo, Ravel.
Quanto ao domingo, mais familiarizado com o terreno, fiquei, no entanto, um pouco perplexo com o espectáculo dramático encenado por Igor Gandra "DAYDREAM", com base no conto "As Ruinas Circulares" de Jorge Luís Borges. O texto não passava de pre-texto para preencher 50 minutos pelo Teatro de Ferro. Lá terei de voltar a Borges...
O resto é o que sobra de uma enorme bronquite... e imagens natalícias de ruas com pouco movimento, onde, a espaços, relembro o jardim (romântico) do Palácio de Cristal e os retábulos barrocos da Igreja das Carmelitas, tudo com o sinuoso Douro como moldura...

27.11.08

A democracia e os títeres

Em democracia, convem clarificar se é legítimo ao funcionário público transformar o lugar de trabalho em palco de luta política. No caso dos professores, vale a pena determinar se uma reunião de conselho de turma ou de conselho pedagógico pode dirigir a sua atenção para objectivos que visam abertamente envolver a comunidade escolar no combate político...

Em democracia, é importante  estabelecer se os modelos de avaliação podem ficar reféns dos sindicatos e dos partidos que os tutelam...

Em democracia, importa definir um projecto educativo que consiga conjugar os valores globais com os nacionais.

A balcanização da educação só faz proliferar os títeres.

23.11.08

Onde é que eu estou?

Nas páginas do Expresso nem pensar! O objectivo é simples: deitar a baixo a ministra e, se possível, o Governo. Do Camões, ficámos a saber que a maioria dos professores não é sindicalizada, mas que quer o fim da avaliação. No passado, as alianças estratégicas eram temidas pelos seus efeitos destruidores. Hoje, parece que não. Quem vier a seguir que feche a lagoa!

18.11.08

Da falta de educação...

Uma ministra cada vez mais só, que diz que ouve, mas que, de facto, procura desesperadamente quem ecoe a voz do dono.

Uma conferência de imprensa, no Ministério da Educação (?), em que a Ministra se irrita, qual professor debutante, com os malcriados jornalistas ao serviço de interesses partidários e sindicalistas. Na conferência de imprensa, o clima em nada era diferente do que ocorre em muitas salas de aula deste triste país.

Uma ex-ministra da educação, responsável por muitos dos problemas do sistema educativo, acaba por defender que , talvez não fosse má ideia suspender a democracia por seis meses (Humor negro!). A ministra da educação bem os poderia utilizar para pôr na ordem os desordeiros dos professores. Certamente, um lapso da Drª Manuela Ferreira Leite, dirão os seus sequazes.

Apesar de defender que a actual legislação suporta um modelo de avaliação muito menos oneroso e stressante do que o defendido pelo M.E., começo a pensar que só a queda do ministério permitirá essa alteração. E para isso proponho que se ponha em prática o princípio defendido pelos lobbies que dominam a 5 de Outubro, a 24 de Julho e respectivas direcções regionais: 100% de sucesso escolar.

Basta que, no final do 1º Período, nenhum aluno veja na pauta uma classificação inferior a 10 ou ao nível 3. Se tal acontecesse, o que diria a Nação?

Falta-nos imaginação e sentido de humor!

16.11.08

Até...

Sem querer vasculhar muito no mundo anterior às palavras (o mundo primordial de que falava Vergílio Ferreira) nem precipitar-me no mundo derradeiro, onde as palavras já me não dizem nada, confesso que, ultimamente, tenho vivido algumas experiências traumatizantes: as palavras tornaram-se grilhetas soltas das correntes que nos prendiam ao mundo das coisas, das ideias, dos acontecimentos ( a dimensão da res que dava solidez à vida). As palavras estão cada vez mais desonradas. Vergonhosamente desonradas.

Já não sei como, através da palavra, posso defender a honra das palavras. Ninguém valoriza a palavra dada! É como se as palavras fossem apenas folhas caídas cujo destino seja serem espezinhadas.

Ultimamente, as palavras tornaram-se moedas cujo valor facial é nulo. Nem mesmo quando queremos ensinar a evolução semântica da palavra, encontramos disponibilidade para compreender que sem  o(s) significado (s) diacrónico da palavra, nos é impossível aceder à compreensão do passado.

E isto sem falar daqueles que permanentemente voltam atrás sobre a palavra dada, que aproveitam a indiferença geral para rectificar a imagem e vitimizar o escriba, ou de quem nos quer cobrar a mediocridade da vida. 

13.11.08

Tanta miséria... tanta mentira...

As guerras têm quase sempre início em questões mesquinhas. Raramente, conhecemos os verdadeiros motivos. Inevitavelmente, estende-se à rua. Lá despertam novos líderes cujo primeiro e, por vezes, único objectivo é demolir, servindo-se do inconsciente colectivo.

Desgraçadamente, o inconsciente colectivo não sabe construir. Ou se alguma coisa constrói, fá-lo na mentira e no saque.

Infelizmente, o inconsciente colectivo é um vulcão pronto a entrar em erupção. Mas que se saiba, a lava só se eleva se as plataformas que a acomodam forem desajustadas.

E é nesse desajustamento que reside actualmente a conflitualidade ou o descarrilamento. É um pouco como na Linha do Tua: insiste-se em colocar sofisticado material circulante sobre travessas envelhecidas... Adultera-se o tempo.

O resto é falta de senso! Para quê desperdiçar ovos e tomates com tanta miséria por aí?

9.11.08

Longe das turbas...

De ontem para hoje, aumentou a crispação entre as partes, cada vez mais convencidas de que têm razão. É assim que começam as guerras!

Se não houvesse precipitação, tudo poderia ser resolvido a contento da nação (?), bastava começar por implementar o Decreto-Lei nº 75 / 2008, de 22 de Abril. Seleccionado o director executivo, criados os 4 Departamentos, cujos coordenadores são designados pelo director, estariam criadas as condições para a gestão hierarquizada e empresarial. A avaliação passava a ser tarefa do director e dos 4 coordenadores que, por sua vez, teriam legitimidade para delegar a competência de avaliação, se fosse caso disso. Entretanto, sobrava tempo para formar directores, coordenadores e simplicar os mecanismos de recolha de informação.

Se nada disto acontecer, continuarei céptico. Quem me garante que  os futuros directores, coordenadores e inspectores estarão à altura da missão que os espera? Pela amostra, não vamos lá...

5.11.08

Acudam ao Mestre...

As sensações são as mesmas de 1975. Continua a ser possível fazer a revolução. Para que o eclipse se dê, só é preciso que os interesses de uns se cruzem  momentaneamente com os dos outros. Ganha a batalha, vem o saque...

Ainda, estou a ver o  pagem, a mando do Álvaro Pais, a galopar rijamente pelas vielas obscuras de Lisboa: -"Acudam ao Mestre..."

A lição de Fernão Lopes é das poucas que nunca me sai da memória.

4.11.08

Naïf

A Crónica Contos (d) e realidades, de António Souto, publicada na floresta-do-sul.blogspot.com, consegue libertar-me, por momentos, da última sessão do Conselho Pedagógico, toda ela sobre avaliação ou, talvez melhor, sobre a necessidade de manter viva uma imagem que o espelho há muito deixou de reflectir. Sempre que   alguém me fala de Urbano Tavares Rodrigues, sorrio por instantes.

Sorrio da sua bondade, da sua leveza, da sua crença na fraternidade e na solidariedade, e, sobretudo, do modo como continua a alimentar essa Instituição que poderia ser a Literatura, se esta não tivesse sido colonizada por uma casta de sacerdotes que, pouco a pouco, nos afastam do gosto da leitura...

Pode não ser verdade, mas, para mim, Urbano Tavares Rodrigues é um homem naïf que nunca me pediu nada, e que os deuses decidiram premiar, deixando-o ficar um pouco mais para que o sorriso não vire esgar.

Nestes dias, também eu gostava de ser um pouco naïf, de sublimar as emoções e de olhar com menos rigor as vagas alterosas do deserto que cresce de norte para sul. Ou será ao contrário?

Enfim, de um naïf não se pode esperar que ele tenha a noção de perspectiva!