Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

31.1.08

Entranha-se...

Entranha-se a indisciplina, apesar de bem-educada... - Oh, desculpe, não sei o que se passa comigo; não consigo estar atento, dormi pouco. De facto, perco-me em viagens sem destino: parto, mas inesperadamente capitulo. Estou e não estou. A História não me interessa - é passado e eu sou o presente sem futuro... tempo de brejeirice, embora eu não saiba bem do que se trata, talvez piadas sem espinhas ou nus lânguidos, em posições convidativas... isso, o telemóvel do meu amigo é fantástico! Que pena não ter um igual! Ah, como eu seria feliz! Por enquanto, contenta-me um olhar furtivo...

Entranha-se a irresponsabilidade, apesar de democrática... - Vamos dar-lhes a palavra derradeira, uma palavra nocturna, embora só eu saiba do que eles precisam. Por isso, dou-lhes a palavra, mas guardo as passwords só para mim... Sempre que quiserem entrar no templo, hão-de passar por mim, mas, primeiro, ficam à espera - a ansiedade torna-os mansos! - até perderem a vontade de perguntar. Malditas perguntas, lembram crianças esquecidas de crescer...

- Há 100 anos, o rei preparava-se para morrer. Ele nunca o disse, mas lá no fundo ele queria ser republicano. Estava cansado das telas do mar, do suicídio dos amigos e das noites góticas... Via-se cair às mãos dos anarquistas, amortalhado por coristas e fadistas sob o olhar guloso da rainha...

27.1.08

Hoje...

  1. Hoje, tive o prazer de participar na festa de aniversário dos 90 anos do Sr. Rogério Correia. E este, não querendo gastar o último sopro, recusou-se a apagar as velas. E fez bem: quem tem uma família tão multicultural, bem merece ficar por cá mais uns anos a tutelar a miscigenação que se apoderou da sua família. Viva a harmonia e a tolerância! E viva o Sr. Rogério!
  2. O serviço público exige rectidão de carácter, mas não obriga a subserviência. Esta é a conclusão a que, hoje, também, cheguei depois de longamente reflectir sobre o modo como uns tantos tentam destruir aqueles que dedicam toda a sua vida a um magistério.
  3. Hoje, ainda, vi-me a subir, qual eléctrico da Bica, íngremes escadarias, numa pobre e triste cidade. Não faz sentido que as ruas se escondam entre blocos obsoletos e devolutos ou ocupados pela vergonha dos desempregados ou dos miseravelmente mal pagos...
  4. Finalmente, recuperado da íngreme subida, caminho mais 50 minutos, por traçados pedestres desertos, e vou pensando em tudo o que não pude fazer e que amanhã me fará falta. Mesmo destas palavras ecoa a acusação de desperdício. Que sentido têm? Não seria preferível pensar um pouco mais naquelas grelhas publicitadas, na 6ª feira, no site do M.E. e que nos próximos tempos irão condicionar o trabalho de milhares de professores, em nome do serviço público?
  5. Fico, no entanto, com a sensação que se não tivesse respondido ao convite do Sr. Rogério Correia ou se não tivesse tomado nota dos abusos do poder de que somos vítimas, estaria a ser subserviente.

22.1.08

Amanhã, comece a dizer não...

Se eu quiser iniciar a actividade de paraquedista, sei que preciso de frequentar, durante algum tempo, uma escola de paraquedismo. Não me passa pela cabeça, comprar uma mochila, atirá-la para as costas, entrar num avião e, na primeira oportunidade, lançar-me no espaço.

No entanto, temo que, amanhã, não consiga escapar à ideia de que, um pouco por todo lado, se perfilam candidatos a gerir a "res publica" sem qualquer preparação para tal...

É por isso que há muito se fala dos paraquedistas que, em vez de se precipitarem no abismo, nos levam ao desencanto e à desistência. 

Apesar do desespero, amanhã, lá estarei, atento, à espera que a mochila se abra e dela se liberte um rotundo NÃO.

20.1.08

Os alunos podem esperar...

Há prazos a cumprir, grelhas a elaborar, objectivos a definir, reuniões a concertar, observações a marcar, formações a receber e a dar... e os alunos podem esperar!

Não vão ficar sem aulas que, sem elas, os professores não progridem!

Há quem pense que estamos a assistir a uma gigantesca fraude e a uma onda de indiferença da mesma dimensão. Mas não, para além dos carreiristas e oportunistas que sempre enriquecem nestes momentos, a maioria dos professores sente-se acossada porque pressente que, em ditadura ou em maioria absoluta, o seu peso é nulo.

Por isso, para que o aluno volte a ocupar a atenção do professor, só há um caminho: impedir a formação de uma nova maioria absoluta.

Se a memória não nos faltar... 

 

11.1.08

A penitenciária

Ando há dias a pensar na situação insuportável de quem não se sente motivado para o exercício de uma função para que não foi preparado.

Neste país, podemos ser designados para uma missão sem sermos ouvidos, ou, na melhor das hipóteses, somos chantageados: deixamos de progredir numa carreira que, de facto, para muitos está fechada... ou, então, podemos ser descartados...

Neste  contexto, a resignação instala-se, sobretudo, se a aposentação estiver distante. Acabamos actores de uma farsa interminável. Mas, de que nos serve a resignação?

E a questão da motivação é essencial! Todavia, o acesso à formação é cada vez mais dificultado: para além de ser paga e obedecer a um programa de lavagem mental, a formação é proporcionada por agências cujos objectivos são absorver os fundos europeus e controlar os mecanismos do poder.

Tudo se joga a duas dimensões: por cima, os iluminados que estabelecem objectivos irrealistas, prazos cegos e sanções disciplinares; por baixo, uma tribo de executantes que zelozamente deve controlar e hierarquizar os seus pares em nome do global superior interesse.

Não interessa se concordam ou discordam, se dispõem dos meios necessários, se, pela sua resignação, objectivamente, prejudicam a comunidade ou, no limite, põem em perigo a sua própria saúde física e mental.

Neste cenário, creio que será da maior utilidade criarmos em cada local de trabalho uma penitenciária - lembrando que, na origem, se tratava de um lugar onde o crente dispunha de instrumentos que lhe permitiam exibir o modo como se penitenciava dos erros (pecados) cometidos aos olhos de Deus. Para o efeito, os iluminados ofereciam múltiplos e dolorosos instrumentos de tortura...

Por mais incoerente que este discurso possa parecer, ele não deixa de revelar que, ao  definirmos objectivos individuais, começamos por confessar os nossos erros para, depois, negociarmos as penas que nos libertarão da nossa mísera condição...

Ou talvez não!

5.1.08

Imperdoável

«Morreu uma professora de Mangualde que, sofrendo de cancro de pulmão, trabalhou até ao fim. Maria Cândida não chegou a beneficiar da redução da componente lectiva.»

A frieza da notícia está de acordo com a desumanidade do legislador. A lei, que, por regra, os governantes desdenham, é, nestes casos, cega. Deixa morrer no local de trabalho alguém cuja morte há muito estava anunciada...

De facto, não morreu nesse lugar, mas, apenas, por força do calendário escolar. Quanto aos decisores, esses escondem-se  por detrás de leis que eles próprios aprovaram.

No limite, caso não houvesse este pausa na actividade lectiva, a professora poderia ter morrido na sala de aula, perante os seus jovens alunos. Se isso tivesse acontecido, qual teria sido a reacção dos pais e encarregados de educação?

E o que pensam desta "experiência" os pedagogos e psicólogos deste país? Será que o juízo médico não deve sobrepor-se ao rigor dos maiorais que nos vigiam?

Quem se encontra no terreno sabe que, independentemente da idade, há cada vez mais homens e mulheres que se sentem incapacitados de exercer a sua profissão, mas que são obrigados a fazê-lo, apesar dos prejuízo que isso significa para a comunidade.

No entanto, a lei continua a ser aplicada com tanto rigor, precisamente, em nome da redução do déficit.

Irónico e imperdoável. Nem a caridade nos sobra...