Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

28.4.07

A rampa...

- Por pudor, não. Por horror. Ando e penso contra o vento. À esquerda, vozes de ontem - promessas cinzeas. À direita, a dúbia cister - risos dúbios. Estático, sufoco referências. - Por horror, não. Por pudor.

24.4.07

Escondem-se os espelhos...

«A veces en las tardes una cara nos mira desde el fondo de un espejo; el arte debe ser como ese espejo que nos revela nuestra propia cara Jorge Luis Borges, Arte Poética
Em Abril de 2007, escondem-se os espelhos, pois tememos que eles mostrem que, desde o início, fizemos batota. Uns receavam cada vez mais o campo de batalha e por isso rebelaram-se em nome do direito à liberdade dos povos oprimidos.
Outros (quando não os mesmos) aproveitaram a fuga dos títeres para lhes usurpar o lugar. Multiplicaram-se pelas cadeiras do poder e estão aí, repimpados, fugindo as caveiras que irrompem do fundo dos espelhos.
Nem uns nem outros percebem que temos os dias contados.

21.4.07

O público dos Dias da Música do CCB...

No Grande Auditório, o respeito e a veneração. No Espaço Aberto, a boçalidade e o cavaco. Porquê?
Quando, no âmbito da «Música Livre», Quatro Cantos da Casa (com obras inéditas de Jorge Machado, Eurico Carrapatoso, Carlos Gomes, Paulo Brandão, Ivan Moody, Eli Camargo Jr.) apresentava o seu espectáculo/concerto, resultante da associação da Escola de Música do Conservatório Nacional de Lisboa com a Escola Técnica de Imagem e Comunicação (ETIC), algum público, desatento e ruidoso, fez fracassar o início do programa.
Como é que os jovens podem respeitar os mais velhos, se desrespeitamos os jovens músicos? Esta dualidade de critério é inaceitável: a subserviência perante o consagrado e a indiferença perante aqueles que precisam de público para melhorarem as suas performances. E para além disso, a dualidade de comportamento também se manifestou no aplauso, no interior do Grande Auditório. O português Bernardo Sassetti (1970-), com as suas "Improvisões" reveladoras de um compositor e pianista de recursos ilimitados, perdeu no aplauso para o pianista turco Huseyin Sermet (1955-)...
Diria que a substituição da Festa da Música pelos Dias da Música faz sentido, pois nem tudo é festa: falta dinheiro e, sobretudo, falta educação... e esta deveria começar em casa, continuar na escola... Mas como?

19.4.07

No espaço de uma semana...

Na Escola Secundária de Camões, no espaço de uma semana, foi possível recuar no tempo e dar a conhecer aos alunos e, também, aos professores, um tempo que alguns viveram, mas a maioria desconhece.
A 13 de Abril, o escritor João Aguiar revisitou o "liceu", que frequentou entre 1957 e 1961 (?). A 18 de Abril, a professora Madalena Contente fez-nos revisitar Vergilio Ferreira, que leccionou no Camões, a partir de 1959 até à sua aposentação.
I
João Aguiar dirigiu-se, no Auditório, a uma plateia de mais de 250 alunos e professores, evocando o passado e discorrendo sobre o ofício de escritor. Desse passado, ficou a imagem da distância que separava os rapazes das raparigas que, quando admitidas no Liceu, eram fechadas, nos intervalos das aulas, na Biblioteca. Ficou também a ideia da inacessibilidade do livro, aprisionado nas "altas estantes" da Biblioteca. O aluno só podia ir à Biblioteca quando algum professor faltava. E sobretudo, sobrou a imagem do poder do professor e, em particular, do reitor, perante o qual todos se prostravam. Por outro lado, nas aulas de Português, poucos professores desenvolviam estratégias motivadoras da leitura.
João Aguiar recordou dois professores: Maria da Conceição Caimoto, que lia selectivamente excertos de obras, que acabavam por convidar os alunos a continuar a leitura, e Mário Dionísio, que contextualizava, com tal rigor e clareza de expressão as épocas literárias e as obras que que as integravam ,que aos alunos bastava estar atentos e tirar notas, para mais tarde tentarem reproduzir o pensamento do mestre.
Sobre o ofício de escritor, João Aguiar deixou no ar a ideia de que o despertar para escrita resulta mais de uma descoberta pessoal do que de um efeito da Escola. No seu caso, ela terá surgido por volta dos sete anos de idade e ter-se-á acentuado, na sequência de uma doença que lhe restringiu os movimentos durante, entre os nove e os onze anos. Dos seus autores preferidos, preferiu citar Eça de Queirós. Dos vivos, pouco disse, a não ser que o antigo aluno do Camões e "rebelde" António Lobo Antunes sempre o tratou com grande deferência... E que também apreciava a obra de Mário de Carvalho, seu condiscípulo. Curiosamente, não referiu Vergílio Ferreira com quem, eventualmente, se terá cruzado... Mas, como nos prometeu escrever sobre o tempo que viveu no Liceu Camões, no âmbito da comemoração dos 100 anos do edifício, talvez ainda estejamos a tempo de o ver escrever sobre a sua relação com Vergílio Ferreira, também ele, grande admirador de Eça de Queirós...
II
Quanto à remoremoração de Vergílio Ferreira, esta decorreu entre os livros das "altas estantes", na Biblioteca, que lotou. Entre outros, estiveram presentes a viúva do escritor, nos seus enérgicos 92 anos de idade; a professora doutora Maria Joaquina Nobre Júlio que falou sobre a "Aparição"; a antiga professora do Liceu Camões, Drª Clarisse Santos que explicou aos presentes quem eram / são as "três colegas", múltiplas vezes referidas pelo escritor na sua obra; e o dr. Luís Filipe Valente Rosa, antigo aluno do homenageado que dissertou sobre o "pensamento em Vergílio Ferreira", deixando a mensagem de que a acção (docente, literária e ensaística ) de V.F. terá sido, muitas vezes, redentatora para os alunos e para os leitores. Deixou-nos também a imagem de um homem cujo objectivo principal era descobrir a irredutbilidade da pessoa, lutando contra qualquer totalitarismo, viesse donde viesse... o lhe terá trazido alguns dissabores, sobretudo, da crítica de raíz marxista...
Para além das referidas intervenções, é ainda necessário referir o filme realizado pelas professoras Madalena Contente e Teresa Almeida, e que, pelo rigor documental, poderá futuramente ser muito útil na apresentação de V.F. às novas gerações e que, por outro lado, não deverá ser esquecido na celebração dos 100 anos do edifício da Escola Secundária de Camões.
III
  1. Se cruzarmos as duas datas - 13 e 18 de Abril, verificamos que nos falta conhecer o "diálogo" travado por Mário Dionísio e por Vergílio Ferreira, isto é, o diálogo entre a escrita de raíz marxista (vulgo neo-realista) e a escrita que, rejeitando o fascismo, procurava no homem e não na classe (no grupo) o caminho da sua superação.
  2. Estas iniciativas, seja no Auditório seja na Biblioteca, são de grande utilidade para ver se aprendemos a ouvir, a respeitar a voz do outro (EU). No Auditório, ainda houve jovens que não souberam ou não quiseram ouvir, obrigando o convidado a chamar-lhes a atenção. Na Biblioteca, também houve quem passasse o tempo a comentar os oradores, querendo deixar nos circunstantes a ideia de que muito do pensamento de V.F. mais não seria do que plágio.

16.4.07

O desnorte de certos governantes...

«Encheram a terra de fronteiras, carregaram o céu de bandeiras. Mas só há duas nações - a dos vivos e a do mortos(Juca Sabão, citado por Mia Couto, Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra)
Li recentemente que o PSD de Marques Mendes quer entregar a contratação de professores e restantes funcionários às Escolas. Quer também que essas Escolas paguem aos funcionários segundo tabelas próprias.
Certamente que esta luminosa ideia resulta do brilhante raciocínio de que nas regiões mais pobres, os funcionários devem receber menos do que nas regiões mais ricas. Ou será ao contrário?
A nação dará lugar a um conjunto de cantões, onde o compadrio, o amiguismo e o nepotismo reinarão.
Qual será o objectivo do Dr. Marques Mendes? Promover a instrução dos portugueses ou criar uma sociedade em que os portugueses se distribuiam por categorias (castas) de 1ª, 2ª, 3ª?
Esta proposta vem de alguém que tinha a obrigação de saber quais são as funções do Estado. Alguém que cresceu (?) no interior do aparelho partidário e estatal. No entanto, parece que o seu objectivo é destruí-lo, colocando-o nas mãos de caciques locais, trauliteiros, que infestam o país de Norte a Sul, sem esquecer as Ihas... destrambelhadas capitanias!
Só não compreendo por que motivo o Dr. Marques Mendes não propõe a mesma solução para os quartéis. Cada um contratava a tropa fandanga que quisesse, pagando-lhe de acordo com o saque de que fosse capaz. Afinal, para que servem as forças militares e de segurança?
Só um Estado, incapaz de definir um Projecto Educativo, pode tolerar que haja governantes que queiram instrumentalizar as instituições que o justificam: a Segurança, a Justiça, a Educação.
A acção de certos governantes empurra-nos objectivamente para a terra dos mortos...

9.4.07

Casos de polícia...

O ministro Mariano Gago justificou, hoje, o seu despacho provisório de encerramenento compulsivo da UnI, baseando-se na actual degradação pedagógica da instituição e pelo facto responsabiliza os proprietários.
E quem são os proprietários? Ninguém sabe!
Extraordinário! O Estado permite o funcionamento de múltiplas instituições de ensino sem conhecer os proprietários e, sobretudo, sem conhecer o respectivo financiamento. O ministro reconhece que estamos perante casos de polícia, cujo desfecho é imprevisível...
Por outro lado, Mariano Gago quer fazer crer que essas instituições - opacas, enredadas em compadrios de longa data ( Estado Novo) - prestaram até há pouco tempo um serviço exemplar. E a atestá-lo apresenta os relatórios das várias equipas de avaliação que apenas descobriram pequenas falhas facilmente superáveis. Esses relatórios jamais registaram qualquer tipo de degradação pedagógica. E porquê?
Porque nessas instituições nunca houve investigação consistente e, sobretudo, a transmissão de conhecimento(?) nunca obedeceu a qualquer princípio pedagógico. O ensino superior (privado e público) detesta a pedagogia, evita a educação. A maior parte dos docentes nunca teve qualquer preparação pedagógica. E quanto a educação, basta ouvi-los falar, basta ler as suas dissertações, as suas teses...
Ao tentar separar o trigo do joio, Mariano Gago enredou-se numa demonstração inconsistente, pois sabe muito bem que, há alguns meses atrás, humilhou o professor Adriano Moreira, porque a avaliação do ensino superior seria inóqua.
Lá no fundo, o Senhor Ministro mostrou, hoje, que a sua grande preocupação é defender o currículo do aluno José Socrates em quem devemos admirar a aplicação, a fome de conhecimento necessários à construção da OBRA.
Um currículo anterior à degradação pedagógica que atingiu a UnI.
Toda esta encenação é mais um caso de polícia. Mas que polícia? Mas que justiça?

8.4.07

A inveja mata a vaidade...

Hoje, domingo de Páscoa, gastei boa parte do dia a elaborar uma matriz para uma prova de equivalência à frequência e/ou de equivalência a exame nacional, e a ler a legislação sobre os exames 2006-2007. Em momentos vários, lembrei a notícia de que o Reitor Arouca terá assinado a certidão de conclusão de curso (o diploma /a carta de curso?) do engenheiro Sócrates a um Domingo.
Perante a chicana criada em torno deste facto (político?), decidi tornar pública a minha prevaricação, pois, neste domingo, lesei o compromisso assumido na pia baptismal há mais de 50 anos. Se tivesse agido em conformidade, teria deixado para melhor momento essa incómoda matriz. É que já não sei a quem servir: se a Deus se a César...
Afinal, tal como eu, o Reitor Arouca, ao despachar ao Domingo, vivia o mesmo dilema: não sabia a quem servir se a Deus se ao futuro querido líder... A não ser que o Reitor Arouca nunca tenha assumido nenhum compromisso na pia baptismal!
Por outro lado, confesso que trabalhar neste domingo (de ressurreição) me deu algum prazer, porque, mesmo que não queira, me sinto solidário com o enxame de assessores do Primeiro Ministro e do Ministro da Ciência e do Ensino Superior que gastaram este santo fim de semana a escarafunchar argumentos capazes de ressuscitar o querido líder.
Viva a Universidade Independente! Abaixo a Ordem dos Engenheiros!
Se não fosse a inveja, o querido líder era hoje Primeiro Engenheiro, ou mesmo Primeiro e Único Arquitecto!
PS: Por onde anda a Ministra da Educação? Será que a ressurreição do querido líder vai devolver-lhe a voz ?

6.4.07

Ao Sul...



Armação de Pêra, 5 de Abril de 2007Fugi da Sombra para o Sol do Sul.
Nestes últimos dias, viajei para o antes do presente (AP). E estive quase simultaneamente em Lapedo (Leiria) e em Silves.
Em primeiro lugar, o escritor João Aguiar obrigou-me a regressar a 1998: tempo, para mim, de mudança – de Mem Martins (Sintra) para a Portela (de Loures / Lisboa) e ainda da Escola Secundária de Santa Maria para a Escola Secundária de Camões; tempo de uma vizinha e orgulhosa EXPO; tempo de (re)iniciação à doença e à morte; tempo, talvez por isso, de ignorância da descoberta das ossadas de uma criança que morreu há 25 000 anos, com a idade de quatro anos e meio – “o menino do Lapedo”.
Essa descoberta, reportada /“ficcionada” por João Aguiar na obra LAPEDO, Uma Criança no Vale (ASA, 2006), parece obrigar à revisão da teoria Out of Africa – o modelo da Origem Africana Recente – que gerara a perniciosa ideia de que a humanidade assentaria na acção do «exterminador implacável», cuja acção primordial teria consistido no genocídio do Homem de Neandertal, na medida em que o Homo sapiens e o Neandertal seriam espécies tão diferentes que a inter-reprodução seria biologicamente impossível.
A investigação pluridisciplinar em torno d “O menino do Lapedo” coloca-nos perante a hipótese da miscigenação entre “arcaico” e “moderno”, Neandertal e Sapiens, destruindo, desse modo, a concepção dominante do homem, em grande parte do século XX.
A obra de João Aguiar, pelo diálogo que estabelece com arqueólogos, antropólogos, físicos, mitólogos, etc., merece ser lida atentamente porque, para leigos, como eu, revela-se uma preciosa fonte de conhecimento.
Em segundo lugar, também voltei a Silves, esse lugar onde o antes do presente (AP) árabe me é mais visível.
As obras de reconstituição do legado árabe continuam no Castelo de Silves, não sei há quantos anos. Torna-se claro que ali existiu uma urbe muito bem organizada, mas, por enquanto, apenas isso…
Na parte restaurada pelo PÓLIS, surgiu, entretanto, uma fonte-jardim em homenagem a IBN Qasi, o governante muçulmano de Silves, com quem D. Afonso Henriques terá «estabelecido uma aliança, estratégica mas possivelmente também espiritual» para proteger os mouros que ficavam sob o seu domínio»…
O interessante é que li estas palavras de João Aguiar, algumas horas depois de ter (re)visitado SILVES.
Em síntese: a ideia da miscigenação está inscrita nos ossos e nas pedras da IBÉRIA! Mas também de todas as partes, ao SUL, por onde ousámos VIAJAR…

Nota de rodapé: No decurso desta viagem ao SUL, CARUMA não deixou de prestar atenção ao Presente. E pelo que tem lido e conhece dos AROUCAS deste país, recomenda ao Engenheiro Sócrates que continue obstinado e não deixe de tomar a cicuta que se impõe nestas circunstâncias. Por muito menos, outros deixaram o poder, esconderam-se num qualquer conselho de administração e o país, como é seu timbre, esqueceu-os.
O PS ainda tem no seu seio um ou outro dirigente capaz de formar um Governo, cuja única regra de governação seja a honestidade.
CARUMA espera, agora, que CAVACO se revele PRESIDENTE. Para isso foi eleito.E não precisa de fazer barulho!
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A reles vaidade mata-nos a cada dia que passa!