Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

24.11.06

A memória dos rios...

Se a memória não me atraiçoa, estudei em Tomar entre 1971 e 1973. Em 71/72, a chuva caía com abundância. Lembro-me porque, para chegar ao Liceu, percorria de madrugada, numa motorizada CASAL, cerca de 15 Km. Invariavelmente, às 8 horas, chegava ao largo da estação de caminho de ferro, onde se situavam os "anexos" do Liceu. E nesses "anexos", a intempérie obrigava-nos frequentemente a abrir os guardas-chuvas. Para mim, não havia nada de extraordinário: essa chuva que caía sobre mim no percurso e na escola era bem vinda. Se há alguma coisa que eu prefiro na natureza é, concerteza, a chuva... mais do que a própria água. A água só me fascina sob a forma de corrente tumultuosa. A água parada dos paúis (pessoanos ou não), dos lagos, do próprio oceano, enerva-me!
Antes de conhecer o Nabão, já conhecia o Tejo. Habituara-me a contemplá-lo das scalabitanas Portas do Sol. No entanto, só o procurava em tempo de cheias, quando banhava os pés da ribeirinha Santa Iria. O caudal alargava-se de tal modo que conseguia visualizá-lo, para lá de Almeirim e de Alpiarça, a subir o desconhecido Terreiro do Paço. A ideia de uma capital flutuante seduzia-me, dava sentido ao Portugal das caravelas.
Hoje, quando vejo imagens das cheias do Nabão, sinto uma leve frustração. Nos anos 70, as cheias do Nabão, se comparadas com as do Tejo, eram insignificantes: invadiam duas ruas, ameaçavam um outro café... mas nunca me impediram de cumprir a rotina diária: percorrer 30 Km (ida e volta); abrir o guarda-chuva na sala de aula; assistir às aulas com uma sensação de déjà vu; ler o Diário de Lisboa no café Central(?); pedir as obras de Jean-Paul Sartre na Biblioteca local... para me poder aproximar um pouco de Paris e perceber que o Sena parisiense me causaria náusea.
Hoje não vi nem o Tejo nem o Nabão, vi imagens do Nabão e do Tejo, o que não é a mesma coisa: a sucessão de imagens instantâneas destrói a força da corrente que os meus olhos procuram e, sobretudo, que os meus ouvidos poderiam escutar - e sem essa percepção total, sinto-me desligado do fluxo universal.
Desiludido, continuo sem compreender que haja defensores da construção de barragens que estanquem os caudais... que imobilizem as águas. Se conhecessem os rios, não lhes ocupavam os leitos, deixavam-nos acordar suavemente, deixavam-nos correr orgulhosamente para o grande Oceano.
PS: Já naquele tempo tinha a sensação de que a Literatura maltratava os rios. Eram demasiado românticos, faltava-lhes corrente... à excepção do riacho de Bernardim, tumultuoso, que arrastava a indefesa ave para um mar sem fim... E vou ficar por aqui, porque, em mim, começam a jorrar arroios subterrâneos...

20.11.06

Um futuro de servidão...

Vi-me, hoje, obrigado a cancelar uma ida ao teatro. Um teste impede que os "meus" alunos possam ver a peça "Galileu", na véspera do dia da "Cultura Científica". Segundo argumentaram, precisam de se deitar cedo. O que pensará o velho Galileu deste bom senso em criaturas tão juvenis?
Sem querer imiscuir-me em assunto tão melindroso, creio, no entanto, que os problemas equacionados por Bertolt Brecht os poderiam ajudar a raciocinar e a compreender que a razão soçobra facilmente perante o fanatismo dogmático - religioso ou escolástico.
Esta forma tão ajuizada de estar anuncia um futuro de servidão.
(...) O exame que começou por ser de consciência, exigindo a autoridade do director espiritual, aferrolha, hoje, o livre arbítrio, decidindo mecanicamente do destino de cada jovem que ousa olhar o futuro... enquanto Galileu fica no sótão a espreitar o movimento dos astros...
(Cancelar uma ida ao teatro é uma actividade que dá sentido ao funcionário que elimina o desperdício...)

18.11.06

As tentações do funcionário...

Vi, hoje, no S. Jorge, Tatana, Portugal, 2005, 12', 35mm, Ficção. Realização: João Ribeiro; Argumento: João Ribeiro, Mia Couto.
Sinopse: Adaptado de um conto tradicional Makonde, esta é a história de uma velha e de seu neto, Sábado, criança de 12 anos que ela educa desde a morte do pai, quando Sábado tinha apenas 3 anos. Graças a um poder oculto, a velha guarda na cabeça os seus familiares mortos que, de quando em quando, saem cá para fora fazendo uma grande festa em jeito de cerimónia. Este facto não pode ser descoberto por pessoas que não sejam da família, pois isso faria com que os mortos não encontrassem o caminho de regresso acabando por ficar ao abandono e provocando a morte da velha.
Uma narrativa pedagógica que visa preservar os laços do presente (do jovem Sábado) com o passado, como se o primeiro se tornasse inviável sem o segundo (os antepassados - dos ancestrais aos mais próximos, como o pai e os tios, residentes no poço do quintal). A família continua a ser no imaginário moçambicano o motor da vida.
E de Moçambique passei à Africa do Sul e vi a Carmen de Bizet, em versão de Mark Dornford-May. (Este realizador já anteriormente filmara O Filho do Homem, mostrando-nos Jesus como um negro revolucionário.) M.D.-M. transpõs a ópera para um bairro de lata da actual República Sul Africana. Filme falado e cantado em xhosa (língua da África Austral falada por aproximadamente 8 milhões de locutores sul africanos).
Este filme vale, sobretudo, pela interpretação musical de Khayelitsha (a Carmen) e pela vitalidade das personagens femininas. Os homens, marialvas e machistas, acabam por desempenhar o papel dos fracos.
Na cena festiva e carnavalesca do abate do boi, cheguei a pensar que a Carmen da Sevilhana tourada, afinal, teria raízes na África austral.
PS: Estou sem perceber por que motivo se encontravam na sala 2 ou 3 turmas de alunos do 2º ciclo. Bateram palmas a despropósito; entraram e saíram da sala; correram.... e os professores, alheados do que que se passava, talvez estivessem a praticar para funcionários nesta tarde de Sábado.

17.11.06

De cidadão a funcionário...

Há uns anos atrás, parecia que ao Estado pouco mais restava do que a recolha de impostos e a sua redistribuição pelas várias clientelas que, entretanto, se tinham formado. A Nação deixara de poder fazer a guerra e, sobretudo, deixara de poder fazer moeda. Alienara as restantes funções, entregando-as a Bruxelas. A Igreja católica cedera o lugar a várias seitas mais ruidosas.
O Bloco Central, mascarado de alternância democrática, ocupava todas as funções de Estado, tornando-se no verdadeiro beneficiário da integração na União Europeia. O clientelismo instalou-se, desarmando a iniciativa, o traballho e a aprendizagem.
Afastaram-se e substituiram-se os quadros técnicos existentes por correias de transmissão dos partidos; as corporações aumentaram as suas regalias, desinteressando-se completamente dos princípios da justiça e da solidariedade; e a vaidade exposta nos mass media tornou-se no critério electivo dos governantes...
Progressivamente, um Estado, que vira reduzidas as suas funções, transformava-se num Estado cuja função principal era distribuir os fundos europeus e, que incapaz de controlar a rapina, acabou por se deixar atolar no compadrio, no nepotismo e no amiguismo.
Hoje, esse mesmo Estado, em nome da reposição de uma mítica e salazarista ordem nas finanças públicas, decidiu que a regeneração das instituições passe a ser feita por decreto de personagens cinzentas, nunca escrutinadas, mas que me fazem recordar os militantes maoístas que, cegamente, seguiam o Grande Timoneiro.
E bem sabemos que para o Grande Timoneiro, só a ruptura pode levar à Revolução cultural. E em nome do Partido, o cidadão deve ceder o lugar ao funcionário eficiente que combata o desperdício.
No que me diz respeito, como, obedientemente, tenho vindo a aderir ao novo conceito de 'funcionário', começo a não ter tempo para reflectir, para ler e para escrever... O discurso instrucional ocupa-me todo o tempo...
E ao escrever cada vez menos neste blog, estou a combater o desperdício...

10.11.06

Matilha de mentirosos...

  1. Em cenário de greve da função pública, Governo e sindicatos apressam-se em manipular funcionários e opinião pública. De uma assentada, o primeiro procura desmobilizar o movimento de protesto e desvalorizar o impacto da greve, enquanto que os segundos procuram precisamente o contrário. Ambos mentem.
  2. Os telejornais manipulam tão descaradamente a informação que o telespectador só pode continuar a pensar que, na Assembleia da República, estamos representados por um bando de energúmenos mentirosos.
  3. Os telepectadores são tão manipuláveis que já não conseguem ver que cada imagem é um argumento mentiroso e, por isso, um simples rosto ou palavra passaram a ser pretexto para uma discussão infindável sobre os preconceitos de cada um. Tudo em nome do direito à liberdade de expressão, hoje, sinónima de indignação. O direito à indignação vulgarizou-se de tal modo que virou mentira.
  4. O cidadão, justicialista, não podendo controlar os mecanismos colectivos de usurpação do poder, vinga-se em quem estiver mais à mão. A mentira pública torna-se privada.
  5. Se o telespectador voltar a ligar a televisão, rapidamente descobrirá que a sua pequena mentira se tornou pública, passando a fazer parte da matilha de mentirosos...

7.11.06

No país do fado e da morna...

(Descobri recentemente que a norma se relativizou de tal modo que ninguém sabe onde procurá-la. Desolado, dei comigo a pensar que o Instituto da Língua fora demolido deixando para trás uma suave nostalgia. Cheguei mesmo a perguntar aos meus actuais alunos se sentiam alguma nostalgia da norma. Indiferentes, nada responderam.)
Há cerca de 20 anos, uma planificação da disciplina de Português, para além dos conteúdos linguísticos e discursivos, incluia obrigatoriamente conteúdos literários e culturais. O advérbio, nesse tempo, ainda não tinha sido promovido nem a adjunto nem a disjunto!
Creio que obrigatoriamente, já nessa época, seria um advérbio disjunto, pois ele exprimia uma forte convicção do formador com efeito perturbador no formando.
Muitos dos formandos, ao contrário de uma inexplicável minoria que tudo compreendia, silenciavam expressões de rejeição, pois, por mais que explicasse a tipologia, jamais conseguiam produzir uma planificação a médio prazo que integrasse os conteúdos culturais.
Pensava, nessa época, que a aposta nos conteúdos linguísticos, discursivos e literários pressupunha a existência de uma ou mais culturas. E por isso insistia em dar-lhe(s) visibilidade, porque nunca compreendi como é que se processa o diálogo entre culturas invisíveis. Tal como não compreendo como é que se pode aprender, por exemplo, o léxico, desprendendo-o do contexto cultural.
Confesso, também, que uma outra das minhas dificuldades consistia em explicar aos formandos a diferença entre um conteúdo linguístico e um conteúdo discursivo. Por exemplo entre um nome e uma notícia - entre classificar o nome e escrever uma notícia. E não me refiro aos nomes não contáveis não massivos!
Espero, no entanto, que esses professores... quase titulares... estejam, hoje, radiantes com a possibilidade de explicaram aos seus alunos quanto o seu antigo professor estava errado. Para quê a cultura? Para quê a literatura? Para quê a genologia ?
Afinal, uns tantos protótipos e, sobretudo, uma boa terminologia linguística decalcada da terminologia anglo-saxónica é quanto basta! A matriz latina que se dane! Por algum motivo, o Latim fora excluído do curriculo dos Cursos de Letras!
Os mercenários nunca olharam a meios para encher os bolsos... e a cultura sempre foi um empecilho. Nem se percebe por que motivo ainda existe um Ministério da Cultura!
Na próxima remodelação desaparecerá!

4.11.06

O pressuposto

Figura em que deduzimos existir um enunciado implícito anterior ao enunciado explícito. Este processo, geralmente, esconde uma forma de manipulação mais ou menos subtil. De modo a celebrar os seus cinquenta anos, a Fundação Calouste Gulbenkian (1956-2006) está a promover o ciclo Como o cinema era belo. A ideia é meritória, os bilhetes são baratos (2,50 €), mas o público, pelo menos pela amostra, já passa maioritariamente dos 50…, respirando, só por si, alguma nostalgia. A amostra a que me refiro (re)visitou hoje o filme de Jacques Tourneur Stars in my Crown ( Estrelas da Minha Coroa), produzido nos Estados Unidos, em 1949. Trata-se de um filme em que um implacável ex-combatente se torna pastor pacifista capaz de converter o mais empedernido ateu; um filme em que o médico e o pastor, após terem exacerbado o conflito entre o corpo e a alma, acabam por se aliar; um filme em que o ambicioso e racista americano branco, capaz de enforcar o negro por um pedaço de minério, acaba por se deixar convencer pela argúcia do pastor. Em 1949/50, nos Estados Unidos, apesar de nem tudo ser belo, o bem acaba sempre por vencer o mal. E o cinema cumpria, assim, a missão de nos convencer que nem a doença, nem o ateísmo, nem o racismo poderiam jamais sair vencedores… Como o cinema era belo! No entanto, não deixa de ser estranho que, em 2006, se possa reiterar a ideia dessa beleza imaculada do cinema de meados do séc. XX. Como justificar a luta de um homem como Martin Luther King, assassinado em 1968? Bem sei que há quem defenda a estética como uma categoria independente da ética ou da ideologia! De qualquer modo, sobra o pressuposto que poderemos enunciar do seguinte modo: O cinema deixou de ser belo ou Hoje, o cinema é grotesco. O que me leva a pensar que o ciclo Como o cinema era belo manipula, de facto, o espectador, levando-o a acreditar que o presente é grotesco, ao contrário do passado que seria inevitavelmente sublime… ( Os espectadores de 4 de Novembro de 2006 bateram palmas, algumas tímidas.) A nostalgia das origens emerge das entranhas da Fundação…, que se arrisca a tornar-se numa categoria estética desfasada da grotesca realidade, em que a palavra ou o ícone não bastam para resolver os conflitos.

2.11.06

Docere et lectare...

/ O menino experimental ateia fogo ao santuário para testar a competência dos bombeiros. /O menino experimental, declarando superado o manual de 1962, corrige o professor de fenomenologia. /Murilo Mendes
O menino experimental cresceu e, depois de, ao longo de 30 anos, ter assassinado os mestres, prepara-se para declarar superada a etimologia.
Os verbos docere ( ensinar ) e lectare (ler muito ou muitas vezes), falsos sinónimos, já que o segundo pressupõe um método redutor da inteligência, apelando à repetição, enquanto que o primeiro orienta para a descoberta da sabedoria, acabam de evoluir semanticamente por obra dos meninos(as) experimentais que nos governam.
Os docentes, os lentes (vulgo os professores, de futuro simples ou titulares), no caos terminológico em que habitam, divididos entre actividades lectivas e não lectivas acabam de ser informados que, afinal, devem, também, aprender a distinguir a actividade lectiva da actividade docente.
Em conclusão, o professor metódico vai gerir a sua vida pública em actividade docente (substituição do pessoal administrativo e de limpeza), lectiva (implementação do plano nacional de leitura, escrita e cálculo) e não lectiva (explicações gratuitas, substituições gratuitas e acréscimo da conflitualiadade).
PS: Os síndicos experimentais estão a ficar vesgos: estão sem perceber o que o futuro lhes reserva.