Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

26.9.06

Um diálogo absurdo?

( Um diálogo sem tom... ou talvez um pouco arrastado e monocórdico) - Minha Senhora, que horas são? - São três e um quarto? -Muito obrigado. (Pausa de 20 segundos) - Meu senhor, que horas são? - São três e 20. - Muito obrigado. (Para a primeira interlocutora) - No relógio daquele senhor são três e vinte! - Pois é!O meu relógio deve estar um pouco atrasado... - Pois é! Muito obrigado. (Pausa de três minutos) - Minha senhora, que horas são? - São três e 20. - Muito obrigado. Ah, mas no relógio daquele senhor são três e 25! - Pois é. Ainda não acertei o relógio! - É pena! Onde é que estamos? - Na paragem do aeroporto. - Muito obrigado. Há aqui um aeroporto? Pra quê? Vozes espontâneas: - E se fosse apanhar o avião!?
Há cada vez mais perguntas absurdas, perguntas que não procuram uma resposta. Perguntas que, apenas, servem para experimentar o outro - o amigo, o colega, o vizinho, o estranho, sobretudo o estranho ( o sociólogo dirá que a pergunta pode criar uma relação de vizinhança!)... Perguntas estranhas que servem para assegurar que o outro ainda nos vê ou nos ouve. E o outro, polido, lá vai respondendo monotonamente: - São 17:12 horas... Os outros, sem paciência, já há muito que deixaram de ouvir!
E se deixassemos, todos, de fazer perguntas?

24.9.06

Um sargento de Abrantes...

Lembrou-me agora que há 60 anos, em Abrantes, havia um sargento que gostava de castigar os soldados, obrigando-os a subir um monte com um almude de água às costas para, depois de o esvaziar, repetirem o movimento até à exaustão.
Digamos que, deste modo, o sargento colocava à prova a resistência de homens que, talvez, mais tarde, numa qualquer guerra, lhe ficassem eternamente gratos.
Os sargentos sempre gostaram de se imaginar no papel de Zeus ao condenar o mestre da malícia e dos truques - Sísifo - a rolar a grande pedra de mármore até ao cume da montanha, para depois Zeus a impelir impetuosamente para o vale, recomeçando Sísifo, indefinidamente, o movimento...
E por isso, as tarefas que envolvem esforços inúteis passaram a ser chamadas "trabalhos de Sísifo"...
Creio bem que, hoje, continuamos a ser instruídos por um sargento de Abrantes que, perante a anuência das praças, as condena eternamente aos trabalhos de Sísifo...
(...)

20.9.06

Não há consciência sem causas...

A Amnistia Internacional decidiu no dia 18 de Setembro atribuir a Nelson Mandela o prémio «embaixador da consciência» para o ano de 2006 .
O modo como Mandela conduziu a sua vida desde que saiu da prisão em Fevereiro de 1990 tornou-o no símbolo do que deve ser um verdadeiro cidadão do mundo. O valor do serviço prestado à causa da liberdade e da justiça na África do Sul ( e por arrastamento na África austral) é incalculável.
Apesar do reconhecimento internacional, a vitória sobre o 'apartheid' não significou para Mandela o fim da sua acção, pois a consciência de que a desigualdade é multiface levou-o a empenhar-se numa outra "causa" - o síndrome de imuno-deficiência adquirida (SIDA) deve ser encarado como uma questão de direitos humanos. É esse, hoje, o seu maior combate.
( Se aqui me refiro a Nelson Mandela é porque ele é o exemplo de que não há consciência sem causas.)
Ora, nas nossas escolas, há cada vez mais jovens indiferentes ao que os rodeia, sem vontade de procurar um rumo... estão ali, sentados como prisioneiros desalinhados, esperando que os carcereiros os ignorem. E mesmo que a porta se abra, não indiciam qualquer tentativa de fuga. Parece que se sentem bem na caverna, na masmorra.
E porquê? Porque já nascemos sem causas...

17.9.06

Rosas negras e brancas, ainda que vermelhas...

O monólogo "Ventos de Leste", interpretado por Natasha Marjanovic, mostra à saciedade como os "interesses" inconfessados podem dividir o que parece inseparável. E também mostra como o multiculturalismo é frágil. Qualquer faúlha pode gerar um incêndio e toda a caruma é consumida ou obrigada a partir para países distantes onde a língua começa por ser um obstáculo desesperante.
Mas deste ora divertido ora lancinante monólogo resulta também a ideia de que o "estrangeiro" antes de 'aprender a língua' se vê obrigado a 'aprender a terra'. Este último imperativo também devia ser posto em prática pelos nativos.
'Aprender a terra" significou para esta ex-jugoslava confrontar-se com uma série estereótipos bem diferentes dos da pátria Tito. Parece, hoje, uma imigrante aplaudida, mas, aqui, é apenas uma entre os 360.000 que tiveram que abandonar a ex-jugoslávia. Em nome do quê? de quem?
- Pergunta sem resposta.
(No solo da Gulbenkian, onde decorreu este espectáculo, esteve presente o engenheiro Guterres, esposa e outros familiares ilustres, estes um pouco mais distantes. Curiosa foi a preocupação de um funcionário da Fundação que quis libertar o ilustre espectador do sol tímido que lhe espreitava o couro cabeludo. No entanto, o engenheiro, sorridente, em mangas de camisa, não acedeu a trocar o sol pela sombra..., embora deva ter saído a pensar naqueles anos da sua governação em que a NATO bombardeava indiscriminadamente civis e militares, em vez de se limitar a perseguir "os interesses"...)
De Portugal fica a imagem de um estado folclórico em que a burocracia é tão severa como as bombas da NATO.
O público aplaudiu de pé. O sucesso da imigrante? A performance da actriz? As bombas da NATO? Os mortos de uma guerra fratricida? O jeito que nos dá que haja guerra em qualquer outro lugar que não na 'nossa' terra?
O público aplaudiu. Natasha recebeu rosas negras e brancas, ainda que vermelhas, contrariando a profecia materna de que em Portugal ela não viria colher rosas.

13.9.06

Nenhum tapete é cego...

A caruma, ultimamente, tem estado menos reflexiva porque, como tapete que é, não tem podido ir além dos pés que, sorrateiramente, a vão calcando.
Este estatuto de tapete é, no entanto, um privilégio porque liberta a mente e deixa os olhos pousar livremente sobre os sinais do oportunismo e do laxismo que vão grassando pelas ruas das cidades e aldeias.
(Se o autocarro está a abarrotar - coisa que não deve ser verdade porque há anos que a Carris vem perdendo clientes! -, o passageiro, em vez de entrar pela porta de entrada, entra pela porta de saída... E o motorista sem nada ver... E atrás de um vão seis ou sete! E os outros, os cumpridores, lá ficam na paragem, surpreendidos, esboçando algumas palavras surdas.)
E os olhos da caruma que, pela sua natureza, podem ver de baixo para cima, andam um pouco desorientados, porque ninguém lhe explica por que motivo é que há tantas cadeiras vazias e, sobretudo, como é que se pode trocar de cadeira sem qualquer tipo de explicação... No meio da dança das cadeiras, quem se amolga é o tapete.
Fica, todavia, o reparo: nenhum tapete é cego.

10.9.06

Vai crescendo o saramago....

"Vai crescendo o saramago / embaraçado no trigo / eu queria ser saramago / para abraçar-me contigo..." António Pinto Basto, álbum "rosa branca"
Nesta fase, só interessa ser o "trigo" ou, talvez a "rosa"; o saramago, como a rémora, aproveita a viagem, enleia-se na haste até a sufocar e os poetas chamam-lhe amor... Um amor oportunista sai-lhes da voz, pronto a zarpar à menor dificuldade.
Nesta fase, não vale a pena sorrir... o "trigo" nutre; a "rosa" alenta, mas, ao anoitecer, estiola...
Por isso, nesta fase, de nada serve ser "rosa"... e muito menos "saramago"...
Apenas trigo

4.9.06

Se ao menos pudesse ter a calma necessária...

«Estranho, como uma coisa a fingir, se usada sistematicamente, se pode tornar realidade.» Franz Kafka, Diários, 24/1/1922 Lisboa. 41 graus centígrados. Sufoco. O cérebro disperso: desloca-se, perplexo, do amigo, confrontado com um eritema nodoso para o desalinho em que caiu o quarto dos fundos… (Ah! Se um quarto exprimisse a alma do seu ocupante! Esperemos que a alma seja bem mais rica, apesar do desalinho!) Ao sair do quarto, em que, de facto, prefere não entrar, o cérebro interroga-se sobre o sentido das depressões passageiras ou, talvez, seja melhor pensar que, também, na depressão pode haver pausas sazonais… E, subterraneamente, continuam activos dois cenários de morte – o da absurda teimosia vingativa que destrói o coração do companheiro de uma vida de 50 anos, sem qualquer manifestação de culpa ( só ficou o alheamento mudo!); o do ódio de sangue que emerge de sexualidades travestidas, em que o amor e o ódio se irmanam numa luta de morte pela vida. - Se ao menos pudesse ter a calma necessária para não pensar nisto tudo… sem querer fugir disto tudo!

3.9.06

Não tem sentido fazer perguntas e esperar...

(…) perguntas que não obtêm respostas no momento exacto em que são feitas nunca mais são respondidas. Não há nenhuma distância a separar quem faz a pergunta daquele que lhe responde. Não há distância a transpor. Daí que não tem sentido fazer perguntas e esperar. Franz Kafka, Diários, 28 de Setembro de 1915. Poder-se-á dizer que este raciocínio deita por terra o velho estratagema do professor que, considerando a pergunta inoportuna, responde ao aluno que aquele não é o momento apropriado. De acordo com Kafka, a pergunta não admite qualquer tipo de espera. E, talvez seja essa a razão porque, muitas vezes, abdicamos de fazer perguntas. 2 de Setembro de 2006. (Vem esta reflexão a propósito de uma situação explosiva, vivida por uma velha mãe (83 anos) e de dois filhos igualmente velhos, apesar dos seus 55 e 57 anos (?), respectivamente.) Nenhum dos três revela qualquer tipo de auto-domínio verbal, podendo-se colocar mesmo a hipótese de a violência se transformar ou de já se ter transformado em agressão física. Numa tentativa de mediação e de compreensão da dimensão do problema, o mediador procura confrontar as partes, interrogando-as sobre a verdade das acusações proferidas. E, aqui, surge a grande dificuldade: o interrogado “corta” a pergunta, para, de imediato, encadear uma lista de argumentos que inutilizam qualquer esboço de diálogo. E se, momentaneamente, menos exaltado, ouvir a pergunta na totalidade, recusa-a, no entanto, para retomar histrionicamente a sua lamentação –acusação. E se pensarmos que esta procura de respostas se desenrola, quase sempre, em situações de tensão extrema, podemos compreender como é fundamental a formação dos actores (mediadores) solicitados a intervir nos diversos contextos sociais: escolas (sala de aula), esquadras, gabinetes de psicólogos / psiquiatras, tribunais, lares (de terceira idade e não só…), bairros marginalizados, estabelecimentos prisionais… Hoje, sei, que toda a pergunta merece uma resposta adequada, imediata. Mas também sei que não estamos preparados para ajudar a dar essa resposta. E creio que a dificuldade maior está em não sabermos formular as perguntas. Há, contudo, que ressalvar os cenários de auto-destruição, assim como os cenários de egotismo irredutível.
Nestes territórios, o mediador corre o risco de ser abatido.

1.9.06

O círculo fantasmático do desencontro...

Absurdamente, estou cercado de discursos ansiosos, de corpos expectantes.
Por isso bem gostaria de saber lidar com a depressão. Não com a depressão abstracta, essa não me interessa. Interessa-me, sim, o círculo fantasmático do desencontro...
Na sociedade ocidental, a depressão é vista como um comportamento individual. Como uma dificuldade de adaptação à velocidade, como se houvesse necessidade de o indivíduo se encaixar na totalidade...
Por outro lado, o diagnóstico do estado depressivo parece pressupor que a totalidade está certa e o indivíduo está errado. Mas será mesmo assim?
Para tratar o problema, existem os psicólogos, os psicanalistas, os psiquiatras, os padres, os exorcistas, os conselheiros, os feiticeiros e outros que tais. Todos se propõem tratar o indivíduo. Todos procuram a causa no indivíduo. Todos propõem /impõem um tratamento mais ou menos drástico ao indivíduo. Nenhum procura a causa no modo como construímos /agimos sobre o cosmos.
A constante aceleração e a constante mudança devoram, a cada segundo, milhares de indivíduos, deixando-os à beira do precipício, senão aniquilando-os ...
Por isso, há cada vez mais indivíduos que procuram «não ter consciência disso», porque «não ter consciência» é um bom remédio para a depressão... Como culpabilizá-los por isso?
E a terceira via parece não ser muito simpática: contra a depressão, contra «não ter consciência disso» só resta a revolta...
E infelizmente para que a revolta faça sentido, ela necessita de recorrer às mesmas armas que provocam a depressão!
( Lá fora, num qualquer palco soa um batuque que vai "secando" a consciência. Ou será que apela à revolta? Entretanto, a depressão alastra, contamina tudo à sua volta...)