30.5.06

Homens que nunca tiveram escrúpulos...

«As grandes obras constroem-se no silêncio, e a nossa época é barulhenta, terrivelmente indiscreta. Hoje não se erguem catedrais, constroem-se estádios. Não se fazem teatros, multiplicam-se os cinemas. Não se compõem obras, fazem-se livros. Não se procuram ideias, procuram-se imagens.» Salazar, Extracto de entrevista publicada no Diário de Notícias em 16 de Outubro de 1938.
A multiplicação dos estádios, dos cinemas, dos livros e das imagens provocou a substituição da 'vida interior' pelo vedetismo, pelo voyeurismo, pela bisbilhotice, pela superficialidade. A morte da "alma" tornou-nos sobranceiros, violentos, maledicentes, vesânicos e, sobretudo, fez-nos perder a integridade.
A sobranceria permite-nos hostilizar grupos profissionais, étnicos e religiosos como se a decadência da nação fosse culpa deles e não dos sucessivos carreiristas sem escrúpulos que nos têm governado em nome de Abril.
Era bom que olhassemos sistemicamente para o interior das instituições de modo a separar o trigo do joio. Caso contrário, corremos o risco de sermos apenas um 'campo de joio'.
O joio alastra asfixiando os poucos grãos de trigo que compõem, por entre os escolhos, obras /ideias que, se lidas /ouvidas, bem nos poderiam ajudar neste implacável tempo de sujeição do homem.
E se não aprendermos a ser íntegros, os jovens responder-nos-ão com a violência, como aconteceu com aqueles que eram jovens em 1975 e que hoje nos governam.
Post Scriptum: A citação de Salazar é propositada. Ignorar o passado é hipotecar o futuro.

29.5.06

Exclusão e desertificação

(Expressão clara e revoltada)
Tenho 80 anos. Sou retornada de Angola. Recebo 240 euros de reforma. Tomo conta de um filho que a pátria sacrificou na guerra de Angola. Ele recebe 99 euros de pensão de invalidez. Vive fechado em casa. Não fala com ninguém nem mesmo comigo, a não ser para me dizer que não gosta deste ou daquele prato. Ainda ontem telefonei para a minha filha, não me atendeu. Também telefonei para a minha neta, com o mesmo resultado. Ninguém me ajuda. Há muito tempo que estou doente. A tomar conta deste filho que a pátria sacrificou e esqueceu. Fui à segurança social pedir ajuda, não quiseram saber. Voltei lá, disseram-me que como era dona de um apartamento não me podiam ajudar. Um apartamento que paguei com o suor do meu rosto e do meu marido, já falecido, há muito. Acabaram por me pedir os ordenados de todos os meus filhos. Os meus filhos têm a vida deles. Nasceram em Angola. Procuraram melhor vida na África do Sul. Não tiveram sorte. Partiram para o Brasil, também não. Um deles sei que regressou a Angola. Não sei se já tem emprego. Ele tem muitos filhos. Para que é que a segurança social quer os ordenados deles? Como é que eu posso preencher os papéis, se não sei deles, se eles não me respondem. O senhor presidente, que também serviu a pátria, eu sei, está preocupado com a exclusão daqueles que se encontram nos lares, e eu, senhor presidente, porque é que ninguém se preocupa comigo? Eu tenho 80 anos e o meu filho não tem vida, senhor presidente. O que vai ser de nós? E, sobretudo, dele? A segurança social não quer saber de nós! E o senhor presidente?
(Nocturno)
Deixo o carro no cimo do monte, e avanço, a pé, pela vereda que há muito não percorro. Reparo que o trilho está coberto de cartuchos de munições gastas em recentes caçadas. À volta, ergue-se o mato cada vez mais denso. Percorridos 800 metros, sob um calor de maio escaldante, apercebo-me que me encontro na outra extremidade da propriedade que queria visitar. Contemplo-a e apetece-me voltar para trás: o solo ressequido começa a abrir rachas, as figueiras e as oliveiras estão cercadas por densas plantas agrestes. É quase impossível avançar. Penso no futuro daquelas oliveiras, algumas com centenas de anos, e naquelas figueiras que, no passado, tanto odiei - as figueiras malditas. E vejo todo trabalho de gerações anteriores à minha a arder!
E, hoje, não tive coragem para me aproximar do poço que se encontra junto à ribeira, seca. Nem sequer o vi, completamente escondido pela exuberante e predadora vegetação.

28.5.06

Nunca soube...

Já não sei se parta se fique... ............................................................ Raramente estive na primeira linha e das poucas vezes que lá cheguei compreendi o incómodo de lá estar
Sempre fui um céptico
a quem exigiam certezas que eu não podia ofertar Faltava-me conhecer a terra vivi demasiado tempo longe do mar Só tarde me dispus a voar - as aves já não tinham onde pousar.

27.5.06

Os galheteiros

«O que faz suspeitar que os pedagogos não gostam é dos autores que ficaram no programa, estão a querer comprometê-los aos olhos dos putos e, na próxima reforma, catrapus, tudo dos textos dos media. Para já, a lírica de Camões fica diluída em “aspectos gerais” e “Os Lusíadas” passa a fazer galheteiro com a “Mensagem”, talvez para o Pessoa ser o azeite que ajude a tornar o vinagre do Camões mais palatável, mais actual.» Helder Macedo, Público 28/09/2001
Tal como as coisas se anunciam, os professores do ensino básico e secundário nem para galheteiros servirão. O caminho mais fácil é fingir que se lê, que se interpreta, que se questiona, que se redige, mas sem que os alunos se confrontem com outras ideias - artistas, escritores, filósofos, cientistas ... para quê? - aquelas ideias que poderiam pôr em causa os interesses instalados.
Nada melhor que o inquérito para elevar o sucesso escolar! Pergunta-se aos encarregados de educação se estão satisfeitos com os professores dos seus educandos. E eles responderão de acordo com as classificações atribuídas...
Apesar do estrebuchar de uns tantos, qual será a reacção dos professores? (Belíssima catáfora!!!) Leccionar e classificar como, há muito, acontece no ensino privado: aplica-se-lhes a cartilha e sobe-se-lhes as classificações.
1º objectivo: nivelar por baixo.
2º objectivo: criar falsas elites.
3º objectivo: desmobilizar todos aqueles que sempre recusaram o carreirismo.
4º objectivo: ...
No entanto, não se compreende que as luminárias - entenda-se: pessoas de grande saber - que nos governam ainda não tenham perguntado aos (seus) alunos do ensino superior se estão satisfeitos com os respectivos professores. Se esses alunos conhecem, de facto, os professores, se costumam ter aulas e, quantas, por semestre. Se têm a certeza que esses professores lêem os trabalhos, na maioria copiados, as provas de frequência, as provas de exame... Se os professores os conhecem?
(À parte)
Qualquer aluno do ensino, dito, superior poderá responder: a maioria das luminárias continua a papaguear conteúdos mal assimilados enquanto vai redigindo dissertações e teses, numa língua de trapos, que serão aprovadas por catedráticos infalíveis e inamovíveis.
E esse é um dos principais problemas do ensino superior: a infalibilidade e a inamobilidade dos catedráticos, agregados, extraordinários, auxiliares (vitalícios!), assistentes... conselheiros, adidos, deputados, presidentes de ..., jornalistas, esposas de...
(De regresso)
Estarão as luminárias dispostas a resolver os problemas que lhes chegam às mãos: alunos que não sabem interpretar um enunciado, fazer um cálculo, traçar uma recta... ou, para não perder alunos, e consequentemente o lugar, continuarão a mentir-lhes... a eles, a nós todos. E a culpar os professores do ensino básico e secundário, com a cumplicidade dos encarregados de educação...
Mas de que educação?
Numa escola, onde não há lugar para a formação no terreno, onde objectivamente não há formadores, não é possível responsabilizar qualquer decisor. Por isso castiguem-se os galheteiros!
Paradoxalmente, a figura do galheteiro começa a tornar-se no logótipo do ME: Tal como Fernando Pessoa acolita Camões também os exames acolitarão os encarregados de educação (isto é, as associações de pais).
PS, isto é, Post scriptum: Substituamos a desacreditada caça aos gambozinos pela caça aos pares de galhetas!

26.5.06

Ensinar-lhes a mentir...

«Se o meu filho fosse vivo (...) havia de lhe ensinar a mentir, a cuidar mais do fato que da consciência e da bolsa que da alma.» Matilde, in Felizmente Há Luar!, de Luís Sttau Monteiro
Estão diante de mim, risonhos, alinhados em conversas privadas. Sorriem-me, acenam-me com a cabeça e, despreocupados, ouvem-me repetir e exemplificar o que são aliterações, assonâncias, catáforas, anáforas (linguísticas com sabor palimpséstico!), pleonasmos e outras redundâncias (in)finitas...
Perante a fastidiosa iteração, interrompem-me para me perguntar se não ficava bem rirmo-nos um pouco dos eufemismos e eu corrijo-os porque o disfemismo é que é a expressão favorita dos 'alarves' que todas as noites vão ao teatro ou ao cinema «fingir nada terem a ver com o que se passa em cena».
(Uns minutos mais tarde...)
Esforçadamente, um aluno lê um monólogo sobre como educar numa sociedade que valoriza a aparência, o dinheiro, a mentira, enquanto que outros simulam uma leitura risível, alarve do que se passa em cena, dentro e fora da sala de aula...
( Toca a campainha: sorrateiramente, abandonamos o palco... para acordar na parada do Rock In Rio-Lisboa ou no Parque Tejo com o Super Bock Super Rock)
Post Scriptum: Já sei como explicar a neologia... basta dar-lhes a palavra no nosso próximo encontro... e ficar a ouvi-los, a ouvi-los... e então descobrirei uma nova realidade ou, pelo menos, que as palavras existentes adquiriram significados novos neste fim-de-semana!

25.5.06

Ó Terra, a arte está tão perto e eles já o sabem...

«E a primeira cousa que se punha aos amigos na mesa era o sal; costume que ainda agora se usa, posto que se não saiba, em muitas partes, a razão dele, nem a porque se enojam e enfadam os hóspedes de se derramar o sal pola mesa...» Francisco Rodrigues Lobo, Corte na Aldeia, 1619
Embora a Caruma seja pouco dada a celebrações e deteste o vedetismo, não pode deixar de assinalar o significado da iniciativa II Concurso Literário Camões 2005/2006, cujos prémios, nas modalidades poesia e conto, foram, hoje, entregues no Auditório Camões. Este tipo de iniciativa mostra que se deve apostar numa escola participativa, onde os alunos surjam como sujeitos capazes de escrever, compor, ler, representar, partilhar, assistir...respeitar os outros. E, hoje, foi possível testemunhar essa nova dinâmica de participação, mesmo que possa parecer incipiente. Esse é o caminho... é o sal da terra!
É, no entanto, fundamental que não se enojem nem se enfadem estes novos hóspedes derramando o sal pela mesa!

24.5.06

Escrever é um registo maçónico...

Saramago coloca-se, com Memorial do Convento, na rampa iniciática do Grande Arquitecto maçónico, que com o esquadro e o compasso determina a estrutura e os limites do céu e da terra. No entanto, o seu convento não é o convento de D. João V, apesar de ‘João’ ser o nome próprio dos santos padroeiros da maçonaria (S. João Baptista e S. João Evangelista). Santos esses que Saramago poderia ter associado ao deus Jano Bifronte, que tinha a faculdade de ver o passado e o futuro. Porém, o projecto de Saramago era o oposto: mostrar a cegueira do rei ao mandar erigir o convento. O convento é fruto do sonho megalómano de um rei que gostaria de ser o Grande Arquitecto e de um vicioso sonho da província franciscana. D. João V continua, ainda hoje, a construir infantilmente o puzzle da Basílica de S. Pedro de Roma enquanto que os franciscanos jamais poderão dar uso às 300 celas que lhes foram destinadas! Para Saramago, a Basílica não se projecta para os céus. O que lhe interessa são as fundações – o que acontece na terra dos homens que, forçados, se vêem envolvidos num projecto em que não se revêem. Mas, na outra frente (janela) da obra, encontramos os "franc–maçons" que, de facto, se projectam para os limites do céu: Sebastiana Maria de Jesus, António José da Silva, Domenico Scarlatti, Blimunda (Sete-Luas), Baltasar Mateus (Sete-Sóis), o padre Bartolomeu Lourenço ( o arquitecto-voador). Em qualquer destas figuras, notamos, e de acordo com as suas competências, uma visão niveladora, um gesto criativo, uma vidência letal e regeneradora, um braço fautor de morte e de vida, um espírito torturado e inventivo. A ambição de Saramago é um construir um memorial em cuja pedra se materializem todas as incoerências dos grandes e todos os sonhos dos pequenos. Ele quer ser a voz dos esquecidos, dos perseguidos, dos desterrados, dos executados em todos os autos-de-fé. O Grande Arquitecto.

23.5.06

Filha da noite...

Filha da noite e irmã do sono - és tão discreta que se pode dizer que não estamos à tua espera A ti, qualquer dia te serve Nós preferíamos um outro olhar menos discreto... O olhar líquido dos nenúfares.

22.5.06

Há algo de errado em Al-Kassar!

«Era o ano no mês de Abril, quando enflorescem as árvores, e as aves, que até então estiveram caladas, começam d'andar fazendo suas querelas doutro ano por entre o arvoredo deste vale, que bem podeis ver quejando seria então, pois agora o é tanto.»
Bernardim Ribeiro, Menina e Moça
Embora não tivesse visto, em Al-Kassar, qualquer sombra dos salacianos Bernardim Ribeiro e Pedro Nunes - certamente porque não me esforcei o suficiente! - continuo a pensar que há algo de errado por estas paragens outrora tão interessantes para romanos, árabes e cristãos. A água abundante dos rios Sobrena, Sado, Xarrama e das ribeiras do Areão, Algalé, da Ursa e de S. Domingos deveria atrair mais dos que os cerca de 13 800 habitantes que povoam o concelho de Alcácer do Sal.
Não me parece que o clima mediterrânico possa ser responsabilizado por uma certa atmosfera de incúria: a vegetação já ressequida, em Maio, invade a cidade, tal como o lixo, parecendo anunciar uma próxima abertura de telejornal - Sem se compreender bem, o fogo grassa na cidade de Alcácer, não poupando sequer as moradias...
Ironicamente, o terreno, destinado às futuras instalações dos bombeiros, poderá muito bem ser o rastilho, tal o estado de abandono em que se encontra.
Mas Alcácer é apenas um mau exemplo entre milhares, num país, onde os governadores raramente deixam o ar condicionado dos seus torrões... e continuam, impunemente, na praça pública, a agitar milhões de euros para o combate aos incêndios que eles próprios ateiam...

21.5.06

Alcácer do Sal, em Maio...


Bucólica localidade, onde múltiplos pequenos pássaros saltitam e chilreiam agradavelmente. As cegonhas brancas estão presentes um pouco por toda a parte e, nesta fase do ano, já terão começado a alimentar os juvenis, o que explica que, quando nos aproximamos, elas emitam um estranho e seco som de alerta...
Esta vida campestre, onde, hoje, ecoam os badalos dos rebanhos, é cingida por um extenso mosaico de águas rasteiras, que esperam o cultivo da oriza sativa (variedade de arroz oriundo da Ásia)... ou, em alternativa, a salinação.
A cidade de Alcácer, um pouco esquecida do passado, tranformou a fortaleza numa pousada e, presentemente, expande-se para a Nova Alcácer num estilo novo-rico, descurando a possibilidade de se transformar numa extraordinário miradouro sobre o Sado.
Apesar disso, há nela uma nítida preocupação com os equipamentos sociais, mas tudo num ordenamento bem desordenado.
No entanto, vale a pena visitar a bela igreja de Santiago, rica em azulejos com motivos locais, e algumas das capelas laterais ricamente decoradas. Este edifício foi inaugurado em 1746, no reinado do magnânimo D. João V. E também por aqui há um Convento de S. Francisco!
Em Maio, ficamos com a sensação de que a qualquer momento tudo pode mudar ... tal como na Carrasqueira, a cerca de 20 km de Alcácer do Sal. Fica a sensação de que nesta altura do ano, ainda tudo está por acontecer... embora este fim-de-semana tenha sido bem agradável no renovado parque de campismo... sem residentes e procurado, sobretudo, por ingleses e holandeses. Quem diria?

19.5.06

Esta pressa de florescer...

Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Camilo Pessanha
Mágoa mitigada
As rosadas pétalas murcham diante dos meus olhos; não esperam nem pela calma do Estio nem pelas chuvas do Inverno. Têm pressa de viver: inquietas, riem muito, trocam olhares furtivos, fingem preocupações; mas lá no âmago esperam ansiosamente que o gongue se faça ouvir ... para suavemente juncarem o solo da alheia caminhada.
E esta pressa de florescer não lhes deixa tempo para aprender!

18.5.06

Gigantes ou anões...

O eterno problema da fronteira
Levámos três séculos a construir a fronteira continental.
Levámos outro século a expandi-la.
Ficámos três séculos e meio a defender a nova fronteira. A cada investida do castelhano, do muçulmano, do otomano, do holandês, do francês, do belga, do alemão, do italiano, do inglês, do russo, do chinês, do americano, do indonésio, retraiu-se a fronteira...
Sacrificámos fazenda, homens, mulheres e crianças e, em nome da divina fronteira ou da fronteira divina, chacinámos outros homens, outras mulheres, outras crianças...
E regressámos ao torrão natal como se nada se tivesse passado... a nossa nova fronteira fora sacrificada em nome da emancipação dos povos, do direito que todos os povos reivindicam de ter o seu torrão original.
Hoje, para deixar que o tempo continue a fluir, fazemos parte da nova fronteira europeia... deixámos de ser o rosto que fitava o atlântico e passámos a ser uma cloaca transfronteiriça, à nossa maneira, temperada de lusofonia...
Defendemos acerrimamente o castelo sem castelão, a paróquia sem pároco, o hospital sem médico nem utente, a câmara sem munícipes, a escola sem estudantes, a caserna sem soldados... e estamos dispostos a não arredar pé em nome da nossa última fronteira... afinal, aquela que nunca conseguimos fixar.
E porquê? Porque nos falta o sentido das proporções - Gigantes ou anões...

17.5.06

- Pode ser a sombra de um fulgor!

Palavras afogueadas regressam quebradas de estupor Múrmuras ecoam prantos de dor Cansadas as palavras anoitecem à espera de um rumor - Pode ser a sombra de um fulgor!

15.5.06

Estaremos, de facto, a digitar?

Às nove horas, em Miraflores: a classe média, mansamente sentada, espera o momento redentor da análise... e eu, com a cabeça num tinteiro HP21, procuro-o numa rua, onde o lojista há muito desistiu de o vender.
Às 10 horas, no Colombo: encontro o desejado tinteiro, mas fico preso na caixa... uma expedita funcionária telefonava para um lugar aonde outro expedito funcionário deveria ter chegado.
Às 12:30, nos CTT de Torres Novas: 22 outras pessoas esperam pacientemente à minha frente, para pagar as contas da água, da luz e, sobretudo, para receber a pensão. Lentamente, olham para os relógios e para os rostos sombrios dos vizinhos, na expectativa de que falte alguém.
Às 13:30, nos CTT de Torres Novas: sou atendido.
Um acto simples: Para reencaminhar o correio, bastou preencher um impresso, no balcão ao lado, apresentar uma certidão de óbito de um obstinado mensageiro, mostrar uma procuração de..., ouvir a funcionária perguntar se não havia, de facto, alguém que passasse a levantar o correio porque «só os próprios é que poderiam reencaminhar o correio», refutar os argumentos aduzidos; fotocopiar numa secção interior os documentos carreados para um hipotético processo; digitar os dados que eu acabara de registar manualmente no impresso, passar um cheque de 67,20 € - nos CTT não há multibanco!-, esperar que simpaticamente a funcionária me devolvesse uma cópia do meu impresso e digitasse demoradamente um recibo... Sorrir de agradecimento e sair às 14:15 da estação dos CTT de Torres Novas...
Às 15:00, no Lar: Uns parecem não saber o que estão ali a fazer; outros não sabem explicar aquele braço inchado, aqueles dedos pisados... aconteceu de manhã, talvez às 9:00, num turno de que já não há memória... fico ali até às 16:00, à procura de palavras que me permitam uma aproximação a um tempo «felizmente bem diferente deste, onde não havia esta degradação». Infelizmente, não as encontro e saio, mais uma vez, a pensar que, ali, as palavras estão a mais...
Às 19:00, em casa: o tinteiro HP21 lembra-me que me falta reservar lugar em 2 companhias aérias que permitam a S. viajar entre o Porto e Budapeste, fazendo escala em 2 aeroportos londrinos, em cerca de 12 horas.
Em menos de 30 minutos, as reservas estavam feitas, digitando apenas...

14.5.06

E talvez possamos um dia ser contemporâneos de nós próprios!

Sérgio Tréfaut, nascido em 1965, no Brasil, filho de pai português e de mãe francesa, realizou em Portugal um documentário que deveria ser objecto de estudo nas escolas portuguesas - LISBOETAS, 2004.
Este documentário mostra a vaga de imigrantes que chega a Lisboa e arredores em finais do séc. XX e no início do século XXI. Oriundos da Rússia, da Ucrânia, da Moldávia, da Roménia, do Brasil, de Angola, da Nigéria..., estes imigrantes rapidamente descobrem - felizmente o realizador dá-lhes voz! - a pequenez do país: construtores civis sem escrupúlos, serviços de imigração, onde a hipocrisia e a burocracia rivalizam; olhares xenófobos e concupiscentes; um sistema educativo completamente desfasado da vida activa...
Só a entreajuda lhes permite suprir as múltiplas dificuldades resultantes da clandestinidade a que se vêem forçados, apesar do país necessitar deles como de pão para a boca...
Antigo país de escravistas, que gerou no século XX mais de um milhão de incultos e pobres emigrantes, Portugal trata, agora, estes imigrantes (claramente mais instruídos) como os novos escravos de que perdera o rasto, primeiro no Brasil e, posteriormente em África.
O documentário LISBOETAS mostra-nos uma Lisboa desconhecida que acabará por emergir a nossos olhos da pior maneira, caso não se aposte numa política de integração. A não ser que eles, simplesmente, partam cansados da nossa arrogância, do nosso chauvinismo... os que ficarem acabarão por soçobrar em fundamentalismos espúrios, em delinquências noctívagas, caindo nós e eles naquele abismo de peçonha a que Sá de Miranda se referia já no séc XVI:
«Entrou, dias há, peçonha / clara pelos nossos portos,/sem que remédio se ponha:/ uns dormentes, outros mortos,/ alguém pelas ruas sonha./
Não sei se Sérgio Tréfaut conhece Sá de Miranda, sei, no entanto, que este caústico documentário me faz sonhar que, apesar de tudo, e com o contributo destes novos imigrantes, poderemos modificar esta enfadonha e miseranda realidade. E talvez possamos um dia ser contemporâneos de nós próprios!

13.5.06

Para além da querela entre o ensino da língua e o ensino da literatura...

«Toda a experiência humana é susceptível de ser transfigurada, vivida num outro plano trans-humano.» Mircea Eliade, O Sagrado e o Profano, A Essência das Religiões
Se Mircea Eliade se visse confrontado com um grupo de jovens com um difuso conhecimento da essência da religião e como uma visão exacerbada (ou inibida) da sexualidade, como é que abordaria o modo como, por exemplo, José Saramago descreve o misticismo das múltiplas monjas que passaram (e passam) a vida enclausuradas num qualquer convento?
Tendo como axioma que as monjas o são (ou o foram) por imposição exterior à sua vontade, Saramago não se furta, ao descrever a esperada relação com o sagrado (no caso, Jesus Cristo), de as apresentar como protagonistas de uma sexualidade grotesca disfarçada de misticismo:
« atormentam-na diabos, sacudindo-lhe a cama, e lhe abalando os membros, os superiores em modo de lhe agitarem os seios, os inferiores tanto que freme e transpira a fenda que no corpo há, janela do inferno, se não porta do céu, esta por estar gozando, aquela porque gozou...» Memorial do Convento.
E este tema não é fortuito na obra, se lembrarmos a natureza dissoluta de D. João V, a presença cupidinosa e sádica do infante D. Francisco, o falso angelismo de D. Maria Ana, o profusamente repetido sado-masoquismo das procissões, das touradas e dos autos-de-fé. Tudo parece reduzir-se a uma sexualidade que, proibida pela Igreja inquisitorial, alastra das alcovas reais aos conventos, invade as ruas para confluir num mar de decadência irreversível.
Num país de trevas, sem futuro, há, porém, uma esperança abençoada por um iluminado e sonhador - O Padre Bartolomeu Lourenço: Blimunda (de Jesus!) e Baltasar (Mateus?) - «este casal, ilegítimo por sua própria vontade, não sacramentado na igreja, cuida pouco de regras e respeitos, e se a ele apeteceu, a ela apetecerá, e se ela quis, quererá ele Memorial do Convento
Compreende-se que o autor queira ajustar contas com padrões culturais que são objectivamente responsáveis pela humana predação, mas, no contexto actual, que efeitos poderá ter no jovem leitor a abordagem de uma obra como Memorial do Convento? E se os jovens seguirem o caminho da esperança pregado por José Saramago?
À primeira vista, Baltasar e Blimunda (sem esquecer o Padre Voador) parecem protagonistas de uma experiência humana transfigurada. Mas sê-lo-ão, de facto?
Terá algum dia, o ME reflectido sobre os textos que moldam a educação em Portugal? A resposta está para além da querela entre o ensino da língua e o ensino da literatura.

11.5.06

Esta enfadonha realidade

«O racionalista genuíno não pensa que ele, ou outra pessoa qualquer, está de posse da verdade; nem pensa que a simples crítica como tal ajuda a chegar a novas ideias.» karl Popper, Sobre a Liberdade, 1958
Popper não conhecia esta nossa enfadonha realidade em que qualquer pessoa, independentemente da idade ou do saber, se pronuncia com o maior à-vontade sobre qualquer obra, sobre qualquer acção, sobre qualquer projecto.
Por exemplo, é comum dizer:«Saramago não sabe escrever.» «Quem lhe atribuiu o Nobel não sabe nada de Literatura». Ao mesmo tempo que não se percebe que qualquer texto narrativo, descritivo, opinativo... obedece a uma regra simples: introdução; desenvolvimento e conclusão. Pelo menos três parágrafos! E não consta que Saramago infrinja este princípio.
Se os parágrafos são longos, se as vírgulas têm o valor de travessões, se a maíuscula pode introduzir o discurso directo é porque as situações são apresentadas recorrendo a uma técnica cinematográfica, a única, até ao momento, capaz de relatar a simultaneidade das situações, acções, das intervenções verbais dos protagonistas e mesmo do vedetismo interventivo, isto é, dos empastelamentos que voluntaria ou involuntariamente caracterizam a acção verbal e gestual humana.
É essa representação da complexidade que atravessa o discurso -e, conseguentemente, a gramática - de Saramago. Por mais que se explique que a gramática é um conjunto de normas que regem uma língua e que numa língua se podem inscrever múltiplas sub-línguas que com ela interagem e, que, inevitavelmente, numa gramática da língua (portuguesa, por exemplo), se podem inscrever outras gramáticas, geradas por todos aqueles que alicerçam a instituição Literatura, parece que a linearidade mental nos impede de compreender a complexidade do mundo que habitamos.
E por isso o caminho que continuamos a percorrer é o da superficialidade, do reducionismo, do chiste e, de per si, da arrogância inquisitorial que nos permite aniquilar o talento em nome de uma qualquer verdade.

9.5.06

Entre a espada e a rosa...

Hoje quase que poderia dizer que foi um dia sem história, não fosse ter-me cruzado com a estátua de D. Afonso Henriques já depois de me ter deslocado ao Hospital Rainha Santa Isabel, em Torres Novas.
Esta falta de consideração pelo regimento régio, outrora severamente punida - pois quem se atreveria a colocar Isabel antes de Afonso, mesmo que santa? - deve ter sido responsável pela informação prestada pelo serviço de atendimento de que o Senhor Doutor C., «por motivos imprevistos», deixara de dar consulta de neurologia no referido hospital. E que, certamente, os CTT se teriam atrasado a dar-me a infausta notícia.
Perante a exclamação da funcionária, fiquei um pouco surpreendido: - «Já ontem não apareceu qualquer doente!» Surpreendido? Só um pouco! pois a data da consulta anterior também fora alterada. E durante a consulta, o doutor fizera-me um cerrado questionário sobre os efeitos psicossomáticos de uma punção lombar.
De facto, devo sofrer de algum distúrbio neurológico: Como é que é possível que eu não tenha ordenado os acontecimentos e tirado a conclusão adequada?
Os Serviços hospitalares no dia 17 de Abril terão redigido a nota que explicava que o Senhor Doutor C dispensava hereticamente as rosas da rainha santa; de imediato, os CTT prontificaram-se a entregar-me os espinhos; os outros doentes avisados já não compareceram na 2ª feira, dia 8 de Maio (mês dos maios e das maias!), e eu, ali, com aquela senhora numa cadeira de rodas!, atrevia-me a comparecer, à hora marcada, para uma consulta que todos sabiam, menos eu, que fora definitivamente adiada.
Por um segundo, vi erguer-se a espada de D. Afonso Henriques naquele horto de rosas...

8.5.06

Bem sei que a caruma se acama ou combusta facilmente...

(Se os predicados parecerem insólitos, asseguro que isso é fruto do pouco uso! Absolvidos os predicados, regressemos às coisas difíceis.)

Bem sei que a caruma se acama ou combusta facilmente e, por isso, não se lhe pode exigir que cultive a memória. Mas nem mesmo assim me conformo que não haja uma efectiva aposta no estudo da História dos séculos XIX e XX.

Perante o quadro de Francisco Goya que retrata os desmandos dos exércitos napoleónicos, os alunos do ensino secundário empastelam russos, pides, judeus, nazis, jesuítas, familiares-do-santo-ofício e até cenas de filmes belicistas a-não-ver.

Felizmente, são quase todos contra a guerra, embora desconfiem que sem ela o mundo não avançaria.

E por isso, numa primeira oportunidade, estão prontos a mudar de campo, pois como bem sabemos todo o burro come palha, a questão é saber dar-lha.

7.5.06

A máscara que chora...

Finalmente pude ver a exposição "Frida Kahlo 1907 - 1954" no Centro Cultural de Belém. E digo, finalmente, porque procurei a exposição ainda antes da sua inauguração, motivado pelo cartaz que reproduzia o quadro "Coluna Partida", de 1944. Ignoradas as circunstâncias da sua produção, este quadro parece emergir de um delírio de Dalí. Mas não, ele enraíza-se num autodomínio ímpar perante as contrariedades da vida, sobretudo, as constantes limitações de ordem física. Expõe a altivez da consciência perante a fragilidade do corpo, de tal modo que o auto-retrato se transforma num meio capaz de capturar aquela parte que de si parece afastar-se, deixando-nos ver a tortura da imobilização, o cansaço e a dor... a dor de si.
E quando deixa de olhar para essa dor de si, vê, em si e naqueles que lhe estão próximos, formas e cores que nos deixam antever um México nativo, onde a vida e a morte se encontram genuinamente ligadas. Onde o culto dos mortos é uma forma de vida, bem diferente da encenação espanhola da morte, inventada pela Contra Reforma.
Na arte de Frida, a máscara não esconde, não finge... a máscara que colocamos quando já não há nada a ocultar, a máscara chora.

6.5.06

1961, a preto e branco

A oportunidade de ver, na Cinemateca, o filme Une Femme est une Femme, de Jean-Luc Godard, realizado em 1961 e, apenas, estreado em Portugal a 18 de Novembro de 1975, no desaparecido cinema Estúdio trouxe-me à memória um conjunto de dados que, aparentemente, nada têm a ver com o referido filme.
Em 1961, começava a frequentar a escola primária e esse início ficou, de imediato, marcado pelo falecimento do professor JL. Da sua presença, resta a ideia de que se tratava de um homem enorme, extremamente severo, que não abdicava do castigo físico para impor a lei da pátria. Um homem temido pelos alunos e reverenciado pelos pais. O professor tinha sempre razão! Tal como o grande timoneiro, o Dr. Oliveira Salazar.
Muito longe dali, na madrugada de 4 de Fevereiro de 1961, um grupo de patriotas angolanos atacara a prisão de S. Paulo, o aquartelamento da Companhia Móvel da PSP e a Casa de Reclusão Militar. Os revoltosos perderam 40 elementos e as forças da ordem sete. Os sobreviventes refugiaram-se nas matas do Norte e Nordeste de Angola. Durante os funerais, colonos brancos em fúria massacraram centenas de negros. Entretanto, a 15 e 16 de Fevereiro de 1961, grupos de camponeses bakongos, enquadrados pela UPA, atacaram postos administrativos, vias de comunicação, povoações e sanzalas, mutilando e matando homens, mulheres e crianças europeus, assim como assimilados negros ou mulatos, considerados agentes dos portugueses. A resposta portuguesa foi rápida e brutal e não se limitou à região dos ataques rebeldes. Foram à pressa formadas e armadas milícias brancas. O reino do terror instalou-se.
Em consequência destes acontecimentos, Salazar remodelou o Governo, chamando para as pastas do Ultramar e dos Estrangeiros, Adriano Moreira e Franco Nogueira, dando início à guerra do Ultramar como resposta ...
Só muito mais tarde, compreendi que o ano de 1961 - o ano em que entrara na escola primária -fora um ano determinante quanto ao futuro de Portugal e das suas colónias - as províncias ultramarinas - merónimas da gloriosa pátria portuguesa.
E também muito mais tarde, Pepetela (em A Geração da Utopia) ajudou-me a compreender que as mulheres de Lisboa, em 1961, vestiam de negro, com um lenço negro na cabeça. Não se sabia se vinham dum enterro ou do campo. Se traziam luto por familiares mortos em Angola, com o levantamento do Norte...
Em 1961, quando o luto (o negro) se abate sobre Portugal, Jean Luc Godard realiza o seu primeiro filme a cores - Une Femme est une Femme. E hoje, ao vê-lo, percebi melhor os motivos do atraso em que nos encontramos. E talvez tenha, também, percebido a razão da desmemória que me afecta: o filme produzido em 1961, só foi visto em Portugal em 1975 - a diversidade chegara...
Mas será que ainda vamos a tempo de realizar o filme: Portugal é Portugal? Mesmo que seja um Portugal tão gracioso e ingénuo como a Ângela Recamier!
PS: Este filme não deve ser confundido com o do realizador Scolari!

5.5.06

Raras e difíceis coisas dignas de atenção

«Omnia praeclara tam difficilia quam rara sunt.» Espinosa, Ética (Todas as coisas dignas de atenção são tão difíceis quanto raras.)
Se todas as coisas nos merecessem a mesma atenção, o que é que aconteceria à nossa memória? Provavelmente, incapazes de tratar toda a informação, entraríamos em colapso. Deixaríamos de ordenar os dados, de os procurar interpretar, de os valorizar. E finalmente, entraríamos numa deriva nihilista interminável.
E se... se... a hipótese acabada de colocar já for realidade, então teremos perdido a capacidade de nos ocupar das coisas dignas de atenção - as raras e difíceis coisas!
Teremos perdido a capacidade de motivar os outros para essas raras e difíceis coisas dignas de atenção!
E por isso na próxima terça-feira, os meus alunos poderão finalmente perceber que, - tal como muitos já suspeitam - afinal, não há coisas dignas de atenção... pois um outro professor me substituirá com igual (superior!?) proveito, desde que lhe tenha deixado a aula planificada...
Espero, no entanto, que nenhum aluno leia esta observação. Caso isso aconteça, esclareço que a terça-feira, não é a próxima, mas, sim, uma qualquer terça-feira de 2007.
Apesar de tudo, sobra uma dúvida razoável: Se as coisas dignas de atenção são raras e difíceis, ainda haverá alguém para quem a dificuldade seja um estímulo?

4.5.06

Explicação

A língua portuguesa, por vezes, é traiçoeira e pode gerar equívocos. Por isso, há dias procurei explicar a disponibilidade da caruma.... E para quem, ainda, não entenda a razão de ser deste blog, quero dizer-lhe que ele tem para mim uma enorme importância, porque obriga-me a registar, ainda que, por vezes, ficcionalmente, ocorrências (ideias!?) que, doutro modo, esqueceria de todo. Sempre tive dificuldade em memorizar rostos, situações, conversas, histórias (estórias). E porque ao longo dos anos tive que lidar com mil e uma pessoas, em contextos diversos, sinto cada vez mais pena de não ter um registo sistemático... E sei que frequentemente caio em situações ridículas, pois, quando abordado por, vizinhos, colegas, alunos, familiares, por vezes, não os consigo identificar...
Como quando nasci não vinha preparado para este bulício, tive que queimar muitas etapas, digo agulhas, e a minha esforçada memória, que nunca aprendeu correctamente os mecanismos da articulação frásica, passou a utilizar obscuros critérios arquivísticos... Nesta nova etapa, a escrita de um blog permite-me atrasar esse processo irremediável de desmemória... Eu bem sei que há neurologistas e afins, mas enquanto os puder adiar e, ao mesmo tempo, atrasar o caminho para o mar do absoluto esquecimento, seguirei por essa vereda...

3.5.06

Há dias...

«Enfim nestes cansados pensamentos,
Passo esta vida vã que sempre dura.»
Camões
Há dias em que, obliquamente, o desassossego alastra: as máquinas continuam no subsolo a molestar os cérebros imaturos. Impunes! Inexoráveis!...As máquinas?
E as incertezas avolumam-se, não no horizonte pessoano, mas, aqui, na soleira da porta, na valeta do caminho...
As agulhas acastelam-se em penumbra antecipada...
Todavia, ali, na Rua Tomás Ribeiro - o célebre autor do obliterado D. Jaime ou a Dominação de Castela (1862) -, encontro três jovens, que ignoram quem foi Tomás Ribeiro, e indiferentes à invasão espanhola que as sitia, me perguntam se podemos considerar os nomes próprios como deícticos.
E eu, compensando uma manhã de desânimo, respondi-lhes que sim, que os nomes próprios são indicadores, nos situam, individualizam, expressam o tipo de relação que mantemos com o Outro, quando lhe sabemos o nome próprio...
E Tomás Ribeiro, Fontes Pereira de Melo, José Fontana, Ventura Terra, Luís de Camões... a que tipo de deícticos corresponderão?
Aquelas três jovens, porém, estavam pragmaticamente preocupadas em saber se ALMA era ou não um deíctico?
E as agullhas deslocam-se indecisamente...

1.5.06

A disponibilidade da caruma

Ao contrário do que parece, a caruma não se oferece nem se vende. Pode ser passenta, a uma escala que nada tem a ver com o tempo de cada ser humano; nem sempre é rasteira; pode ficar ficar suspensa, numa antecipação da queda germinal.
A disponibilidade opõe-se ao fastio, ao tédio, ao preconceito, à opinião; procura sentir hiponimicamente como faziam Almeida Garrett, Cesário Verde, Teixeira de Pascoaes, Alberto Caeiro, Sebastião da Gama, Jorge Barbosa...
A alteridade interessa-lhe porque pode ser uma fonte inesgotável de aprendizagem e, consequentemente de plenitude. Freud e Maquiavel eram reducionistas: defendiam que a plenitude se atingia através da posse, do domínio do outro. E baseavam-se na conquista ou no fracasso para explicar a historicidade do sujeito.
Esta caruma não está à espera nem lhe interessa ser utilizada, mesmo que isso aconteça a cada momento; não lhe interessa o poder de Freud ou de Maquiavel. O que procura é a incerta reintegração cósmica!
No entanto, essa reintegração, apesar da disponibilidade, parece bem longínqua como o reconhece o poeta da caboverdeana Claridade, Jorge Barbosa:
«Passei um momento no caminho que as flores enchiam de aromas,
que as árvores enchiam de sombra.
E o chão era fofo por causa das folhas caídas.
Mas o perfume não era para mim, nem a frescura da ramagem
Nem para os meus pés o tapete que as folhas deixavam.
Porque o meu caminho é um outro, mais duro e mais longo.»
E para trás ficou, entretanto, o mosteiro (a Arrábida) com o seu inconfundível altar no Outão, um altar de cimento. Curiosamente, «outão» pode significar «parte lateral de um edifício» ou «vento que vem do alto mar». Qualquer um dos significados convém, pois a Secil Outão produz anualmente mais de 2.000.000 toneladas de cimento cinzento que escoa por terra e por mar, já que também dispõe três cais acostáveis, dotados de meios autónomos de carga e descarga simultâneas.
E a esta hora, a própria caruma se interroga sobre o tipo de relação possível entre o altar da Arrábida e a ara da Secil Outão.
A interrogação é uma das expressões da disponibilidade. Abre. Enquanto que a resposta enclausura.