30.12.06

Neste final de 2006...

Neste final de 2006… CARUMA quer despedir-se neste final de 2006 de todos os seus, pacientes, leitores. Tal como o país e, sobretudo, o mundo, andou um pouco à deriva num processo de adaptação que deixou a nu o seu fragilizado esqueleto. A aposta na ruptura tem vindo a destruir a memória, querendo dar razão àqueles que defendem o «fim da história». Mas sem memória, secamos as raízes e tornamos absurda a vida. Vários foram os momentos em que o século XX voltou as costas ao passado, recriando pesadelos que eliminaram milhões de vidas. O modernismo relativista transformou-se em individualismo triunfante e as nações submergiram sob totalitarismos expansionistas que ignoram toda e qualquer fronteira. No início do séc. XXI, a fronteira contrai-se e dilata-se ao sabor da vontade dos anónimos conglomerados. O homem pesa cada vez menos face à teia dos interesses. De vez em quando, executa-se um “saddam” para que a teia possa eliminar mais uma série de obstáculos. Objectivamente, a decisão de execução visa que os súbditos se exterminem, em nome da frágil memória que ainda lhes resta da História. Nestas circunstâncias, CARUMA não pode esperar que 2007 seja mais justo que 2006. O ser humano, depois de ter sido expulso do paraíso, está a ser expulso da terra. A dificuldade não está em determinar o agente da expulsão, mas em saber o que fazer com ele. Porém, a rotunda é a melhor metáfora do que espero para 2007, mas que não desejo a ninguém. Se a memória me não atraiçoa, em tempos idos, de encruzilhadas, o que me fascinava e prendia era a nora e, em particular, os alcatruzes.

26.12.06

Os conglomerados no Jardim das Delícias...



«O que Bosch nos mostra com o Jardim das Delícias é um falso paraíso, cuja beleza é passageira e conduz os homens à ruína e à condenação...», Walter Bosing

O mesmo se poderá dizer de "O Jardim das Delícias" (ASA, 2005) de João Aguiar. Trata-se de um romance sobre a União Europeia transformada em "Federação Europeia" no séc. XXI.
O federalismo vai destruindo todos os símbolos identitários em nome de uma volúpia económica, conduzida pelos «conglomerados político-financeiros» que de fusão em fusão condicionam consumidores e governos tornando-se indissociáveis do poder político e da própria criação cultural (pág.130).
Perante a destruição das identidades nacionais e regionais surge a reacção do integrismo - no caso português (ou do que resta...) - a reacção da Sagrada Milícia - a ala combatente do Movimento Integrista Português.
E no meio destes dois poderes, o protagonista - o Jornalista João Carlos - procura opor-se à cegueira de uma Europa minada por um duplo cancro... num espaço e num tempo em que a lucidez dificilmente sobrevive à arrebanhadura...
Um romance que obriga a pensar o presente, à luz da história recente... raramente problematizada. Não chega a ser um romance profético, a não ser, talvez, nesta sub-região da Ibéria...

21.12.06

Tudo é possível...

«Passo o meu dia a dia aparentemente desligado da literatura e no entanto é literatura do princípio ao fim.» José Luandino Vieira, Público, 5/12/2006
Quando a História se apaga, o campo fica livre para a mentira, a simulação, a ficção. O Ocidente querendo evitar a mentira fez-nos crer na inverosimilhança. Por isso, ensinou-nos pacientemente a distinguir a verdade da verosimilhança.
Em tempos de maior rigor, a História exigiu-nos que sacrificassemos a vida em nome da Verdade - única. Tudo o resto era desvario diabólico.... Porém esse desvario arrepiou caminho e relativizou a Verdade - a História entrou em declínio e a verosimilhança começou a impor-nos tantos caminhos quantos os romeiros. De tal modo que facilmente cultivamos a mentira que nos permite limpar as mãos sujas do sangue de todos aqueles que sacrificámos em nome de um realismo socialista que nem sequer se queria utópico.
Tudo é possível num convento em Vila Nova de Cerveira..., contrariando a máxima de que tudo o resto é literatura!
PS: Há certamente um domínio onde nem tudo é literatura - a dor. Mas mesmo essa continua a ser literatura se apenas a fingimos. Como os poetas / fingidores deveriam ser felizes!

16.12.06

A paratormona...

Depois da juvenil caça aos gambozinos passei a dedicar-me à descoberta da paratormona. Conheço-a mal, mas os seus efeitos sinto-os bem. Percorre-me o corpo numa voragem intensa e um pouco desorientada... Apesar de tudo, passei a considerá-la - a paratormona - uma nova companheira extremamente exigente: detesta que eu a esqueça, que eu me distraia...
Uma companheira um pouco paradoxal: ao mesmo tempo que ocupa o espaço, absorve-o, criando o vazio...

11.12.06

A encenação do arrependimento...



É a terceira vez que tento publicar um breve comentário não sobre a Igreja de La Preciosa Sangre, em Cárceres, mas sobre a monumentalidade da arquitectura civil e religiosa na Espanha do passado e do presente. Sempre que percorri o casco de algumas cidades espanholas (Toledo, Madrid, Burgos, Barcelona, Sevilha, Ávila, Segóvia, Cárceres) fiquei com a impressão de que os espanhóis têm uma enorme necessidade de expor a força e a crueldade erigindo fortalezas e catedrais. Esta necessidade não é forçosamente do soberano (do estado), é, sobretudo, a afirmação dos "senhores" da conquista - ibérica, europeia ou das américas. Senhores ciosos de afirmarem a sua superioridade perante os vizinhos e que, para efeito, edificam palácios e catedrais lado a lado, transformando o espaço num labirinto de ruas e ruelas, lutando pelos cumes numa clara projecção para os céus... O movimento é sempre ascensional, originando cogumelos de edifícios cuja funcionalidade nos escapa... porque a grandeza, afinal, é simbólica...
Mesmo a associação da grandeza ao poder nem sempre é linear, porque, mais do que expressão de riqueza poderia muito bem tratar-se de uma forma de catarse. Mas não, tudo é encenação, diria pública, não fosse a redundância... O arrependimento da conquista, do sangue derramado, transforma-se em espectáculo em que sangrador e sangrado podem caminhar lado a lado, fugindo ao exame de consciência que a nudez e a elevação das catedrais góticas acabaria por exigir.
Por isso, os espanhóis preferem ao despojamento a ostentação, ao isolamento a multidão, à sobriedade a opulência, à linha o volume..., preferem tudo o que os afaste da assunção da responsabilidade, em nome da ocupação do espaço, da encenação do arrependimento...
A encenação da culpa é um sinal dos tempos de que quase todas as cidades espanholas dão testemunho... E paga-se para assistir ao espectáculo!
PS: Os dois anteriores comentários eram bem diferentes destes. Mostravam que o Barroco não foi mais do que o produto de uma contra reforma jesuítica que encenava a morte num retábulo roubado aos ameríndios! Mostrava ainda que o barroco nunca foi português nem brasileiro... era simplesmente a expressão da grandeza espanhola na Europa, contra a Europa da Reforma. Felizmente que estes comentários se perderam!

1.12.06

A linearidade do orçamento...

O orçamento é (ou deve ser) linear.
Inicialmente, o orçamento não era mais do que um instrumento de execução de um projecto... No entanto, à medida que fomos ficando sem projecto, o orçamento tornou-se no grande acontecimento legitimador da governação e da oposição.
Governo e oposição sonham com o orçamento para poderem definir as respectivas estratégias de consolidação ou de luta pelo poder, pelo poder de gerir o orçamento de estado, como se o país se reduzisse à captura de receitas e à sua redistribuição pelas clientelas...
Se quisessemos construir um projecto nacional, ibérico, europeu, lusófono deveríamos tornar obrigatória, em todas as escolas, a leitura do(s) orçamento(s). Hoje, para o cidadão comum é tão importante interpretar o orçamento como falar inglês.
As aulas de substituição deveriam ter como único tema: o orçamento - pessoal, familiar, plurifamiliar, autárquico, regional, nacional, ibérico... global.
Afinal, o que é que pode haver de mais importante do que o orçamento? Só em Portugal, gastamos dois meses a debatê-lo, anaforicamente (contributo da TLEBS)...
Por causa do orçamento, em 1955, Max Ophuls (1902-1957) sofreu um enorme rombo: o filme Lola Montès naufragou nos baixios da crítica cinematográfica e de costumes. Nem a beleza de Martine Carol (1920-1967) seduziu os espectadores. A encenação luxuriante da ideia de que na vida tudo é movimento, mas que o carrossel pára quando menos se espera só mais tarde foi entendida por um mundo ávido de protagonismo, que, no entanto apenas valoriza o movimento.
Ora, em 1955, Max Ophuls cometera um pequeno crime: rompera com as narrativas lineares. E o orçamento ressentiu-se...
Hoje, nas nossas escolas, a linearidade poderá dar um corpo a um projecto de idiotia colectiva se apostarmos com mais convicção na leitura do orçamento..., (com a ajuda da TLEBS chegaremos lá...)
Sabe-se, embora ninguém o diga, que a TLEBS foi inventada, não pelo Max Ophuls, mas por um grupo de linguístas que descobriu como viver durante o resto da vida à mesa do orçamento.
PS: o orçamento perdeu a maiúscula que originalmente o anunciava.

24.11.06

A memória dos rios...

Se a memória não me atraiçoa, estudei em Tomar entre 1971 e 1973. Em 71/72, a chuva caía com abundância. Lembro-me porque, para chegar ao Liceu, percorria de madrugada, numa motorizada CASAL, cerca de 15 Km. Invariavelmente, às 8 horas, chegava ao largo da estação de caminho de ferro, onde se situavam os "anexos" do Liceu. E nesses "anexos", a intempérie obrigava-nos frequentemente a abrir os guardas-chuvas. Para mim, não havia nada de extraordinário: essa chuva que caía sobre mim no percurso e na escola era bem vinda. Se há alguma coisa que eu prefiro na natureza é, concerteza, a chuva... mais do que a própria água. A água só me fascina sob a forma de corrente tumultuosa. A água parada dos paúis (pessoanos ou não), dos lagos, do próprio oceano, enerva-me!
Antes de conhecer o Nabão, já conhecia o Tejo. Habituara-me a contemplá-lo das scalabitanas Portas do Sol. No entanto, só o procurava em tempo de cheias, quando banhava os pés da ribeirinha Santa Iria. O caudal alargava-se de tal modo que conseguia visualizá-lo, para lá de Almeirim e de Alpiarça, a subir o desconhecido Terreiro do Paço. A ideia de uma capital flutuante seduzia-me, dava sentido ao Portugal das caravelas.
Hoje, quando vejo imagens das cheias do Nabão, sinto uma leve frustração. Nos anos 70, as cheias do Nabão, se comparadas com as do Tejo, eram insignificantes: invadiam duas ruas, ameaçavam um outro café... mas nunca me impediram de cumprir a rotina diária: percorrer 30 Km (ida e volta); abrir o guarda-chuva na sala de aula; assistir às aulas com uma sensação de déjà vu; ler o Diário de Lisboa no café Central(?); pedir as obras de Jean-Paul Sartre na Biblioteca local... para me poder aproximar um pouco de Paris e perceber que o Sena parisiense me causaria náusea.
Hoje não vi nem o Tejo nem o Nabão, vi imagens do Nabão e do Tejo, o que não é a mesma coisa: a sucessão de imagens instantâneas destrói a força da corrente que os meus olhos procuram e, sobretudo, que os meus ouvidos poderiam escutar - e sem essa percepção total, sinto-me desligado do fluxo universal.
Desiludido, continuo sem compreender que haja defensores da construção de barragens que estanquem os caudais... que imobilizem as águas. Se conhecessem os rios, não lhes ocupavam os leitos, deixavam-nos acordar suavemente, deixavam-nos correr orgulhosamente para o grande Oceano.
PS: Já naquele tempo tinha a sensação de que a Literatura maltratava os rios. Eram demasiado românticos, faltava-lhes corrente... à excepção do riacho de Bernardim, tumultuoso, que arrastava a indefesa ave para um mar sem fim... E vou ficar por aqui, porque, em mim, começam a jorrar arroios subterrâneos...

20.11.06

Um futuro de servidão...

Vi-me, hoje, obrigado a cancelar uma ida ao teatro. Um teste impede que os "meus" alunos possam ver a peça "Galileu", na véspera do dia da "Cultura Científica". Segundo argumentaram, precisam de se deitar cedo. O que pensará o velho Galileu deste bom senso em criaturas tão juvenis?
Sem querer imiscuir-me em assunto tão melindroso, creio, no entanto, que os problemas equacionados por Bertolt Brecht os poderiam ajudar a raciocinar e a compreender que a razão soçobra facilmente perante o fanatismo dogmático - religioso ou escolástico.
Esta forma tão ajuizada de estar anuncia um futuro de servidão.
(...) O exame que começou por ser de consciência, exigindo a autoridade do director espiritual, aferrolha, hoje, o livre arbítrio, decidindo mecanicamente do destino de cada jovem que ousa olhar o futuro... enquanto Galileu fica no sótão a espreitar o movimento dos astros...
(Cancelar uma ida ao teatro é uma actividade que dá sentido ao funcionário que elimina o desperdício...)

18.11.06

As tentações do funcionário...

Vi, hoje, no S. Jorge, Tatana, Portugal, 2005, 12', 35mm, Ficção. Realização: João Ribeiro; Argumento: João Ribeiro, Mia Couto.
Sinopse: Adaptado de um conto tradicional Makonde, esta é a história de uma velha e de seu neto, Sábado, criança de 12 anos que ela educa desde a morte do pai, quando Sábado tinha apenas 3 anos. Graças a um poder oculto, a velha guarda na cabeça os seus familiares mortos que, de quando em quando, saem cá para fora fazendo uma grande festa em jeito de cerimónia. Este facto não pode ser descoberto por pessoas que não sejam da família, pois isso faria com que os mortos não encontrassem o caminho de regresso acabando por ficar ao abandono e provocando a morte da velha.
Uma narrativa pedagógica que visa preservar os laços do presente (do jovem Sábado) com o passado, como se o primeiro se tornasse inviável sem o segundo (os antepassados - dos ancestrais aos mais próximos, como o pai e os tios, residentes no poço do quintal). A família continua a ser no imaginário moçambicano o motor da vida.
E de Moçambique passei à Africa do Sul e vi a Carmen de Bizet, em versão de Mark Dornford-May. (Este realizador já anteriormente filmara O Filho do Homem, mostrando-nos Jesus como um negro revolucionário.) M.D.-M. transpõs a ópera para um bairro de lata da actual República Sul Africana. Filme falado e cantado em xhosa (língua da África Austral falada por aproximadamente 8 milhões de locutores sul africanos).
Este filme vale, sobretudo, pela interpretação musical de Khayelitsha (a Carmen) e pela vitalidade das personagens femininas. Os homens, marialvas e machistas, acabam por desempenhar o papel dos fracos.
Na cena festiva e carnavalesca do abate do boi, cheguei a pensar que a Carmen da Sevilhana tourada, afinal, teria raízes na África austral.
PS: Estou sem perceber por que motivo se encontravam na sala 2 ou 3 turmas de alunos do 2º ciclo. Bateram palmas a despropósito; entraram e saíram da sala; correram.... e os professores, alheados do que que se passava, talvez estivessem a praticar para funcionários nesta tarde de Sábado.

17.11.06

De cidadão a funcionário...

Há uns anos atrás, parecia que ao Estado pouco mais restava do que a recolha de impostos e a sua redistribuição pelas várias clientelas que, entretanto, se tinham formado. A Nação deixara de poder fazer a guerra e, sobretudo, deixara de poder fazer moeda. Alienara as restantes funções, entregando-as a Bruxelas. A Igreja católica cedera o lugar a várias seitas mais ruidosas.
O Bloco Central, mascarado de alternância democrática, ocupava todas as funções de Estado, tornando-se no verdadeiro beneficiário da integração na União Europeia. O clientelismo instalou-se, desarmando a iniciativa, o traballho e a aprendizagem.
Afastaram-se e substituiram-se os quadros técnicos existentes por correias de transmissão dos partidos; as corporações aumentaram as suas regalias, desinteressando-se completamente dos princípios da justiça e da solidariedade; e a vaidade exposta nos mass media tornou-se no critério electivo dos governantes...
Progressivamente, um Estado, que vira reduzidas as suas funções, transformava-se num Estado cuja função principal era distribuir os fundos europeus e, que incapaz de controlar a rapina, acabou por se deixar atolar no compadrio, no nepotismo e no amiguismo.
Hoje, esse mesmo Estado, em nome da reposição de uma mítica e salazarista ordem nas finanças públicas, decidiu que a regeneração das instituições passe a ser feita por decreto de personagens cinzentas, nunca escrutinadas, mas que me fazem recordar os militantes maoístas que, cegamente, seguiam o Grande Timoneiro.
E bem sabemos que para o Grande Timoneiro, só a ruptura pode levar à Revolução cultural. E em nome do Partido, o cidadão deve ceder o lugar ao funcionário eficiente que combata o desperdício.
No que me diz respeito, como, obedientemente, tenho vindo a aderir ao novo conceito de 'funcionário', começo a não ter tempo para reflectir, para ler e para escrever... O discurso instrucional ocupa-me todo o tempo...
E ao escrever cada vez menos neste blog, estou a combater o desperdício...

10.11.06

Matilha de mentirosos...

  1. Em cenário de greve da função pública, Governo e sindicatos apressam-se em manipular funcionários e opinião pública. De uma assentada, o primeiro procura desmobilizar o movimento de protesto e desvalorizar o impacto da greve, enquanto que os segundos procuram precisamente o contrário. Ambos mentem.
  2. Os telejornais manipulam tão descaradamente a informação que o telespectador só pode continuar a pensar que, na Assembleia da República, estamos representados por um bando de energúmenos mentirosos.
  3. Os telepectadores são tão manipuláveis que já não conseguem ver que cada imagem é um argumento mentiroso e, por isso, um simples rosto ou palavra passaram a ser pretexto para uma discussão infindável sobre os preconceitos de cada um. Tudo em nome do direito à liberdade de expressão, hoje, sinónima de indignação. O direito à indignação vulgarizou-se de tal modo que virou mentira.
  4. O cidadão, justicialista, não podendo controlar os mecanismos colectivos de usurpação do poder, vinga-se em quem estiver mais à mão. A mentira pública torna-se privada.
  5. Se o telespectador voltar a ligar a televisão, rapidamente descobrirá que a sua pequena mentira se tornou pública, passando a fazer parte da matilha de mentirosos...

7.11.06

No país do fado e da morna...

(Descobri recentemente que a norma se relativizou de tal modo que ninguém sabe onde procurá-la. Desolado, dei comigo a pensar que o Instituto da Língua fora demolido deixando para trás uma suave nostalgia. Cheguei mesmo a perguntar aos meus actuais alunos se sentiam alguma nostalgia da norma. Indiferentes, nada responderam.)
Há cerca de 20 anos, uma planificação da disciplina de Português, para além dos conteúdos linguísticos e discursivos, incluia obrigatoriamente conteúdos literários e culturais. O advérbio, nesse tempo, ainda não tinha sido promovido nem a adjunto nem a disjunto!
Creio que obrigatoriamente, já nessa época, seria um advérbio disjunto, pois ele exprimia uma forte convicção do formador com efeito perturbador no formando.
Muitos dos formandos, ao contrário de uma inexplicável minoria que tudo compreendia, silenciavam expressões de rejeição, pois, por mais que explicasse a tipologia, jamais conseguiam produzir uma planificação a médio prazo que integrasse os conteúdos culturais.
Pensava, nessa época, que a aposta nos conteúdos linguísticos, discursivos e literários pressupunha a existência de uma ou mais culturas. E por isso insistia em dar-lhe(s) visibilidade, porque nunca compreendi como é que se processa o diálogo entre culturas invisíveis. Tal como não compreendo como é que se pode aprender, por exemplo, o léxico, desprendendo-o do contexto cultural.
Confesso, também, que uma outra das minhas dificuldades consistia em explicar aos formandos a diferença entre um conteúdo linguístico e um conteúdo discursivo. Por exemplo entre um nome e uma notícia - entre classificar o nome e escrever uma notícia. E não me refiro aos nomes não contáveis não massivos!
Espero, no entanto, que esses professores... quase titulares... estejam, hoje, radiantes com a possibilidade de explicaram aos seus alunos quanto o seu antigo professor estava errado. Para quê a cultura? Para quê a literatura? Para quê a genologia ?
Afinal, uns tantos protótipos e, sobretudo, uma boa terminologia linguística decalcada da terminologia anglo-saxónica é quanto basta! A matriz latina que se dane! Por algum motivo, o Latim fora excluído do curriculo dos Cursos de Letras!
Os mercenários nunca olharam a meios para encher os bolsos... e a cultura sempre foi um empecilho. Nem se percebe por que motivo ainda existe um Ministério da Cultura!
Na próxima remodelação desaparecerá!

4.11.06

O pressuposto

Figura em que deduzimos existir um enunciado implícito anterior ao enunciado explícito. Este processo, geralmente, esconde uma forma de manipulação mais ou menos subtil. De modo a celebrar os seus cinquenta anos, a Fundação Calouste Gulbenkian (1956-2006) está a promover o ciclo Como o cinema era belo. A ideia é meritória, os bilhetes são baratos (2,50 €), mas o público, pelo menos pela amostra, já passa maioritariamente dos 50…, respirando, só por si, alguma nostalgia. A amostra a que me refiro (re)visitou hoje o filme de Jacques Tourneur Stars in my Crown ( Estrelas da Minha Coroa), produzido nos Estados Unidos, em 1949. Trata-se de um filme em que um implacável ex-combatente se torna pastor pacifista capaz de converter o mais empedernido ateu; um filme em que o médico e o pastor, após terem exacerbado o conflito entre o corpo e a alma, acabam por se aliar; um filme em que o ambicioso e racista americano branco, capaz de enforcar o negro por um pedaço de minério, acaba por se deixar convencer pela argúcia do pastor. Em 1949/50, nos Estados Unidos, apesar de nem tudo ser belo, o bem acaba sempre por vencer o mal. E o cinema cumpria, assim, a missão de nos convencer que nem a doença, nem o ateísmo, nem o racismo poderiam jamais sair vencedores… Como o cinema era belo! No entanto, não deixa de ser estranho que, em 2006, se possa reiterar a ideia dessa beleza imaculada do cinema de meados do séc. XX. Como justificar a luta de um homem como Martin Luther King, assassinado em 1968? Bem sei que há quem defenda a estética como uma categoria independente da ética ou da ideologia! De qualquer modo, sobra o pressuposto que poderemos enunciar do seguinte modo: O cinema deixou de ser belo ou Hoje, o cinema é grotesco. O que me leva a pensar que o ciclo Como o cinema era belo manipula, de facto, o espectador, levando-o a acreditar que o presente é grotesco, ao contrário do passado que seria inevitavelmente sublime… ( Os espectadores de 4 de Novembro de 2006 bateram palmas, algumas tímidas.) A nostalgia das origens emerge das entranhas da Fundação…, que se arrisca a tornar-se numa categoria estética desfasada da grotesca realidade, em que a palavra ou o ícone não bastam para resolver os conflitos.

2.11.06

Docere et lectare...

/ O menino experimental ateia fogo ao santuário para testar a competência dos bombeiros. /O menino experimental, declarando superado o manual de 1962, corrige o professor de fenomenologia. /Murilo Mendes
O menino experimental cresceu e, depois de, ao longo de 30 anos, ter assassinado os mestres, prepara-se para declarar superada a etimologia.
Os verbos docere ( ensinar ) e lectare (ler muito ou muitas vezes), falsos sinónimos, já que o segundo pressupõe um método redutor da inteligência, apelando à repetição, enquanto que o primeiro orienta para a descoberta da sabedoria, acabam de evoluir semanticamente por obra dos meninos(as) experimentais que nos governam.
Os docentes, os lentes (vulgo os professores, de futuro simples ou titulares), no caos terminológico em que habitam, divididos entre actividades lectivas e não lectivas acabam de ser informados que, afinal, devem, também, aprender a distinguir a actividade lectiva da actividade docente.
Em conclusão, o professor metódico vai gerir a sua vida pública em actividade docente (substituição do pessoal administrativo e de limpeza), lectiva (implementação do plano nacional de leitura, escrita e cálculo) e não lectiva (explicações gratuitas, substituições gratuitas e acréscimo da conflitualiadade).
PS: Os síndicos experimentais estão a ficar vesgos: estão sem perceber o que o futuro lhes reserva.

26.10.06

De pouco serve ser voluntarista!

De pouco serve ser voluntarista!
Mesmo que durante algum tempo nos iludamos com o rumo traçado, rapidamente nos apercebemos que os grandes desígnios deixaram de nos motivar. No essencial, nas sociedades laicas não há finalidade que não seja abordada em termos relativos. Apesar do custo, o fundamentalismo acaba por ser uma tentativa de impor um desígnio à sociedade, capaz de a mobilizar contra qualquer tipo de relativismo nihilista.
Em termos práticos, nas escolas portuguesas deixou de haver um projecto capaz de mover na mesma direcção todos aqueles que nelas actuam. Ou se existiu, remontará ao Estado Novo! A ideia de comunidade educativa não passa de uma miragem, em que cada um, desejoso de saciar a sua sede de absoluto, acaba por se desinteressar de tudo o resto.
Este desnorte ( esta falta de direcção, de rumo) acaba por ser aproveitado para, de forma inapelável, destruir o pouco que, de forma voluntarista, fora construído nos últimos anos. Nada é lido, nada é interpretado em termos globais; tudo é decidido em função da vaidade do momento. E nem mesmo esta última é consistente.
Em conclusão, nas sociedades laicas, incapazes de definir desígnios colectivos, deixou de haver lugar para o voluntarismo e, consequentemente, a responsabilização, também, deixa de fazer sentido. "Culpabilizar", "perdoar"; "condenar", "absolver"; "pedir justiça, fazer justiça" - de conceitos passaram a noções ocas...

23.10.06

Uma miragem inquietante...

Os que ainda trabalham começam demasiado tarde e todos ao mesmo tempo, entupindo as ruas como as folhas de Outono entopem as sarjetas.
Os chefes chegam tarde ou não chegam sequer. Qualquer subalterno pode abrir a porta da empresa, da oficina, da escola, do ministério. E se chegam, fazem-no sempre com um ar atarefado, não lhes sobrando tempo para identificar e analisar os problemas. E por isso já deixou de haver agenda, tudo vai correndo sobre rodas inexoráveis...
Se alguma coisa corre mal, a causa é sempre externa. Tornamo-nos vítimas. Comprazemo-nos na lamúria. O passado, os genes, a doença, o estrangeiro explicam tudo. Procuramos na diferença a explicação para a nossa decadência. Vivemos bem com os nossos estereótipos, convencidos da superioridade da nossa presença. Mas, se olhassemos à nossa volta, poderíamos perceber que a nossa sombra nos deixou sós...
A vontade de mudar, de contribuir para a mudança não passa de uma miragem inquietante... com cheiro a século XIX.

17.10.06

O paradigma tropical português...

A insatisfação parece ter chegado à Escola. Hoje, nos pátios, viam-se mais alunos. Outros talvez tenham ficado em casa. Mas alguns dos que encontrei e que, raramente, são visíveis fora da sala de aula... mantinham-se na escola na expectativa de que o professor surgisse. Aproveitavam para fazer os trabalhos de casa e preparar os próximos testes no CRE e na Biblioteca.
De manhã, os professores que leccionavam passavam furtivamente para as salas. Os dirigentes sindicais tornaram-se invisíveis ao contrário do que costumava suceder. O Conselho executivo parecia recolhido... O Conselho Pedagógico foi adiado a pretexto da greve, tal como acontecerá, amanhã, com o Conselho de Directores de Turma - o mesmo pretexto.
Um ou dois funcionários executavam tarefas de limpeza: varriam as folhas de Outono, despejavam folhas devolutas.
Ultimamente, comecei a perceber que esta Escola, aparentemente, desajustada, corresponde, afinal, ao paradigma tropical português: alguns funcionários, por astúcia dos restantes, vêem-se obrigados a executar todas as tarefas - do apoio (efectivo) no CRE e na Biblioteca à limpeza das casas de banho, dos corredores, das salas de aula e, mesmo, dos pátios... como se não fossem mais do que a típica criadagem do solar nortenho ou do sobrado brasileiro, mais tarde africanizado...
Para que a tropicalização seja completa, os próprios professores (ex-Senhores-de-si-próprios) decidiram que chegou o momento de se sacrificarem, de se cafrealizarem para que o país possa gerar 500 verdadeiros Senhores a quem todos possamos servir zelozamente.
Para quem tenha alguma dúvida, faça o favor de cotejar o investimento na educação e na ciência (Orçamento para 2007). Está lá escrito. Basta um pouco de cálculo: A ciência goza de um investimento senhorial sete vezes superior ao da escrava educação.
Mas está certíssimo! O que é que a educação nos poderia trazer de bom?
Dentro de 5 anos, 500 novos senhores dir-nos-ão o que mais nos convém... tal como aconteceu com os mestres de Chicago (e arredores) que nos vêm governando nos últimos 25 anos.
PS: Bem sei que não me deveria pronunciar sobre estes assuntos no meio desta histórica greve. Mas não resisti, depois de ter ouvido uma ministra falar dos bons serviços de um grupo de funcionários públicos que desinteressadamente estabelecem os "quadros de referência" que de 4 em 4 anos permitirão analisar 1200 unidades de ensino (de conta?); um secretário de estado que remata os destacamentos mais estranhos para o ministério do trabalho porque ele só corta ( e se houver algum destacamento foi porque alguma escola o solicitou!?) e, sobretudo, um dirigente sindical que teve a coragem de afirmar que há imensos candidatos ao lugar de coordenador curricular - estou a imaginar uma luta fratricida pela ocupação deste lugar que talvez dê assente no Conselho Pedagógico - órgão particularmente apreciado pelo ME e pelos Conselhos Executivos.
Afastada a ironia, talvez valesse a pena avaliar o trabalho gracioso levado a cabo, neste país, por milhares de conselhos pedagógicos nestes últimos 30 anos. Só que esse trabalho nunca poderá ser realizado por quem insiste em deitar fora a massa crítica que existe no país em todos os domínios.
Foi uma sensação de nulidade que senti, hoje, ao atravessar os corredores da Escola, embora essa sensação fosse contrariada por uma funcionária incapacitada de um braço e que, apesar de continuar a recolher as folhas de Outono(!?), me abriu a porta da sala 34, para mais tarde regressar e me perguntar se, afinal, o computador e a impressora já se articulavam pois gostava de aprender a resolver os problemas para poder ajudar os professores. E essa descrença na justiça foi novamente contrariada por um grupo de alunos que me pediu o "manual" e o "caderno de exercícios" para poder fazer os trabalhos de casa - contrariando objectivamente a política do ME...

15.10.06

Será que estou sozinho?

Encontro-me, hoje, numa posição assaz difícil: estou numa terra de ninguém - entre os que querem mudar tudo e os que não querem mudar nada.
Os primeiros decidem a mudança, mas não sabem como fazê-la e, por isso, insistem em avançar às cegas, independentemente das perdas; os segundos não querem mudar nada, pois a manutenção do estado das coisas há muito tempo que os favorece, independentemente de saberem que o abismo se avizinha.
Nos próximos dias, o conflito agudizar-se-á. A greve prevista irá certamente reforçar a convicção dos descontentes e, os governantes, por seu lado, manterão o rumo ancorados na confortável maioria...
O país ficará um pouco mais pobre porque a quem decide falta o saber e a ponderação e a quem protesta sobra a cegueira dos interesses...
E eu, aqui, forçado, no meio... Será que estou sozinho?
- Já não seria a primeira vez...

14.10.06

O que estamos sendo...

(A acumulação de cansaço torna-nos irascíveis, debilita-nos a concentração e pode, mesmo, paralizar-nos. É esse o estado actual da CARUMA que passou a ter dificuldade em caminhar... os movimentos respiratórios vão sendo cada vez mais irregulares... sente-se asfixiar.)
Habitualmente, perguntamos "O que é que te aconteceu?", mas esta pergunta não satisfaz, porque, de facto, raramente, nos acontece alguma coisa... O que estamos sendo é o resultado dum fluxo lento que nos empurra para a asfixia, como se o ar fosse rareando...
E esse fluxo é o envelhecimento que, por vezes, chega inopinadamente, outras vezes nos sinaliza o inexorável... Resta saber se estamos suficientemente atentos.
Quanto à CARUMA... ruma, agora, mais atenta aos sinais não se deixando inebriar por essa prometida longevidade que parece ser a única responsável pela decadência dos povos.
Se Antero de Quental vivesse hoje, escreveria certamente sobre a longevidade, apontando-a como a causa fundamental da decadência dos povos peninsulares!

7.10.06

Sob uma pirâmide invertida...

Se os políticos fossem menos demagogos não estaríamos hoje soterrados sob uma pirâmide invertida. Se estes demagogos tivessem pensado menos nos seus interesses não teriam tido tanto empenho em defender o funcionário público, criando-lhe expectativas irrealistas. Agora que mais do que 40% dos funcionários se encontram nos dois últimos escalões, os novos zeladores da res publica decidiram alterar as regras, congelando a progressão nas carreiras, destruindo o statu quo..., enquanto que os decisores dos anos 80 e 90 ocupam impunemente as cadeiras de Belém, do Banco de Portugal, da CGD, do BES, do BCP, do BPI, da Assembleia da República, das últimas empresas públicas...
E, infelizmente, ainda ninguém percebeu que a pirâmide pode girar progressivamente sobre si própria, sem ser necessário sobrecarregar / punir mais os velhos, impedindo os mais novos de aceder à vida activa. Basta que por cada dois reformados se contrate um jovem. Esse jovem, ao entrar na função pública, irá preencher 2 horários, ganhando, no início de carreira, 50% do que ganhava apenas um dos reformados.
Por mais estranho que pareça, o país ficaria a ganhar com o rejuvenescimento dos funcionários, com a possibilidade dos jovens quadros encararem a vida com optimismo e segurança, aumentando, consequentemente, a natalidade...
Mas não, a Ministra da Educação, por exemplo, anda feliz porque conseguiu aquilo que ninguém conseguira depois do 25 de Abril de 1974: professores com mais de trinta anos ao serviço da juventude, inclusivé da dela, são obrigados a cumprir um horário superior àquele que lhes era distribuído no início de carreira. A Senhora ministra está a impedir o rejuvenescimento dos quadros docentes, quando o ensino mais precisa de um novo impulso. Está a prestar um mau serviço ao país.
E o Governo parece agora apostado na reciclagem da elite universitária gastando, nos próximos anos, mais de 100 milhões de euros, em vez de apostar na formação da base da pirâmide, uma base sólida, jovem, com iniciativa e produtiva.
Parece que o socialismo se converteu ao elitismo norte-americano, substituindo-se, paradoxalmente, à iniciativa privada. Ou talvez não!?
Afinal, a base da pirâmide vai ser entregue à iniciativa privada e não só! As universidades privadas e as universidades públicas (2ª categoria), os politécnicos (3ª categoria), as Escolas superiores de Educação ( 4ª categoria), vão licenciar centenas de milhares de portugueses de boa vontade, desde que tenham mais de 23 anos e vontade de pagar as propinas...
O futuro da pirâmide promete... só é pena que as dunas se movam tão lentamente!
PS: Não falei dos sindicatos. Mas eles não irão esquecer-se de se colocar rapidamente na linha de partida - seja no topo seja na base da pirâmide... lá, onde estiverem os interesses!

2.10.06

As estações do homem...

As estações do ano mais não são, para o homem, do que literatura. As estações do homem, como as dos restantes mamíferos, regem-se pela linearidade... E é a essa linearidade que escapa o pinheiro, mas já não a caruma...
A inevitabilidade do fluxo perturba e, por isso, sempre que podemos, fugimos para a estação da fantasia, único lugar onde o refluxo ainda é possível: preferimos o sonho à vida para não termos que enfrentar a morte - esse lugar inexorável onde a ténue linha termina.

1.10.06

No Outono, a caruma...

Avoluma-se sob o verde, a caruma. As agulhas despedem-se temporariamente das pinhas para lhes prepararem o leito da morte. E lá longe, já perto, ecoa o rugido do oceano... Nada disto é literatura... nada disto é Nhada, isto é, nada disto é renovação, renascimento, ressurreição... Quando mudamos de estação, quando mudamos de língua tudo se torna mais sombrio... Na literatura, não: podemos fingir, simular que voltamos, outros, atrás...
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26.9.06

Um diálogo absurdo?

( Um diálogo sem tom... ou talvez um pouco arrastado e monocórdico) - Minha Senhora, que horas são? - São três e um quarto? -Muito obrigado. (Pausa de 20 segundos) - Meu senhor, que horas são? - São três e 20. - Muito obrigado. (Para a primeira interlocutora) - No relógio daquele senhor são três e vinte! - Pois é!O meu relógio deve estar um pouco atrasado... - Pois é! Muito obrigado. (Pausa de três minutos) - Minha senhora, que horas são? - São três e 20. - Muito obrigado. Ah, mas no relógio daquele senhor são três e 25! - Pois é. Ainda não acertei o relógio! - É pena! Onde é que estamos? - Na paragem do aeroporto. - Muito obrigado. Há aqui um aeroporto? Pra quê? Vozes espontâneas: - E se fosse apanhar o avião!?
Há cada vez mais perguntas absurdas, perguntas que não procuram uma resposta. Perguntas que, apenas, servem para experimentar o outro - o amigo, o colega, o vizinho, o estranho, sobretudo o estranho ( o sociólogo dirá que a pergunta pode criar uma relação de vizinhança!)... Perguntas estranhas que servem para assegurar que o outro ainda nos vê ou nos ouve. E o outro, polido, lá vai respondendo monotonamente: - São 17:12 horas... Os outros, sem paciência, já há muito que deixaram de ouvir!
E se deixassemos, todos, de fazer perguntas?

24.9.06

Um sargento de Abrantes...

Lembrou-me agora que há 60 anos, em Abrantes, havia um sargento que gostava de castigar os soldados, obrigando-os a subir um monte com um almude de água às costas para, depois de o esvaziar, repetirem o movimento até à exaustão.
Digamos que, deste modo, o sargento colocava à prova a resistência de homens que, talvez, mais tarde, numa qualquer guerra, lhe ficassem eternamente gratos.
Os sargentos sempre gostaram de se imaginar no papel de Zeus ao condenar o mestre da malícia e dos truques - Sísifo - a rolar a grande pedra de mármore até ao cume da montanha, para depois Zeus a impelir impetuosamente para o vale, recomeçando Sísifo, indefinidamente, o movimento...
E por isso, as tarefas que envolvem esforços inúteis passaram a ser chamadas "trabalhos de Sísifo"...
Creio bem que, hoje, continuamos a ser instruídos por um sargento de Abrantes que, perante a anuência das praças, as condena eternamente aos trabalhos de Sísifo...
(...)

20.9.06

Não há consciência sem causas...

A Amnistia Internacional decidiu no dia 18 de Setembro atribuir a Nelson Mandela o prémio «embaixador da consciência» para o ano de 2006 .
O modo como Mandela conduziu a sua vida desde que saiu da prisão em Fevereiro de 1990 tornou-o no símbolo do que deve ser um verdadeiro cidadão do mundo. O valor do serviço prestado à causa da liberdade e da justiça na África do Sul ( e por arrastamento na África austral) é incalculável.
Apesar do reconhecimento internacional, a vitória sobre o 'apartheid' não significou para Mandela o fim da sua acção, pois a consciência de que a desigualdade é multiface levou-o a empenhar-se numa outra "causa" - o síndrome de imuno-deficiência adquirida (SIDA) deve ser encarado como uma questão de direitos humanos. É esse, hoje, o seu maior combate.
( Se aqui me refiro a Nelson Mandela é porque ele é o exemplo de que não há consciência sem causas.)
Ora, nas nossas escolas, há cada vez mais jovens indiferentes ao que os rodeia, sem vontade de procurar um rumo... estão ali, sentados como prisioneiros desalinhados, esperando que os carcereiros os ignorem. E mesmo que a porta se abra, não indiciam qualquer tentativa de fuga. Parece que se sentem bem na caverna, na masmorra.
E porquê? Porque já nascemos sem causas...

17.9.06

Rosas negras e brancas, ainda que vermelhas...

O monólogo "Ventos de Leste", interpretado por Natasha Marjanovic, mostra à saciedade como os "interesses" inconfessados podem dividir o que parece inseparável. E também mostra como o multiculturalismo é frágil. Qualquer faúlha pode gerar um incêndio e toda a caruma é consumida ou obrigada a partir para países distantes onde a língua começa por ser um obstáculo desesperante.
Mas deste ora divertido ora lancinante monólogo resulta também a ideia de que o "estrangeiro" antes de 'aprender a língua' se vê obrigado a 'aprender a terra'. Este último imperativo também devia ser posto em prática pelos nativos.
'Aprender a terra" significou para esta ex-jugoslava confrontar-se com uma série estereótipos bem diferentes dos da pátria Tito. Parece, hoje, uma imigrante aplaudida, mas, aqui, é apenas uma entre os 360.000 que tiveram que abandonar a ex-jugoslávia. Em nome do quê? de quem?
- Pergunta sem resposta.
(No solo da Gulbenkian, onde decorreu este espectáculo, esteve presente o engenheiro Guterres, esposa e outros familiares ilustres, estes um pouco mais distantes. Curiosa foi a preocupação de um funcionário da Fundação que quis libertar o ilustre espectador do sol tímido que lhe espreitava o couro cabeludo. No entanto, o engenheiro, sorridente, em mangas de camisa, não acedeu a trocar o sol pela sombra..., embora deva ter saído a pensar naqueles anos da sua governação em que a NATO bombardeava indiscriminadamente civis e militares, em vez de se limitar a perseguir "os interesses"...)
De Portugal fica a imagem de um estado folclórico em que a burocracia é tão severa como as bombas da NATO.
O público aplaudiu de pé. O sucesso da imigrante? A performance da actriz? As bombas da NATO? Os mortos de uma guerra fratricida? O jeito que nos dá que haja guerra em qualquer outro lugar que não na 'nossa' terra?
O público aplaudiu. Natasha recebeu rosas negras e brancas, ainda que vermelhas, contrariando a profecia materna de que em Portugal ela não viria colher rosas.

13.9.06

Nenhum tapete é cego...

A caruma, ultimamente, tem estado menos reflexiva porque, como tapete que é, não tem podido ir além dos pés que, sorrateiramente, a vão calcando.
Este estatuto de tapete é, no entanto, um privilégio porque liberta a mente e deixa os olhos pousar livremente sobre os sinais do oportunismo e do laxismo que vão grassando pelas ruas das cidades e aldeias.
(Se o autocarro está a abarrotar - coisa que não deve ser verdade porque há anos que a Carris vem perdendo clientes! -, o passageiro, em vez de entrar pela porta de entrada, entra pela porta de saída... E o motorista sem nada ver... E atrás de um vão seis ou sete! E os outros, os cumpridores, lá ficam na paragem, surpreendidos, esboçando algumas palavras surdas.)
E os olhos da caruma que, pela sua natureza, podem ver de baixo para cima, andam um pouco desorientados, porque ninguém lhe explica por que motivo é que há tantas cadeiras vazias e, sobretudo, como é que se pode trocar de cadeira sem qualquer tipo de explicação... No meio da dança das cadeiras, quem se amolga é o tapete.
Fica, todavia, o reparo: nenhum tapete é cego.

10.9.06

Vai crescendo o saramago....

"Vai crescendo o saramago / embaraçado no trigo / eu queria ser saramago / para abraçar-me contigo..." António Pinto Basto, álbum "rosa branca"
Nesta fase, só interessa ser o "trigo" ou, talvez a "rosa"; o saramago, como a rémora, aproveita a viagem, enleia-se na haste até a sufocar e os poetas chamam-lhe amor... Um amor oportunista sai-lhes da voz, pronto a zarpar à menor dificuldade.
Nesta fase, não vale a pena sorrir... o "trigo" nutre; a "rosa" alenta, mas, ao anoitecer, estiola...
Por isso, nesta fase, de nada serve ser "rosa"... e muito menos "saramago"...
Apenas trigo

4.9.06

Se ao menos pudesse ter a calma necessária...

«Estranho, como uma coisa a fingir, se usada sistematicamente, se pode tornar realidade.» Franz Kafka, Diários, 24/1/1922 Lisboa. 41 graus centígrados. Sufoco. O cérebro disperso: desloca-se, perplexo, do amigo, confrontado com um eritema nodoso para o desalinho em que caiu o quarto dos fundos… (Ah! Se um quarto exprimisse a alma do seu ocupante! Esperemos que a alma seja bem mais rica, apesar do desalinho!) Ao sair do quarto, em que, de facto, prefere não entrar, o cérebro interroga-se sobre o sentido das depressões passageiras ou, talvez, seja melhor pensar que, também, na depressão pode haver pausas sazonais… E, subterraneamente, continuam activos dois cenários de morte – o da absurda teimosia vingativa que destrói o coração do companheiro de uma vida de 50 anos, sem qualquer manifestação de culpa ( só ficou o alheamento mudo!); o do ódio de sangue que emerge de sexualidades travestidas, em que o amor e o ódio se irmanam numa luta de morte pela vida. - Se ao menos pudesse ter a calma necessária para não pensar nisto tudo… sem querer fugir disto tudo!

3.9.06

Não tem sentido fazer perguntas e esperar...

(…) perguntas que não obtêm respostas no momento exacto em que são feitas nunca mais são respondidas. Não há nenhuma distância a separar quem faz a pergunta daquele que lhe responde. Não há distância a transpor. Daí que não tem sentido fazer perguntas e esperar. Franz Kafka, Diários, 28 de Setembro de 1915. Poder-se-á dizer que este raciocínio deita por terra o velho estratagema do professor que, considerando a pergunta inoportuna, responde ao aluno que aquele não é o momento apropriado. De acordo com Kafka, a pergunta não admite qualquer tipo de espera. E, talvez seja essa a razão porque, muitas vezes, abdicamos de fazer perguntas. 2 de Setembro de 2006. (Vem esta reflexão a propósito de uma situação explosiva, vivida por uma velha mãe (83 anos) e de dois filhos igualmente velhos, apesar dos seus 55 e 57 anos (?), respectivamente.) Nenhum dos três revela qualquer tipo de auto-domínio verbal, podendo-se colocar mesmo a hipótese de a violência se transformar ou de já se ter transformado em agressão física. Numa tentativa de mediação e de compreensão da dimensão do problema, o mediador procura confrontar as partes, interrogando-as sobre a verdade das acusações proferidas. E, aqui, surge a grande dificuldade: o interrogado “corta” a pergunta, para, de imediato, encadear uma lista de argumentos que inutilizam qualquer esboço de diálogo. E se, momentaneamente, menos exaltado, ouvir a pergunta na totalidade, recusa-a, no entanto, para retomar histrionicamente a sua lamentação –acusação. E se pensarmos que esta procura de respostas se desenrola, quase sempre, em situações de tensão extrema, podemos compreender como é fundamental a formação dos actores (mediadores) solicitados a intervir nos diversos contextos sociais: escolas (sala de aula), esquadras, gabinetes de psicólogos / psiquiatras, tribunais, lares (de terceira idade e não só…), bairros marginalizados, estabelecimentos prisionais… Hoje, sei, que toda a pergunta merece uma resposta adequada, imediata. Mas também sei que não estamos preparados para ajudar a dar essa resposta. E creio que a dificuldade maior está em não sabermos formular as perguntas. Há, contudo, que ressalvar os cenários de auto-destruição, assim como os cenários de egotismo irredutível.
Nestes territórios, o mediador corre o risco de ser abatido.

1.9.06

O círculo fantasmático do desencontro...

Absurdamente, estou cercado de discursos ansiosos, de corpos expectantes.
Por isso bem gostaria de saber lidar com a depressão. Não com a depressão abstracta, essa não me interessa. Interessa-me, sim, o círculo fantasmático do desencontro...
Na sociedade ocidental, a depressão é vista como um comportamento individual. Como uma dificuldade de adaptação à velocidade, como se houvesse necessidade de o indivíduo se encaixar na totalidade...
Por outro lado, o diagnóstico do estado depressivo parece pressupor que a totalidade está certa e o indivíduo está errado. Mas será mesmo assim?
Para tratar o problema, existem os psicólogos, os psicanalistas, os psiquiatras, os padres, os exorcistas, os conselheiros, os feiticeiros e outros que tais. Todos se propõem tratar o indivíduo. Todos procuram a causa no indivíduo. Todos propõem /impõem um tratamento mais ou menos drástico ao indivíduo. Nenhum procura a causa no modo como construímos /agimos sobre o cosmos.
A constante aceleração e a constante mudança devoram, a cada segundo, milhares de indivíduos, deixando-os à beira do precipício, senão aniquilando-os ...
Por isso, há cada vez mais indivíduos que procuram «não ter consciência disso», porque «não ter consciência» é um bom remédio para a depressão... Como culpabilizá-los por isso?
E a terceira via parece não ser muito simpática: contra a depressão, contra «não ter consciência disso» só resta a revolta...
E infelizmente para que a revolta faça sentido, ela necessita de recorrer às mesmas armas que provocam a depressão!
( Lá fora, num qualquer palco soa um batuque que vai "secando" a consciência. Ou será que apela à revolta? Entretanto, a depressão alastra, contamina tudo à sua volta...)

28.8.06

A "morte" do professor?

«O que parece certo é que a deslegitimação e o predomínio da performatividade são o dobre de finados da era do professor: ele não é mais competente que as redes de memórias para transmitir o saber estabelecido nem que as equipas interdisciplinares para imaginar novos lances ou novos jogosJean-François Lyotard, A Condição Pós-Moderna,3ª edição, Gradiva, 2003.
A minha insistência em em algumas das questões abordadas por Jean-François Lyotard pode parecer excessiva, no entanto, ela resulta da tentativa de procurar saber qual é, hoje, o papel do professor. Para Lyotard, o professor detentor e transmissor do saber está condenado a desaparecer. A didáctica pode ser confiada a máquinas que liguem as bibliotecas e as bases dados a terminais inteligentes postos à disposição dos estudantes. E essa tem sido a opção dos países ricos.
Neste contexto, a aposta no professor é um sinal de pobreza. Apesar disso, ainda sobram algumas tarefas que o professor poderá executar, se for capaz de se adaptar à nova realidade, isto é à interdisciplinaridade e ao trabalho em equipa.
Ensinar aos estudantes:
  • o uso dos terminais ou seja as novas linguagens;
  • o manuseamento mais refinado desse jogo de linguagem que é a interrogação - Qual é a memória pertinente para o que quer saber? Como formular a questão para evitar equívocos?
  • os critérios de validação da aprendizagem: Para que serve? É vendável? É eficaz?
  • a aperfeiçoar e a acelerar a imaginação, enquanto capacidade de articular séries de dados tidos como independentes;
  • a conectar campos de conhecimento que a organização tradicional do saber isola.

Portugal, em vez de imitar os países ricos, deve apostar na formação permanente dos seus professores de modo a ajudá-los na mudança a que necessariamente não podem escapar.

26.8.06

O vínculo social e o princípio da performatividade

«O estado e/ou a empresa abandonam a narrativa de legitimação idealista ou humanista para justificar a nova situação: no discurso dos capitalistas de hoje, a única situação merecedora de crédito é o aumento do poderio. Não se pagam sábios, técnicos e aparelhos para saber a verdade, mas para aumentar o poderio Jean-François Lyotard, A Condição Pós-Moderna
Afinal, a decisão de eliminar a abordagem da literatura, em si e numa perspectiva diacrónica, resulta da necessidade de legitimar a decisão do estado e das empresas de apenas apostarem na expansão do poder, deixando cair por terra tudo o que, desde o Renascimento, suportava o vínculo social.
Assim se compreende que o professor tenha cada menos poder de decisão, pois deixou de ser pago para ajudar a criar uma sociedade mais justa, mais verdadeira, mais bela. Hoje é pago segundo o critério da «eficiência»: «um acto «técnico» é bom quando realiza melhor e/ou gasta menos que outro»
A formação do professor obedece cada vez mais a uma lógica em que o princípio da performatividade justifica todas as decisões por mais que elas atentem contra o vínculo social.

24.8.06

Em vez da dúvida e da descrença...

«O saber em geral não se reduz à ciência, nem mesmo ao conhecimento. (...) O saber é aquilo que torna qualquer pessoa capaz de proferir "bons" enunciados denotativos, mas também "bons" enunciados prescritivos, "bons" enunciados avaliativos...»Jean-François Lyotard, A Condição Pós-Moderna
Sempre que o regresso à escola se aproxima, desponta a dúvida: Que sei eu que valha a pena partilhar? À medida que os anos passam, essa dúvida é cada vez mais forte: De que lhes poderá servir o meu saber?
Por outro lado, quando os conteúdos culturais são banidos dos programas e substituídos por meras rotinas, a descrença avoluma-se, porque, ao pôr-se em causa o conhecimento, abre-se a porta ao declíneo do ser, à morte do saber...
Ora, ao regressar à escola, em vez da dúvida e da descrença, seria bom que o fizesse com a convicção necessária a tornar qualquer pessoa capaz de proferir "bons" enunciados...
O que me vai obrigar a falar menos e a ouvir mais...

23.8.06

Os diferentes rumos do cinema

Miami Vice, de Michael Mann, EUA, 2006 Sonhar com Xangai, de Wang Xiaoshuai, China, 2006
(Salas Monumental e King. Na primeira, a aposta é na publicidade e na intoxicação sonora. Na segunda, a publicidade é discreta e o registo sonoro moderado.)
Miami Vice parece não ser mais do que a expressão sofisticada de um mundo onde o único valor é o dinheiro. No entanto, Michael Mann deixa no espectador uma certa simpatia pelos traficantes, deslocando o mal dos cartéis de droga regionais para um inimigo global de rosto árabe. No essencial, é esse o objectivo: mostrar que o novo inimigo dos EUA é filho de Bin Laden.
Por sua vez, Sonhar com Xangai retrata-nos a China interior dos anos 80, onde o Partido Comunista determina a vida dos miltantes, tal como o marido determina a vida da mulher ou o pai determina a vida da filha.
Porém, o filme não é tão linear como se poderia pensar: alguns militantes revelam desejos capitalistas ( querem regressar a Xangai, contrariando a política oficial); a relação entre marido e mulher pode ser autoritária ou tolerante ( dois casais, dois modelos comportamentais); o modelo educativo também pode ser fechado ou aberto...
No essencial, Wang Xiaoshuai não se deixa seduzir pelos estereótipos, porque as filhas dos dois casais que protagonizam a "estória" acabam por sucumbir a uma "força" que reduz a nada os padrões educativos.
De qualquer modo, um dos prevericadores acaba por ser executado, pois o Partido determina que esse é o castigo para os violadores.
Estes dois filmes acabam por mostrar que, na China, o cinema procura libertar-se da ideologia dominante e que, pelo contrário, nos EUA, o cinema está cada vez mais comprometido com a política republicana.

20.8.06

O que o Meco pode ocultar...

Enquanto a natureza se expõe, imperturbável, tu viajas, com os amigos, lentamente, de Zagreb a Paris, na expectativa de lá chegares a tempo de celebrares os teus 23 anos. E, nós, na expectativa de que assim seja. Embora a paragem em Grenoble tenha retardado esse propósito, acabaste, felizmente, por chegar a Paris ao fim da tarde deste domingo, para ti, inesquecível e, para nós, de ansiedade... E para trás, vão ficando o Rio da Prata, o Cabo Espichel, Vila Nogueira de Azeitão ..., involuntariamente visitados pelo Kafka que adorava Berlim e detestava Viena e, para quem, ironicamente, bastava um quarto e uma dieta vegetariana...
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Meco

Rio da Prata. Vá lá saber-se porquê? Praia célebre, de difícil acesso. Reserva naturista. O Nú masculino predomina, mesmo que a beleza dos efebos esteja arredia. Esses passam, vestidos, curiosos, provavelmente a identificar as presas... Há, por ali, cachos de uvas ritualmente lavados nas águas oceânicas ..., a lembrar cenas da Grécia antiga ou da Roma dissoluta. (Estive 2 horas nesta reserva, a observar de soslaio a natureza humana e a ler os Diários de Kafka e fiquei com pena de não ser Kafka para descrever as dissonâncias que se colavam ao areal e, a espaços, invadiam o mar...)
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Cabo Espichel

Longe da terra, perto do mar, à semelhança do Cabo S. Vicente ou do Cabo Raso. Se no passado os conseguimos dobrar, hoje, não sabemos o que fazer com eles. Triste sina! Posted by Picasa

Santuário de Nossa Senhora (Cabo Espichel)

Apesar da igreja ter sido restaurada, os edifícios laterais, à falta de romeiros, estão ao abandono num dos cenários portugueses de céu-e-mar mais fascinantes. A ideia de preservar a beleza, a todo o custo, acaba por inviabilizar a manutenção do património histórico e desertificar um território que poderia ser uma fonte de riqueza.
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17.8.06

A hipoteca

Quando o tempo começa a escassear, insistimos em olhar para trás, procurando ansiosamente uma explicação para as fragilidades do presente.
Um meio inculto, uma família analfabeta, o caciquismo ignóbil, um pai ausente, uma mãe autoritária, uma avó fantasmática... tudo nos serve para justificar os projectos inacabados, as relações fracassadas...
Passamos a preferir às incertezas do presente e aos medos do futuro as certezas (re)construídas do passado. Damos a vida por elas - as certezas -, hipotecando definitivamente o pouco tempo que nos resta...
Estranhamente, abdicamos de viver... e nem sequer o fazemos como forma de preparar uma outra aurora, essa, sim, primaveril e gloriosa!

16.8.06

O interesse dá um passo em frente...

Num local onde começa a sentir-se a pressão para que o plano director municipal reconverta os prédios rústicos em urbanos, o fogo actuou de forma inteligente: devorou grande parte de três pequenos prédios rústicos, sem importunar nem a casa (entretanto, ligada à rede eléctrica) nem o pomar que os ladeiam. E também deixou incólume, do lado contrário, junto a uma estrada municipal, o posto de distribuição eléctrica e a instalação de distribuição de água a uma propriedade onde, ainda, há muito pouco tempo era visível um "pedido" de autorização de construção de uma vivenda.
Por aquilo que qualquer transeunte pode observar, a autorização de construção ainda não foi concedida, mas a "luz" e a "água" já lá estão à espera..., a troco de alguns milhares de euros recebidos por algum funcionário mais zeloso dos serviços municipais e da EDP...
Esta ideia de observar as pequenas alterações da paisagem e dos humores humanos pode ser muito maliciosa, mas, desta vez, a caruma está convencida que o combustível que incendiou o mato, o silvado, aquelas míseras oliveiras, deixou a descoberto o estéril poço e calcinado o tímido ribeiro, foi o interesse que não olha a meios para atingir os seus fins.
Ao desvalorizar a propriedade, o interesse dá um passo em frente para condicionar o plano director municipal e, sobretudo, para abocanhar tudo o que cobiça.
Quando algumas luminárias continuam preocupadas com as fronteiras que separam (ou não) a literatura do jornalismo, seria bom que este último desse mais atenção às pequenas (ou grandes) alterações da paisagem e seguisse, de perto, os passos do interesse.

15.8.06

A política dos interesses

Há alguns dias, interrogava-me, aqui, sobre as causas que vêm determinando que a literatura deixe de ser ensinada nas nossas escolas, secundado na palavra de Kafka para quem o conhecimento da literatura (e da sua história ) está intimamente relacionado com o fortalecimento da consciência nacional. Talvez o conceito «consciência nacional» mereça ser revisto, pois a sua legitimação (dos nacionalismos) teve ao longo do século xx elevados custos para as populações. No entanto, a maioria das conflitos, nos últimos tempos, tem tido como pretexto-máscara a exploração dos antagonismos religiosos e não da «consciência nacional».
Fica, porém, a ideia de que a nossa política externa é a dos interesses, como bem refere Carlos Pacheco (Público, 15/08/2006 - O calcanhar de Aquiles de Portugal em África), quando, citando políticos, banqueiros..., refere que «não há outros valores, foi sempre assim e não é agora que a corrente da história mudará.» E para melhor fundamentar o seu pensamento, Carlos Pacheco recorre às cartas do Padre António Vieira, escritas do Maranhão, em que este denuncia os crimes cometidos contra dois milhões de índios, num período de 40 anos, sem que ninguém tenha sido punido.
Ao cotejar este artigo de Carlos Pacheco com a notícia de que a ministra da cultura, Isabel Pires de Lima, quer mais promoção literária no mundo anglo-saxónico, voltei a aperceber-me que apenas os «interesses» norteiam o pensamento dos nossos dirigentes, pois, afinal, a principal crítica que a ministra faz ao IPLB (Instituto Português do Livro e das Bibliotecas), é que este «tem descurado este mercado» (anglo-saxónico, diga-se)...
Tudo isto, num país, cuja Lei nº23/2006, de 23 de Junho, dá aos alunos do ensino primário, quando constituídos em associação de estudantes, o «direito a emitir pareceres aquando do processo de elaboração de legislação sobre o ensino, designadamente em relação aos seguintes domínios: a) definição, planeamento e financiamento do sistema educativo; b)gestão das escolas; c) acesso ao ensino superior; d) acção social escolar... (artigo 17º). Ver José Dias Urbano, Público, 15/8/2006, Novos disparates educativos, novos caminhos para o insucesso...
Compreende-se, deste modo, que o ensino da literatura (ler o Padre António Vieira das Cartas, por exemplo) já não é apenas uma questão de «consciência nacional», é, sim, uma questão de formação da consciência - o lugar dos valores, do livre arbítrio...
A alternativa já vigora: a política dos interesses. E os governantes sabem que a literatura é inimiga dos interesses... e que ela devia ser lida nas escolas, em todas as escolas...

12.8.06

Os incêndios que nos devoram a alma...

Franz Kafka pensava, em 1911, que «a memória de uma pequena nação não é mais pequena do que a de uma grande nação e pode por isso digerir melhor o material existente Diários
Este calor atrofia o cérebro e devasta a floresta, deixando a caruma reduzida a nada ou, pior ainda, como primeira suspeita da tragédia que, anualmente, empobrece os pobres e fabrica novos ricos. Estes incêndios estivais são uma boa ajuda à política de emparcelamento que tem vindo a recuperar terreno, deixando no esquecimento o tempo em que se lutava contra os latifúndios. É toda uma literatura que voluntariamente se obnubila!
Por vezes, interrogo-me se esta política educativa que rejeita o ensino da literatura é apenas um sinal da ignorância de quem nos governa, mas, quando observo os lugares onde os incêndios deflagram, dou comigo a pensar que todas estas pequenas courelas vão mudar de mãos - de muitas e humanas mãos para a uma mão anónima e desumana... E, nesse momento, sei que Kafka perdeu a razão ao pensar que defender a literatura era defender a consciência nacional, pois esta é, hoje, um escolho na aposta da globalização. De facto, o destino da memória das pequenas nações já está traçado, desde o fim da 2ª Guerra Mundial.
A globalização é uma efectiva inimiga das literaturas regionais, nacionais e mesmo continentais.
Numa sociedade global não haverá definitivamente alma e por isso, enquanto ardem os campos, a guerra alastra no Médio Oriente - a outra face da luta titânica pela hegemonia global.

9.8.06

Réplica

Esta seria a 'planta' original da casa em que nasceu Vergílio Ferreira. Posted by Picasa

O local em que nasceu Vergílio Ferreira

As alterações feitas ao edifício original desgostaram profundamente o autor. Posted by Picasa

Museu etnográfico de Melo

O Senhor Luís Filipe, a alma do museu. Posted by Picasa

A casa dos pais de Vergílio Ferreira

Casa construída após terem emigrado para os Estados Unidos da América Posted by Picasa

Em Melo, quem diria?

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A árvore dos kiwis na Quinta das Cegonhas

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Um toque de leveza burguelense

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CID EL CAMPEADOR

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O candeeiro e a catedral de Burgos

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Burgos

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Tarbes

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Parcours suspendu na Vallée du Moudang

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Igreja de St-Lary Soulan

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St- Lary Soulan

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7.8.06

Perplexidades de férias

Já, aqui, falei do GPS que, entretanto, resolveu ser bom conselheiro se exceptuarmos algum desconhecimento de certos terrenos em que a mão humana terá actuado recentemente. No entanto, estou algo perplexo sobre a utilização deste equipamento já que descobri que um francês e um alemão se encontram presos no Irão, acusados de terem entrado ilegalmente em águas iranianas (ou pelo menos proclamadas como tal!) na posse de um suspeitíssimo GPS. Por outro lado, as autoridades francesas também penalizam severamente os condutores que utilizem este aparelho como meio de “controlar” os seus radares. No meu caso, ainda não descobri como é que posso ludibriar as autoridades (!!?), embora tenho descoberto que o GPS me dá uma indicação sobre a velocidade do veículo mais rigorosa do que o conta-quilómetros – 7 quilómetros para baixo. O que eu ainda não referi é que fui traído pela restante tecnologia. O meu Vodafone mobile connect card, que me devia permitir aceder à Internet, revelou-se um fiasco. Apesar de ter comprado previamente 50 Mbytes de modo a embaratecer o roaming, só uma vez conseguir aceder à Internet em terras de Espanha e de França. Segundo o serviço de apoio ao cliente, a minha versão do software data de 2004 e por isso não suporta esta minha pretensão. O interessante é que vou ter que pagar por um serviço de que não usufrui! Por sua vez, o meu telemóvel (da TMN) deixou de poder ser recarregado, recorrendo, por exemplo, ao sítio online da CGD. E sem saldo, não se pode fazer nada, nem mesmo comunicar com a TMN, apesar dos sms da operadora a lembrar-nos as modalidades de recargamento, em roaming. E isto aqui tão perto! Imaginem-se as dificuldades em comunicar por telemóvel com uma filha que ora está na Hungria, na Roménia, na Áustria, ora na Eslováquia, na Croácia… E se tivermos a pretensão de mergulharmos, em plenas férias, nos vales pirenaicos espanhóis e franceses, então, mais vale, gastar uma semana das férias a certificarmo-nos que o nosso manual de bordo responde a todos estes escolhos. Entretanto, esta região dos Hautes –Pyrénées é extremamente agradável, apesar de, talvez à semelhança de certas estações de caminho de ferro portuguesas, nos presentear com paragens de autocarro por onde, desde o início de Julho até 12 de Dezembro, não passa qualquer destes veículos. Quem quiser deslocar-se, só no seu próprio veículo o poderá fazer, e isto quando a gasolina chega a custar 1, 48 euros. A União europeia parece, no serviço ao utente, estar bem afinada. Já em Sória, tive a felicidade de descobrir um centro comercial aberto ao público, tipo “Colombo”, onde o hipermercado só abrirá em Dezembro para desconforto e prejuízo dos restantes lojistas! No entanto, o que são estes problemas se comparados com os dos libaneses, dos palestinianos, dos afegãos, dos iraquianos ou dos milhares de africanos que desesperadamente procuram entrar na Europa?
Quanto ao que vale a pena visitar, registe-se que a cidade de Lannemezan parece de costas voltadas para o turismo. Basta pensar que, lá, é mais fácil comprar flores do que tomar o pequeno almoço. Nos cafés, não é visível qualquer tipo de pastelaria. Num deles, chegaram a dizer-me que só vendiam bebidas, que fosse à padaria… Encontra-se, no entanto, um espaço preparado para receber auto-caravanas… com electricidade, sanitários, lavagem de loiça… Tudo muda quando nos aproximamos de Arreau e de St-Lary-Soulan.

Arreau

Arreau, uma típica cidade pirenaica, entre St-Lary e Lannemezan.
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6.8.06

31 de Julho e 1 de Agosto La Puebla de Castro, Lago Barasona Calor, muito calor. Os acessos ao vale prometem, mas a água do lago, nesta época do ano, não parece muito cristalina. O extenso parque de campismo está cheio de holandeses que vão estorricando ao sol, depois de uma passagem pela piscina ou pelo lago. De pele branca e cabeleira loira, estas famílias holandesas, que parece que nunca viram o sol, cozinham metodicamente as refeições diárias nos alvéolos, profusamente ocupados pelas respectivas tendas, atrelados e roulotes, para depois se encharcarem em mil e uma bebidas, todas elas coloridas. Alguns franceses e belgas quase não se fazem notar. De portugueses nem vale a pena falar… Os espanhóis ocupam preferencialmente os bungalows (bangalós), não se misturando nestas avenidas neerlandesas. Em alternativa, o percurso pedestre para La Puebla de Castro, mostra, do lado esquerdo, pequenas hortas, onde predominam o tomate, a cebola, o feijão verde, o pimento e o melão, e do lado direito, podemos ver uma zona florestal mal tratada, mas que esconde belas e ricas vivendas. À medida que avançamos, o percurso pedregoso torna-se sinuoso e, sob o intenso calor das 17 horas, decidimos voltar para trás pois não encontrámos os vestígios românicos que o roteiro nos prometia… e La Puebla de Castro esfumou-se… 2 de Agosto Vindos de La Puebla de Castro, chegámos à Vallée du Moudang, tendo entrado em França pelo Tunnel d’Aragnouet-Bielsa. Este túnel de 3 Km, a 1860 metros de altitude, foi inaugurado em 1976. Há uma diferença significativa em termos de paisagem e de clima. Os verdadeiros Pirinéus parecem estar deste lado. Será? Estamos instalados junto a um sonoro rio, num camping municipal, onde as restrições são muito maiores do que em qualquer camping espanhol. A torrente é fraca, mas pode aumentar a qualquer momento em virtude da abertura das comportas das múltiplas centrais hidroeléctricas existentes na região.

30.7.06

O GPS e o caos...

«Les gens ne changent pas. Ce sont les choses qui changent.»Boris Vian, L'écume des Jours
(28 de Julho) Em Madrid, o GPS enlouqueceu ao chegar à Avenida de Portugal… O software não estava preparado para responder às alterações criadas pelas obras naquela avenida, na zona Puente del Rey e nas praças vizinhas. Advinham-se, por ali, obras faraónicas. A E90 (NV) morria numa misteriosa encruzilhada, sem que as autoridades dessem qualquer atenção ao trânsito verdadeiramente caótico. Despreocupadamente, ocupavam-se dos múltiplos acidentes que iam ocorrendo. O GPS, por seu lado, ordenava: faz inversão de marcha, vira à esquerda, encosta à esquerda, sai daqui a 200 metros, na próxima rotunda, sai na 5ª saída… Já na auto-estrada da Corunha, continuava a ordenar: encosta à esquerda, vira à esquerda, contrariando as regras elementares do código da estrada… Se fosse a obedecer ao GPS, a esta hora estaria, no mínimo, preso… Para sair daquele labirinto, já que a E90 desaparecera de vez, ainda, consegui a proeza de entrar num terminal rodoviário subterrâneo, sem que ninguém se sentisse incomodado. Acabei por obedecer ao GPS que, mal entrei no subterrâneo, ordenou: faz inversão de marcha. De facto, não havia outra alternativa… Farto da Avenida de Portugal e de Madrid, rumei a Segóvia, onde já tarde, parei, finalmente, no camping o “Acueducto”. Curiosamente, Segóvia fazia parte dos meus planos de Páscoa. E ainda há quem negue que Deus escreve direito por linhas tortas! Segóvia Património da Humanidade desde Dezembro de 1985. Acueducto-Catedral-Alcazár. E em Segóvia não faltam as igrejas: de San Martin, de Nuestra Señora de l’Asunción y de San Frutos (nome curioso para uma catedral, edificada no século XVI), de San Andrés, de San Esteban, de San Quirce, de La Santísima Trinidad, de San Nicolás, de San Miguel, de la Compaňia de Jesus, de San Sebastián, de San Juán de los Caballeros… e também não faltam os mosteiros e os conventos, para além do imponente e turístico Alcázar e da inevitável Plaza Mayor… E para atenuar um pouco este expressivo e fanático catolicismo, podemos visitar a JUDERÍA, confinada, a partir de 1480, a um bairro a sul da cidade, sobre o Vale del Clamores… Entretanto, na católica Espanha, só os conversos puderam permanecer na cidade após o édito de expulsão, em 1492…

24.7.06

Enquanto ardem as cidades libanesas...

«Quando a invasão ardia na Cidade / E as mulheres gritavam, / Dois jogadores de xadrez jogavam / O seu jogo de xadrezFP/RR (1/6/1916)
Lá longe, enquanto ardem as cidades libanesas, os grandes eleitores, cinicamente, adiam as tréguas na expectativa de que Israel conclua a desvastação que lhes permitirá celebrar a vitória sobre as forças do Mal.
A ignomínia judaico-cristã alastra, obrigando milhões de indefesos a abandonar as casas a que jamais poderão voltar e nós, por aqui, indiferentes, continuamos a armar as nossas pequenas ciladas...
Em 14 dias, nos bastidores, desenhou-se uma nova estratégia e o sentido do voto mudou radicalmente. Os eleitores não fizeram qualquer exigência aos eleitos. E estes também não apresentaram qualquer projecto nem fizeram qualquer promessa.
Terminada a nova eleição, sente-se um alívio generalizado. Como se cada um acabasse de se libertar de um terrível fardo.
O que é que, de verdade, nos move? Será que queremos responder a esta pergunta crucial?
A Escola ainda está a tempo de nos ajudar a responder a estas questões se quiser colocar os olhos na sua única razão de ser: o aluno. Ou, então, mais vale fechar a porta porque os jogadores de xadrez há muito que abdicaram da vida...
E por isso, para aqueles que se possam interrogar sobre o que me move, esclareço que não abdico...