Abexim me confesso

Nós todos, homens, que neste mundo vivemos opressos pelos vários desprezos dos felizes e pelas diversas insolências dos poderosos - que somos todos nós neste mundo, senão abexins?
Fernando Pessoa, Outubro 1935

24.2.18

Que ponte?

Será que interessa saber qual é a ponte?
A ponte de cada um tanto pode ser física como imaginária. O que interessa é que qualquer uma delas nos pode fazer sair de nós próprios nem que seja para observar as aves ou ver florir os arbustos. O que interessa é que a água não falte...
Para quê uma ponte sem rio?

É só atravessar a ponte...

É só atravessar a ponte, no meu caso, e depois de sair da autoestrada, virar à esquerda e seguir por uns tantos quilómetros - quantos não interessa! O que interessa é o que somos capazes de ver, mesmo que o sol baixo nos torne a visão baça...
E quando olhamos só ouvimos o carpir dos automóveis e o esvoaçar das aves, agastadas porque as fomos incomodar...
A sorte das aves é que os forasteiros são poucos!
A minha sorte é que as aves, ainda, são muitas! 

23.2.18

O aforismo

Frequentemente, o aforismo é sinónimo de refrão, provérbio, axioma, máxima, adágio... É um dito expresso em tom de sentença...

Como tal, o aforismo deve ser abordado como hipotexto no âmbito da intertextualidade.
Numa certa tradição, o aforismo é, no entanto, elitista, com explicitação da autoria, demarcando-se da cultura popular, considerada ingénua e falha de evidência científica...
Há todavia autores, como José Saramago, mestres no recurso à intertextualidade ( nos registos de hipertexto e de hipotexto) que sabem valorizar a cultura popular. Leia-se O Ano da Morte de Ricardo Reis, a título de exemplo: 

- Costuma dizer-se que o sol é de pouca dura...
- Quando uma ideia puxou outra, dizemos que houve associação delas...
- Sobre a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia (...) sobre a nudez forte da fantasia o manto diáfano da verdade ... se as sentenças viradas do avesso passarem a ser leis, que mundo faremos com elas....
- Quem viver verá...
- Estás com pressa, viesses mais cedo...
- Dá-nos o ofício o pão, é verdade, porém não virá daí a fama...
- Que serás quando fores de noite e ao fim da estrada (?)
- Por estas e por outras é que quem não tem Deus procura deuses, quem deuses abandonou a Deus inventa...
- Todos tivemos pai e mãe, mas somos filhos do acaso e da necessidade...

E por aqui me fico...

22.2.18

Veto silencioso?

Imaginação verbal não nos falta!

Social-democrata escolhido por Rui Rio para liderar a bancada parlamentar ficou pelos 39% dos votos dos colegas de bancada. Número de brancos e nulos revelam falta de união em torno do novo presidente do partido.

Inteligentes, estes deputados! O melhor é começarem à procura de emprego, pois na próxima legislatura ninguém se lembrará deles...
E se tal acontecer, isso será bom sinal, pois mostrará que do passado passista não reza a História.

21.2.18

Nem uma pequena nota

Não sei porquê, mas há pessoas que raramente são notícia... Outras há que se expõem diariamente sem que nada o justifique...
Dir-se-á que a notícia é caprichosa, mas a verdade é que ela obedece a interesses económicos e a valores inconfessados...
Talvez seja por isso que me sinto traído ao não ter notícia do que é feito de certas pessoas que aprendi a respeitar.
Quero acreditar que elas decidiram regressar ao anonimato para não serem enlameadas pela suprema vaidade das horas...
Só que fica um vazio. Nem uma pequena nota a contar se, afinal, tudo estava previsto...

Sem esquecer que pode haver outra explicação. Por exemplo, é muito inconveniente que as minhas horas sejam geridas pelo capricho de quem não percebe que as minhas horas não são minhas, mas que também não são deles...

20.2.18

António Guterres diz-nos o que queremos ouvir

O que fundamentalmente hoje interessa nas universidades e no sistema educativo não é tanto o tipo de coisas que aí se aprende, mas a possibilidade de aí se aprender a aprender”. António Guterres

A ideia é antiga e sedutora. De tão repetida, já perdeu a força ilocutória inicial.
No tempo em que foi defendida, ainda não dispúnhamos da maioria das ferramentas ao nosso alcance, só que o seu aproveitamento é mínimo a não ser por aqueles que procuram apropriar-se da riqueza e do poder.
Por outro lado, desvalorizar impensadamente certas aprendizagens que requerem  a mobilização da memória individual e coletiva é uma das causas do insucesso da estratégia "aprender a aprender"... 
Não basta ser catavento para que o caminho se ilumine... O nosso sistema educativo nunca foi capaz responder aos problemas que deveria ajudar a resolver... é uma instituição obsoleta tal como outras que se dizem pilares da sociedade...

18.2.18

A notícia súbita

Elogio de Maria Teresa Belo

já passaram uns anos...
em certos dias, a memória
do trabalho
da tranquilidade
da disponibilidade
da bondade...
e agora, a notícia súbita
e contigo, a memória

Tenho de falar à Teresa... de Alexandra Lucas Coelho