18.8.15

Encalhado

A única palavra que me assombra verdadeiramente é o particípio passado do verbo encalhar. O estado de quem sofre a ação de ficar sem  saída... Até hoje, sempre consegui contornar, recuar ou mesmo avançar sobre o obstáculo. 
De noite, o que sobra são resquícios de objetos e de pessoas que surgem encalhados nos meus sonhos... mas não sou eu, pois o meu sonho não se transforma num pesadelo, a não ser se considerarmos a multiplicação onírica dos precários que se arrastam pela vida, como se a  precariedade fosse um estado natural...
De dia, avanço passo a passo, linha a linha, crime a crime. E estes são tantos!  Já pensei em seguir o exemplo do autor de 2666, que em cerca de 300 páginas, estando-se nas tintas para a economia da narrativa, decidiu dar conta de todos os assassínios de mulheres em Santa Teresa, no México... o leitor acaba encalhado em tanto assassinato, mas talvez tome consciência da violência que os homens exercem diariamente sobre as mulheres. 
A verdade é que hoje encalhei por volta das 11 horas e espero desde essa hora que a maré suba. Talvez, amanhã, consiga desencalhar, mas não vai ser fácil...

(O problema da palavra não existe a não ser que a utilizemos de forma errada. Nesse caso, vai ser necessário defini-la com rigor e paciência, muita...)

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