13.5.14

Saber relacionar Fernando Pessoa com Eça de Queirós

Há quem procure a génese do heterónimo Ricardo Reis na formação helénica e latina de Pessoa numa austral, distante e isolada Durban.  Há quem veja no sobressalto provocado pela Guerra, a rejeição de uma vida que inevitavelmente conduziria ao sacrifício e à morte de milhares de seres humanos, e consequentemente este heterónimo viria dar expressão a uma filosofia de vida, simultaneamente estóica e epicurista, no essencial anti-belicista de raiz humanista. Afinal, o Velho do Restelo camoniano bem poderia ser apresentado como "pai" de Ricardo Reis...
Hoje, considerando todos aqueles alunos e professores que andam às voltas com as leituras obrigatórias para o exame de Português do 12º Ano, proponho simplesmente que olhem de perto para a "teoria da vida" atribuída por Eça de Queirós a Carlos da Maia. A teoria «que ele deduzira da experiência e agora o governava:
Era o fatalismo muçulmano. Nada desejar e nada recear... Não se abandonar a uma esperança - nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o que vem e o que foge, com a tranquilidade com que se acolhem as naturais mudanças de dias agrestes e dias suaves. E, nesta placidez, deixar esse pedaço de matéria organizada que se chama o Eu ir-se deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no Infinito Universo... Sobretudo não ter apetites. E, mais que tudo, não ter contrariedades. 

De regresso à Europa, Fernando Pessoa devorou e assimilou o que de mais essencial havia na literatura portuguesa... Nem Eça terá escapado!
Experimentem, agora, ler Ricardo Reis e digam-me se é absolutamente necessário ler Horácio ou Ecclesiastes para recomendar que todas as horas devem ser plácidas...

Houve tempo em que também eu fui professor de Didática, reconhecendo o papel da erudição... De qualquer modo esta não basta. É preciso saber relacionar não só o que está longe como o que está perto. Para Fernando Pessoa, Eça de Queirós era uma fonte inesgotável... É só lê-los!

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